Emigrantes
Paro diante da reprodução dum quadro. É do Salon dêste ano, intitula-se «Émigrants» e assina-o Paul Sieffert. Eu não conheço o pintor. O assunto conheço demasiadamente. Se não viram o quadro, eu conto. O quadro do sr. Paul Sieffert é uma gare ou cousa que o valha. Cai neve. O horizonte é longínqùo e a perspectiva monótona. Nem uma árvore, nem uma planta. Neve, montes ao longe, neve sempre. Á direita vagons. Vagons de mercadorias, vagons que esperam tempo de seguir, levando não se sabe o quê, ocupam quási tôda a tela. No primeiro plano uma mulher sentada no chão estende um peito à voracidade do petiz que manduca. O macho, dorme ao lado, cabeça sôbre uma perna sua, braço estendido ao longo do corpo. A mão é primorosa. O busto bem estudado. Na cara—a cara é tôda uma psicologia—mostra a estereotipia de inumeráveis privações. Parece repousar, ou sonhar, cavada a face, bem vincadas as rugas que a angústia marca a baixo relevo no rosto dos que sofrem. A mulher ao lado cogita. Parece olhar-nos. Não olha. Ela não vê. Scisma! Em quê? Só ela o poderá dizer. Uma trouxa mísera, junto, é tôda a bagagem. Êle tipo de operário, ela de fêmea resoluta e sofredora. Vão partir. Vencerão? Quem o saberá?
Não sei porquê, são-me simpáticos estes tipos. Se pudesse, protegia-os. Sucede muitas vezes a minha piedade ir de preferência para os tipos que os meus pintores ou os meus artistas me entremostram—tão pouco a merecem, os que a gente topa todos os dias. Ao lado uma ranchada manduca, ainda. Mais longe, pequenos ranchos, trocam esperanças. Um vulto, ao fundo ou quási, remexe a maleta. E, como se o pintor os quisesse destacar, aparece-nos, quási escondidamente, um vélho que sonha, pelas costas um vélho capote, no olhar uma nostalgia feroz, contrastando com um homem que, de bruços, rosto apoiado na palma, scisma. Não scisma em sonhos. Scisma em realidades. A energia da sua expressão traduz-se assim. É amargo. Êste homem sabe da vida. Há combates no seu cérebro. Vencerá? Todos êles vão partir. Ilusões, quimeras, esperanças, é a bagagem. Sabe-se lá quem vence?
Até aqui o quadro. Se a agente quiser realidade, apesar da tela ser de Paris, temo-la bem perto. Nós somos do país da emigração. O quadro de Sieffert é tambêm nosso, com a diferença de o nosso ser de mais recrudescível agonia. O português é mais triste.
Todos os dias desembarcam nas estações, mangas de gente engajada que sonhou e ainda vem sonhando. Vão até ao Brasil e são o que se chama emigrantes. Então pagam a patente à realidade. O emigrante, por via de regra, não sabe escrever. Soletra às vezes, mas é mais frequente não saber. Não sabendo ler, não tendo a confidência muda da escrita por derivativo, estes cérebros deitam-se a sonhar como nunca sonhou ninguêm. As histórias das princesas encantadas, as mágicas, os contos da carochinha e mil belezas populares foram criadas de-certo por quem não sabia ler nem escrever. O Sonho é a válvula. Ai daqueles pobres cérebros se não tivessem o Sonho! Terminariam no suicídio. Mas o Sonho é a miragem. Acreditou alguêm no Sonho? Sempre êsse alguêm pagou caro a sua confiança. Porque é certo: Só quem teve pesadelo acordou em realidade. Quem sonhou delícias acorda mais brutalmente—como alguêm que tendo vivido dois meses em quarto escuro o trouxessem de repente para a alacridade duma paisagem batida da soalheira.
Sonham em Portugal, na solidão tranqùila da sua choça e quási sempre vão acordar em longínqùas e estranhas terras. Olham em volta. Quem? Ninguêm amigo. Indiferentes, criaturas a quem a dôr alheia, à força de vista e assistida, embotou tôda a sensibilidade. A saudade é o pior inimigo do emigrante. «Saudade gôsto amargo de infelizes, delicioso pungir de acerbo espinho», diz Garrett. Mas a saudade é tudo. Se se vê o mar, é um vapor que vem, porque vem; se um vapor parte, ai quem déra ir com êle, partir tambêm com êle. São os poentes, duma melancolia infinita, são as noites estreladas e tropicais, são nuvens que passam correndo, farrapos de sonho, recordações da infância, cousas dispersas. Tudo é saudade. E o pobre animal, bêsta de carga, gaguejando comoções, tem nos olhos uma angústia latente, uma tristeza intraduzível, mixto de resignação, de sofrimento e dum consuntivo mal. Mas, parte. Armazenam-o a bordo, num dêsses casarões flutuantes, âmbito estreito, muito desabrigo, trato mercenário e uma grade que os enjaula num restrito círculo de vida. Ali dormem, comem e sonham promíscuamente. E naquelas longas noites de travessia, enxugadas as lágrimas da partida, estranguladas as saudades da largada, só o mugir surdo das vagas lambendo o casco e os ronquidos surdos da máquina cumprindo o seu fadário. Pobres almas divagantes, vão tambêm embaladas no sonho, confiadas, e não escutando, no marulho do oceano, a sua raiva fria e hostil, mas um cântico embalador, que traz de onda em onda, de vaga em vaga, as recordações distantes, a misteriosa correspondência dos entes queridos que ficaram em terra.
Chegados, caidos no vértice duma vida estranha, tudo lhes é agressivo. Os dignos de piedade são intrusos. Que querem? Ganhar a vida. Que sabem? E, quando os míseros mostram os braços, já está lavrada a sua condenação. Como a Terra Mater é saudosa! E começa a agonia de viver a vida que já viveram, porque não é outra cousa a saudade. Mas viver só imaginativamente. Se beijou vai-se para se beijar e estendem-se os lábios para o vácuo. Abraçou-se e é só o espaço que se encontra. Passa a viver-se aflitivamente. Pesa mais a enchada. A serra é colossal. E como a planta dos trópicos que conduziram à Groenlândia, ou como o símio que julgasse a banana definitivamente extinta da face da terra, a criatura amarelesce e pende. Há um remédio—o regresso. Quando partiu, se é sonhadora, padece, se é desprendida pode triunfar talvez. Mas quantas lutas? Quantos esforços? É por isso que os brasileiros,—é assim que se denominam os emigrantes que partiram cedo e foram enriquecer ao Brasil—teem quási todos barriga grande. Porque se acostumaram a armazenar o sonho no estômago. Saudades, recordações, qual!—comer, beber, ganhar. Mas são raros. Os que voltam veem desanimados. Os que por lá estão vão vivendo. Depois o emigrante é sonhador e ignorante. Duas más qualidades. Há ignorantes que fazem fortuna mas nunca ninguêm viu coalhar dinheiro a um sonhador.
São ambiciosos? Alguns. Outros partem com o fatalismo trágico de quem vai cumprir um destino. É o caso do vélho do quadro de Sieffert. Os ambiciosos ficam por lá, raramente voltam e geralmente o ambicioso verdadeiro é cosmopolita, não vive para a saudade nem para ninguêm que êle não seja. Por isso vence. Os outros vão e quási sempre ficam. Mas se voltam—pobres emigrantes—trazem um saquitelzinho com desilusões,—o espólio dum sonho morto,—um grande desânimo, a alma mais fenecida, o cadáver mais surrado e uma grande ânsia de voltar—que é isto que quási sempre traz o emigrante quando volta:—o saquitelzinho com o espólio dum sonho morto e uma grande ânsia, aquela infinita ânsia do regresso.