XIII
Eu vi uma visão do futuro, e o Senhor me disse: vai e revela-a na terra.
Como em panorama immenso, um reino inteiro estava diante dos meus olhos.
E nas duas cidades mais populosas delle homens de má catadura começavam de agglomerar-se nas praças e a trasbordar pelas ruas.
E nos campos e nas aldeias outros homens com aspecto de reprobos começavam tambem a apinhar-se nos passos das serras, nas assomadas das montanhas e nas clareiras das florestas.
E tanto nas faces dos filhos dos campos, como nas dos habitadores das cidades adivinhava-se o grito de exterminio que bramia no fundo dos corações.
Os magotes de serranos fundiram-se n'uma só turma; e o mesmo succedeu aos das cidades.
E cada uma das turmas se converteu em uma besta-féra, que se assemelhava ao tigre.
Agigantada era a sua estatura, e na fronte de uma lia-se—Fanatismo—e na da outra—Desenfreiamento.—
Com os olhos tinctos em fel e sangue, correram então os dous monstros um para o outro, ergueram-se em pé e estenderam as garras.
No mesmo instante abriram-se os céus: dous grandes cutelos afiados e dous fachos encendidos cahiram juncto das alimarias ferozes.
E nas laminas dos cutelos estavam escriptas com letras de fogo as palavras seguintes—Maldicção de Deus.
E cada uma das alimarias segurou com a esquerda um dos fachos, e com a direita um dos cutelos.
A das cidades arrojou o seu facho sobre os campos, e os campos ficaram em um momento áridos e ermos.
E a outra sacudiu o seu sobre as duas cidades, e subito no logar onde ellas foram estavam dous montões de ruínas.
Depois, combatendo por largo tempo e atassalhadas de golpes, cahiram e renderam os espiritos.
Então as lagrymas me offuscaram os olhos; porque bem entendia o que significava a visão.
Mas enxugando-os, tornei a lançá-los para o logar da peleja.
E vi uma solidão safara e negra, sobre a qual a perder de vista para todos os lados alvejavam milhares de ossadas.
E em cima dellas estavam assentados dous espectros gigantes. Chamavam-se
Assolação e Silencio.