PRÒLOGO.

I.--Como eu fui Explorador.

II.--Como foi Preparada a Expedição.

CAPÌTULO I.

EM BUSCA DE CARREGADORES.

Um dia, Jacintho deu em ser lavrador. Era a costumeira de criança que puxava por elle. Comprou terreno, e lançou os fundamentos d'essa vastissima propriedade que é digna de ser visitada; e á qual dedicou o seu trabalho e a sua bôlça, até ao ùltimo momento de vida que têve.
Era Jacintho conhecido por estropiar as palavras, e citam-se d'elle tolices engraçadissimas, pêlo mao emprego de um ou de outro vocàbulo que decorara, mas cuja significação não conhecia bem; com tudo, tinha muito espìrito, e ha d'elle anecdotas engraçadas. Esta por exemplo:
Já elle se achava estabelecido na sua propriedade do Loge; mas, logo que ao porto chêgava navio de guerra Portuguez, ia a bordo fazer offerecimentos aos officiaes; que de genio era franco.
Um dia que elle fôra a bordo, o commandante pediu-lhe um macaco. "¿Quantos quizér?" lhe respondeu Jacintho; "mande ámanhã um escalér, pelo Loge até minha casa, buscal-os."
No dia seguinte, um escalér, tripulado por seis homens, encostava ao muro do jardim de Jacintho. Fêz elle subir o escalér até dois kilòmetros mais, e chêgando á vertente de um monte coberto de gigantes baobabs, em cujos ramos horizontaes pulavam centos de macacos, disse aos marinheiros: "Tôdos estes macacos sam meus, vivem cá dentro da minha propriedade; tendes licença de apanhar quantos quizerdes e leval-os ao commandante."
Os marinheiros encaráram com os cimos elevadissimos das enormes àrvores, cujos troncos, de espantoso diàmetro, não lhes permitiam a subida; e depois de alguns vãos esfôrços, retiráram desanimados, perseguidos pêla grita e pêlas caretas da macacaria.
"Eu dei-lhos; se os não levam, não é culpa minha," dizia o Jacintho, rindo ás gargalhadas.
Visitei a propriedade, e uma cousa que me impressionou foi ver, que, màchinas, apparelhos, instrumentos, etc., tudo era de fàbrica Portugueza.
Nada Jacintho admitia que não fôsse Portuguez, e, custassem-lhe o dôbro, fazia elle fabricar em Lisboa tôdos os seus artigos, já para a agricultura, já para a industria.
A memoria d'esse homem obscuro--mais conhêcido pêlos disparates que dizia, do-que pêlas muitas cousas acertadas que fêz--dêve ser respeitada por tôdos os que se interessam pêlo desenvolvimento Africano; porque elle foi o homem que, nos modernos tempos, maior serviço fêz, para desenvolver a agricultura em colonia Portugueza, empregando n'isso a sua immensa fortuna, e trabalhando até ao seu ùltimo dia.
Na margem esquêrda do Loge, assenta outra propriedade agrìcula, tambem importante, pertencente ao S^{nr.} Augusto Garrido. Não tive tempo de a visitar, porque, no dia que ali passei, não pude esquivar-me aos muitos favores de Nicolao e tia Lina, e tudo o tempo foi pouco para admirar o que ali, no brejo agreste, a vontade do homem tinha feito.
No dia seguinte, chêgou a canhoneira Tâmega, e sube, indo a bordo, que se achava sem mantimentos, e com grande nùmero de praças doentes; motivo por que combinei com o commandante, o S^{nr.} Marques da Silva, esperal-o no Ambriz, em quanto ia a Loanda refrescar.
Três dias depois chêgou a Tâmega de volta de Loanda; indo eu logo para bordo, com Avelino Fernandes, seguímos viagem no mesmo dia para o Zaire.
Eu tinha adoecido com uma bronchites aguda, de que felizmente melhorei logo que comêçou a viagem.
Subímos o Zaire até ao Porto da Lenha, onde desembarquei com Avelino Fernandes, que me apresentou aos seus amigos d'ali. Falei logo em carregadores. Disséram-me, que seria, talvêz, possivel obtel-os, se os chefes indìgenas me quizêssem auxiliar; mas que, o melhor meio para mim, era resgatar escravos, e em seguida contratal-os para o serviço que eu exigia.
Repugnou-me a idéa de comprar homens, embora fôsse para os libertar em seguida. E depois, ¿quem sabe se elles me quereriam acompanhar sendo livres?
Resolvi immediatamente não proceder d'este modo, embora não obtivêsse um só carregador ali.
Na casa em que estava sube que tinha chêgado a Boma, no dia 9, o grande explorador Stanley, que descera tudo o curso do Zaire. Stanley tinha seguido para Cabinda.
Voltei a bordo e combinei com o Commandante irmos a Cabinda offerecer os nossos serviços ao arrojado viajeiro. Partímos, e logo que ancorámos no porto, fui a terra, com Avelino Fernandes e alguns officiaes da canhoneira.
Foi commovido que apertei a mão de Stanley, homem de pequena estatura, que a meus olhos assumia proporções de vulto colossal.
Offereci-lhe os meus serviços, em nome do Governo Portuguez, e disse-lhe, que se quizêsse ir a Loanda, d'onde mais facilmente poderia obter transporte para a Europa, o Commandante Marques lhe offerecia transporte a elle e aos seus a bordo da canhoneira. Em nome do Governo Portuguez puz á sua disposição o dinheiro de que carecêsse.
Stanley respondeu-me com um vigoroso aperto-de-mão.
Os officiaes da Tâmega confirmáram os meus offerecimentos em nome do seu Commandante.
Stanley aceitou, e desde esse momento, ficou a canhoneira á sua disposição.
Como bem se pôde calcular, eu e Avelino Fernandes não deixàvamos Stanley, e àvidos de ouvir a narração da sua viagem, o tempo que elle tinha preso, era por nós passado a questionar os seus homens.
No dia 19, os officiaes da Tâmega déram um soberbo banquête ao intrèpido explorador, para o qual convidáram o Commandante Marques, Fernandes e a mim.
No dia 20, partímos para Loanda, levando a bordo tôda a comitiva de Stanley, que se compunha de 114 pessôas, entre ellas 12 mulhéres e algumas crianças.
Stanley, em Loanda, foi hospedar-se em minha casa; distincção a que eu fui muito sensivel, porque recusou, para isso, os muitos convites que têve, e com elles commodidades que eu não podia offerecer-lhe, n'uma casa onde tinha por mobilia os meus utensilios de viajeiro.
O Governador mandou logo comprimentar o ilustre Americano, e offereceu-lhe um banquête, a que assisti. De volta a casa, perguntei a Stanley, ¿qual a impressão que trazia do S^{nr.} Albuquerque? E elle disse-me apenas: "He is a very cold gentleman." ("É um cavalheiro mui frio.")
O Consul Americano, o S^{nr.} Newton, deu-nos um almôço, e muitos favores nos dispensou.
Haviam festas e banquêtes; mas, a 23 de Agôsto, ainda não tìnhamos um só carregador; e na noite do jantar offerecido a Stanley pêlo Governador, me repetira sua Excellencia, que não me seria possivel obtel-os, sôbre tudo em Loanda; mostrando-me a difficuldade em que se encontrara o Major Gorjão, que apenas tinha podido obter metade do nùmero de homens de que precisava, para estudar a linha ferrovial do Cuanza.
É tempo de falar dos nossos projectos, segundo a lei, e as instrucções do Governo.
O Parlamento votara uma somma de 30 contos de réis para se estudarem as relações hydrogràphicas entre as bacias do Congo e Zambeze, e os paizes comprehendidos entre as Colònias Portuguezas de uma e outra costa d'Àfrica Austral.
Umas instrucções subsequentes indicavam mais particularmente o estudar-se o rio Cuango, nas suas relações com o Zaire; o estudo dos paizes comprehendidos entre as nascentes do Cuanza, Cunene, Cubango, até ao Zambeze superior; indicando, que, se possivel fôsse, deveria estudar-se o curso do Cunene.

O que fôra designado na lei do Parlamento, elaborada pêlo S^{nr.} Corvo, parece ao principio problema vasto de mais para uma só expedição, e uma verba de trinta contos de réis; mas a lei foi bem redigida. O S^{nr.} Corvo sabía, que o viajante em Àfrica, não só nem sempre é senhor dos seus passos, mas tambem, que no seu caminho pôde encontrar um não-previsto problema, que julgue de importancia superior á do que lhe foi designado; e por isso deixou a maior latitude aos exploradores.
Quanto ás instrucções, fôram ellas mais restrictas, mas ainda assim, deixavam bastante largos os movimentos da expedição.
O ponto de entrada, como dependia essencialmente do logar onde obtivèssemos carregadores, ficou indeterminado.
Tìnhamos eu e Capello pensado em entrar por Loanda, seguir a leste, até encontrar o Cuango; descer este rio por dois graos; passarmos ao Cassibi, que intentàvamos descer até ao Zaire; e finalmente, reconhêcer o Zaire até á sua foz.
Com a chêgada de Stanley, tendo elle feito uma parte do trabalho que nós propunhamos fazer, e sôbre tudo a impossibilidade de obter carregadores em Loanda, tivémos de modificar completamente o nosso plano.
Decidímos, que fôsse eu ao Sul procurar carregadores em Benguella; e que, se ali os obtivêsse, entràssemos pêla foz do rio Cunene, subindo-o até ás suas nascentes; e depois seguìssemos com os nossos estudos para S.E., até ao Zambeze.
Como não podìamos ter grande confiança na gente que ajustàssemos, lembrámo-nos de pedir ao Governador um certo nùmero de soldados, que fôssem, por assim dizer, a escolta de vigia. Sua Excellencia accedeu e mandou saber aos regimentos, se alguns soldados nos quereriam acompanhar; porque, não sendo aquelle serviço regular, não podia compellir os soldados a irem.
Ficou, pois, decidido, que eu partisse para Benguella no vapor que no principio de Setembro devia chêgar de Lisboa.
N'esse vapor veio o Ivens, que pêla primeira vêz eu via. Sympàthico, ardente, dotado de grande verbosidade, e muito enthusiasmado pêlas viagens difficeis, depressa me ligou a elle a amizade. Narrámos-lhe tudo o que resolvêramos fazer, e as difficuldades que tìnhamos encontrado até então. Ivens concordou com-nosco, e ficou definitivamente resolvida a minha partida para Benguella, no dia 6.
Preparei-me logo para partir, e fui dar parte d'isso ao Governador.
Durante a minha ausencia os meus companheiros deviam preparar as bagagens, que estavam em grande desarranjo, com a nossa precipitada partida da Europa.
Cabe aqui contar um episodio que me aborreceu bastante; porque poderia ter feito, que Stanley julgasse do caracter meu e dos meus companheiros, differentemente do que o devia fazer.
No dia 5, ao almôço, conversàvamos eu, Capello, Ivens, Stanley e Avelino Fernandes, a respeito da escravatura, e mostràvamos a Stanley o espìrito das leis Portuguezas sôbre o infame tráfico; notando-lhe a falsidade de asserções de estrangeiros a nosso respeito; e a impossibilidade de fazer então escravos onde o Governo tinha força. Discorrìamos ácerca do assumpto, quando Capello têve de ir a Palacio falar ao Governador.
Voltou uma hora depois, e logo em seguida recebia Stanley uma carta official do S^{nr.} Albuquerque, a pedir que lhe certificasse, ¿se nas terras do seu governo se fazia escravatura? Stanley veio sorprendido
mostrar-me a carta, e não menos sorprendidos ficámos eu, os meus companheiros, e Avelino Fernandes. Effectivamente, a nossa conversação ao almôço, e aquella carta depois de um de nós ir a Palacio, pareceria ao illustre viajante uma comedia habilmente preparada.
Stanley podia certificar a sua Excellencia, que a bordo da Tâmega, em minha casa, em casa de sua Excellencia, e na do Consul Newton, não tinha visto fazer escravatura. Fora d'isto, Stanley, como sua Excellencia muito bem sabía, só por informações nossas poderia falar, convivendo quasi exclusivamente com-nosco, e não tendo visitado ponto algum do paiz governado pêlo S^{nr.} Albuquerque. Era querer o S^{nr.} Governador viesse Stanley a pagar caro um jantar e os seus favores, pedir-lhe um certificado que elle Stanley nunca deveria ter passado.
Stanley, creio eu, fêz-nos a justiça de pensar que èramos estranhos áquella carta.
No dia 6, parti para Benguella, levando cartas do S^{nr.} José Maria do Prado para alguns particulares, e nem uma recommendação para o Governador do Districto, que eu não conhecia.
Ia outra vêz á busca de carregadores, que eu, Portuguez, não tinha podido obter em Loanda, e que, 4 mezes depois, tinha ali obtido um estrangeiro, o explorador Schutt, que não encontrou as menores difficuldades, para seguir o primeiro caminho que nós tìnhamos tencionado seguir.
Em viagem conheci um passageiro que me disse ser possivel obter alguns carregadores em Nôvo Redondo, e que se comprometteu a contratar ali uns 20 ou 30.
Foi já um pouco animado com esta promessa, que chêguei a Benguella, no dia 7 á noite; e ainda que levava cartas de recommendação para alguns negociantes, fui procurar o Governador, e pedir-lhe hospedagem.

CAPÌTULO II.

AINDA EM BUSCA DE CARREGADORES.

Figura 1.--Mulhéres Mundombes, vendedeiras de carvão.

(De uma photographia do pharmaceutico Monteiro.)

Figura 2.--Mulhéres e Donzellas, Mundombes.
(De uma photo. de Monteiro.)

Figura 3.--Homens Mundombes.
(De uma photo. de Monteiro.)

CAPÌTULO III.

HISTORIA DE UM CARNEIRO.

Nove dias no deserto--Falta de àgua--O ex-chefe de Quillengues--Eu perco-me nas brenhas--Dois tiros a tempo--Perde-se um muleque e uma prêta--Perde-se um burro--Quillengues em fim--Morte do carneiro.

A 4 de Dezembro deixei o Dombe, pêlas 8 horas da manhã, e segui para Quillengues. O Capello e o Ivens ficáram ainda, para enviar algumas cargas; deviam ir encontrar-me á noite. Foi consêlho dos guias, que não tomàssemos o caminho das caravanas, mas sim um atalho conhêcido d'elles, para evitarmos as passagens do Rio Coporolo, que já então levava muita àgua; dando difficeis vaos, e que aquelle caminho corta em diversos pontos.
Depois de duas horas de jornada na planicie, chegámos ao sopé da serra da Cangemba, que borda por leste o valle do Dombe. Descançámos um pouco, e ás 11 horas, emprehendémos o subir da serra pêlo leito de uma torrente, então sêco. Foi difficil trabalho. Os homens iam muito carregados; porque, àlém das cargas da expedição, do peso de 30 kilogrammas, levavam para si rações para nove dias, em farinha de mandioca e peixe sêco. A differença de nivel era de 500 metros apenas; mas o leito da torrente, formado de rochas calcàreas, offerecia obstàculos enormes ao caminhar por elle. Em muitos pontos, era preciso com as mãos ajudar o côrpo na subida, e o passar ali os seis jumentos, deu grande canceira. Tìnhamos comprado no Dombe dois carneiros, para matar em caminho; um dos quaes facilmente seguiu a comitiva, mas o outro deu trabalho, porque se recusava a andar, e a sua teimosía em volver ao Dombe era constante. Fôram três horas de fadigosa marcha; que tanto gastámos para transpor um espaço que não passava de mil metros, e isto por um sol abrasador, deixou-nos extenuados de fadiga. Acampámos logo junto a um poço cavado no leito arenoso de um ribeiro que ia sêco; ribeiro a que os Mundombes chamam Cabindondo. O logar era àrido, e apenas vegetavam aqui e àlém alguns espinheiros brancos, rachìticos e ressequidos pêlo sol, que n'esta època do anno queima. O nosso horizonte era formado pêlas cumiadas das montanhas que correm norte-sul.
Pêla tarde chegáram Capello e Ivens, e fomos logo comer; que eu estava ainda em jejum. No dia 5 de manhã, seguímos a S.E., e depois de 4 horas de marcha, em que vencémos um espaço de 20 kilòmetros, assentámos campo em um logar que os guias chamáram Taramanjamba; valle extenso, cercado de cêrros pouco altos. A altitude é de 600 metros; mostrando que apenas estàvamos elevados 100 metros acima do nosso campo de hontem.
A vegetação continúa pobre, e a falta de àgua é grande.
Para beber e cozinhar, apenas obtivémos pouca, de depòsitos fluviaes nas cavidades das rochas; depòsitos que fôram logo esgotados pêla nossa sedenta caravana, sendo que á noite já se fazia sentir a sêde.
Durante a marcha, se os jumentos continuáram a ser incòmmodos, não o foi menos o carneiro, que era bravissimo, e mais teimoso que os burros. Decidi matal-o, e tendo combinado isso com os meus companheiros, dei as ordens n'esse sentido aos muleques, e fui dar um passeio aos arredores.
De volta ao campo, vi que os muleques não tinham comprehendido a minha ordem, e em logar de matarem o carneiro bravo, haviam morto o manso.
No dia seguinte partímos de madrugada, e depois de cinco horas de marcha, acampámos no logar chamado Tine, onde nos afiançáram os guias haver àgua.
Contra o que eu esperava, o carneiro, não só deixou de ser teimoso, mas poz-se a seguir-me, fazendo-me constante companhia, já em marcha já no campo.
A marcha n'esse dia foi difficil; porque, não só a sêde abrasava a gente, mas ainda por uma hora andámos no leito sêco do rio Canga, pedregoso e desnivelado, o que nos fatigou muito.
O terreno é já granìtico, e a vegetação arborescente luxuriante.
Àgua, como na vèspera, foi da chuva, recolhida nas cavidades das rochas; mas era melhor ao paladar e mais lìmpida á vista.
Tìnhamos alguns homens com feridas nos pés, que só chegavam tarde ao campo, porque se lhes difficultava o andar; e ainda outros que, por fracos, se atrazavam, e por preguiça muitos.
N'esse dia, entre os retardatarios figuravam os carregadores do rancho; fazendo isso que só tarde comêssemos. O Capello, de si pouco communicativo, não se queixava dos incòmmodos que soffria; mas Ivens, loquaz e de gènio alegre, não se calava e nos fazia rir a cada passo, com os seus ditos engraçados. O appetite era já grande, quando chegáram os carregadores, e elle não desfitava os olhos de uma perna de carneiro que um muleque volteava junto da fogueira em espeto de pao, e de repente disse: "Se meu pai podesse ver como eu olho para aquella carne até chorava."
Desde o Dombe apenas tìnhamos comido uma vêz no dia, e assim, a nossa gente; com a differença, porem, que elles comiam sem interrupção desde o acampar até dormir: o que me fazia receiar, que as rações distribuidas para nove dias, depressa fossem gastas, e em seguida viesse a fome, em paiz onde era impossivel obter vìveres.
Avançámos 25 kilòmetros no dia seguinte, a E.S.E., e fomos acampar em uma floresta chamada a Chalussinga; sendo o piso d'esse dia relativamente melhor, sempre por terrenos granìticos, e por entre vegetação mais vigorosa que até ali.
N'essa floresta encontrámos os primeiros baobabs que desde a costa temos visto. Àgua continuava a ser escassa, e sempre de depòsitos pluviaes. Pêlas três horas d'esse dia, fomos avisados de que uma caravana se dirigia ao nosso campo, vindo do interior; e saindo logo ao seu encontro, soubémos ser o ex-chefe de Quillengues, Capitão Roza, que ia doente para Benguella.
Convidámol-o á nossa barraca, onde jantou; partindo em seguida, depois de se prover de medicamentos, que gostosamente lhe offerecêmos. Logo que elle partiu, fui avisado pêlos muleques, de que em torno do campo se viam traças frescas de caça; e sahi a ver se a encontrava. Segui um rasto de grandes antìlopes, e tão longe me levou elle, que veio a noite, e com ella as trevas, sem que podesse atinar com caminho para o campo. Uma montanha elevada projectava o seu vulto sombrio contra um ceo nebuloso, onde nem uma estrella brilhava. Tive idéa de subir a ella, para do cume, vendo o clarão dos fôgos do meu campo, dirigir ali meus passos; idéa que executei com bom resultado, porque effectivamente enxerguei ao longe um clarão que tratei de alcançar, tendo marcado pêla bùssola a sua direcção. Não se imagina o que seja caminhar em noite escura por entre as sárças de uma floresta virgem, e quanto tempo se leva a transpor um curto espaço; deixando aqui e àlém farrapos da roupa, senão tiras da pelle.
Chêguei por fim, já guiado pelo vozear do gentio; mas ¡qual não foi a minha decepção, vendo, que pêlo meu tinha tomado o campo do Capitão Roza, que devia estar a 6 kilòmetros longe d'elle! Porem, como um caminho ligava os dois campos, porque uma caravana que passa deixa trilho, endireitei n'elle, e depois de uma hora de jornada, já ouvia o som das businas que os meus tocavam, e dos tiros que disparavam, para guiar meus passos.
Foi extenuado de fadiga e molestado dos espinhos, que chêguei á minha tenda, onde Capello e Ivens não estavam livres de cuidados.
Ali tive uma noticia inquietadora, mas que não foi sorpresa.
Já se sentia falta de vìveres, e sôbre tudo os soldados já tinham em 5 dias comido a ração de 9.
No seguinte dia forçámos a marcha um pouco mais, e percorrémos em 6 horas 30 kilòmetros a E.S.E.
O caminho era bom, marchando no trilho da caravana do Capitão Roza. Nas florestas que atravessámos continuáram apparecendo baobabs gigantescos. Depois de passarmos o rio Calucúla, acampámos na sua margem direita.
O rio leva pouca àgua, mas esta é lìmpida e bôa.
Continuàvamos a comer só uma vêz ao dia, e a hora da refeição variava entre a 1 e 3, conforme ás marchas. Era preciso poupar os vìveres. Ressentido da fadiga da vèspera não sahi a caçar n'esse dia, e fiquei na barraca.
O Ivens foi desenhar, como costumava; e o Capello apanhar insectos e réptiz.
Os soldados termináram as rações, e começáram a queixar-se de fome, falando em matar o carneiro. Eu tinha-me afeiçoado ao animal, que de bravo que era se tinha tornado manso e meigo, acompanhando-me nas marchas e não me abandonando um momento. Opuz-me a que fôsse morto, e o
Ivens deu aos soldados um pouco de arroz do nosso.
A 9, levantámos campo, ás 5 horas, e sustentámos a marcha até á uma; hora a que acampámos nas faldas da serra da Tama. Das 8 ás 9 horas seguímos ao sul, na margem esquêrda do rio Chicúli Diengui, que vai ao N., provavelmente ao Coporolo. A vegetação é cada vêz mais luxuriante, e n'esse dia o nosso caminhar foi por entre floresta espêssa.
Logo que se estabeleceu o campo, renováram-se as representações dos soldados famintos, e com ellas a idéa de matar o carneiro. O Ivens deu nôva ração de arroz aos soldados, e isto, ainda que contemporizava, não era uma positiva salvação para o pobre animal.
Ainda que extremamente fatigado, resolvi ir caçar, para salvar a vida do meu carneiro.
Durante uma hora percorri a floresta sem resultado, e já voltava ao campo, quando avistei, n'uma pequena clareira, duas gazellas que pastavam.
Aproximei-me, mas a mais de cem metros fui presentido. O macho saltou para sôbre uma rocha, e d'ali comêçou a espiar a floresta com a sua vista experimentada; em quanto a fêmea, de orelha á escuta, investigava os arredores.
Era grande a distancia, mas não hesitei, e atirei ao macho, que vi cair fulminado para àlém do rochêdo. A fêmea, ouvindo o estampido do tiro, saltou ligeira sôbre o penhasco e su disparei-lhe o meu segundo tiro, vendo-a em seguida pular, em salto elegante, e desapparecer no mato.
O meu muleque correu logo a buscar o antìlope môrto, mas eu vi que, em logar de parar junto do rochêdo, seguiu sempre; eu dirigi-me para ali com o coração palpitante, porque suppuz que me tinha enganado julgando ver cair o primeiro antìlope. Torneei a rocha, e tive um grande alvorôço. O lindo animal (Cervicapra bohor) estava estendido sem vida.
Mal tinha tido tempo de o contemplar, quando do mato sahio o muleque curvado ao peso de grande carga.
Era o segundo antìlope, que elle tinha levantado môrto, a poucos passos na floresta. Ambos tinham sido feridos no peito, mas ao passo que o macho cahiu sem vida, a fêmea pôde effeituar uma pequena carreira.
Estava salvo o carneiro, e como em dois dias devìamos chegar a Quillengues, e ali terìamos recursos, estava salvo para sempre.
No seguinte dia, depois de marcha de 35 kilòmetros, e de termos passado a vao os rios Umpuro, Cumbambi e Comooluena, fomos acampar na margem direita do Vambo--que tôdos correm ao N., a unir as suas àguas (quando as t[~e]m), ao Coporolo, que aqui já se chama Calunga, nome que conserva
até á sua nascente.
Na jornada d'esse dia começámos a encontrar gramìneas enormes, nas clareiras do mato. Tão grandes, que era impossivel ver nada com ellas, e difficil o caminhar. Durante a marcha desappareceu um meu muleque pequeno, e uma prêta, mulhér do muleque Catraio do Capello; e ainda que despachei gente a buscal-os, não fôram encontrados.
A escaçez dos mantimentos era grande, e não eram já só os soldados a queixarem-se de fome, tôdos faziam representações, e não attendiam razão. Tivémos de seguir.
No dia 11, depois de passarmos dois riachos que as chuvas tornam caudalosos, o Quitaqui e o Massonge, fomos acampar na margem direita do rio Tui, muito pròximo de Quillengues. Dos muleques perdidos não havia noticia, e faltava desde a vèspera um jumento, que não appareceu. Em quanto se estabelecia o campo, eu segui para a fortaleza de Quillengues á busca de vìveres, com que voltei ás 8 da noite. Estava decididamente salvo o meu carneiro.
N'essa noite apparecêram o muleque e a prêta perdidos, e isso deu-me um verdadeiro prazer; porque, fôrçados a marchar, pela fome, não tìnhamos podido demorar-nos a procural-os.
O logar onde acampámos era baixo e pantanoso, fôra de recursos, é isolado; e por isso resolvémos ir acampar na libata do chefe de Quillengues, onde entrámos no dia 12, pelas 11 horas.
Paguei e despedi os carregadores do Dombe e Quillengues contratados até ali; e pedi-ao chefe, o Tenente Roza, para me obter outros até Caconda; o que elle me certificou ser facil, dizendo-me logo, que sabia como os rios entre aquelle ponto e Caconda iam cheios, e por isso não davam passagem; o que nos impedia de partir immediatamente.
N'esse dia já comémos bem, e tivémos duas comidas, almôço e jantar.
Alguns dias depois, appareceu o jumento que se tinha perdido no mato, trazido por um indìgena, que o tinha encontrado. Gratifiquei bem o prêto, para o encorajar a ser honesto; pois que nunca julguei ver mais o pobre animal, que, se escapasse das feras, não escaparia á ladroagem dos naturaes, pensava eu.
Quillengues é um valle regado pêlo Calunga (rio que eu supponho ser o curso superior do Coporolo), valle fertilissimo, e coberto de povoações indìgenas.
O estabelecimento Portuguez occupa uma àrea de 45,500 metros quadrados; por ser um rectàngulo de 250 metros por 182. Este rectàngulo, cercado de palissada, tem quatro baluartes de alvenaria, a um meio de cada face; e dentro uns abarracamentos, que sam morada do chefe militar, e quartéis dos soldados.
Algums baobabs e figueiras sycòmoros crescem ali, assombrando com seus ramos gigantescos um terreno coberto de gramìneas indìgenas, onde pastam os rebanhos do chefe.
Se a importància de Quillengues é grande como ponto productivo, e facilmente colonisavel, não o é menos como posição estratègica; pois que pôde ser considerado uma das chaves do sertão interior, com respeito a Benguella.
Os sobetas do paiz reconhêcem a autoridade Portugueza; mas, de natureza salteadores, atacam sem cessar outros pôvos indìgenas, para lhes furtarem o gado.
Sam mais pastores do que lavradores, mas, ainda assim, cultivam a terra, que de ubèrrima suppre o pouco trato; produzindo milho, massambala, e mandioca, em quantidade grande.
As suas habitações sam cubatas circulares, de 3 a 4 metros de diàmetro, construidas de grossos troncos de madeira, revestidas de barro. A porta é bastante alta, para dar entrada a um homem sem curvar-se.
Os Quillengues sam de estatura elevada, e robustos, atrevidos e guerreiros. Sam pouco industriosos, e apenas fabricam o ferro, fazendo azagaias, ferros de frechas, e machados, já de guerra, já de cortar madeira.
As enxadas não as forjam, e sam por elles compradas no Dombe, ou em Benguella.
Os seus curraes sam, como as povoações, cercados de forte palissada; sendo esta revestida exteriormente de abatises espinhosos, para evitar o assalto nocturno de feras.
Os campos de mandioca sam igualmente cercados de espinheiros; porque ali abundam corças pequenas (Cephalophus mergens), que das folhas sam àvidas, e causam damno grande ás plantações.
A àgua-ardente é gènero muito estimado pêlos Quillengues, e sam elles tão dados á embriaguez, que, durante três mezes no anno, tanto quanto dura o fruto do gongo, fazem d'elle uma bebida fermentada, com que estam continuamente embriagados; não sendo possivel obter d'elles o menor serviço.
Quando um homem quer casar-se, envia ao pai da escolhida um presente, que dêve ser pêlo menos de 4 metros de panno da costa, e duas garrafas de àgua-ardente; e logo com o portador vem a noiva e seus parentes comer, em grande bròdio, um boi, que dêve offerecer-lhes o noivo. O adulterio é coisa de grande estimação para os maridos; sendo que por lei fazem pagar ao amante multa, que se traduz em gado e àgua-ardente.
A mulhér que não tem commettido algum adulterio é mal vista do marido, que não augmenta o seu haver por esse meio.
Logo que alguma commette a falta, vai ao marido queixar-se de que foi seduzida, e entre elles faz prova a accusação da mulhér.
Entre o pôvo, os cadàveres sam enterrados em logar escolhido, e conduzidos á cova n'uma pelle de boi, cobertos de panno de algodão branco. Os dias de nôjo, sam dias de grande festa em casa do finado. Os sobetas t[~e]m sepultura reservada, e sam ali conduzidos dentro de uma pelle de boi preparada em ôdre, depois de lhe vestirem as melhores roupas.
Nas festas d'òbito ha mortandade enorme de gado, porque o herdeiro tem obrigação de matar todo o rebanho, para regalar o seu pôvo, e contentar a alma do finado.
No dia 22, houve um desastroso acontecimento no nosso campo.
Um dos meus muleques furtou-me uma bala explosiva do systema Pertuisset; e de companhia com dois outros, decidíram repartil-a de modo que a cada um tocasse seu pedaço de chumbo. Armáram-se de uma faca, e pôsta a bala sôbre uma pedra, deu-lhe elle um golpe, estando os outros dois acocorados para melhor ver a partilha; quando sùbito a bala faz explosão, ficando os três feridos, e sôbre tudo o muleque de Silva Porto Calomo, que recebeu treze estilhaços, produzindo alguns feridas profundas.
Mandámos uns prêtos reconhêcer, se já dariam vao os rios; e por elles soubémos, que se conservavam altos; o que bem soppùnhamos, porque, durante a nossa estada ali, não cessou de chover. Resolvémos então seguir outro caminho, o qual, ainda que mais longo, era mais euxuto de àguas; e por isso, pedímos ao chefe nos tivesse prontos os carregadores; o que elle fez, distribuindo eu as cargas no dia 23; mas n'esse dia senti-me muito mal, e ainda que fiz seguir as cargas, fiquei eu, e os meus companheiros por meu respeito. Lutei com violenta febre por três dias, e não tenho consciencia de ter passado o dia 25; dia duplamente festivo para mim, porque, sendo o de Natal, é o anniversario de minha filha.
Tivéram cuidado de mim Capello e Ivens, o Chefe Roza e sua esposa; e no dia 28, pude levantar-me e sair, decidindo logo partir no 1^{o.} de Janeiro de 1878, isto é, três dias depois.
A esposa do Tenente Roza fêz-me dois presentes, que eu mal sabia então estavam destinados a representar um papél, ao diante, na minha viagem.
Fôram elles um serviço de chá de porcelana de Sèvres, e uma cabrinha muito meiga, de raça pequena, a que puz o nome de Córa.
A esse tempo succedeu um desastre, que de véras me contristou. O meu carneiro, por causa de quem eu tive de sustentar tantas lutas com os carregadores famintos, foi môrto por uma cadella perdigueira, que eu levara de Portugal, e dera ao Capello. Perseguido pêla cadella, na fuga quebrou uma perna ao passar por entre a paliçada do campo, e em breve se finou. Foi o meu primeiro grande desgosto n'esta viagem, tão abundante d'elles.

CAPÌTULO IV.

POR TERRAS AVASSALLADAS.

CAPÌTULO V.

VINTE DIAS DE AGONIA.

Figura 4.--Homem e Mulhér do Huambo.

Sem o empurrão que me deu o Verissimo, eu teria môrto um homem, e na situação em que nos achàvamos, estarìamos completamente perdidos. Foi elle que salvou tudo.

Com a excitação que me produziu a còlera, recresceu a febre, e cahi sem fôrças nas pelles que estendidas no chão me serviam de leito.
Os meus prêtos deitáram-se atravez da porta, e disséram-me, que dormisse descançado, que elles velariam por mim.
Havia quatro dias, que por um momento estive quasi perdido em três occasiões differentes: 1^o com o bùfalo no Huambo, 2^o na libata do Chacaquimbamba, e 3^o ali n'aquella noite.
Depois de um sono agitado, acordei ao som da tempestade que bramia lá fora.
Pensei nos acontecimentos da noite e não fiquei tranquillo. ¿O que succederia de manhã? Eu estava só com 10 homens, dentro de uma povoação fortificada, d'onde não era facil sahir; e ainda que se me abrissem as portas ¿onde iria eu obter carregadores, agora que me tinha indisposto com o règulo?
Pôde bem julgar-se da anciedade com que esperei o raiar da aurora.
Ao alvorecer a febre tinha abrandado um pouco. Apromptei-me para partir, e mandei chamar o sovêta, que appareceu logo.
Disse-lhe que ia seguir, e ali deixava as cargas sôb sua responsabilidade, e que depois as mandaria buscar; mas elle pedio-me que o não fizesse, que me ia dar os carregadores; e dando-me mil satisfações
do occorrido na vèspera, disse-me, que o culpado fôra o Cassoma, que elle já tinha posto fôra de casa; o que era falso, porque eu ali o vi depois.

Figura 5.--Mulhér do Sambo.

Figura 6.--O meu Acampamento entre o Sambo e o Bihé.

Figura 7.--Ponte de Cassanha sôbre o Rio Cubango.

Figura 8.--O Secúlo que me deu um Porco.

Figura 9.--Mulhéres Ganguelas das margens do Cubango.

Figura 10.--Termites na margem do Rio Cutato dos Ganguelas.

Figura 11--Monte termìtico, de 4 metros de altura, nas margens do Rio Cutato dos Ganguelas, coberto de vegetação.

Os ameaços de rheumatismo continuavam. Durante a noite a chuva foi torrencial, e como sempre, dormi molhado, porque, n'esta època do anno, as gramìneas de que cobria a minha barraca improvisada, não tinham mais comprimento que 50 centimetros, e com herva tão curta é difficil, senão impossivel, vedar a àgua em uma barraca.
A chuva só abrandou no dia seguinte ao meio dia, e eu, apesar de abrazado em febre, segui ás 2 horas, tinha 144 pulsações.
Caminhei a pé, por me ser impossivel segurar-me a cavallo no bôi; mas, depois de uma hora de marcha, as pernas recusavam-se a continuar. Acampei. Os meus prêtos e os proprios carregadores Ganguelas dispensavam-me os maiores cuidados.
O logar em que acampei foi junto de umas povoações a que chamam Lamupas, por estarem perto das cachoeiras do rio, que em lingua do paiz t[~e]m o nome de Mupas.
É logar muito povoado e muito cultivado, sendo estes pôvos grandes cultivadores.
Encontrei no caminho algumas sepulturas de secúlos, que sam cobertas de barro, com uma forma semelhando algumas da Europa. Estas sepulturas sam cobertas por um alpendre de côlmo, e sam sempre debaixo de uma àrvore grande.
Sôbre ellas vi cacos de pratos e panellas, que ali sam depostos pêlos parentes do defunto, como nós depomos nos tùmulos das pessôas queridas, as saudades e as perpètuas.
De noite a chuva moderou, e o dia seguinte amanheceu nublado mas estio. A febre abrandou muito, mas as dôres rheumàticas comêçavam a fazer-se sentir atrozmente. Segui ávante, e meia hora depois de ter deixado o meu campo, passei junto da grande povoação de Cassequera.
Logo que passei um pequeno riacho que fica para àlém da povoação, deparei com umas clareiras enormes cobertas de gramìneas, que me prenderam a attenção pêlo seu enorme e completo desenvolvimento, em uma èpocha do anno em que as plantas d'esta familia estam em principio desse desenvolvimento.

Figura 12.--Sepultura de Secúlo.

Figura 13.--Ferreiros Caquingues.

1. Folles.
2. Bocal de Barro.
3. Bigorna.
4. Martello.

Figura. 14.

Figura. 15.--Objectos fabricados pêlo gentio entre a Costa e o Bihé.
1. Machado de Trabalho.
2. Ferro de Frecha para a Guerra.
3. Frechas.
4. Ferro de Frecha para Caçar.
5. Pé das Frechas.
6. Machado de Guerra.
7. Enxada.
8. Azagaias.

CAPÌTULO VI.

PEREIRA DE MELLO E SILVA PORTO.

Figura 16.--Casa de Belmonte (Bihé).

Figura 17.--Vista exterior da povoação de Belmonte, no Bihé.

* Sycomoros.
* Forte palissada de pao.
* Palissada da horta coberta de roseiras sempre floridas.
* Romeiras.
* Larangeiras.
* Hortas.
* Cemiterio.
* Casas dos prêtos.

1. Entrada da povoação.
2. Entrada da casa de Silva Porto
3. Casa.
4. Pateo interior.
5. Cusinha e dispensa.
6. Casas de criados.
7. Armazem.

Figura. 18.--Planta da povoação de Belmonte, no Bihé.

Comecei por contratar Verissimo Gonçalves para me acompanhar, e consegui fazer-me obedecer por elle cégamente.
Depois de muito estudar o caminho a seguir, resolvi ir direito ao alto Zambeze, seguindo a cumiada do paiz onde nascem os rios d'aquella parte d'Àfrica.
Chegado ao Zambeze, queria seguir a leste, estudar os affluentes da margem esquerda, e descendo ao Zumbo, ir d'ali a Quilimane por Tete e Senna.

Os mais pràticos sertanejos, sabedores do meu projecto, diziam-me, que eu não chegava a meio caminho do Zambeze, e creio que me tinham por tôlo.
Eu deixava-os falar e prossegui sempre na organização do pessoal e confecção do material necessario aos meus planos.
No dia 27 de Março, primeiro em que pude escrever livremente, escrevi ao Governo da Metròpoli, e ao Pereira de Mello, e Silva Porto. Dava-lhes parte do occorrido até então, e pedia-lhes auxilio e consêlho, submettendo á sua crìtica os meus projectos. Despachei portadores para Benguella com as cartas, e fui trabalhando, mais confiado em mim do que em outrem.
A esse tempo, uma grande parte das cargas deixadas em Benguella, em Novembro ¡havia 5 mezes! ainda não tinham chegado.
Apparecéram-me na libata o ex-chefe de Caconda, Alferes Castro, e o degradado Domingos, que iam para Caconda. Contáram-me que, chegados ao Bihé, tinham sido encarregados por Capello e Ivens de ir construir o abarracamento, e de fazer transportar para ali as cargas que estavam em Belmonte.
O Alferes Castro voltava sem nenhum confôrto, e eu, das 6 caixas de rancho que me tinha deixado o Ivens, dei-lhe o assucar, chá, café, etc., necessario para a viagem.
Creio que aquelle senhor, depois de ter sido a causa de tanto soffrimento que tive, de tantos riscos que corri, não terá motivo de queixar-se do modo por que o recebi no Bihé; se quizér ser justo e verdadeiro.
Quanto ao degradado Domingos, se bem me recordo, dei-lhe uma carta de recommendação para o Governador de Benguella, de quem ia solicitar um favor.
Foi assim que tratei os dois homens que mais me fizéram soffrer em Àfrica, porque quando déram causa a isso, eu ainda não estava habituado ao soffrimento.
No principio de Abril, eu já bastante melhor, tinha promptos 60 carregadores, e esperava apenas a chegada das cargas de Benguella, para receber mais alguma fazenda e partir.
A minha vida era um trabalhar incessante, e ao mesmo tempo compilava um livro de lembranças, para ter á mão as fòrmulas que me eram necessarias para os meus càlculos; fazia umas tàbuas de raizes quadradas e raizes cùbicas, que calculei para os nùmeros de 1 a 1000. Deduzia com trabalho immenso algumas fòrmulas trigonomètricas, porque na Europa, para tornar mais portateis as minhas tàbuas logarìthmicas, as tinha feito encadernar, supprimindo a parte explicativa; e por um engano deploravel, n'uma remessa de objectos que de Loanda fiz para Portugal, fôram incluidos os meus livros mathemàticos. Não se riam os sabios, da singeleza com que lhes narro as difficuldades com que lutei no Bihé para poder ter escritas n'um livrête algumas fòrmulas vulgares. Quem não é explicador de mathemàtica, vê-se muitas vêzes embaraçado para resolver uma questão mui simples, quando lhe falte um livro que lhe avive a memoria priguiçosa. No Bihé faltavam-me tôdos os livros, e por isso eu fazia um, para meu uso, e ou se riam ou não, declaro-lhes que não me foi facil. Tôda a minha bibliotheca consistia em três almanacs para 1878, 1879, e 1880, as tàbuas de logarithmos, como já disse, sem texto, tàbuas somente, o Eurico de Herculano, as poesias de Casimiro d'Abreu, e um livrinho de Flamarion, As Maravilhas Celestes.
Em tudo isto não tinha muito onde refazer a memoria para as questões de x e y.
Depois havia ainda outra difficuldade. Eu tinha de fazer e de pensar em muitas cousas ao mesmo tempo, e cousas um pouco incompativeis entre si. Ás vêzes tinha conseguido quasi reconstruir uma das fòrmulas de Neper para resolver triàngulos esphèricos, quando entrava o muleque, e me exigia que dizesse, se a gallinha para o jantar devia ser cozida ou assada (durante a minha estada no Bihé, comi cento e sessenta e nove gallinhas). Logo, entrava outro pedindo sabão para lavar a roupa; depois, eram carregadores que me vinham falar; em seguida, enviados do sova, que me queriam extorquir mais algumas jardas de fazenda. Um inferno, um verdadeiro inferno.
Eu tinha feito e fazia um grande nùmero de observações meteorològicas.
Os meus chronòmetros estavam perfeitamente regulados, e a minha posição determinada. Algumas excursões que fiz no paiz com a bùssola na mão, permitíram-me fazer uma carta, de certo grosseira, mas tão aproximada quanto se pôde exigir de um trabalho d'estes em viagem de exploração. Apesar dos meus trabalhos, ou talvez por causa d'elles, eu estava satisfeito, e mal pensava nas tribulações porque tinha de passar ainda nas terras do Bihé.
Antes porem de continuar a narrativa das minhas aventuras, abro um parenthesis para falar um pouco d'este paiz, tão importante e rico quanto pouco conhecido entre nós, a quem interessa mais o seu conhecimento do que a ninguem.
O Bihé limita ao Norte com o sertão do Andulo, a N.O. com o Bailundo, a Oeste com o paiz de Moma, a S.O. com os Gonzellos de Caquingue, ao S. e L. com os pôvos Ganguelas livres. O rio Cuqueima é quasi um limite natural do Bihé por Oeste, Sul e Leste, mas, na realidade, a autoridade do sova do Bihé ainda se exerce para àlém d'aquelle rio em alguns pontos. O paiz é pequeno, mas muito povoado.
Eu avalio grosseiramente a sua àrea em 2500 milhas quadradas, e um càlculo ainda mais grosseiro fêz-me estimar a sua população em 95 mil habitantes; o que nos dá apenas 38 habitantes por milha quadrada; e ainda que este nùmero nos pareça mui pequeno, por ser menos de um terço do que se dá entre nós, é consideravel para a Àfrica Austral, onde a população está muito pouco accumulada.
Em tempo, como se verá, pouco distante, estas terras do Bihé eram povoadas de matas densas, onde abundavam elefantes, e onde assentavam raras povoações de raça Ganguela.
O rio Cuanza, depois da sua confluencia com o Cuqueima, divide o paiz do Andulo do paiz de Gamba, que lhe fica a leste. Era sova de Gamba um tal Bomba, que possuia uma filha de grande formosura, chamada Cahanda.
Este sova Bomba vivia na margem esquêrda do rio Loando, affluente do Cuanza.
A formosa e nêgra princesa Cahanda, pediu ao pai para ir visitar umas parentas que eram senhoras da povoação de Ungundo, ùnica de alguma importancia no Bihé de outrora.
Estando a filha do sova Bomba n'esta povoação de Ungundo a visitar as parentas, aconteceu chegar ao paiz um ouzado caçador de elefantes chamado Bihé, filho do sova do Humbe, que com grande comitiva tinha passado o Cunene e estendido as suas excursões venatorias até áquellas remotas terras. Um dia o selvagem discìpulo de Santo Huberto têve fome, e estando perto da povoação de Ungundo, dirigio-se ali a pedir de comer. Foi então que vio a formosa Cahanda, e é preciso dizel-o, que vel-a e amal-a foi obra de um momento. Estas questões de amor em Àfrica sam muito semelhantes ás questões de amor na Europa, e pouco depois do encontro dos dois jovens, Cahanda era raptada, e Bihé plantava a estacada da grande povoação que ainda hôje é a capital do paiz, paiz a que deu o seu nome, fazendo-se acclamar sova. As dispersas tribus Ganguelas fôram por elle submettidas, e o pai da primeira soberana do Bihé reconciliando-se com a filha, permittio uma grande immigração do seu pôvo para ali. Ao casamento do sova succedéram-se muitos outros entre as mulhéres do norte e os caçadores do seu sèguito, e esta é a origem do pôvo Biheno.
Assim os Bihenos sam Mohumbes, nome que na Àfrica Austral de oeste dam aos descendentes da raça do Humbe, os quaes não se encontram só no Bihé, mas estam tambem espalhados em outros pontos, sôbre tudo frente da costa entre Mossàmedes e Benguella, misturados com os Mundombes, que sam a verdadeira raça d'aquelle paiz. Hôje a verdadeira raça Mohumbe no Bihé é representada pêla nobreza e gente rica do paiz, os descendentes dos caçadores do primeiro sova, e ainda assim, fôra da familia reinante, está ella misturada com sangue de raças muito differentes; porque, sendo o Bihé desde o seu comêço um grande emporio de escravatura, e tendo sido colonizado em grande parte por escravos de raças diversas, o baixo pôvo provem de uma mistura inexplicavel, e a nobreza mesmo, nas suas bastardias numerosas, tem trazido ás suas descendencias sangue dos paizes mais remotos da Àfrica Austral.
Da união de Bihé e da formosa Cahanda nasceu um ùnico filho varão, que têve o nome de Jambi, e succedeu no governo a seu pai. Este Jambi têve dois filhos, dos quaes o primogènito se chamou Giraúl, e o segundo Cangombi. Giraúl herdou o poder por morte de seu pai, e receiando de seu irmão, que tinha grande influencia no pôvo, o fez prender secretamente de noite, e o vendeu como escravo, a um prêto que ia levar uma leva de escravos a Loanda.
Cangombi, por acaso, em Loanda foi comprado pêlo Governador Geral, de quem foi escravo. Tempos depois, os despotismos e as arbitrariedades de Giraúl fizéram-n-o detestado do seu pôvo; houve conspiração, e alguns nobres partíram secretamente para Loanda, com muito marfim, para resgatar seu irmão, e acclamal-o, depois de deporem aquelle. O governador de Angola de então, vendo o partido que podia tirar d'esta questão, para a corôa Portugueza, não só entregou Cangombi sem resgate, mas ainda o encheu de presentes, e lhe deu auxilio contra seu irmão; e por isso Cangombi se apresentou no Bihé com grande comitiva, que veio por Pungo-andongo e subio o Cuanza, entre a qual se contavam muitos Portuguezes. Declarada a guerra, Giraúl foi vencido, sendo traido pêlos seus, e entregou as redeas do governo a seu irmão mais nôvo, que lhe deu uma povoação e um pequeno dominio para viver.
Quatro annos depois, Giraúl revoltava-se e vinha pôr cêrco á capital. Novamente vencido e prisioneiro, foi entregue por seu irmão aos Ganguelas de àlém Cuanza para o comerem; não que estes Ganguelas sejam positivamente canibaes, mas, de vez em quando, não desgostam de comer um bocado de homem assado.
Eu não pude saber o nome do governador que prestou mão-forte ao filho segundo do Jambi para lhe dar o poder, mas estou certo que a esse respeito alguma cousa dêve existir no Ministerio da Marinha e Ultramar, porque um passo d'aquelles não podia deixar de ser communicado ao governo da Metròpoli.
Cangombi foi grande sova, e têve oito filhos, dos quaes seis fôram sovas do Bihé; o que não é para admirar, porque ali herda o poder o mais pròximo da ascendencia. Assim, em quanto existem filhos de um sova, os netos não vam ao poder, e o neto primogènito do filho primogènito só toma as rèdeas do governo quando não existe nenhum dos seus tios, irmãos mais nôvos de seu pai.
Por esta lei herdou o poder Cahueue, filho mais velho de Cangombi, e por mortes successivas, seus irmãos Moma, Bandúa, Ungulo, Leamúla e Caiangúla. Os dois filhos de Cangombi que não fôram sovas, fôram Calali e Óchi, por terem morrido cêdo. Este Óchi era immediato ao mais velho Cahueue, e deixou um filho que foi sova por morte de seu tio Caiangúla, por não ter deixado filhos o irmão mais velho de seu pai.
Este sova chamava-se Muquinda, e por sua morte foi o governo a seu primo Gubengui, filho mais velho do sova Moma immediato a seu pai. A este Muquinda seguia-se outro irmão chamado Quitungo, que morreu quando ia ser acclamado, já dentro da capital.
De tôdos os oito filhos de Cangombi, só existia um descendente legìtimo, filho do sova Bandúa, que foi acclamado. É elle Quillemo, o actual sova do Bihé.
Ha contudo um filho bastardo de Moma, chamado Canhamangole, que está indigitado para succeder a Quillemo; em seguida passarám ao poder, os filhos d'este ùltimo, que sam muitos.
Por este breve resumo da historia do Bihé se vê, que aquelle paiz é de fundação recente, e que desde o seu comêço quasi, existíram relações ìntimas entre os Portuguezes e Bihenos, pêla intervenção tomada pêlo Governador Geral de Angola, na acclamação do sova Cangombi, avô do actual sova Quillemo, e neto do fundador da monarchia Bihena.
Assim, pois, o Bihé, desde a sua fundação tem sido governado por treze sovas em cinco gèrações, que vam representadas no seguinte quadro:--

Na carta de Angola, de Pinheiro Furtado, já vem, indicado o Bihé, mas a sua origem não dêve ir muito àlém da coordenação d'aquella carta.

Figura 19.--Mulhér do Bihé cavando.

Figura 20.--Carregador Biheno em marcha.


Figura 21A.
Palissada Solta.
Figura 21B.
Palissada amarrada com
Casca de arvore.
Figura 21C.
Palissada travada
com Forquilhas.

Figura 22.--Planta de uma Libata de gentio no Bihé.

A. Entrada.
B. Cubata onde se enterram os sovas.
C. Trophéu de cornos.
c c c. Casas das amantes do sova. O O. Casa do sova. a a a. Lombe ou
morada do sova. d d d. Casas dos prêtos.

Figura 22C.--Trophéu de Cornos de caça, em quasi todas as libatas.

Figura 23.--Fora da porta das libatas ha isto.

As povoações sam fortificadas com o receio dos ataques do homem, que feras não abundam muito no paiz, e não é mesmo isso necessario para feras, porque no interior, onde as ha em bandos, as povoações sam abertas.

As guerras dos prêtos ali sam, a maior parte das vezes, sem causa, e basta a riqueza de um pôvo para que elle seja atacado.

Sam verdadeiros ataques de salteadores.

Logo que um règulo decide ir fazer a guerra a outro, ou a um pôvo qualquer, manda emissarios seus aos sovas e secúlos circumvizinhos, convidando-os a tomar parte na campanha, e estes, como na Europa no
tempo do Feudalismo, sahem com os seus guerreiros a reunirem-se ao que os convoca.
Alguns povos fazem periòdica e systemàticamente a guerra, e no Nano, por exemplo, vam, de tres em tres annos, roubar os gados ao Mulondo, Camba e Quillengues, e dizem, que estes povos criam gados para elles, e sam os seus pastores.
Uma circunstancia muito notavel das guerras n'esta parte de Àfrica, é a de ser sempre vencedor o que ataca.

Ha excepções, mas muito raras.

Uma das excepções foi o ataque dirigido por Quillemo, o actual sova do Bihé, contra o paiz de Caquingue, em que os Bihenos fôram derrotados pelos Gonzellos, e em que o proprio sova Quillemo foi prisioneiro do sova de Caquingue, onde seria degollado, se por elle não pagassem um grande resgate Silva Porto e Guilherme José Gonçalves (o Candimba).
Nas guerras entre os povos d'estes paizes, pode contar-se, que apenas um quinto dos combatentes sam armados de espingardas, e os outros 4-quintos de arcos e frechas, machadinhas e azagaias. Dizem, que uma guerra vai muito poderosa e forte, quando leva trinta tiros por espingarda. As armas de que usam sam as chamadas no commercio Lazarinas, sam muito compridas, de pequeno adarme, e de silex. Estas armas sam fabricadas na Bèlgica, e tiram o seu nome de um cèlebre armeiro Portuguez que viveu na cidade de Braga, no principio d'este sèculo, cujos trabalhos chegáram a adquirir grande fama, em Portugal e Colonias. Nas armas fabricadas na Bèlgica para os prêtos, que sam uma imitação grosseira dos perfeitos trabalhos do armeiro Portuguez, lê-se nos canos o nome d'elle--Lazaro--Lazarino, natural de Braga.
Os Bihenos não usam balas de chumbo, que sam, dizem elles, muito pesadas, e fabricam-n-as de ferro forjado. Os cartuxos, que elles fabricam tambem, levam 15 grammas de pòlvora, e t[~e]m 22 centìmetros de comprido.
As balas de ferro sam de diàmetro muito inferior ao adarme, pesando apenas 6 a 7 grammas. Como sam forjadas, sam mais polyedros irregulares do que espheras.
As armas assim carregadas, de nenhuma precisão, como se pode bem julgar, t[~e]m um alcance de cem metros apenas.
O alcance da frecha é de 50 a 60 metros, mas a grosseira precisão do tiro de frecha, entre os prêtos, não vai àlém de 25 a 30 metros. As azagaias sam todas de ferro, curtas e ornadas de pello de carneiro ou de cabra, não sam de arremêsso, e o Biheno em combate nunca as deixa da mão.
Talvez haja reparo em eu escrever pello de carneiro, mas cabe dizer, já que falei n'isso, que os carneiros ali não t[~e]m lã. Existem no paiz duas differentes especies, que os prêtos em Hambundo designam pelos
nomes de Ongue e Omême. O ongue tem um pello grosso e curto; e o omême, que tem o pello mais longo, differe muito da lã.
Estes carneiros, de raças exòticas, degeneráram de certo por effeito do clima e das pastagens. T[~e]m os Bihenos cabras de uma raça muito inferior, e o seu gado bovino é pouco, e de raça muito pequena e fraca.
As gallinhas abundam, mas, sam, como todos os animaes domèsticos no Bihé, de pequeno corpo.
Deixo aqui o que nos meus apontamentos encontrei de mais curioso a respeito d'este paiz, cujas posições e condições climatèricas se encontrarám em um capìtulo especial; e retomo o meu diario no dia 14 de Abril de 1878.
As ùltimas chuvas tinham cahido das 6 ás 9 da noite do dia primeiro de Abril, produzindo apenas 17 milimetros d'àgua, o que mostra terem sido já muito fracas. O tempo estava esplèndido, e alguns cirrus alvissimos que em seguida ás chuvas tinham pairado nos ares a enorme altura, desapparecêram, para deixar logar a um firmamento lìmpido, esclarecido de dia por um sol brilhante, e á noite constellado d'estrellas, que dardejavam sôbre a terra escura d'Àfrica essa luz melancòlica e scintillante, que ellas só t[~e]m nas regiões tropicaes.
Era o bom tempo de viajar, era já o dia 14 de Abril, e eu estava ainda no Bihé!
Eram 14 de Abril, e eu não partia, porque ainda não tinham chegado as fazendas e as cargas que deixámos em Benguella, em Novembro de 1877, isto é, uma grande parte d'ellas, que outras tinham chegado em principio de Março. Esta demora estava sendo de grande prejuizo para mim. Dos sete fardos de fazendas que me deixáram Capello e Ivens, quatro tinham sido gastos, com a sustentação da minha gente de Benguella e com a minha.
Ainda não tinha dado presente ao sova, que teimava em m'o pedir, e comecei a ver um sombrio futuro na minha empresa.
Reduzi as minhas despesas pessoaes, e por isso tive de dispor de duas horas por dia para caçar. Na falta de caça grossa, tinha, na margem esquerda do rio Cuito, nas terras cultivadas de Silva Porto, muitas
perdizes.
Chamei-lhe a minha capoeira, e todos os dias ia ali matar uma ou duas, não excedendo nunca esse nùmero para não destruir a provisão. Semelhante ao jogador que faz da banca meio de vida, e que sopeando os impulsos do vicio, se levanta com um pequeno ganho que lhe assegura a sustentação diaria; assim eu, contendo os instinctos de caçador, deixei muitas vezes a caça que podia matar; fazendo sôbre mim supremo esfôrço, para não proseguir n'um prazer, que destruiria ao mesmo tempo as munições pouco abundantes, e a caça necessaria ao meu sustento futuro.
Não eram só as bandas de perdizes dos campos de Silva Porto que forneciam um prato á minha modesta mesa. Centenares de rolas Africanas, esvoaçavam continuamente sôbre as àrvores das margens do Cuito, e vinham beber ao rio de manhã e de tarde. Os meus muleques pequenos, por meio de armadilhas caçavam algumas, que vinham figurar na minha mesa a par das perdizes e de um prato de massa, feita com farinha de milho cozida em àgua, que me servia de pão.
Assim pude reduzir a minha despesa, que era pêlo menos de quatro jardas de algodão branco por dia, custo de duas gallinhas.
A demora e com ella o decrescimento ràpido dos meus recursos, fez modificar o meu plano de viajar. O mucano aterrava-me, e se eu tivesse de pagar algum, ficava impossibilitado de sahir do Bihé. A demora da minha gente, tinha, com a ociosidade, feito despertar n'elles os vicios adormecidos pelas fadigas e pelos trabalhos da jornada.
O perigo pairava sôbre mim, e estava suspenso por um fio, como a espada sôbre a cabeça de Damocles. Resolvi, depois de muito cogitar, colocar-me em circunstancias de ter a força de meu lado, e de defender a tôdo o trance a minha propriedade.
Para isso precisava armar-me, e depois de ter armas precisava ainda de munições de guerra. Eu tinha 10 carabinas Snider, que me tinham dado Capello e Ivens; pude obter mais 11 das deixadas por Cameron no fim da sua viagem, e para estas armas tinha quatro mil cartuxos. Àlém d'estas, possuia umas 20 espingardas de silex, das ùltimas d'esse systema usadas pelos exèrcitos na Europa. Para estas não tinha munições. Fiz correr a noticia de que comprava tôdas as armas inutilizadas que me trouxessem. Principiáram a affluir ellas, e eu ia comprando as que poderia concertar, o que me não era difficil, por ter aprendido o officio de serralheiro e espingardeiro, com meu pai, que é habil artìfice, e que ainda hôje emprega as horas de òcio trabalhando na sua officina, mais bem montada que as d'aquelles que as t[~e]m por profissão. Lembra-me aqui uma anecdota engraçada. Um dia, entra na nossa quinta do Douro um cavalheiro que ia procurar meu pai, e ouvindo um martellar estridente n'uma casa pròxima á de habitação, dirigio-se para ali. Era uma vasta forja, onde dois homens, de tamancos nos pés, carapuças vermelhas na cabeça, largos aventaes de couro pendentes do pescôço e justos á cintura, a cara e mãos negras do carvão e do ferro, estendiam em enorme bigorna uma grossa barra, que projectava em todas as direcções chispas ardentes, ao bater cadenciado de dois pesados martellos, puxados por braços nus até ao cotovelo.
O cavalheiro parou á porta e perguntou: "¿O Senhor Doutor está em casa?" Meu pai, que era elle um dos ferreiros, respondeu-lhe com uma pergunta: "¿Que lhe quer o Senhor?"
O cavalheiro, que não era de genio brando, não gostou da pergunta do ferreiro, que tomou por insolencia, e respondeu pouco convenientemente, dizendo, que vinha procurar sua Excellencia, e que não admittia que um ferreiro que trabalhava em sua casa respondesse com perguntas a elle.
Meu pai quiz explicar o caso, dizendo, que o ferreiro e o Doutor eram a mesma pessôa, o que mais fez exasperar o seu interlocutor, que julgou lhe juntavam a zombaria á insolencia. Ambos de genio irritavel, iam ter uma desagradavel contenda, quando o outro ferreiro, que era eu, entreveio e fez cessar a guerilha; dando o visitante as suas desculpas logo que se convenceu da nossa identidade.
Esta pequena circunstancia de ter aprendido um officio, servio-me de grande auxilio, e foi um dos pequenos ribeiros que veio engrossar o rio dos felizes resultados da minha tentativa.
Assim, pois, mais um trabalho se veio juntar ao meu incessante labutar de tôdos os dias, e dentro em pouco pude aproveitar umas vinte-e-cinco espingardas que o gentio julgava inutilizadas.
Faltavam as munições, e era preciso fazel-as. Em casa de Silva Porto encontrei uma colecção completa da Gazeta de Portugal, e n'ella o papel necessario aos cartuxos. Nas cargas que esperava de Benguella
devia vir muita pòlvora, e por isso apenas me faltavam as balas. Obter chumbo era impossivel, e decidi logo fazer balas de ferro forjado. Faltava o ferro é verdade, mas esse era possivel obter-se.
Annunciei que comprava tôdo o ferro velho que me trouxessem, e não tardou a apparecer grande quantidade de enxadas inutilizadas, e sôbre tudo de arcos de barris de àgua-ardente. Só suspendi a compra de ferro quando tinha uns duzentos kilogrammas.
Mandei chamar 4 ferreiros do paiz, estabeleci duas forjas indìgenas no pateo interior, com grande escàndalo da prêta Rosa, administradora da povoação de Belmonte, e em quanto, fora da libata, os meus prêtos faziam carvão queimando os restos de uma paliçada de pao ferro, de uma libata abandonada, começou no pateo um forjar contìnuo.
O primeiro trabalho a fazer era reduzir tôdo aquelle ferro a varão cylìndrico do diàmetro das balas. Os ferreiros haviam-se com grande destreza. Dobravam os arcos em molhos de 20 centìmetros de comprido por 4 de espessura, e levando-os ao rubro, mergulhavam-n-os em uma massa de caliça e àgua. Depois de frios voltavam á forja, e chegados á tempera da fusão eram facilmente caldeados, tornando-se em massa ùnica e homogènea. Depois d'isso o trabalho era facil.
A compra das armas e do ferro tinha deminuido consideravelmente o meu haver.
Eu não possuia missangas, porque um sacco que me mandáram os meus companheiros não tinha curso nos sertões para onde me dirigia. Tratei de procurar alguma no Bihé, e pude comprar aos prêtos aqui e àlém uma pequena porção, que me fez a carga de um homem.
Esta compra veio dar um nôvo golpe na minha fazenda de algodão, e por 17 de Abril, possuia apenas um fardo.

1. Folle.
2. Folle preparado para servir.
3. Bocal de barro em contacto com a chama.
4. Tenaz.
5. Martello grante.
6. Um bocado de cano de espingarda encabado em páo que serve ao ferreiro para levar áo lume pequenas peças.
7. Martello pequeno.
8. Panellas de cozinha.
9. Panella para capata.
10. Tambores dos batúques.

Figura 24.--Objectos fabricados por Bihenos.

Figura 25A.
Quinda, cesta de palha que
não deixa passar a àgua.
Figura 25B.
Peneiro para seccar a Farinha (fuba).
Figura 25C.
Peneiro de peneirar.
Figura 25D.
Cabaça para tirar Àgua a capata.

Figura 26.--Uma Casquilha do Bihé.

E sôbre tudo para o viajante explorador, como o seu dispender de fazenda é em trôco de alimento, tantas jardas de fazenda bôa tem de dar por um objecto, como de jardas de má fazenda dará pelo mesmo objecto.
O algodão branco de inferior qualidade e o zuarte sam o melhor dinheiro que pode levar o viajante n'aquellas paragens.
Nas missangas já se não dá o mesmo caso, e a que é moda aqui, não é recebida àlém, ás vezes em pontos pouco distantes, por ex.: no Bailundo querem muito a missanga preta, que já no Bihé não tem curso.
Ha contudo uma missanga que é quasi geralmente bem recebida em toda a Àfrica Austral. É ella uma missanga miuda encarnada, de ôlho branco, a que no commercio em Benguella dam o nome de Maria 2^a.
O buzio miudo (caurim) serve àlém Cuanza até ao Zambeze, mas o graüdo não é recebido.
O arame de latão ou de cobre vermelho é estimado para manilhas; mas, n'estas paragens, não dêve ter mais de 3 a 5 milimetros de espessura.
Os barretes vermelhos, sapatos de liga, fardas de soldados, etc., sam frandulagens, que, sendo muito estimados presentes para sovas e secúlos, sam pèssima moeda.
Os cobertores, e sôbre tudo aquelles vistosos que na Europa usamos para embrulhar as pernas em viagem, sam muito cubiçados do gentio; estando porem no caso das fardas e barretes, que, sendo òptimo presente, não sam bôa moeda.
Os realejos, caixas de mùsica, e outros objectos d'este gènero, estam no mesmo caso.
Prestigiações, sortes de physica e chìmica, produzem certa impressão no gentio, mas não tanta como se julga na Europa. Não comprehendendo as causas que determinam certos phenòmenos, lançam a cousa á conta de feitiçaria, com que explicam tudo que não sabem explicar de outro modo.
Ás vezes até podem ser contraproducentes, e prejudicarem aquelle que as fizér.
De tudo o que eu vi fazer impressão em pretos, aquillo que mais os admira é verem um bom atirador.
Mêtta qualquer, diante de um ajuntamento de pretos, 6 balas em alvo pequeno e distante, corte o pequeno fruto de uma àrvore, mate um passarinho, e fique certo de que ganha logo a maior consideração, e será objecto das conversações por muito tempo.
A este respeito vou narrar um facto que se deu na libata, comigo. Um dia, um cirurgião Biheno appareceu ali trazendo um remedio que era preservativo contra as balas, áquelle que o tomasse.
Isto é crença geral entre Bihenos, e muitos ha que gastam tudo o que t[~e]m para adquirirem aquelle abençoado remedio, que os torna mais invulneraveis do que Achilles, porque nem mesmo lhes deixa a possibilidade de receberem a morte por um calcanhar.
Um mestiço civilizado, e educado em Benguella, encontrei eu, que se ria de mim quando eu lhe dizia que se lhe desse um tiro furava-o de lado a lado, apesar do remedio contra as balas de que elle fazia uso.
Mas vamos ao conto. O cirurgião Biheno trazia uma panellinha de meio litro cheia do precioso preservativo, e apregoava que aquelle que o tomasse seria depois tão invulneravel como o era a panella que continha o lìquido, panella a que tôdo o mundo, no seu dizer, tinha atirado sem que as balas lhe fizessem o menor damno. Quiz elle dar ao pùblico uma prova irrefutavel, e desafiou-me de atirar á panella; tendo previamente o cuidado de me marcar a distancia (uns 80 passos) a que elle julgava ser impossivel acertar em tão pequeno alvo.
Tomei a carabina, atirei, e fiz a panella em cacos, derramando-se o precioso licor.
Nunca vi applaudir mais phrenèticamente alguem, do que eu fui applaudido então pêlo gentio entusiasmado.
O pobre cirurgião foi completamente corrido no meio de geral assuada.
Este pobre homem foi ali buscar o seu descrèdito.
Os melhores atiradores do sertão sam grandes mediocridades, e sam bem mais para temer pretos de frecha e azagaia, do que de arma carregada.
O Verissimo partio a reunir os carregadores, voltando a 5 de Maio com alguns, e dizendo que outros chegariam no dia seguinte.
N'esse dia recebi cartas e cargas de Benguella, enviadas para mim por Pereira de Mello e Silva Porto.
Fizéram-me uma tal impressão aquellas cartas, que no meu diario escrevi então, na cabeça do capìtulo em que falo do Bihé, aquelles dous nomes, e hôje ainda os conservo, como preito e homenagem áquelles dous cavalheiros.
Enviava-me Pereira de Mello 16 espingardas, 30 kilogramas de sabão, um relogio e uma carga de sal, tudo objectos de subido valor para mim.
Não é todavia esta valiosa remessa que me dictou a immensa gratidão para com o governador de Benguella; foi a sua carta e fôram as expressões dos seus sentimentos a meu respeito.
Dizia-me o Governador, que não hesitasse em seguir a minha viagem, que contasse com todo o apoio que elle me podia dar como autoridade, e se acaso ordens superiores coarctassem o Governador, que podia contar com o homem, com Pereira de Mello.
Dizia-me elle, que não tinha recebido de superior autoridade ordem alguma para não me fornecer os meios de que eu carecesse; mas que, se tal ordem viesse a receber, elle e os negociantes de Benguella estavam promptos a enviar-me tudo o que eu pedisse.
Vinha depois a carta de Silva Porto, que não menos valiosa era.
Dizia-me o velho sertanejo, que não partisse sem recursos. Que requisitasse para Benguella o que eu julgasse necessario, e que elle se encarregaria de me fazer chegar ao Bihé aquillo que eu pedisse.
Terminava o honrado ancião por estas palavras: "Estou velho, mas rijo e forte; se o meu amigo se vir n'um d'esses trances, vulgares no sertão, em que a esperança se perde, sustente-se no ponto em que estivér, e dê tudo ao gentio para me fazer chegar ás mãos uma carta sua. Não hesite em o fazer, e tenha esperança; porque no mais curto espaço possivel eu serei com-sigo, e comigo irám todos os recursos, todos os socorros. Sabe que eu não uso fazer offerecimentos vãos, quando precisar escreva, e eu irei logo."
A estas palavras não preciso eu de fazer commentarios, e nem mesmo aqui lhe juntarei uma palavra de agradecimento, que seria ridìcula.
Aquella remessa que recebi de Benguella foi-me trazida por um irmão do Verissimo, Joaquim Guilherme, que me disse deverem chegar no dia seguinte o resto das cargas da expedição, e com ellas a pòlvora por que eu almejava.
Como sempre que chegava um portador de Benguella, Joaquim Gonçalves trazia-me uma lembrança de Antonio Ferreira Marques.
Eram sempre alguns regalos para a pobre mesa do sertanejo.
Chegou finalmente o 6 de Maio, e começou logo grande tarefa de encher cartuxos, porque de manhã recebi a pòlvora.
Durante 4 dias empreguei entre 36 e 40 homens no encher dos cartuxos, que estavam promptos, e só era deitar-lhes pòlvora e dobral-os.
Ficou tudo prompto a 10 de Maio, e no dia 11 tinha eu reunidos todos os carregadores prompto a seguir no dia immediato. Fiz a distribuição das cargas, e dei as ordens para a partida.
Na manhã de 12, quando esperava pôr-me a caminho, vejo que só tinha uns trinta homens, tendo fugido todos os outros.
Sube então, que na tarde da vèspera, tinha andado o prêto Muene-hombo de Silva Porto, com uns pretos desconhecidos, dizendo aos Bihenos, que eu os queria levar para o mar, e que aquelles que fossem comigo não voltariam mais, porque eu os venderia.
O prêto Muene-hombo fugira com os Bihenos, e d'elle não havia mais noticia.
Esta nova deu-me um profundo golpe de desànimo.
Os carregadores, que eu a tanto custo tinha reunido, que eu com trabalho imenso tinha contratado, a quem fôra preciso desfazer uma a uma todas as aprehensões que tinham contra a minha empresa, fugiam-me, convictos de que eu os ia encaminhar á perdição.
Era um golpe terrivel.
Breve se espalharia no Bihé a noticia do facto; breve se arreigaria entre os pretos aquella convicção, mal destruida pelos meus reïterados argumentos, e então seria impossivel obter um só carregador mais.
Quasi desanimei.
Pela primeira vez, depois que em Lisboa tinha pensado em ser explorador, entrou no meu ànimo o desalento.
Eu sabia que lutar com uma convicção de pretos era baldado esfôrço.
¿Quem seria aquelle que levou o prêto Muene-hombo a trair-me?
¿Quem seriam os pretos que com elle estivéram na libata no dia anterior?
¿Qual seria a mão occulta que moveu aquella intriga?
Fazia a mim mesmo estas perguntas, ás quaes, nem então nem depois, encontrei resposta que fosse àlém de suspeita muito vaga.
Perdi a esperança, e fiquei possuido de um verdadeiro desalento.
Meditei todo o dia, e veio o pensamento de voltar a Benguella, mas de repente lembrou-me a carta de Silva Porto recebida dias antes, e lembrou-me a carta de Pereira de Mello em que me dizia "Avante!"
¿Porque não aceitaria eu o offerecimento de Silva Porto? Se elle viesse ao Bihé elle me obteria carregadores.
Decidi escrever-lhe no dia seguinte, e esta idéa tranquilizou um pouco o meu ànimo alquebrado.
Com a noute veio a reflexão, e eu escudado no ùltimo recurso, o pedir o auxilio do velho sertanejo, resolvi já forte com aquelle apoio, trabalhar, lutar ainda, antes de recorrer a elle.
Na madrugada de 13, fiz marchar o Verissimo e alguns pretos de confiança do Silva Porto a procurarem contratar nova gente.
Voltáram elles dando-me algumas esperanças, e então começou de nôvo o trabalho de organizar nova comitiva, trabalho mais difficil então do que antes.
Aconselháram-me sahir de Belmonte e ir acampar no mato a alguma distancia; porque me diziam, que uma comitiva em marcha, despertava nos Bihenos vontade de se alistar n'ella.
A 22 de Maio já eu tinha podido obter alguns carregadores, ainda que poucos, e resolvi com os meus Quimbares, aquelles carregadores e gente de ganho, seguir no dia 23 para um acampamento, idéa que levei a effeito indo estabelecer o campo nas matas do Cabir.
N'esse dia ao escurecer, apparecéram uns 11 carregadores trazidos por um prêto Antonio, homem já velho, natural de Pungo Andongo, que estivera ao serviço de dois sertanejos de nomeada, Luiz Albino, e Guilherme Gonçalves.
Durante a noute houve muito frio, forçando-nos a passar a maior parte d'ella despertos junto ás fogueiras.
O soveta de Cabir veio visitar-me no dia immediato, trazendo-me um pôrco de presente, que eu retribui, ficando nós nos melhores termos.
Emprestou-me elle alguns pilões, e mandou mulhéres para fazerem farinha de milho.

Figura 27.--Mulhéres do Bihé pisando Milho.

Figura 28.--Mulhéres Ganguellas Luimbas e Loenas.
Modo por que cortam os Dentes incisivos.

¿Para quê? me perguntarám os meus leitores.
Eu lhes respondo. O chefe de uma comitiva em marcha nos sertões da Àfrica, onde tivér de empregar carregadores, tem de inutilizar e tornar inaproveitaveis tôdos os objectos que fôr forçado a abandonar, e isto por duas razões, uma que diz respeito á sua propria gente, e outra ao gentio dos paizes que atravessa.
Se consentio que os seus proprios carregadores aproveitem alguma cousa da carga abandonada, tôdos os dias terá carregadores doentes, que o obrigarám a abandonar cargas, para d'ali retirarem objectos em proveito proprio; organizando assim um industrioso roubo permanente.
Por outro lado, sabendo o gentio da terra, que lhe deixam cargas por falta de carregadores, não deixará de ministrar ás comitivas futuras, na muita capata que lhe offerecem, um tòxico qualquer, que, se não matar, os torne doentes; obrigando assim o chefe a abandonar cargas em seu favor; o que não fazem, sabendo que nada aproveitam, porque tudo o que houvér de ser abandonado é inutilizado.
Foi isto lição de Silva Porto, de que sempre fiz uso.
No dia 14 de manhã, não tendo noticia do Chacaiombe inutilizei 61 cargas!

RAPIDO GOLPE DE VISTA RETROSPECTIVO.

Resultado dasobservações de Capello e Ivens, da Costa aCaconda.
Nome dos Logares. Longitude E. de Greenwich Latitude Sul. Declinaçãoda Agulha Inclinação da Agulha. Altitude em metros.
° ' " ° ' " ° ' ° '
Benguella 13 25 20 12 34 17 23 30 O. 39 37 7
Dombe Grande 13 7 45 12 55 12 23 26 39 44 98
Quilengues 14 5 3 14 3 10 23 3 40 40 900
Ngola 14 39 1 14 16 46 --- --- 1,410
Caconda 15 1 51 13 44 0 22 30 --- 1,676

Quadro das Observações Astronòmicas feitas pelo Major Serpa Pinto
entre Caconda e o rio Cuanza.

Anno de 1878. Logares ondeobservei. Hora dosChronòmetros. Estado paraGreenwich.
H. M. S. H. M. S.
a Janeiro 14 Vicete (junto ao Cunene) 8 10 24 + 1 0 15
b " " " 10 27 44 + 3 23 2
c " 16 Fende(Cunene) 5 10 2 + 3 23 6
d Fevereiro 12 Libata doPalanca 7 55 0 - 1 0 0
e " " " 10 30 56 + 3 27 18
f " 13 Libata doCapôco 9 3 0 - 1 0 0
g " " " 9 57 15 + 3 27 27
h " 18 " 10 18 14 + 3 28 8
i Março 16 Belmonte(Bihé) 10 25 0 - 1 4 0
j " 18 " 5 6 10 + 3 31 43
l " 22 " { 5 3 1 } ---
m { }
n { 9 51 41 }
o Abril 2 " --- ---
p " 3 " --- ---
q " 4 " --- ---
r " 5 " --- ---
s " " " 4 53 40 + 3 24 29
t " 6 " --- ---
u " 7 " --- ---
v " " " 0 8 32 - 0 57 43
x " " " 10 50 54 ---
z " " " 10 55 6 + 3 34 54
0 " 23 " 9 4 25 ---
1 " " " 9 38 16 + 3 37 26
2 Maio 24 Matas do Cabir(Bihé) --- ---
3 " " " 9 38 55 + 3 42 47
4 | " 31 9 12 5 + 3 43 56
5 Junho 1 " --- ---
6 | " 9 6 22 33 + 3 45 52
7 " " " 6 6 53 ---
8 | " 10 " --- ---
9 " " " 9 17 21 + 3 45 57
Natureza daObservação Dupla altura do astro. [A] [B] [C] [D] Resultados
º ' " º ' H. M. ' " º '
a Alt. Mer. [-)] 101 3 0 --- --- -3 30 1 Lat. 14 2 S.
b Chron. [*-] 101 2 0 14 2 --- " 1 Long. 15 14 E.
c " 104 31 0 " --- " 1 " 15 25 E.
d Alt. Mer. [-)] 97 3 10 --- --- -0 50 1 Lat. 13 20 S.
e Chron. [*-] 99 6 30 13 20 --- " 1 Long. 15 27 E.
f Alt. Mer. [-)] 98 30 30 --- --- " 1 Lat. 13 9 S.
g Chron. [*-] 115 5 30 13 9 --- " 1 Long. 15 30 E.
h " 104 15 30 --- --- " 1 " 15 28 E.
i Alt. Mer. [-)] 131 38 30 --- --- " 1 Lat. 12 22 S.
j Chron. [*-] 104 58 40 12 22 --- " 1 Long. 16 51 E.
l Alt. iguaes 103 21 10 " --- " 2 Estado 3^h.31^m.54^s.
m
n
o Alt. Mer. [*-] 144 49 0 --- 1 8 -3 30 1 Lat. 12º 23' S.
p " 144 4 0 --- " " 1 " 12 23 S.
q " 143 20 0 --- " " 1 " 12 22 S.
r " 142 32 0 --- " " 1 " 12 23 S.
s Azimuth
266-30 [*-]
93 34 20 12 22 --- -1 0 1 Variação 21 11 Oes.
t Alt. Mer. [*-] 141 47 0 --- 1 8 -3 30 1 Lat. 12 22 S.
u " 141 3 0 --- " " 1 " 12 22 S.
v Alt. prox.
do Mer. [*-]
140 3 0 --- --- " --- " 12 22 S.
x Eclipse do 1^o
sat. de Jùp.
--- --- --- --- 1 Long. 16 46 E.
z Chron. [*-] 65 48 0 12 22 --- -1 0 1 Diff p^a
o logar
4^h.42^m.23^s.
0 Eclipse do 1^o
sat. de Jùp.
--- " --- --- 1 Long. 16º 49' E.
1 Chron. [-)] 71 31 40 " --- -0 30 1 Atrazado 4^h.44^m.56^s.
2 Alt. Mer. [*-] 113 10 40 --- 1 7 -1 25 1 Lat. 21º 22' S.
3 Chron. [*-] 79 22 50 12 22 --- " 1 Long. 16 53 E.
4 " 86 38 10 12 28 --- " 3 " 17 9 E.
5 Alt. Mer. [*-] 110 26 40 --- --- " 1 Lat. 12 28 S.
6 Chron. [)-] 63 59 30 12 35 1 9 35 1 Diff p^a
o logar
4^h.54^m.34^s.
7 Eclipse do 2^o
sat. de Jùp.
--- --- --- --- 1 Long. 17º 25' E.
8 Alt. Mer. [*-] 108 15 20 --- 1 9 -0 40 1 Lat. 12 35 S.
9 Chron. [*-] 82 43 23 12 35 --- " 3 Long. 17 25 E.

Trànsito de Mercurio a través do Sol em 6 de Maio de 1878.

Data Logar daObservação Latitude Longitude Hora do Chron.
para a hora local
Altura do Sol.
Erro do sext.
- 1' 25".
Media de 4 Media de 4
º ' " º ' " H. M. S. º ' "
6 Maio 1878 Belmonte 12 22 40 16 49 24 10 6 50 74 36 55
Data Estadoatrazado de Greenw. Hora do 1^o contacto interno. Longitude
No chronòmetro
H. M. S. H. M. S. º ' "
6 Maio 1878 3 39 39 11 35 29 16 50 15

Mappa 3.--Entre Cubango e Cuanza

Figura 29.--Montes termìticos, dos terrenos entre a costa e o Bihé.
1 e 2 tem altura entre 2 e 3 decimetros, 3 e 4 entre 1 e 2 metros.

Anno de 1878 6 Horas. 9 Horas. Meio dia 3 Horas. 6 Horas.
Mez. Dia. [E] [F] [E] [F] [E] [F] [E] [F] [E] [F]
Março 25 629.8 19.1 630.5 20.4 629.2 22.4 628.8 23.2 630.0 21.6
" 26 632.0 20.1 631.9 21.2 630.8 21.6 629.8 21.5 629.5 21.0
" 27 629.5 19.4 632.0 19.9 629.6 21.0 628.5 21.3 630.0 20.6
" 28 630.0 19.4 631.6 19.9 629.5 20.4 629.0 22.1 629.0 21.6
" 29 630.2 20.6 632.3 20.8 630.0 21.6 628.5 22.5 629.2 22.1
" 30 631.0 18.3 632.0 20.6 631.0 21.9 630.0 22.2 629.9 21.3
" 31 631.0 19.2 632.3 20.0 631.2 20.9 629.2 21.3 631.0 20.4
Abril 1 630.5 18.6 632.0 19.5 630.6 20.4 630.0 19.9 630.0 19.8
" 2 631.0 17.5 632.0 18.7 630.0 21.1 629.3 20.2 630.0 20.2
" 3 630.0 18.8 632.5 20.0 630.5 21.1 630.0 21.2 629.0 20.9
" 4 632.0 18.6 632.0 20.2 630.0 21.2 629.5 21.6 630.0 20.7
" 5 630.0 18.8 632.0 20.0 630.3 21.1 630.0 22.0 629.8 20.1
" 6 630.0 17.2 632.3 19.8 631.0 20.4 630.5 21.7 630.0 20.2
" 7 630.0 17.8 632.0 19.7 630.5 21.0 629.0 22.7 630.0 21.5
" 8 629.0 17.6 632.0 19.9 630.0 21.5 629.5 22.8 630.0 21.3
" 9 629.5 18.4 631.5 20.4 631.0 21.8 629.3 22.6 629.8 21.1
" 10 631.2 18.1 632.8 20.5 631.5 21.7 629.4 22.4 630.0 21.5
" 11 630.5 16.6 631.9 20.2 631.0 21.4 629.5 23.0 629.8 21.7
" 12 629.0 16.4 629.9 20.1 629.0 21.1 627.0 22.6 629.0 21.8
" 13 628.3 18.2 630.0 20.2 629.6 21.6 629.4 22.3 629.5 21.1
" 14 629.0 18.6 631.5 20.4 630.6 22.0 629.5 23.1 630.0 21.7
" 15 631.4 17.2 632.6 19.7 631.0 21.3 630.5 22.4 630.5 20.7
" 16 630.6 16.1 632.0 19.0 630.3 21.3 629.0 22.8 630.0 20.2
" 17 632.6 19.4 633.0 20.7 631.0 22.0 630.0 22.2 630.0 20.0
" 18 631.6 18.0 632.0 20.1 630.0 20.4 629.7 22.7 629.9 19.8
" 19 631.2 17.8 632.2 20.3 630.6 21.0 630.1 23.0 630.5 19.7
" 20 630.7 16.5 631.9 20.1 630.4 21.2 630.0 22.7 630.0 20.1
" 21 631.0 15.6 632.1 17.8 630.3 19.8 629.3 20.6 629.8 19.5
" 22 630.0 14.6 632.0 17.1 630.0 19.2 628.7 20.4 629.0 19.4
" 23 630.3 14.9 632.0 17.9 630.5 20.0 629.2 21.3 630.0 20.0

Boletim meteorològico feito a 0h. 43m. de Greenwich ou 1h. 51m. do Bihé.

Mez.Dia[E][F1][F2][G]Direcção do Vento.Estado da Atmosfera.
Março25628.722.920.240S.S.O. fraco{Durante a noute
{trovoada, hôje ceo
{limpo
"26629.622.120.02O.S.O. fraco{Nublado de noute,
{de dia cirrus.
"27629.121.020.131E. forteChuva durante a noute.
"28628.821.521.20CalmaAlgumas nuvens, cirrus.
"29629.022.321.60 "" " "
"30630.022.021.00 "" " "
"31629.521.520.80E. forteNublado.
Abril1630.520.219.417Calma{Nublado.
{De noute trovoada a N.O.
"2629.319.819.10E. forteAlgumas nuvens, cirrus.
"3630.020.919.10E. moderado " " "
"4630.321.520.20 " " " "
"5630.521.820.60 " " " "
"6630.021.119.20 " " " "
"7629.321.819.70 " " " "
"8628.122.519.80 " " " "
"9629.622.220.60Calma " " "
"10629.021.819.90 "Ceo limpo.
"11629.821.919.80 " " "
"12627.821.819.80 "Alguns cirrus.
"13629.522.020.10 "Nublado.
"14630.022.520.20 "Alguns cirrus.
"15630.521.619.60E. forte.Ceo limpo.
"16629.821.619.70CalmaAlguns cirrus.
"17630.022.018.60E. forte. " "
"18630.022.220.30 " " "
"19630.422.520.10E. moderado " "
"20630.222.020.20 " " "
"21629.819.915.50 "Ceo limpo.
"22629.619.916.10 " " "
"23630.020.518.30E. forte " "
1. Ràpido da Libata Grande.
2. Ràpido de Canhacuto.
3. Ràpido de Quiverequete.

Figura 29A.--Viagem ao Cunene.

CAPÌTULO VII.

ENTRE OS GANGUELAS.

Passagem do Cuanza--Os Quimbandes--O sova Mavanda--Os rios Varea e Onda--Fetus arbòreos--Atribulações--Escravos--O rio Cuito--Os Luchazes--Emigração de Quibocos--Cambuta--O Cuando--Leopardos--Os Ambuelas--O sova Moem-Cahenda--Descida do rio Cubangui--Os Quichobos--Peripecias--Parto para o Cuchibi.
No dia 14 de Junho, como eu tinha decidido, levantei campo, e ás 10 horas comecei a passagem do Cuanza, que durou duas horas.

Figura 30.--Passagem do Cuanza.

Figura 31.--Homem e Mulhér Quimbande.

Figura 32.--Raparigas Quimbandes.

Muitos amulêtos lhe pendiam de um collar de missangas.
Se Mavanda é grande, possue coisas grandes tambem, porque me trazia de presente o maior boi que vi em Àfrica.
Depois dos extensos comprimentos do costume, elle disse-me ex-abrupto, que me vinha pedir um favor, e era o de lhe fazer um curativo ao rebanho de gado bovino, que costumava ir pastar muito longe, prenoitando ás vezes fora do curral, e sendo, nas florestas em que se acoutava, atacado por feras que lhe causavam grande damno.
Dei-lhe immediatamente o remedio com um conselho, e foi elle, o de ter um pastor; porque, se o gado entregue a si mesmo ia longe, se fosse guiado ás pastagens iria onde o pastor o conduzisse. Elle não achou mao o conselho, e disse-me, que apesar de ser contra os usos do paiz o fazer vigiar o gado, daria um pastor ao seu, para evitar as contìnuas perdas.
Mostrei-lhe o realejo, as armas, etc., atirei diante d'elle, e vi-o com prazer caminhar de espanto em espanto. Pela tarde retirou-se muito satisfeito, e nos melhores termos de amizade.
Logo que se retirou o sova, chegáram uns enviados do sova Capôco com uma carta para mim. Dava-me noticia do Chacaiombe, e dizia-me, que me mandava os carregadores, pedindo-me para eu consentir, que fôsse comigo uma comitiva sua, que desejava enviar aos sertões do Zambeze a fazer negocio.
Em vista da carta, decidi demorar-me ali uns 6 dias a esperar os carregadores, não contando muito, ainda assim, que elles viessem, e n'esse sentido respondi ao sova Capôco.
Em vista d'aquella deliberação, ordenei a reconstrucção do acampamento para o dia seguinte, mandando cobrir todas as barracas de ramos verdes, com receio de um incendio.

Figura 33.--Os Bihenos construindo as Barracas nos Acampamentos.

Figura 34.--Esqueleto da Barraca.

Figura 35.--Barraca concluida em uma hora.

Figura 35A.--Ganguelas á Quimbandes.

Figura 36.--O sova Mavanda vem dançar mascarado ao meu campo.

Figura 37.--Mulhér Quimbande carregada.



1. Cachimbo.
2, 2. Facas.
3, 3. Cacetes de guerra.

Figura 38.

Mappa 4.--O Paiz dos Quimbandes

Figura 39.--Ditassoa, peixe do rio Onda.

Figura 40.--Fetus arbòreos das margens do rio Onda.

Figura 41.--Mulhér de Cabango com o ferro de coçar a cabeça.

Figura 42.--Homem de Cabango.

Figura 43.--Homem de Cabango.

Figura 44.--O Lago Liguri.

A 30 de Junho, segui a leste, aproveitando toda a margem do Bitovo, para caminhar livre de floresta, e d'ali passei ao valle do ribeiro Chiconde, cujo curso segui até ao Cuito, onde acampei. Fez-me profunda impressão o contemplar as aguas do ribeiro Chiconde, correndo velozes para o Cuito. Até ali tinha encontrado àguas correndo ao oceano Atlàntico, e essas àguas, cujo murmurio acalentava o meu somno, eram como um laço que me prendia á minha patria, indo cahir no mesmo mar que banhava o meu Portugal. Se ellas podessem converter o seu murmurio em falas, que de saudades, que de angùstias que viram, podiam ir contar aos meus!
Ao deixar o Bitovo partio-se esse laço que me ligava á costa do Oeste. ¡Que pungente saudade não foi a minha!
Fazia um anno n'aquelle dia que eu fôra dar o abraço de despedida a meu velho pai, e recordou-me mais do que nunca que elle me deixara com o presentimento de não mais me ver.
N'aquelle dia já assentava o meu campo no paiz dos Luchazes, tendo deixado o dos Quimbandes com o ribeiro Bitovo.
Viéram alguns homens e mulhéres das povoações da margem direita do Cuito ao meu campo; mas nada trouxéram que vender, e nós precisàvamos de comida. Prometêram contudo que no dia seguinte traziam algum Massango, porque não cultivam milho nem mesmo Massambala.
Nos seus arimbos cultivam o Massango, alguma mandioca, feijão fradinho, ginguba, mamona e algodão, tudo em pequena escala, apenas o necessario para o consumo do cultivador.
Colhem bastante cêra, já apanhada nas florestas, e já de colmeas que collocam sobre as àrvores, e onde os enxames v[~e]m habitar.
A cêra é um gènero, que elles permutam por peixe sêco do Cuanza, que os Quimbandes ali vam levar. O rio Cuito ali não tem peixe.
Os povos Luchazes sam pouco viajantes, e apenas deixam as suas povoações para fazerem pequenas caçadas aos antìlopes, afim de obterem pelles para se vestirem.
A pequena cultura é feita por homens e mulhéres.
O sovêta que governa as poucas povoações da margem do rio Cuito é o Muene-Calengo, que paga tributo a outro sova Muene-Mutemba, cuja povoação não pude precisar bem onde fica.

Figura 45.--Luchaze das margens do rio Cuito.

Figura 46.--Mulhér Luchaze carregada.

Figura 47.--Isqueiro dos Luchazes, Caixa da isca e Fuzil.

Figura 48.--Atundo, Planta e Fruto.

Mappa 5.--Disposição da àgua em Cangala

Figura 49.--Povoação de Cambuta, Luchaze.

Figura 50.--Mulhér Luchaze de Cambuta.

Figura 51.--Homem Luchaze de Cambuta.

1 e 3. Machados.

2. Frecha.

4, 4. Ferros de frecha.

5. Enxada.

Figura 52.--Objectos fabricados pelos Luchazes.

Mappa 6.--De Cambuta ao Cubangué

Figura 53.--Mulhér Luchaze do Cutangjo.

Figura 54.--Cachimbo Luchaze.

Figura 55.--Capoeira dos Luchazes.

Figura 56.--Urivi, Armadilha para caça.

Figura 57.--Luchaze do Cutandjo.



1. Bainha de faca.
2. Cesto.
3. Travesseiro de pao.
4. Cortiço d'abelhas.

Figura 58.--Objectos Luchazes.

No dia seguinte de manhã, levantei uma grosseira planta do paúl, rectifiquei a minha posição, e levantei um pequeno padrão, construido de barro, dentro da barraca das observações, onde enterrei um frasco que fôra de quinino, perfeitamente rolhado, contendo um papél, onde, de um lado, por baixo do nome d'El-Rei, escrevi os nomes dos membros da commissão central permanente de geographia, e do outro, as coordenadas do ponto, e a data.
Depois do meio-dia, os guias Luchazes fôram mostrar-me a nascente do rio Queimbo, affluente do Cuando por oeste. Marquei estas nascentes, 6 milhas geogràphicas a S.O. do paúl da nascente do Cuando.
Os doze carregadores Luchazes estavam muito saudosos de suas casas, e queixavam-se muito do frio. O paiz é despovoado, e deve ter muita caça, porque d'ella haviam rastos, continuando a apparecer leopardos, que d'ella sam tambem indicio certo. Nós não vimos nenhuma. Era preciso seguir avante, porque os mantimentos desappareciam ràpidamente, e precisàvamos alcançar as povoações Ambuelas, para escapar á fome.
Na manhã de 12 de Julho, por um frio de dois graos acima de zero, mandei levantar campo e preparar para partir; não conseguindo deixar o acampamento antes das 8 horas.

Mappa 7.--Paúl da nascente do Cuando

Figura 59.--O Cuchibi.

Figura 60.--Folha e Fruto do Cuchibi.
(Tamanho natural.)

Figura 61.--O Mapole, Àrvore e Folha.

Figura 62.--Mapole, Fruto e disposição dos Ramos.

Figura 63.--Moene-Cahenda, Sova de Cangamba.
1. O que elle traz na mão.

Figura 64.--Chimbenzengue.
Machado dos Ambuelas de Cangamba.

Figura 65.--Cachimbo Ambuela.

Mappa 8.--De Cangamba ao Cuchibi

Figura 66.--O quichôbo.

CAPÌTULO VIII.

AS FILHAS DO REI DOS AMBUELAS.

Figura 67.--Oúco.

Figura 68.--Opumbulume.

Figura 69.--O Rato mencionado.

Figura 70.--Songue.

Figura 70A.--Rasto do Songue.

Figura 71.--Muene-Caú-eu-hue, Chefe dos Ambuelas.

¿Como occultar da sua propria comitiva, dos seus proprios carregadores, esses despojos humanos, que seriam olhados como uma fonte de maleficios?
A photographia, de tôdos o meio mais incompleto de fazer esses estudos, apresenta, ainda assim, difficuldades insuperaveis.
Em primeiro logar, é difficil empregal-a em viagem de exploração, onde nem sempre dá os resultados que d'ella se esperam; sendo quasi impossivel o transporte de um laboratorio, em frascos de vidro á cabêça de um carregador, que tropeça e cahi dez vezes por dia. Eu sei-o de experiencia propria, e que o digam Capello e Ivens.
Suppondo porem que se podiam mais ou menos facilmente empregar os meios photogràphicos, ¿qual era o indìgena do interior que deixava apontar uma màchina, e estava um momento firme diante da objectiva da càmara escura?
No correr da minha narrativa terei occasião de narrar uma anecdota acontecida comigo e com o photògrapho Suisso M. Gross, em que eu consegui obter um grupo de Betjuanas, já meio-civilizadas, com uma paciencia e uma despesa incalculaveis.
Com os Mucassequeres, aconteceu-me, de nem mesmo lhes poder apanhar o typo com o lapis e papél!
Voltemos á minha narrativa.
Ao deixarem-me na orla da floresta, já noute, os meus Mucassequeres disséram-me umas palavras, que provavelmente queriam dizer bôa noute, e fôram-se. A claridade espalhada na atmosphera pelas fogueiras do meu campo, e o som de alegres cantares guiavam meus passos, e pouco depois entrava eu no recinto do acampamento, onde, ao som da mùsica bàrbara dos Ambuelas, havia um dançar phrenètico.

Figura 72.--Mulhér Ambuela.

Figura 73.--Opudo.

Figura 74.--Capêu.

Figura 75.--Barco e Remo do Cuchibi.

Figura 76--Tambor das Festas Ambuelas.

Figura 77.--Caú-eu-hue (Cidade do Cuchibi).

Figura 78.--O Irmão do Sova.

Figura 79.--Caçador Ambuela.

Figura 80.--Chinguêne.
1/4 do natural. Pelle molle e desprovida de escamas. Dorso castanho com
manchas mais escuras; forma triangular, sendo o ventre um lado e o dorso
o vèrtice; 3 barbatanas ventraes, 2 subdorsaes e duas dorsaes. Dois fios
musculares sobre a boca e dois na maxilla inferior. É especie de um
gènero muito vulgar em Àfrica e que conta muitas especies.

Figura 81.--Lincumba.
Tamanho natural. Escama dura e larga; dorso cinzento azulado; ventre
branco prateado; 5 barbatanas ventraes, 1 lombar. Barbatanas moles.

Figura 82.--Chipulo ou Nhele.
Tamanho natural. Escama dura e miuda; dorso cinzento avermelhado; ventre
branco avermelhado; 3 barbatanas veutraes, duas sobreventraes, e 1
lombar percorrendo tôdo e dorso, armada de espinhos.

Figura 83.--O vao do cuchibi.

Figura 84.--Azagaias dos Ambuelas.

Figura 85.--Ferros de frechas dos Ambuelas.

O que é facto é, que elle leva o homem quasi sempre ao mel, e eu supponho que o quer levar sempre, e que sam occasionaes os outros encontros, que t[~e]m feito impressão a muitos viajantes; encontros nada de estranhar em florestas Africanas.
É mesmo possivel, que no caminho para o enxame encontremos o leão, sem que a intenção do pàssaro seja a de nos fazer devorar pela fera.
Se porem a regra geral, de ir indicar as abelhas, tem excepções, sam ellas tantas e tão variadas, que eu atrevo-me a dizer, que o indicator é o verdadeiro apodador da humanidade.
Encontrei junto ao rio Chicului uma pelle de cobra de sete metros de comprido por 40 centìmetros de largo, affirmando-me os indìgenas que as ha ali maiores.
Pude finalmente seguir a 9 de Agosto, já desejoso que as filhas do sova do Cuchibi voltassem com a sua gente, porque os mantimentos que trazìamos desappareciam a olhos vistos, e já não era pequeno o meu cuidado pensando no futuro.
Depois de marcha de três horas, encontrei um ribeiro, correndo a S.S.E., e depois de atravessarmos a vao, encontrámos uma lagôa de duzentos metros, que tivémos de vadear com àgua pela cintura.
Este ribeiro, que entra no Chicului perto da sua foz, é o Chalongo, provavelmente o que nas cartas apparece com o nome de Longo, e que, por uma errada informação, os cartògraphos t[~e]m feito correr ao Zambeze.
Durante a passagem da lagôa, vimos alguns abutres descendo com persistencia em um mesmo logar, a meio kilòmetro de nós. Fui ver o que atrahia ali os repugnantes rapaces, e ao longe vi uma nuvem d'elles esvoaçando sôbre um corpo volumoso cercado de hyenas, que fugíram sem que eu lhes podesse atirar. Aproximei-me, e encontrei uma enorme Malanca (Hippotragus equinus) recentemente morta pelo leão.

Figura 86.--Malanca.

A pelle do soberbo antìlope estava rasgada em tiras pelas garras da fera, e, cousa notavel, que eu não pude explicar, as unhas das patas estavam completamente roïdas.
Os olhos tinham sido arrancados das òrbitas, de certo pelas aves rapaces.
Os meus Quimbundos, logo que víram a Malanca, corrêram sobre ella, e com unhas e dentes disputáram uns aos outros os restos d'aquella carne bafejada pelas hyenas, em mais repugnante espectàculo do que, minutos antes, me tinham offerecido as proprias hyenas e abutres. Mais pareciam feras do que homens.
E note-se, que então não havia necessidade, porque eu tinha môrto caça, e as provisões feitas no Cuchibi nos tinham em abundancia.
Os meus proprios Quimbares não resistiram á tentação, e juntáram-se aos Quimbundos no repugnante espectàculo.
Metti em ordem a caravana, e fiz seguir ávante. Pelo caminho fui pensando no poder que tem a vida selvagem sôbre o prêto.

Figura 87
1. Cornos vistos de frente.
2. Rasto da Malanca

Figura 88.--O bùfalo africano.

Figura 89.--Escudo dos Luinas.

Figura 90.--O Chefe Cicóta.

Figura 91.--Termites do Nhengo.

Figura 92.
1 e 2. Casas Luinas de 1^{m.} 5 de altura.
3. Celeiro.
4, 4. Enxada do Lui.

a. Casa interior.
b. Intervallo entre as duas parêdes.
c. Porta interior, 50^{c.} por 40^{c.}
d. D^{a.} exterior 1^m. por 50^{c.}
e. Ventilador.
f. Parêde, caniço e barro.
g. D^{a.} caniço, 2^{m.}
h. Armação de caniço.
k. Cobertura de côlmo.

Figura 93.--Corte vertical de uma Casa Luin da aldea da Tapa.