XII
Temo as horas caladas da noite, e o coração aperta-se quando o somno me pesa sobre as palpebras amortecidas:
Porque para mim o somno não é repouso, e os phantasmas das sombras são mais crueis do que as crueis realidades do dia.
Deus converteu a sua voz no meu pensamento e collocou nos meus labios o grito da sua colera.
O seu verbo desfará a minha alma, como o ar aquecido dilatando-se dentro do vaso o desfaz em fragmentos.
O espanto cerca-me no meio das trevas, e o futuro está parado diante de mim como um pesadello eterno.
Em um momento reune o Senhor na minha alma as dores com que por largos dias gemerá esta desventurada patria.
E, em sonhos, oro ao Deus de nossos paes; mas na sua ira o Altissimo repelle as minhas preces; e acordo debulhado em lagrymas.
Este acordar arremessa-me á vida actual, a esta atmosphera de depravação, ao meio do deshonesto tumultuar de um povo corrompido.
E a oração, que em sonhos ousara levantar a Deus, cahe gelada na terra ao som das pragas e blasphemias da turba desenfreiada.