Os mineiros
Les mineurs chamou Roll, o poeta do carbonoso, a uma das suas mais amadas telas.
«Les Mineurs» é o poema da gente que trabalha. Um crepúsculo à hora do levantar da faina. A retirada dos mineiros, uma longa bicha de gente taciturna e acabrunhada que regressa do interior da terra. Ao fundo as altas chaminés vomitam fumo, o seu fumo espesso e enovelado, carvão que o vento desfaz. E, sob o céu que o vento escurece, a retirada vai-se fazendo lentamente, como um exército estropeado que sai finalmente duma praça há meses sitiada. E não tem fim, a escura procissão que sai da bocada negra dos poços. Parece que nunca mais terminará.
O assunto que tentou a Roll e que a sua tela exprime com a fidelidade duma fotografia, tem seduzido a muitos artistas. Constantin Meunier consagrou-lhe um baixo relevo. Severine escreveu as mais belas páginas sôbre «le pays noir» e Zola dedicou-lhe um dos seus livros, êsse romance-estudo, brutal e flagrante, cheio de verdade e cheio de observação, que é o Germinal.
Porêm, de tôdas as composições artísticas que eu conheço, um quadro há, que, nas minhas horas de scismar, se desenrola e vivifica, e ante os meus olhos passa como uma scena da vida real. A tela desapareceu, apagou-se suavemente e só ficaram as figuras e o scenário. É um cortejo que passa. São rudes operários tisnados, a pele encoirada de suor, caras sombrias de miséria e de sofrimento. Abrem a marcha de mãos dadas cantando o Çá ira. Um operário vélho, de blusa e boné, dá o braço à sua companheira, uma envelhecida, que traz na mão um ramo de flores. Um garôto traz às costas um tambor. O cortejo avança. Algumas das mulheres trazem os filhos ao colo, outras, bandeiras de revolta. Mas a procissão não tem ar insubmisso, tem um ar de protesto taciturno. Um céu de bruma espesso e calado alumia a scena com os seus tons mais lúgubres e na sua luz morrinhosa sinistríza os contornos, e veste tudo, as figuras, a rua, os rostos, e até os petizes do bando, com um ar de sofrimento intenso, de agonia intraduzível. É seu autor Jules Adler. O quadro chama-se A greve.
A greve recente da mina de S. Domingos veio canalizar atenções para o assunto. E S. Domingos, que aparecia entre brumas de mistério, dá notícias suas. S. Domingos é uma feitoria inglêsa. Tem polícia própria, armada de belas carabinas, carabinas último modêlo para, emquanto os mineiros se estorcem de fome, ela patrulhar, na soturnidade da noite, de dedo no gatilho, o sono dos senhores.
Os mineiros são 3:000. Trabalham uma infinidade de horas e o salário é pouco. Como o salário é pouco e o trabalho muito, a alimentação é má. E como a alimentação não presta, a saúde é péssima.
Que querem êles? Melhoria de salário e um pouco menos de trabalho. O mineiro, por via de regra, é sóbrio. Não tem desejos, não tem ambições. É um animal de carga, pobre bêsta suada e indefesa, e as minas são uma nova escravatura. Duvidam? Muito embora. São ainda as gazetas que nos informam que essas reclamações foram recebidas ... a tiro. Se isto não é escravatura, então...
A canalha revolta-se? Muito bem. Espingardeia-se. A canalha parlamenta? Acutila-se. A canalha não tem nome, a canalha não tem voz. A canalha é a canalha, nada mais.
¿Que ela um dia virá, quando o ódio se fizer avalanche, reclamar o seu quinhão na festa? ¿Que ela virá escrever nas paredes da sala o Mane, Thecel, Phares dos grandes cataclismos? Pura imaginação! A canalha não virá. E se por acaso vier, sim! se vier, encontrará uma muralha de baionetas e um cordão de metralhadoras. «La force prime le droit!», não é verdade? Sejamos positivos. Mais uma vez o direito ficará vencido.
¿Que a greve colheu a Emprêsa de improviso? De-certo. Pois a Emprêsa julgava lá que êles soubessem pedir, que êles soubessem falar!
O que a Emprêsa sabia era a média de produção diária por cada animal daqueles, por cada escravo, a que pomposamente persistimos em chamar mineiros. A Emprêsa só tinha um fito: Que cada homem trabalhasse o dôbro.
Que êles tinham Direitos? Que êles tinham estômago? Que queriam Justiça? Deixem-me rir. ¿Que diabo se importa a Emprêsa com isso?
A Emprêsa explora-os; os capatazes, seus mandatários, esbofeteiam-nos. Oh! filantrópica Emprêsa! Pois êles só esbofeteiam? Vamos lá. Podiam muito bem açoitá-los, crucificá-los e esfolá-los. Só esbofeteiam!!!! Se na acta da assembleia geral lhes não fôr exarado um voto de louvor, por tanta humanidade, hão de concordar que é uma refinadíssima pouca vergonha.
¿Mas, realmente, os mineiros revoltam-se? Pior para êles. ¿Esquecem-se então de que a Emprêsa tem pelo seu lado a fôrça, e que os esmagará irremediávelmente? Fazem greve? Mas a greve termina aonde a fome principia. Quem ficará por baixo? O mais fraco.
Ora quem capitula não impõe condições, aceita-as. A fome principia e ei-los novamente escravizados. Então, como um exército vencido que entrega os seus troféus e as suas bandeiras, os grevistas entregam os seus direitos, os seus sonhos, as suas utopias, as suas ambições. E voltam novamente ao escuro da mina, ao ar irrespirável, à meia-fome, ao trabalho extenuante, emquanto os directores da Emprêsa recomeçam a partida de bilhar interrompida.
Courrières fêz 1:200 vítimas.
¿Sabem o que mais comoveu a Companhia exploradora? Não foi a ceifa de mil e duzentos homens válidos, de mil e duzentos cérebros e corações, de mil e duzentas vidas. Não foram os lamentos de mil e duzentas famílias que se carpiam, que ficavam na ruína e na mendiguez. O que a comoveu foi a ruína, a perda dos poços, o ruir das galerias, os motores paralisados e torcidos, as máquinas destruidas. Foram os lucros que não se realisaram, os dividendos que não se distribuiram.
Um homem a quem roubaram a bôlsa pode lá preocupar-se com a morte em casa do vizinho!
Oitenta por cento dos desastres é culpa das Emprêsas, que não teem outro fito senão roubar à terra a matéria que as há de enriquecer. A segurança dos operários só é assegurada quando a falta dela pode prejudicar interesses de senhores. Os acionistas, emquanto o dividendo corre, claqueam. E êsse rega-bofe é às vezes interrompido pelo estalar dos travejamentos, pelo ruído das derrocadas, pela grita dos feridos e pela lembrança dos que lá ficaram no silêncio das galerias, irremediávelmente.
Pois apesar de tudo, possível é que os mineiros não sejam atendidos. Para admirar será se o forem. Apesar do perigo que correm, a doença à espreita, a morte perto, a velhice impossível, as suas reclamações parecem absurdas aos Directores.
Se, como no Germinal, algum Maheu ignorado levanta a voz para dizer «a sua miséria, a miséria de todos, o duro trabalho, a vida de brutos, a mulher e os pequenos gritando de fome em casa»; para dizer que é uma iniqùidade uns morrerem de fome e outros de indigestão; para dizer que é uma torpeza uns morrerem de trabalhar tanto emquanto outros bocejam à regalona, a Direcção promete estudar. Não estuda nunca. Mas a voz dêsse Maheu, dêsse Maheu ignorado, ficará no espaço acusando, e marcará com um ferrete de infâmia o crime, êsse crime inaudito ratificado em uníssono por três mil peitos; o crime deles andarem ali a 800 metros debaixo da terra, arquejantes, famintos e ignorantes, para que Calígula, o doido, ponha freio de ouro ao seu «Incitatus» e Nunes, o patife, mate cães a tiro na quinta da Formiga.
O mesmo devia pensar aquele Suvarine, o russo, que nos aparece como um herói, quando nas trevas, alta noite, suspenso sôbre a fundura do poço, armado de trado e serrote, começa no revestimento da mina a sua obra de destruição.