Um sábio português
Era inquestionavelmente um sábio êste pobre Ferraz de Macedo dos crânios, sôbre quem o dr. António Aurélio da Costa Ferreira vem de tratar num opúsculo sentido e sincero. Um sábio a valer, com amor quintessenciado aos seus crânios, às suas medições, e a sua admiração pelos snrs. Quatrefages e Manouvrier. Não vai o tempo para sábios e êle ressentiu-se disso. Faltou-lhe a atmosfera de carinho a que todo o homem tem direito. Em vida foi um misantropo vivendo a vida sonhada de todo o cerebral que se sente distanciado da sua época, um século adiante, perdido da sua tríbu e tendo só a confortá-lo os seus cadernos de notas e uma fé, uma vontade, mui digna de encomiar-se. De resto nem a atenção dos poderes públicos lhe deu audiência senão à pressa, nem êle teve nunca geito para o palavrear solerte dos vivedores profissionais.
Fortuna, emquanto a teve, houve por bem desbravá-la em todos os justos e generosos empreendimentos. Publicou o Cancioneiro da Vaticana e amorosamente coleccionou bem um milhar de crânios sôbre que deixou curiosas notas e estudos preciosamente documentados. Que, já Fialho de Almeida o disse, no seu artigo dos Serões, não seria êle um sábio que farolizasse ignotas brumas da sciência, mas foi um documentador paciente, um consciencioso observador, cuja rigorosa análise tem crédito no mundo scientista e profissional. Ribot confirma. Abaixo dos grandes criadores, dos que descobrem, dos que trazem novos horizontes à humanidade, há os talentos que explicam comentam e desenvolvem as verdades descobertas e que pela sua experiência analítica são os que rotulam com exactidão a categoria da descoberta e muitas vezes tambêm a anulam. Seria um dêstes talentos Ferraz de Macedo. Mas que robusta energia, que frondosíssima tenacidade a enchia! Só isso o faria grande se êle já o não fôsse por trabalhos que tinham merecido de Manouvrier a opinião de ser «um homem conscienciosíssimo, um pesquisador infatigável e instruidíssimo, dotado de notável tenacidade» (Progrès médical—15-VI-1889), e de Quatrefages os melhores elogios na sua História geral das raças humanas. É inútil dizer o resto. Morreu pobre, esquecido e crente. Nenhuma indiferença, nenhuma ingratidão, nenhum desdêm pôde soterrar-lhe a crença. Quem nos déra a todos nós a tranqùilidade espiritual e o desdêm bondoso da sua alma. E tiro o meu chapéu. Não há impugnadores de que êle fôsse um sábio, um verdadeiro sábio.
Esta separata agora publicada pelo dr. Costa Ferreira é uma bela obra. Os nomes dos grandes mortos são como as plantas. Precisam de jardineiros, cultores apaixonados, tratadores conscienciosos e dedicados, senão breve vem a delir-se na memória das gerações e o seu derradeiro pouso é nas páginas dos livros especialistas a que lá de vez em quando um ou outro compulsor estudioso sacode o pó e afugenta a traça. Precisam de quem buzine ao vulgo, para escarmento duns e exemplo doutros, a sua vida e as suas obras. Sempre assim se tem feito.
O nome de Ferraz de Macedo não podia encontrar mais piedoso cultor do que o seu discípulo e médico Costa Ferreira. Possuido do mesmo acendrado amor aos estudos antropológicos, amando o mesmo ideal, Costa Ferreira dele recebeu as últimas vontades. Foi êle o testamenteiro de «mil e tantos crânios, trezentos e tantos esqueletos, de origem conhecida, reproduções estereográficas de crânios célebres dos principais museus da Europa, tudo medido e rigorosamente observado e, com êle, arsenal antropológico e livraria» que Ferraz destinou ao Museu da Escola Politécnica. É êle tambêm que, cumprindo um último prometimento, tomou à sua conta o não deixar esquecer o nome do mestre e continuar-lhe a obra apoteotizando-lhe o nome numa contínua e modesta memoranda dos seus trabalhos.
Piedosa homenagem esta, tanto mais para encarecer quanto é certo que, dada a indiferença geral e oficial, ninguêm tal encargo tomaria. Morreu, acabou-se. Trate cada um de si e já não é pouco! Auscultem um milhar de criaturas e digam-me se não é assim que elas pensam!
Falho de senso prático como todo o cerebral, êle só tinha uma única paixão: a sciência. Só ela o vulnerabilizava, babando-se diante duma esquírola do homem terciário. Fora da sciência, não vivia. Nada sentia que não fôsse passado pelo crivo dos seus apontamentos e pela ideia dos seus crânios. E tão afastado o traziam os seus estudos, da vida vívida, que breve iria à mendiguez se mão provedora e amiga não fôsse, acordando o sábio do seu reino encantado, cuidar-lhe da mantença.
Nessa abstracção tão funda viveu, com seus canários os pequenitos da vizinhança, os seus crânios «como num celeiro o grão que espera embarque», medidos, e, ensacados por êle, com mão reminiscenciada dos seus tempos de aprendiz de alfaiate, e os seus gatos, que morreu sonhando. «Depois de morto é que eu viverei... Para os novos é que eu apelo. Êles que me continuem e me vinguem». Tais foram as suas últimas palavras, erguendo-se num repelão e visionando ainda uma visão acariciadora. Não voltou a falar. Costa Ferreira tomou o encargo piedoso de o lembrar, de o não deixar morrer de todo, na ingratidão indígena. Tal disse e tal cumpriu.
O sábio morreu. Os jornais titubiaram, os amigos escapuliram-se e, mais tombo menos tombo, lá ficou no seu coval, talvez ainda com saudade dos seus crânios e dos seus apontamentos. Solitário como foi em vida, assim o foi na morte. A sua apoteose não chegara ainda. Os gazeteiros não carrilhonaram às multidões cretinizadas nem sequer o «ilustre e o distinto» da cozinha trivial. E como morrera pobre e modestamente se enterrou, tambêm não panegirizaram a criatura com girândolas de adjectivos surrados pelo uso e abuso da pindarização de todo o fiel bigorrilhas que morre e deixa ôsso que roer.
Depois talvez fôsse assim melhor. ¿Que tinham que ver com êle os adjectivos?
Se agora a matula egoísticada bichanava sempre que o via um apodo desdenhoso, que resvalava do seu arnez de indiferença pelo que diriam, tão longe andava dos que com êle se acotovelavam, em tempos idos não faltaria o ingranzeu das turbas e o rumor falaz das vélhas macbéticas do sítio, taxando de pacto diabólico o seu estudo, qual outro Cláudio Frollo.
Todavia êle sem se agastar da indiferença duns, da parranice doutros e do criminoso egoísmo de todos, contente se dava com a sua estreiteza e, não requerendo melhoria de sorte, cada vez mais se apartava do mundo real para o mundo de sonho. O trabalho para êle era tudo. Confinava a sua casa com as estrêlas, vista cá debaixo, da cidade, sitando lá no alto, ponto negrusco zimboriando o alto do monte. Uma árvore anciã, fronteiriça, foi sua companhia e só ela talvez cogitou na sua labuta interior. Ventos brigosos sinfonizavam óperas de tormenta, numa orquestração como só a tem o infinito. Tudo as sentia. A árvore vélha bracejava agitada e angustiosamente. A cidade lá em baixo era um torvelinho de cousas indistintas. Só êle prosseguia, medindo, classificando, registrando. E podia um vento mau terremotar a casa. Podia um tufão furioso ir desmoronar as sacas de crânios e formar no adro a pilha de crânios que é o quadro de Verestchaguine, aquele pintor russo que morreu na guerra russo-japoneza a bordo do Petropavlosk,—Après la bataille. Êle não sentiria, êle continuaria as suas notas, e só as terminaria quando nada mais, nenhuma sutura, nenhuma bossa, nenhuma asimetria, houvesse a notular.
Se nunca foi aos cornos da glória é porque lhe faltava a destridade dos malabaristas do reclamo. A sua tratabilidade de sábio raso, sem alardos de sciência, nem emprenhidões de basófia, contumaz em lusas celebridades, de todos o tornaram querido. Depois um quási nada de antropófobo, a antropofobia do sábio que se ensimesma em lucubrações profundas, e gasta a vida à luz estudiosa. Era esta que, pelas negridões da noite, brilhava sempre no seu gabinete, como na sua mente brilhou sempre a fé, a fé numa perfectibilidade do homem e uma consolação no estudo, que, estou certo, afinal talvez nunca chegasse a encontrar, que o tornavam quási um estranho a tudo, a todos os arruídos e quermesses que lá ao fundo convulsionavam a cidade.
E quem sabe lá, a esta hora talvez êle esteja ainda contando ao verme as palavras enternecidas dos snrs. Manouvrier e Quatrefages e as saudades dos seus crânios muito amados.
Então da outra vida, pensam as almas crentes, o sábio abençoará de-certo e tarefa bondosíssima, devotada e carinhosa do Dr. Costa Ferreira.