POESIAS VARIAS.

A PERDA D'ARZILLA.

(1549).

Era noite: do céu limpo e sereno
Milhões d'estrellas trémulas pendiam,
Quaes as nocturnas lampadas d'um templo,
E as ribas ermas sussurrar se ouviam.
D'alterosa galé o negro vulto
Corta ao largo, bem largo, o mar do Algarve,
E lá nas serras d'Africa fronteiras
Branqueja a espaços o albornoz do alarve.
Como tocheiros com brandões accesos,

De um féretro ao redor,

Cuja vermelha luz o horror da morte

Só faz sentir melhor,

Taes as nocturnas almenáras fulgem

Nas torres d'atalaia,

Pelos outeiros, que circumdam muros

De povoação na praia.


Arzilla, a guerreira.

Lá jaz na afflicção,
Que a rendeu aos mouros
Elrei dom João.

Tomar-te-ha Deus contas,

Rei fraco e prasmado,
De tão grande vilta,
De teu grão peccado.

Maldiz-te nos mares

Valente fronteiro,
Que na sé de Ceuta
Se armou cavalleiro;

Que dez aduares

Em Tanger queimou,
E em muros d'Alcacer
Dez elches matou:

Que era hoje d'Arzilla

Temido adaí­l,
E a quem tu mandaste
Fugir como vil.


Vêde-o lá na gavia

Da negra galé,
De braços cruzados,
Immovel, em pé;

E a náu que arfa e voa

Na fremente via,
Ferindo na esteira
Fugaz ardentia;

E d'Africa as praias,

Que a ré vão fugindo,
E as vagas, que rolam,
Distantes mugindo.

Em roda o silencio:

No céu noite escura:
E o peito do triste
Confrange a amargura.


Do veterano as faces

O salso pranto réga:
Nos africanos montes
Saudoso os olhos préga.

Sente no seio as ancias

D'incomportavel dor,
E ás vezes range os dentes
Em trances de furor.

Um cantico á su' alma

A indignação inspira:
Vai sussurra-lo ao longe
Aura que branda espira.

O CANTO DO ADAÍL.

Quando, ao longe, nos campos d'Arzilla,

Alvejava do mouro o albornoz,
E corria, e corria veloz
O ginete de Bellamarim;

Quando o esculca, saído da villa

Da manhã ao primeiro fulgor,
Não podendo a atalaia transpôr,
Vinha ás portas bater de Çafim;

Quando em Tanger, a forte, se ouvia

De armaduras continuo tinir,
E nos ares se via luzir
O montante, a acha d'armas, e o criz;

Quando em Ceuta vencida se erguia

Sobre o alcacer pendão português,
Contra o qual na mesquita de Fês
A gazúa prégava o caciz:

Quando Alcacer-Ceguer, a viçosa,

Que em vergeis se reclina gentil,
Pela noite fragrante d'abril
D'entre os robles sorria ao luar;

Porque, rico de presa formosa,

Já voltou nobre alcaide christão,
E inda ao longe de incendio o clarão
Tinge o céu sobre um triste aduar:

Nossa estrella era então esplendente;

Nosso nome era um som do terror;
Nossos paes conduzia o Senhor,
Qual Judá d'entre a sarça do Horeb.

Portugal, oh leão do occidente,

Tu rugias á beira do mar,
E o teu grito cá vinha troar
Temeroso no ardente Moghreb:

Era o tempo dos crentes e ousados:

Era o tempo da gloria da cruz!
Ora contam-se as páreas d'Ormuz;
Tem só nome Cochim, Calecut!

E esses muros d'Arzilla, regados

Com o sangue de martyres mil,
Ermos hoje tu deixas, rei vil,
Porque o Estreito passou Rais Dragut!

Oh valentes da India, do oceano,

Roncadores de féros no mar,
Cuja espada, porém, faiscar
Não sabe inda do mouro no arnez,

Mostrar vinde o valor sobre-humano

Neste clima de sol mirrador!
Aqui fama se compra com dor:
Facil gloria esquecei uma vez.

As galés do arrais mouro são fortes;

Sua chusma berbers do Takrur;
Como o vosso rei indio, Badur,
Não ha-de elle acabar á traição.

Uma festa de sangue e de mortes

Do occidente nas vagas tereis;
Elmos rijos aqui achareis,
Não o craneo d'inerme sultão!

Mercadores!—deixae vosso cravo,

A canella, a pimenta, o marfi;
Os vestidos de seda despí;
Ponde, em vez de collar, um gorjal.

Vella e remo soltae no mar bravo;

Vinde juncto de nós combater;
Nós que Arzilla deixámos perder,
Porque elrei... é um rei desleal.

Para nós os castellos d'avante;

Para nós a arrombada e bailéu;
Para nós pelejar ante o céu,
Que nos campos d'Arzilla nos viu:

Para nós o machado e montante;

Para vós a bombarda e arcabuz;
Para nós, ao cahir, ver a luz;
Ver a mão que estes peitos feríu;

Para nós o tombar derradeiro

Sobre o ferreo esporão das galés;
O pelouro, de sob o convés,
Cá de longe enviar... para vós!

O sudario do morto fronteiro

Alva escuma da proa será;
E em seus labios—Arzilla!—ouvirá
Quem ouvir sua ultima voz.


Veio aportar:

E o adaíl depôs as armas rotas,

Não no espaldar;

Que nunca o bom fronteiro viram mouros

Costas voltar.


E tomando o bordão de peregrino,
Foi-se á Batalha, que é mosteiro pobre

De dominicos,

Frades mui sanctos, que os judeus queimavam,

Porque eram ricos.

No meio desses tumulos, que encerram
Os despojos mortaes dos reis que foram,

Féretro antigo

O adaí­l procurou. De um rei soldado

Era o jazigo.

Quando o viu, ajoelhou nos degraus delle,
E palavras, que as lagrymas cortavam,

Lhe dirigiu:

Maldicção para alguem pedia ao morto;

Mas nada ouviu!

Então, livido o rosto, os labios brancos,
A fronte lhe pendeu sobre o ataúde

Do rei extinto.

Expirára ao dizer—perdeu-se Arzilla!

A Affonso Quinto.

A ROSA.

Pura em sua innocencia.
Entre a sarça espinhosa,

Purpurea esplende, inda botão intacto,

Na madrugada a rosa.
É da campina a virgem
A pudibunda flor;

Em seus efluvios matutina brisa

Bebe o primeiro amor.
O sol inunda as veigas:
Calou-se o rouxinol;

E a flor, ebria de gloria, á luz fervente,

Desabrochou-a o sol.

O sôpro matutino
No seio seu pousára:

Prostituida á luz, fugiu-lhe a brisa,

Que a linda rosa amára.
Bella se ostenta um dia;
Saúdam-na as pastoras;

Dão-lhe mil beijos, gorgeando, as aves;

Voam do goso as horas.
Lá vem chegando a noite,
E ella empallideceu:

Incessante prazer mirrou-lhe a seiva;

A rosa emmurcheceu.
Desce o tufão dos montes,
Os matos sacudindo;

Desfallecida a flor desprende as folhas,

Que o vento vai sumindo.
Onde estará a rosa,
Do prado a bella filha?

O tufão, que espalhou seus frageis restos,

Passou: não deixou trilha.

Da sarça a flor virente
Nasceu, gosou, e é morta:

E a qual desses amantes de um momento

Seu fado escuro importa?
Nenhum, nenhum por ella
Gemeu saudoso á tarde;

Não ha quem juncte as derramadas folhas,

Quem amoroso as guarde.
Só da manhan o sôpro,
Passando no outro dia,

Da rosa, que adorou, quando a innocencia

Em seu botão sorria,
Juncto do tronco humilde
O curso demorando,

Veio depositar perdão, saudade,

Queixoso sussurrando.
De quantas és a imagem,
Oh desgraçada flor!

Quantos perdões sobre um sepulchro abjecto

Tem murmurado o amor!

O MENDIGO.

I.

O sol passa nos céus:—sob o carvalho,
Por cujos troncos se pendura a vide,

Cego ancião,

Mirrada dextra supplice estendendo,
Ao passageiro, que o despreza, implora

Do opprobrio o pão.

Ninguem o escuta, o dia foge, e a noite
Involve a luz no manto impenetravel:

E elle chorou:

E em seus andrajos para choça alpestre,
Sem se queixar de Deus, tardios passos

Encaminhou:

Mas antes que chegasse ao pobre alvergue,
Do presbyterio o sino harmonioso

Soar ouvia,

Que, despedindo em roda os sons pausados,
Convidava os fiéis a erguer as preces

Da Ave-Maria.

Á cruz do adro relvoso as mãos mirradas
O velho ergueu, e ao céu inuteis olhos

E uma oração,

A oração do infeliz, que Deus só ouve
Quando o desdenha o mundo e ludibria

Sua afflicção.

Para o velho a existencia é solitaria,
Bem como a fonte que esgotou o estio.

Onde os pastores

Vinham a saciar o manso gado;
Onde contavam penas e prazeres

Dos seus amores.

A alampada na igreja triste e muda
Bruxuleava seu clarão, pendendo

Ante o altar-mór:

Como o templo, o porvir era do velho
Cheio de sustos; muda como o templo

Era a sua dor.

Resou, resou, e os olhos se enxugaram:
O orar fervente as lagrymas enxuga,

Qual prado o léste.

Deus o inspirou; sperança é filha sua,
Doce esperança, que os mortaes só deixa

Sob o cypreste.

Voltou á choça, e a macilenta fome,
Sem gemer, supportou sobre o seu leito,

Que é quasi a terra;

E, confiado em Deus, entre as angustias
Do mal, menos crueis que as do remorso,

Os olhos cerra.

II.

Restruge o mar cavado; o vento zune
Pelos mastros da náu; colhido o panno

Das vergas pende;

Brinco das vagas, o baixel arfando
Fluctua incerto, e dos bulcões guiado

Os mares fende.

Correndo árvore secca avulta ao longe,
Como alma em pena vagueiando á noite

Em seu fadario;

E pelas trévas branquejando a escuma,
Que da prôa espadana, imita as prégas

D'alvo sudario.

Envolto no gibão amplo e felpudo,
Rude piloto ao leme trabalhoso

Véla encostado;

Que, se não mentem calculos, o porto
Proximo está, dos lassos navegantes

Tão suspirado.

III.

O vento vai quebrando, e já rareiam
Grossos montões de acastelladas nuvens:

Diurno alvor

Traça no céu d'oriente um risco immenso,
Que reflecte no mar, que veste, ao largo,

Cerulea côr.

Surge o sol radioso e inunda as vagas,
Que se acalmam, nivelam-se: o horisonte

Mais amplo é já:

Cava aragem ligeira a larga vela,
E do cesto o gageiro clama:—terra!

Ei-la acolá!»

Como deslisa o goso nos semblantes
Por entre as rugas do terror passado!

Como é formosa

Essa pallida praia, e esses rochedos,
E lá no extremo os pincaros da serra

Erma e saudosa!

De indicas mérces, de ouro carregada
Aproa á terra, com celeuma alegre,

A náu pujante;

E pelo verde mar do porto amigo
Abrindo a esteira, restitue á patria

O navegante.

IV.

É meia noite:—os gallos pela aldeia
Dizem que um dia mais desceu ao nada

E que outro vem,

Para dar luz a dores e alegrias
E depois nos abysmos do passado

Cahir tambem.

E o mendigo da aldeia, o velho cego,
Sobre o duro grabato, em choça humilde,

Achou a paz.

Em sonhos via um filho: a longes terras
A miseria o levou: mudada sorte

Feliz o traz.

Quantas vezes presága a mente do homem
Véla como um propheta, em quanto o somno

Seus membros prende;

E como, em trevas de amargosos dias,
No porvir uma luz, prevista em sonhos,

Grata se accende!

V.

Nos gonzos ferrugentos range a porta
Do tugurio do pobre adormecido,

E descuidado;

Que do mendigo o umbral patente é sempre,
Nem carece de estar, como o do rico,

Aferrolhado.

O bom do velho ao sobresalto acorda,
E as lagrymas de alguem banham-lhe a face,

E o pranto é mudo;

Mas breve um grito e o soluçar e os beijos
E o sonho que passou e a voz do sangue

Lhe dizem tudo.

Não mais sob o carvalho ao velho honrado
Esmoladora mão o peregrino

Estenderá:

Meigos lhe sorrirão extremos dias,
E as suas cinzas filial gemido

Consolará.

O BOM PESCADOR.

O sol rubro, em leito
De nuvens descendo,
Tremente, crescendo,
No mar se ia a pôr.
Sentado no barco,
Que a onda embalava,
Scismando cantava
O bom pescador.
A paz da sua alma
No olhar exprimia,
E a voz traduzia
Scismar do cantor:
E o canto sereno
Levava-lho a brisa,
Que á tarde deslisa
Com meigo frescor.


TRISTEZAS DO DESTERRO.

(FRAGMENTOS).

Erit tristis et moeretis.
Isai­as.

I.

Terra cara da patria, eu te hei saudado
D'entre as dores do exilio. Pelas ondas
Do irrequieto mar mandei-te o choro
Da saudade longi­nqua. Sobre as aguas,
Que de Albion nas ribas escabrosas
Vem marulhando branqueiar de escuma
A negra rocha em promontorio erguido,
D'onde o insulano audaz contempla o immenso
Imperio seu, o abysmo, aos olhos turvos
Não sentida uma lagryma fugiu-me,
E devorou-a o mar. A vaga incerta,
Que róla livre, peregrina eterna,
Mais que os homens piedosa, irá depo-la,
Minha terra natal, nas praias tuas.
Essa lagryma acceita: é quanto póde
Do desterro enviar-te um pobre filho.
No silencio da noite, em sólo estranho,
Patria minha gentil, em ti pensando,
Para os astros de Deus olhei: fulgiam,
Neste céu achatado, tristemente
Com luz mortiça e pallida, não ricos
De inspiração e amor, quaes lá refulgem.
Pela sombra ameni­ssima, que chama
Do affastado oriente o sol no occaso,
No teu profundo céu has-de tu vê-los:
Do desterrado filho os votos levam:
Acceita-os delles, desgraçada patria!
Já se acercava o tenebroso inverno;
Vinha fugindo a rapida andorinha,
Para um abrigo te ir pedir, oh patria,
Em cujos valles nunca alveja a neve:
Juncto de mim passou: em suas azas
Tambem mandei o filial suspiro.
Pelo dorso das vagas rugidoras
Eu corri de além mar para estas plagas.
Pelas antenas, em nublada noite,
Ouvi o vento sul que assobiava,
E de ouvi-lo folguei. Da patria vinha:
Seu rijo sopro refrescou-me as veias.
....................................................

II.

Que ferreo coração esquece a terra,
Que lhe escutou os infantís vagidos,
E lhe bebeu as lagrymas primeiras,
Preludio a tantas que no curto espaço
Da vida ha-de verter? Quem, nunca, esquece
O tecto paternal, embora adeje
Ao redor delle o medo de tyrannos?
Quem não deseja misturar, na morte,
Com a gleba nativa o pó de extincto,
E murmurar seu ultimo suspiro
Alli, onde primeiro a luz diurna
O allumiou na rapida passagem
Entre o nada e o morrer, chamada a vida?
Ai, que és tu existencia?! Um pesadelo,
Um sonho mau, de que se acorda em trévas,
Na valla dos cadaveres, em meio
Da unica herança que pertence ao homem,
Um sudario e o perpetuo esquecimento.
A infancia é dormir placido: inquieta
A mocidade é, já; mas entre dores
Vem o amar e esperar, e a crença ardente,
E affectos sanctos consolar quem dorme:
Pouco a pouco, porém, sobre a jazida
Do sonhador, do mal se assenta o anjo,
E as imagens ridentes da ventura
Co' as negras asas dispersando ao longe,
Com duro pé o coração lhe opprime.
Oh, no grabato meu bem cedo esse anjo
Veio assentar-se, e o juvenil enleio
De affectos puros em dormir sereno
Affugentou de mim. Vagueei nos mares;
Peregrinei na terra: em toda a parte
O pé maldicto me esmagou o peito,
E da patria a saudade, em sonho triste,
Immovel, do viver me tece a noite.
................................................

III.

Solidão, solidão, quem diz que existes
Onde não soa tumultuar das turbas
Mentiu-te a essencia! Solidão e morte
São uma idéa só; um pensamento
Doloroso, indistincto. Oh, dae-me um valle,
Onde haja o sol da minha patria, e a brisa
Matutina e da tarde, e a vinha e o cedro,
E a larangeira em flor, e as harmonias
Que a natureza em vozes mil murmura
Na terra em que eu nasci, embora falte
No concerto immortal a voz humana,
Que um ermo assim povoará meus dias.
Mas aqui!... Que me importa o murmurio
Dos que passam? Que vale essa campina
Humida e verde, e no gelado pégo
Raio do sol que se refrange turvo?
É o desterro solidão e morte
Para o poeta: embora estranha lingua
Lhe revele o pensar, o intimo verbo
Que em ar vibrado traduziram labios,
Se o céu, o til, o arroio, o prado, a selva
Não tem para lhe dar um pensamento
De poesia e de amor?

Não! Tudo é pallido,

Tudo é morto e sósinho e silencioso
Como um sepulchro e um cemiterio!

E ainda

Campas e adros inspiram, quando hi dormem
Nossos irmãos e paes, porque tem lagrymas
Que desopprimem a alma; tem memorias,
Tem uma cruz, em tôrno á qual sussurram
Preces, que alli vamos guardar, qual guarda
O avaro em ferreo cofre os seus thesouros,
Para os contar hoje, ámanhan e sempre
Emquanto vivo for.

E cá? O engenho

Nem crê, nem sente bafejar-lhe um canto
O crepusculo, a lua, a aragem fresca,
O arrebol da manhan, ou céu sereno
Por noite escura recamado de astros.
Harpa meridional, porque, no extremo
Da terra patria, o trovador errante
Não deixaste partir só com seus males?
Porque vieste, oh filha do occidente,
Cruzando os mares embrenhar-te em nevoas
De céu septentrional? Tu, pobresinha,
Se, hoje, pendente em tronco de pinheiro,
Sem haver mão que te vibrasse as cordas,
Jazesses esquecida, ainda soáras
Com incerta harmonia. Ás horas meigas
Em que o dia se esvai, placida a brisa,
Que espira do oceano e encrespa as vagas,
Passaria por ti, e te agitára,
E murmuráras som que respondera
Trémulo, fraco, á flauta dos pastores
Sussurrando suave entre as quebradas
Da montanha selvosa. E aqui? És muda;
És muda, que essas cordas carcomiu-t'as
Este ar gelido e turvo, e qual o engenho
De teu dono, no viço da existencia,
Envelheceu, envelheceste, oh harpa!
....................................................

IV.

Berço do meu nascer, sólo querido,
Onde crescí e amei e fui ditoso,
Onde a luz, onde o céu riem tão meigos,
Meu pobre Portugal, hei-de chorar-te!
Quando, aterrado ante o minaz aspecto
Do anjo de Deus, tremente vagueiava
Nosso primeiro pae em volta do Éden,
Não lhe tecia tanto de amarguras
A vida o duro affan com que trocava
Pelo pão o suor co' a avara terra;
Não era tanto o traspassar-lhe os membros
O hiberno sopro do aquilão, queimar-lh'os
O sol estivo, e o magoar, errante,
Os pés feridos nos tojaes bravios
Pelas sendas que abria em ermos valles,
Como as saudades de passados tempos,
Dessa infancia viril, em que surgira,
Para viver e amar, do barro inerte;
Não o pungia tanto o mal presente
Como a recordação dos claros dias
De innocencia e de paz que alli vivêra.
A primavera eterna, as auras puras,
O murmurar do arroio, o canto da ave,
O frémito do bosque, o grato aroma
E o vistoso matiz do ameno prado,
O lago quedo a reflectir a lua,
As montanhas tão ricas de mysterios,
De ecchos, de sombras, de tristezas sanctas;
Isso tudo, trazia-lh'o ante os olhos
Vingadora a memoria inexoravel.
Por entre a bruma da estação chuvosa
Passavam-lhe de abril perfumes, galas;
Sob estuoso sol vinha a saudade
Dizer-lhe o sussurrar do manso arroio
E o ramalhar dos platanos copados.
Por tenebrosas noites de procella,
Quando a torrente e o vendaval bramiam,
Cria d'entre o fragor ouvir romperem
Os matutinos canticos das aves,
E ver no pégo reflectir-se a lua.
Longe, assim, do seu berço, o criminoso
Com dura punição remia o crime:
Mas para o consolar na senda agreste,
Em cujo termo o esperava a morte,
O severo juiz deixára ao triste
De uma esposa querida o seio casto,
Onde aspirar o amor, olhos que o pranto
Misturassem co'o seu. Perdendo a patria
Perdia encantos só de natureza
Formosa e juvenil. As harmonias
Dos corações, os misticos affectos
Não lhe truncou a espada flammejante
Do cherubim ao repelli-lo do Éden:
Para elle a patria renasceu no exilio.
Eu, prófugo como elle, o Éden nativo
Perdí; e perdí mais. Despedaçados
Os affectos de irmão, de amante, e filho
Restam-me na alma qual buída frecha,
Que no peito ao cravar-se estala e deixa,
Cahindo, o ferro na ferida occulto.
................................................

V.

Oh meu pae, oh meu pae, como a memoria
Me reflecte, alta noite, a tua imagem
Por entre um véu de involuntario pranto!
Quão triste cogitar em mim desperta
A imagem cara! Á noite, o bom do velho
As bençams paternaes de Deus co' as bençams
Sobre minha cabeça derramava,
E ao começar o dia; e ellas desciam
A um coração exempto de remorsos
Onde encontravam filial piedade.
E agora? É-lhe mysterio o meu destino.
Qual o seu para mim o exilio occulta.
Saciado, talvez, de dor e affrontas
Dorme já sob a campa o somno eterno?
Suas trémulas mãos não mais lançar-me
Virão a bençam da piedade? O extremo
Arranco seu não roçará meus labios?
Ah, se um dia raiar para o proscripto
O suspirado alvor do sol da patria,
E se entre nós de um í­mpio as mãos ergueram
A barreira da morte, ai delle, ai delle!
E tambem, ai de mim!.......................
....................... Mas se 'inda um filho
Houver digno de o ser, eu criminoso
Terei quem me deplore; mãos que plantem
No adro deserto onde jazer maldicto
Um cypreste, uma flor, e quem deponha
Aos pés do throno do juiz supremo
Por mim, uma oração fervente e pia.
...................................................

VI.

Arvores, flores, que eu amava tanto,
Como viveis sem mim? Nas longas vias,
Que vou seguindo peregrino e pobre,
Sob este rude céu, entre o ruído
Dos odiosos folgares do sicambro,
Do monotono som da lingua sua,
Pelas horas da tarde, em varzea extensa,
E ás bordas do ribeiro que murmura,
Diviso ás vezes, em distancia, um bosque
De arvoredo onde bate o sol cadente,
E vem-me á idéa o laranjal viçoso
E os perfumes de abril que elle derrama,
E as brancas flores e os dourados fructos,
E illudo-me: essa varzea é do meu rio,
Esse bosque o pomar da minha terra.
Aproximo-me; o sonho de um momento
Então se troca em acordar bem triste,
Como surge e se esvai por entre as nevoas
Vulto indeciso nos cantares d'Ossian.
É uniforme e torva esta verdura,
Acre o cheiro que exhala este arvoredo,
Mal-assombrado o rio, humido o valle,
Frio do sol o raio derradeiro
Espirando neste ar denso e pesado,
Que amplo aspirar recusa ao peito oppresso,
E rouba aos olhos horisonte immenso.
Ai, pobres flores que eu amava tanto,
Por certo não viveis! O sol pendeu-vos
Mirradas folhas para o chão fervente:
Ninguem se condoeu: seccou-se a seiva,
E morrestes. Morrestes sobre a terra,
Que por cuidados meus vos educára.
E eu? Talvez nestes campos estrangeiros
Minha existencia o fogo da desdita
Faça pender, murchar, ir-se mirrando
Sem que torne a ver mais esses que amava,
Sem que torne a abraçar a arvore annosa,
Que se pendura sobre a limpha clara
Lá no meu Portugal, onde a frescura
Da ribeira perenne, da floresta
Tem valor, porque o sol tem luz, tem vida!
...........................................................

VII

Eu já vi n'uma ilha arremessada
Ás solidões do mar, entre os dous mundos,
Vestigios de volcões que hão sido extinctos
Em não-sabidos seculos. Scintillam,
Aqui e alli, nos areientos plainos,
Onde espinhosas sarças só vegetam,
Restos informes de metaes fundidos
Pelas chammas do abysmo, entre affumadas
Pedras que em parte amarellece o enxofre,
Que a lava em rios dispersou, deixando
Só delle a côr em lascas arrancadas
Das entranhas dos montes penhascosos.
A natureza é morta em todo o espaço
Que ella correu, no dia em que, rugindo,
Da cratéra fervente, á voz do Eterno,
Desceu ao mar turbado, e elle, escumando,
A engoliu e passou, qual sumiria
De soçobrada nau celeuma inutil.
Tal é meu coração. Bem como a lava
É o desterro ao trovador. Meus olhos
Hão-de esquecer as lagrymas; que a seiva
Do vivido sentir vai-se queimando
Ao suão mirrador de atroz saudade,
Que excede tudo em dor; excede a de orpham,
De viuva, de mãe que sobre o berço
Vê jazer morto o pallido filhinho.
E porquê? Porque ahi ha inclinar-se
Sobre o corpo do extincto; ha despedir-se
Com suspiros e prantos desses restos,
Que vão quedos dormir em adro antigo,
Onde os avós já dormem; onde ha patria,
Ha fami­lia, ha irmãos.—Cá, tudo é ermo,
E a dor está no coração do prófugo
Como um cadaver hirto quando espera
De noite, em leito nú, que á tumba o desçam.
A dor aqui é gelida, immutavel;
Pousa em labios alheios que sorriem,
E até em sorrir nosso; está sentada
Ao pé do umbral do tecto que nos cobre,
Embebida na enxerga do repouso,
Entranhada no pão que nos esmolam,
Enroscada, qual cobra peçonhenta,
No nodoso bordão do peregrino,
E em toda a parte e em todo o tempo é nossa.
E depois, o morrer em leito alheio;
Despedir-se de um sol que não é esse,
Que, na infancia, nos fez florir os prados,
Que nos crestou, na infancia, as faces virgens;
Volver em torno os olhos moribundos
E não ver uma lagryma; inclinar-se
E não achar um seio feminino,
Ou de esposa ou de mãe, onde repouse
A fronte accesa por ardente febre;
E pensar entre as ancias derradeiras,
Que será terra estranha a que nos trague;
Que será til do norte o que proteja
Nosso humilde moimento, a verde gleba,
Onde de pinho a cruz por dous invernos
Apenas luctará co'a negra nuvem
Do esquecimento eterno, unica herança
Do que expirou no exilio!

Amarguradas

São taes cogitações para o que sente
No seio em ondas trasbordar-lhe a vida.
Quaes, porém, não virão ao pobre velho,
Que, arrancado das bordas do seu tumulo,
Foi por cima dos mares arrojado
Para juncto do umbral de um cemiterio,
Onde não achará paternos ossos,
Para ao pé delles se deitar morrendo?!
......................................................

VIII.

Quando nos luz o sol no céu da patria,
Embora sobre nós verta a desdita
Torrentes de amargura, ha um consolo:
É o altar e a oração. Ao desterrado
Nem sequer isso resta. O templo alheio
É como ermo de Deus; como que param
Nesse craneo de marmore arqueado
Do gigante edificio as tristes preces
Em lingua estranha proferidas. Gelidas
E duras são do pavimento as lageas
Para quem sabe certo não o escutam
Mortos que muito amou; que nesse tecto
Vai bater frouxa uma oração discorde
Entre mil orações.

«É falso! É impio!—

A razão o dirá—De Deus o templo
É o mundo. No cimo das montanhas
O nome do Senhor sussurra em sopro
Do vento que passou rasgando as asas
Pelo cardo bravio; a gloria delle
Di-la o rolo do mar correndo á praia;
É o seu hymno o canto da avesinha
No salgueiro que pende e se balouça
Sobre o arroio do valle, e é do regato
O murmurinho o cantico nocturno
Mandado pela terra silenciosa
Qual suspiro fraterno, aos soes e aos mundos
Que pelos céus harmoniosos gyram.
Esses montões de cinzeladas pedras
De columnas e torres, que se elevam
Como as mãos junctas de quem resa, apenas
São um memento da oração, um marco
Posto no ermo da vida, que nos lembre
Quem no-la deu, e o mal e o bem, e Aquelle,
Que é senhor e que é rei, que é pae e entende
O vento, o mar, os astros, a avesinha,
O sussurrar do arroio humilde, e as preces
De milhões d'orbes em milhões de li­nguas.»
Ao brado da razão só não se dobra
O coração do desterrado!

Embora

Sob as asas do amor abrigue o Eterno
Homens, nações e o mundo: o amor por elle
Nasce, cresce, vigora-se enredado
Com os beijos de mãe, com sorrir meigo
De nossos paes e irmãos, ensina-o a tarde,
O pôr do sol da nossa terra, o choupo
Da nossa fonte, o mar que manso geme,
Nosso amigo da infancia, em praia amiga.
Quando isso tudo se converte em sombra,
Que em confuso passado apenas surge
Qual fumo tenuissimo ou phantasma
Á meia-noite visto, á luz da lua,
Ao longe entre arvoredo: quando o sopro
Da tempestade assobiou nas trévas
Pela antena da nau do vagabundo;
Quando a dor sua em olhos de ente vivo
Não achou uma lagryma piedosa,
E nos seus proprios são vergonha as lagrymas,
Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam,
Não sobre seio que as esconda e enchugue,
Mas sobre a vaga que se arqueia, e passa
Sem as sentir; então o soffrimento,
Filho de longo padecer, converte
O coração do desditoso em marmore,
Onde nunca penetra um puro affecto,
Onde o nome de Deus soçobra e morre
Entre o bramir de maldicções e pragas.
Oh, do desterro o mal supremo é este!
É o seccar-se o coração; mirrar-se
Como a sarça do monte em fins d'estio;
É o descrer, e o blasphemar do Eterno.
Se aos céus levanta o desgraçado os olhos,
É que primeiro os pôs lá no futuro,
E, bem que tenue luz, um fulgorzinho
Por entre as sombras lhe sorriu fagueiro:
Mas quando se ergue um muro intransitavel
Entre nós e a ventura; quando ao longe
Pelos campos da vida é tudo pallido
E perece a esperança, então a mente
Recúa com horror, e dando em terra,
Maldiz-se a si e a providencia e o mundo,
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O MOSTEIRO DESERTO.

I.

No mosteiro vai fundo o silencio;
Um silencio que gera terror;
Só nos tectos, que banha o luar,
Sólta o mocho seu pio de horror:
Só o vento que gyra nos pateos,
E se engolfa na escada ogival,
Ramalhar vem nas folhas dos ulmos,
Que ladeiam normando portal.
Meia noite. E na crasta deserta
Não reboam os ecchos do sino,
Que, vagando, murmuram nas cellas:—
São as horas do officio divino.»
Meia noite! Bem como na torre
Voz de bronze dormente parece,
Tal o monge, na dura jazida,
Priguiçoso do templo se esquece.
Monge, o brado nocturno do sino
Ao resar não te chama, é verdade;
Mas talvez já no topo do côro
Somnolento te espera o abbade.


Este grito

Repetiram-no os ecchos inteiro;
E, bem como em resposta á pergunta,
Retumbou:

—Está só o mosteiro!»


Pouco ha inda, na alta noite
Passava no espaço a lua,
Dos ulmos a cima ondeava
Negra, qual ora fluctua:
Mas tenebroso silencio
Não ía, como ora vai:
Bradava o sino da torre
Aos monges dizendo:—orae.»
E pelos vidros córados
Reverberava fulgor;
De passos no longo claustro
Soava tenue rumor.
Depois, lá dentro na igreja,
Em côro alterno rompia
O canto lento dos monges,
Que ás vozes do orgam se unia:


Porém, como se ao sopro do archanjo
A trombeta final retumbasse,
E da vida o tumulto na terra
Ao terrivel signal expirasse,
Assim do orgam calou a harmonia,
E dos córos os hymnos calaram,
E os fulgores das lampadas frouxos
Das vidraças não mais transudaram.

II.

É que o filho dos ermos, renegando

Das tradições antigas,

Desceu a pelejar na ardente arena

Das facções inimigas.

Amar, soffrer, orar era a existencia

Que lhe talhára a sorte;

Enxugar muitas lagrymas na terra,

E repousar na morte;

Realisar té onde é dado ao homem

Esse typo ideal,

Que nos legou o Salvador, tomando

Nossa veste mortal.


E não o quiz. Sacrilego, do pobre

A herança, que a piedade

Confiára ao ministro de uma crença

Que é toda caridade,

Offertou-a, traidor a Deus e aos mortos,

No altar impio da guerra,

E, abrindo o manto, sacudiu irado

A assolação á terra.


De noite no bosque,
Na gandra deserta,
No viso do monte,
Do valle na aberta,
Á luz das estrellas
As armas fulgiam,
E ouviam-se ao longe
Corceis que nitriam:
Horrendo propheta
O abutre passava,
E sobre as encostas
Calado pairava:
Depois, na alvorada,
Com gritos sem fim
Saudava do sangue
Vizinho o festim.


E á voz das trombetas,
Ao trom dos canhões,
Ao som das passadas
De vinte esquadrões;
E em meio do fogo,
Do fumo alvacento,
Em rolos ondeando
Nas asas do vento,
De agudas baionetas
A renque brilhante
Tremente avançava,
Ao brado de—ávante!»
E ao baço ruí­do
Dos leves ginetes,
No plaino calcando
Da relva os tapetes,
Os ferros cruzados
Luctavam tinindo,
Peões, cavalleiros
De involta ruindo,
E a ferrea granada
Nos ares zumbia,
E aos seios das alas
Qual raio descia.
E aos ares, revolta,
A terra espirrava,
E o globo encendido
Um pouco se alçava,
E prenhe de estragos,
Com fero estampido,
Mandava mil golpes,
Em rachas partido.


E as horas passavam
Em scenas de morte;
E o abutre mirava
Os trances do forte.


Na garganta da serra ou sobre o outeiro,
Pelo pinhal da encosta ou na campina,
Nesse dia de atroz carnificina,
Negros uns vultos vagueiar se viam:
A cruz do Salvador na esquerda erguida,
Na dextra o ferro, preces blasphemando,
«Não perdoeis a um só!—feros bradando,
Entre as fileiras rapidos corriam:

E era o monge que bradava,
E era o monge que corria,
E era o monge que, blasphemo,
Preces vans a Deus fazia;
Vans que, á tarde, nesse plaino
No sangue d'irmãos retincto,
Só restava o moribundo,
O cadaver só do extincto.
E por gandras e por montes,
Aterrados, perseguidos,
Em desordenada fuga
Retiravam-se os vencidos.
E os vencidos eram esses
Que a esperança da victoria
Arrastára, miserandos,
A uma guerra i­mpia, sem gloria!

Lá dos gritos de raiva baldada
Restrugia o confuso clamor,
E o gemido do mau desgraçado
Na alma oppressa gerava terror.


III.

Surge a luz da alvorada. Podessem
Dessas campas geladas que vejo
Os bons monges dos tempos antigos
Surgir vivos á voz de um desejo!
E que ao longo das vastas arcadas
Se escutassem seus passos serenos,
Como se ouve o tranquillo regato
Sussurrar nestes campos amenos!
Quem então não curvára ante o velho?
Quem a bençam da mão descarnada,
Como a bençam do céu, não pedíra
Da virtude ao poder confiada?
Quem ousára soltar no deserto
Estridente clangor da trombeta,
E fazer scintillar pela noite
A cruel decisiva baioneta?
Quem ousára o sorriso do insulto
Juncto ao negro edificio soltar,
E com goso, na mente, por terra
Suas grimpas jazendo pintar?
Mas ha muito que os bons se finaram;
Mas ha muito que ás dores fugiram,
E depois, nesses velhos sepulchros
Quantos maus inquietos dormiram!
Quem o sabe? Quaes foram? Seus nomes
Pereceram: ninguem o dirá.
O que o sabe os julgou; e do abysmo
Nem um ai o cantor tirará.
Mas, oh harpa, transmitte as saudades
Do que foi em legado ao porvir,
E o presente, que em breve ha-de o olvido
Com o seu amplo manto cubrir.
Contarão as canções do poeta
Tão-sómente do claustro o segredo.
Vai a hera vestir estas pedras:
Cahirá este annoso arvoredo.
Sim, virá a segure insensata
Da montanha o senhor derribar!
Rei deste ermo, que os curos insultas,
Tu serás o ludibrio do mar.
Bem antigo é teu cepo. Tu viste
O mosteiro da encosta crescer;
Viste o colmo do humilde retiro
Em arcadas, em torres volver.
Tambem nasce o regato na origem
Pobre e puro: cem valles passou;
Vai já rico, mas turvo e suberbo;
Que a torrente desceu e o turbou.


IV.

É tão doce esta vaga saudade,
Na soidão das montanhas colhida,
Para quem entre mil tempestades
Transitou pelos campos da vida!
Foge a luz: é sol-posto: na aldeia
Dá o sino esse triplo signal,
Com que o espirito, erguendo-se a Deus,
Diz ao dia seu ultimo val;
E o pastor, que o rebanho guiava
Á malhada, descendo do outeiro,
Parou lá, e ajoelhou descuberto
Juncto ao velho sósinho pinheiro.
Gloria a Deus! A oração do crepusculo
Pelo tronco elevado se ergueu.
E a guia-la ante o throno do Eterno
Sancto archanjo das preces desceu.
Ao piedoso pastor no chão duro
Brando a noite o repouso trará
E por certo em seu leito da morte
Mais tranquillo inda o somno será.




A VOLTA DO PROSCRIPTO.

I.

Já suave a sorte dura
Mostra a face ao desterrado:
Porque surge ainda a amargura
Em seu rosto carregado?
Vento amigo ao patrio solo
Pelo mar guia o proscripto,
E um sorriso de sonsolo
Não lhe luz no rosto afflicto?
Corta a proa o mar fremente;
O cantor lá se assentou
E sua torva e altiva frente
Sobre a dextra reclinou.
Vem-lhe idéa após idéa,
Já tristonha, já serena;
Que no gesto lhe vaguêa
Ora o goso, logo a pena.
Coração affeito á mágoa
Da esperança desconfia:
Desalenta, e em viva frágoa,
É-lhe negra a noite, e o dia.
Mas se, emfim, lhe tece a sorte
Á existencia um aureo fio,
E vencendo o mar e a morte
O conduz ao patrio rio,
A que mais agora aspira
O mancebo trovador?
É por gloria que suspira?
Não lhe ri propicio o amor?
Não vê perto a terra cara,
Que chorou de dor absorto,
E nos braços dos que amára
Não terá paz e conforto?
Mas silencio!—A fronte erguendo,
Elle os olhos poz nos ceuz,
E a canção da alma rompendo
Sussurrou nos labios seus.

II.

«Rasga as ondas do pégo indomado
Leve barca: já freme o galerno:
Susta as iras o rabido hynverno:
Torna á patria infeliz trovador.
Como bate no seio ancioso
Coração que opprimiu a amargura,
Quando meiga sorrí a ventura,
Quando volve esperança de amor!
Esperança, e sómente esperança
Cabe áquelle que os mares correu,
Quem lhe diz que 'inda não o esqueceu
A donzella por quem suspirou?
Quem lhe diz não irá n'outros laços
Venturosa encontra-la e infiel,
E que a voz do remorso cruel
Para a ingrata tremenda soou?
Quem lhe diz não irá murchas rosas
Tão-sómente encontrar sobre a lousa,
Onde a amada tranquilla repousa,
onde vá juncto della expirar?
Esperança, e sómente esperança
Cabe áquelle que os mares correu:
Ella só resta áquelle que o ceu
Longos dias de dor fez passar
Eu traguei estes dias de lucto;
Encarei muitas vezes a morte;
Pude o louro colhêr dado ao forte:
Tambem myrto de amor colherei?
Ou o arbusto que outr'ora plantára,
Que por mim cultivado crescêra,
Que entre angustias jámais me esquecêra
Esquecido por ella acharei?
Como além desse cabo, que esconde
Verdes aguas do meu patrio Tejo,
A alma levam saudade e desejo!
Como atraz a compelle o terror!
Ledo o nauta saúda a guarída
Aonde incolume o vento o ha guiado,
E alegrou esse olhar carregado
Com que insulta do mar o furor.
Feliz nauta, em teu seio tranquillo
Pulsa em paz coração baixo e rude;
Fado amigo negou-te o alaúde:
Deu-m'o a mim:—para prantos m'o deu.
Nunca, pois, surgirá uma aurora
Em que nelle resoe a alegria,
E em que o triste, que a dor opprimia,
Erga um hymno de jubilo ao céu?
Nunca rir-me propicia a ventura
Sobre a terra verão estes olhos?
Será sempre cuberto de abrolhos
Agro trilho que á morte conduz?
Ou nas trévas da minha existencia
Surgirá inda um dia radioso,
Como, ás vezes, em céu tenebroso
Rompe o sol com torrentes de luz?»

III.

Já no porto a leve barca
Longa esteira desdobrou,
E ao clarão final do dia
Ferreo dente ao mar lançou.
Eis as plagas da saudade;
Eis a terra de seus sonhos;
Eis os gestos tão lembrados;
Eis os campos tão risonhos!
Eis da infancia o tecto amigo;
Eis a fonte que murmura;
Eis o céu puro da patria;
Eis o dia da ventura!...

IV.

Foi o cantor feliz?—Em breves dias
Viu-se cruzar errante incertos mares.
Sob o tecto paterno anciada noite
Elle passou; e o somno socegado
Não lhe cerrou os olhos lachrymosos.
Conta-se que o seu amor fôra trahido,
E que mirrado achou de amor o myrto,
Que deixára viçoso, e que saudára
Desde além do oceano em seu deli­rio.
Sobre a proa outra vez indo assentar-se,
Não entoou um hymno de alegria.
Com ar sinistro e torvo e os labios mudos
Correu co' a vista as ondas inquietas,
E, porventura, a idéa que as passára
Nas asas da esperança, e que a esperança
Tinha expirado ao limiar do goso,
Mais lhe turbou a fronte carregada.
O misero sorriu-se. Em tal sorriso
O passado e o futuro estava impresso,
E da sua alma a dolorosa noite.

V.

Não mais o trovador no lar da infancia
Repousará talvez: talvez sua harpa
Durma pendente em solitario tronco
Do pinheiro bravio, onde a desfaça
O sôpro do aquilão. Ao desditoso
Sonho de gloria e amor tinha emballado;
Mas foi sonho, e passou, e uma existencia
Nua d'encantos despregou-se ante elle.
Quem o consolará?—De fogo essa alma
Consolo não terá, nem quer consolo.
A maldicção de Deus vestiu-lhe a vida
De padecer e lagrymas. Ignoto
Será ao mundo que surgiu na terra
O genio de um cantor, bem como planta
Morta apenas saída á flor do solo,
Ou como a aragem da manhan, que passa
Antes de o sol nascer, em dia estivo.
E que importa essa gloria ao dono della?
Esse fructo do Asphaltite que encerra
Senão cinza em involucro formoso?
Que é o eccho de um nome, que não soa
Senão sobre o sepulchro do que impresso
Na fronte o trouxe, em meio de amarguras,
Por vezes de ignominias?

«Vive, oh triste,

Esquecido do mundo, e esquece o mundo!
Nas solidões profundas da tua alma,
Vazia das paixões que a assassinaram,
Some os cantos que della transudavam
Para correr n'um seculo sem vida,
Sem virtude e sem fé, e em que desabam
As crenças todas do passado, e é sonho
A constancia e o amor.»

Palavras estas

Extremas foram do proscripto. Longe,
Em praia estranha abandonando a barca,
Qual o seu fado foi ninguem mais soube.

N'UM ALBUM.

Quando o Senhor envia
O trovador ao mundo,
Faz devorar a essa alma
Fel amargoso e immundo;
Porque lhe diz:—Poeta,
Vai conhecer a terra;
Prova dos seus deleites;
Prova do mal que encerra.
Desses e deste esgota
As taças muitas vezes,
Embora de uma e d'outra
Aches no fundo fézes:
E quando bem souberes
Que tudo é sonho vão;
Que é nada a dor e o goso,
Sólta o teu hymno então.»
E o pobre desterrado
Vem seu mister cumprir.
Nasce: homens e universo,
Tudo lhe vê sorrir;
E o seu balbuciar
Um canto é d'innocencia:
Mas outro foi seu fado;
Guia-o a providencia.
É cherubim precíto
Qu' inda entrevê o céu,
Mas através da vida,
Mas através de um véu.
Em turbilhão d'affectos,
Seu íntimo viver
Rapido lhe devora
Sperança, amor e crer.
Do goso nos deli­rios
Debalde busca o amor;
Saudade melancholica
Pede debalde á dor.
Depois, desanimado,
Pára a pensar em si,
Acha no seio um ermo,
E tristemente ri.
É desde aquelle instante
De um acordar atroz,
Que ao condemnado lembra
Do que o mandou a voz.
Então entende e cumpre
Seu barbaro destino;
Então é que elle aprende
A modular um hymno.
Virgem, ao que assim passa
Por meio do existir,
Calcando os frios restos
Do crer e do sentir,
Não peças te revele
Sua alma na poesia,
E dê aos pensamentos
O encanto da harmonia;
Porque lá, nesse abysmo,
Não resta uma illusão:
Só ha perpetua noite,
E injuria e maldicção.
Não entenderas, virgem
Ainda innocente e pura,
O canto que surgira
Dessa alma gasta e escura.
Deixa-o seguir seu norte,
Cumprir missão cruel;
Deixa-o verter o escarneo;
Deixa-o verter o fel;
Deixa-o cuspir em faces
Onde não ha pudor,
E ao mundo, ebrio de si,
Rindo ensinar a dor.
As sanctas harmonias
De cantico innocente
Sabe-as o alvor do dia
Quando rompe do oriente;
Murmura-as o regato;
Vibra-as o rouxinol;
Vem no zumbir do insecto,
No prado, ao pôr do sol;
Vivem no puro affecto
Da filial piedade,
Nos sonhos e esperanças
Da juvenil idade.
Esta poesia é tua:
Eu já a ouvi e amei;
Mas hoje nem a entendo,
Nem repeti-la sei.
Assim, meu nome só
Escreverei aqui;
Som vão, intelligivel
Apenas para ti;
Extincto candelabro
Do templo do Senhor,
Que por algumas horas
Deu luz, teve calor;
Lenda de sepultura,
Que fala em gloria e vida,
E esconde ossada infecta
Dos vermes corroída;
Pinheiro solitario,
Que o raio fulminou,
E que gemeu tombando,
E não mais murmurou.

A FELICIDADE.

Era bello esse tempo da vida,
Em que esta harpa falava de amores:
Era bello quando o estro accendiam
Em minha alma da guerra os terrores.
Nesse tempo o balouço das vagas
Me era grato, qual berço da infancia;
E o sibillo da bala harmonia
Semelhante á de flauta em distancia.
Eu corri pelos campos da gloria,
D'entre o sangue colhendo uma palma,
Para um dia a depor aos pés dessa
Que reinou largo tempo nesta alma.
Mas qual ha coração de donzella,
Que responda a um suspiro de amor,
Quando vibra nas cordas sonoras
Do alaúde de pobre cantor?
Triste o dom do poeta!—No seio
Tem volcão que as entranhas lhe accende;
E a mulher que vestiu de seus sonhos
Nem sequer um olhar lhe compr'hende!
E trahido, e passado de angustias,
Ao amor este peito cerrara,
E, quebrada, no tronco do cedro
A minha harpa infeliz pendurara.
Um véu negro cubriu-me a existencia,
Que gelada, que inutil corria;
Meu engenho tornou-se um mysterio
Que ninguem neste mundo entendia.
E embrenhei-me por entre os deleites;
Mas tocando-o, fugia-me o goso;
Se o colhia, durava um momento;
Após vinha o remorso amargoso.
Esqueci-me do Deus que adorara;
O prestigio da gloria passou;
E a minha alma, vazia de affectos,
No limiar do porvir se assentou:
Meus pulmões arquejaram com ancia,
Buscando ar na amplidão do futuro,
E sómente encontraram, por trévas,
De sepulchros um halito impuro.
Mas, emfim, eu te achei, meu consolo;
Eu te achei, oh milagre de amor!
Outra vez vibrará um suspiro
No alaúde do pobre cantor.
Eras tu, eras tu que eu sonhava;
Eras tu quem eu já adorei,
Quando aos pés de mulher enganosa
Meu alento em canções derramei.
Se na terra este amor de poeta
Coração ha que o possa pagar,
Serás tu, virgem pura dos campos,
Quem virá a minha harpa acordar
Como a luz duvidosa da tarde,
Quando o sol leva ao mar mais um dia,
Reverbera poesia e saudade
Na alma immensa de um rei da harmonia;
Tal poesia e saudade em torrentes
No teu meigo sorrir eu aspiro,
E no olhar que me lanças a furto,
E no encanto de um mudo suspiro,
Para mim és tu hoje o universo:
Soa em vão o bulicio do mundo;
Que este existe sómente onde existes:
Tudo o mais é um ermo profundo.
No silencio do amor, da ventura,
Adorando-te, oh filha dos céus,
Eu direi ao Senhor:—tu m'a déste:
Em ti creio por ella, oh meu Deus!»

OS INFANTES EM CEUTA.

DRAMA LYRICO EM UM ACTO.
(1415)

O infante D. Duarte.
O Infante D. Pedro.
O Infante D. Henrique.
Gulnar, filha do wali de Ceuta.
Lobna, escrava.
Haleva, escrava.
Um pagem.
Um sobrerolda.
Côro de cavalleiros portugueses.
Côro de cavalleiros mouros.
Côro de escravas, e de eunuchos negros.


SCENA I.

Sala d'armas do alcacer de Ceuta. Córos de cavalleiros portugueses. D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique entram na scena agitados: D. Duarte pára, cruza os braços e contempla por um instante os cavalleiros que ficam immoveis: os infantes afastam-se para um lado falando a sós, e volvendo de quando em quando os olhos para o principe.

D. DUARTE.

Eia pois, cavalleiros! Breve os mares
Cruzaremos de novo além do Estreito!
Os inimigos timidos refogem
Da conquistada Ceuta.
Pelas campinas pallidas, ao longe,
Das altas torres espraiando os olhos,
Não se vê alvejar lá no horisonte
Um albornoz mourisco.
Folgue o que volta á patria enriquecido
Pela ganhada gloria: folgue aquelle
A quem coube o desterro entre estes muros,
Por conservar erguida
Sobre a mesquita a cruz, sobre as ameias
O estandarte real: morrendo, é martyr:
Seu nome eterno viverá na historia.
Folgae, meus cavalleiros!

CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.

Oh, bem vinda, bem vinda essa nova,
Para o velho homem d'armas d'elrei,
Que ha trinta annos nos diz:—combatei!»
Sem jámais a armadura largar!
Sob o forro do elmo pulido
Nossa fronte, senhor, se enrugou,
E estes peitos robustos quebrou
Dos arnezes conti­nuo pesar!

Bem vinda a hora
Em que voltemos,
E emfim saudemos
O nosso lar;
Em que possamos
No patrio rio
O sol do estio
Ver scintillar;
E, dos sinceiros
Entre a espessura,
Da guerra dura
Ir repousar!

CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.

Parti vós, cavalleiros:
A Portugal tornae;
E o nosso nome ás bellas

Donzellas
Lembrae!

Dizei-lhes que, se ás lides
Votámos peito e braços,
Por ellas suspiramos,

E amamos
Seus laços;

E que destes labios
Palavra amorosa
Por moura formosa
Jámais sairá.
Opprobrio e vergonha
Ao que as esquecer!
Infamia ao que arder
Por filha d'Allah!

D. Pedro e D. Henrique dirigem-se, com colera mal reprimida, ao meio dos cavalleiros.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Infamia, dizeis vós?

D. DUARTE.

Aproximando-se vivamente delles, e guiando-os pela mão para a frente da scena.

Por Deus, calae-vos!

Ignoram vosso amor esses guerreiros.
Da patria elles falavam:
Não a trahir juravam.
E vós? Vós que sois filhos
D'elrei de Portugal; vós, cavalleiros,
Que d'Aviz e Lancastre a gloria herdastes,
Vosso nome manchastes
Com um affecto ignobil...

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Que ousaes dizer, senhor!

D. DUARTE.

Sim, ignobil affecto! Amor gerado
Entre rios de sangue, ao lampejarem
Cruzados ferros, no aduar mourisco
Á viva força entrado.
Conduziu-vos, dissestes-me, o combate
A suberbo palacio. Alto repouso
Era de morte ahi: seus defensores
Tinha-os o ferro português ceifado,
Duas mouras formosas,
Vencidas do terror, na fuga anciosas,
Cahindo a vossos pés pediram vida,
Liberdade, honra, e vós...

D. PEDRO.

Assegurámos-lhes

Liberdade, honra e vida. Oh, somos filhos
D'elrei de Portugal, e cavalleiros!
Era o nosso dever.

D. DUARTE.

E era-o cederdes

A um amor insensato; o prometterdes
Pelas nocturnas trévas conduzi-las
Ás naus que vão partir?

D. HENRIQUE.

Será rouba-las
Á falsa crença do koran...

D. DUARTE.

Com vehemencia.

E a infamia

Lhes gravareis depois nas frontes puras?
Isso é torpe! Isso é vil!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Senhor infante!

D. DUARTE.

Com ardor.

Oh, que não ha-de ser! No quarto d'alva
A armada partirá.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Com inquietação.

Zombaes?

D. DUARTE.

Ouvi-me!

É o mandado d'elrei...

Dirigindo-se aos cavalleiros.

Meus velhos guerreiros,
As armas tomae,
E á praia fremente
Os passos guiae;
Que as náus já fluctuam:
Não tarda o partir.
Nos mares a aurora
Veremos surgir.

CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.

Ajoelhando e estendendo os braços para o céu.

Virgem! Esperança!
Estrella do mar,
Ouvi nosso orar;
Mandae-nos bonança!
Salvae-nos, salvae-nos!
E á patria levae-nos!

Erguem-se e vão saindo. Ouve-se-lhes ainda ao longe.

Á patria levae-nos!...

D. DUARTE.

Guerreiros novéis
As armas vestí,
E os muros de Ceuta
De lanças cubrí­.
Bandeira da serpe,
Bandeira d'elrei,
No alcacer, nas torres
Guardae, ou morrei!

CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.

Tirando as espadas e cruzando-as umas sobre outras.

Contentes saudamos
Os dias de guerra:
Ser dignos da terra
Da infancia juramos.
O braço não treme!...
O peito não teme!...

Vão saindo, e ouve-se-lhes ainda fóra:

O peito não teme!...

D. DUARTE.

Restam bem poucas horas:
Salvos estaes infantes!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Sabe um amor immenso
Horas fazer de instantes.

D. DUARTE.

Que!? Ousarieis 'inda?...

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Nós ousaremos tudo!

D. DUARTE.

Não! Filial piedade
Vos servirá d'escudo!

Com gesto supplicante.

Pela memoria sancta
De nossa mãe querida,
Que na feral jazida
Tal crime assombrará,
Afugentae qual sonho
Esse insensato amor,
Que o odio, que o furor
Do céu accenderá!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Mas deste amor profundo
Quem nos libertará?

D. DUARTE.

Vêde quem sois, e o mundo
Como vos julgará!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Duas formosas almas
Por nós a fé ganhou.

D. DUARTE.

Antes por vós o sangue
De Aviz se deshonrou.

UM PAGEM.

Entrando apressado.

Pri­ncipe, elrei vos chama.

D. DUARTE.

Ide; eu vos sigo.

Lançando os braços ao pescoço dos dous infantes apenas o pagem sáe, D. Duarte os vem conduzindo lentamente para a frente da scena.

Oh meu Pedro, oh meu Henrique,
Louco intento abandonaes?!
Não passar de Ceuta as portas
Hoje, aqui, vós me juraes?!

Os dous, volvendo olhar rapido um para o outro

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Senhor, do sceptro herdeiro,
Vossos irmãos mandaes...
De Ceuta as ferreas portas
Não cruzaremos mais!

D. DUARTE.

Basta-me tal promessa!
Só mentem desleaes.

SCENA II.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.
D. HENRIQUE.

Olhando para o pri­ncipe que sáe, e sorrindo.

A promessa ha-de cumprir-se!
Nobre infante, vae seguro!

D. PEDRO.

Com hesitação.

Mas de Ceuta o erguido muro
Como além, hoje, transpôr?...

D. HENRIQUE.

Conduzindo D. Pedro a uma gelosia, e apontando para fóra.

Vedes vós, lá em baixo, esse vulto
Amplo e negro da torre de Fez,
Que inda ha pouco o mais forte pavez
Do vencido muslim se ostentou?

D. PEDRO.

Vejo; e lembram-me as portas robustas
Que a acha d'armas a custo desfez;
E que nesse momento se fez
Um silencio que instantes durou...

D. HENRIQUE.

E parámos; e ouvimos ao longe
Tinir d'armas, correr de corceis,
E o confuso bradar d'infiéis,
Restrugindo os seus gritos de dor...

D. PEDRO.

Subterraneo caminho os salvava
Das espadas dos nossos fiéis,
Quando inuteis alfanges, broqueis
Lhes tornára profundo terror...

D. HENRIQUE.

O que ao mouro no trance tremendo
De destino cruento remiu,
Esta noite, a quem nunca mentiu
De mentir uma vez salvará.

D. PEDRO.

Com grande jubilo.

Oh sim! sim! Velae guardas de Ceuta!
Outras portas o amor nos abriu;
Nossa estrella dos céus nos sorriu;
O caminho, o caminho é por lá!

D. HENRIQUE E D. PEDRO.

Noite placida e formosa,
Noite grata a um vivo affecto,
Para nós no torvo aspecto
Te deslisa almo prazer!
Bella noite silenciosa,
Sê propicia ao nosso intento;
Com teu véu cobre o momento
Do partir e do volver!

SCENA III.

Sala nos paços do wali Bensalá n'uma aldeia das vizinhanças de Ceuta. Um candelabro, que derrama uma luz frouxa, pendente do tecto. No fundo, sobre uma especie de coxim elevado, Gulnar reclinada. Côro de donzellas arabes cantando ao som de harpas.

CÔRO.

Dorme, dorme desgraçada!
Dorme, filha do wali!
Possa o somno sobre ti
O consolo derramar.
Quando dormes é teu gesto
Brando e meigo qual de huri;
Mas vingança nelle ri
Ferozmente ao despertar.

GULNAR.

Erguendo-se lentamente.

Oh, como é doce o som de vossas harpas,
Desterradas de Ceuta!.. Adormecestes
Um pouco minha dor. Senti correrem
Destes olhos as lagrymas... Ai! breve,
Repentino terror veio enxuga-las.
Meu pae... Que diz Levi?

CÔRO.

Oh Deus!

GULNAR.

Entendo:

Não tenho que esperar?..

CÔRO.

Delira. Golfa o sangue
Da profunda ferida,
Por onde foge a vida
Do inerte corpo exangue.

GULNAR.

Com gesto ameaçador, e erguendo-se.

Oh, basta! Inulto,

Senhor de Ceuta, em cemiterio estranho
Não dormirás! Meu pae, Gulnar t'o jura!
Lobna e Haleva onde estão?

SCENA IV.

LOBNA E HALEVA.

Entrando apressadamente assustadas.

LOBNA.

Eis-nos, princesa!

Os espias voltaram: tumultuando
Na marinha de Ceuta homens, ginetes,
Ao pôr do sol: as naus soltando as vélas,
Proas á terra: o esquife após o esquife
Entre a praia e as galés cruzando as ondas;
Tudo do amir christão mostra a partida.

GULNAR.

O tigre português volta ao seu antro!
Mas Ceuta...

Com amargura.

Profanada e serva és Ceuta!

O que te amou qual pae jaz moribundo
No seu leito de dor. Foi por salvar-te
Pérola rica do Moghreb. Inutil
O sangue se verteu! Oh, sem vingança
Não ficaremos nós: nós ambas orphans,
Eu desterrada e tu escrava. O nobre
Teu senhor e meu pae, talvez, da aurora
Não veja mais a luz. Mas trema o fero
Amir de Portugal! Gulnar, a filha
Do vencido wali, ha-de vinga-lo.
Lobna e Haleva esta noite...

HALEVA.

Hesitando.

E quem vos disse

Que elles hão-de voltar?..

GULNAR.

O juramento:

O juramento seu!.. Já não sois servas,
Bellas filhas do Caucaso; sois socias
Da implacavel Gulnar. A vós a gloria
De tornar mais cruel su' hora extrema.
Quanto ardente paixão tem de ternura
Quantas fascinações ha no amor virgem:
Quanto o meigo sorrir, quanto as promessas,
O pranto, o resistir tem de deli­rio;
Tudo, tudo empregae! Raio de morte,
Juncto ás portas do céu, lance-os no inferno.

Erguendo as mãos.

Escuta, emfim, meu pranto,
Dos impios vencedor:
Manda, propheta sancto,
O anjo exterminador.
Chore a roubada prole
O português amir:
Que o sangue me console
Antes de o sol surgir.
Cercae-os vós de goso:
Sintam que é bom viver:
Será mais horroroso
Meu brado:—Ide morrer!»
Vem, oh terrivel hora,
Hora do meu folgar,
Hora em que vingadora
Triumphará Gulnar.

Dirigindo-se ao côro.

Ide; patente

Do alcacer seja o ádito: silencio
Profundo reine em toda a parte: os gritos
Dos moribundos só... hão-de quebra-lo!
Vingança a Bensalá.

CÔRO.

Vingança á patria!

GULNAR.

A Haleva e Lobna com gesto terrivel.

Em breve me vereis!...

SCENA V.

LOBNA E HALEVA.

Olham aterradas para Gulnar, que sai precedida do côro, e depois correm a lançar-se nos braços uma da outra.

HALEVA.

Ai, como foi mesquinha
A nossa escura sorte!
Porque a terrivel morte
Os tristes conduzir?

LOBNA.

Oh, se Gulnar os víra,
De sangue inda banhados,
Vencidos, humilhados,
A nossos pés cahir!

HALEVA.

Que lhes valêra? Sangue,
Sangue só quer a hyena:
A cólera a aliena:
Não póde perdoar!

LOBNA.

Haleva, minha Haleva,
De susto eu titubeio:
Tu imagina o meio
De as victimas salvar.

HALEVA.

Miseras! Só nos resta,
Em festa sanguinosa,
Sob a traidora rosa
O aspide esconder.

LOBNA.

Que importa a pobre escrava
De susto e de amor trema?
Embora chore e gema,
Cumpre-lhe obedecer.

HALEVA E LOBNA.

Sólta o suave canto
Captivo rouxinol,
Quando o nascente sol
Derrama seu fulgor;
E as aves vem, correndo,
Pousar no umbroso til,
Onde com arte vil
As prende o caçador.
O canto da avesinha
Foi nosso amor fatal!
E elles... destino igual
Lhes reservou o amor!

SCENA VI.

Terrado no primeiro plano da Torre de Fez, cujo corpo superior se alevanta ao lado esquerdo no fundo, seguindo para a direita a linha das ameias. Ao longe o facho de uma atalaia exterior. No cimo da torre, tambem ameiada, outro facho, cuja claridade allumia a scena, onde se vêem tres ou quatro vigias encostados ás ameias do plano inferior. Sobre a porta do corpo superior da torre lê-se a seguinte inscripção:==Esta torre de Fez ffoy combatida e entrada pollo muy eyscelente e esforçado Iffante Dom Anrigue a 21 Dagosto de 1415 annos.==É noite.

D. DUARTE.

Saíndo seguido de um sobrerolda, ambos apressados.

Viste-los vós?...

SOBREROLDA.

Jura-lo

Posso. Dous cavalleiros:
Negras armas: cavallo
Negro ambos. Ligeiros
Voam... Ouví!...

D. Duarte chega ás ameias escutando.

Ao largo

Ainda soa o tropel.

D. DUARTE.

Áparte com afflição e despeito.

Oh pensamento amargo!
Oh receiar cruel!

Ao sobrerolda.

E os homens d'armas?

SOBREROLDA.

Velam:

Não falta um só.

Escutando para a campanha.

Ao seu correr, que anhelam
Voltar antes do dia.

D. DUARTE.

Não mais...

Chegando-se ás ameias, e apontando para baixo.

Para a barreira

Cem lanças o adail
Conduza: da dianteira
Todos; que valem mil!
E eu lá serei em breve:
E elles hão-de seguir-me.
Sabe-lo elrei não deve.
Ai do que ousar trahir-me!

O sobrerolda sai.

Sob o seu gesto candido
O engano se escondia!
Era uma idéa perfida
Que na alma lhes surgia,
Quando de Ceuta as portas
Juravam não transpôr!
Creram que a noite lobrega
Seu crime esconderia!
Perante o céu, oh miseros,
Que importa a noite, o dia,
Se de ira se ha turbado
A face do Senhor?

Pausa: com terror.

Mas se a suprema cólera
Terrivel já descesse!...
Se, em vez do goso vívido,
A morte os acolhesse!...

Erguendo as mãos.

Meu Deus perdoa aos tristes;
Cede á fraterna dor!
Oh minha mãe, da placida
Morada da ventura,
Guia-me os passos tremulos
Por esta noite escura,
Para salvar teus filhos,
Filhos de tanto amor!

SCENA VII.

A mesma sala da scena II mal allumiada pelo candelabro onde apenas arda um ou dous lumes: a gelosia está aberta: é noite escura. Lobna e Haleva saíndo pela direita, e parando de quando em quando, lançam os olhos inquietos ora para a gelosia, ora para o portico da esquerda.

LOBNA.

No seu rapido gyro foge a noite
Ligeira e socegada:
Fulgor da madrugada
Em poucas horas subirá d'oriente.
Não poderam voltar!... Respiro...

HALEVA.

Aproximando-se da gelosia.

Escuta!

Ouviste um silvo agudo?
É o signal!...

LOBNA.

Eu tremo...

Porém não... Quedo é tudo;
Salvo um ruído sussurrando ao perto,
De almogavar talvez...

HALEVA.

De dous ginetes

O tropeiar parece... Elles!... São elles!
Sobre trajos de ferro espadas tinem!
Não ha que duvidar...

LOBNA.

Oh! desfalleço!

Ouve-se um sibillo já perto.

HALEVA.

Ei-lo o triste signal, signal de morte!
Á sua esquiva sorte
Não poderão fugir! Meu Deus!

LOBNA.

Patente

Ante si tudo hão-de encontrar. Se ao menos
Suspeitassem de nós!

HALEVA.

Ei-los! Silencio!

SCENA VIII.

D. Pedro e D. Henrique entrando dirigem-se para Lobna e Haleva, que recuam aterradas.

D. PEDRO.

Lobna!

D. HENRIQUE.

Haleva!

D. PEDRO.

O juramento

O momento é de cumprir!
De partir não tarda a hora:

Ha-de a aurora

Refulgir-nos juncto ao mar.

D. HENRIQUE.

Sobre os rapidos corceis
Nós fieis vos guiaremos
Aonde achemos mil delicias

Nas caricias

De que amor nos vai cercar!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Vinde! a noite nos protege:
Dorme tudo pela aldeia;
E este braço não receia,
Quando cumpre, o pelejar.
Vinde ser enlevo d'almas,
Sob um céu meigo e sereno;
Que nunca ha-de o sarraceno
Como nós saber amar!

LOBNA.

Correndo ao portico da direita, e voltando com afflicção e energia.

Fugí breve, oh desgraçados,
Que cercados sois da morte!
Queira a sorte que um momento

Seu intento

A cumprir tarde Gulnar!

HALEVA.

De ninguem serdes sentidos,
Já perdidos, ainda creis!
Mal sabeis vos esperava

Quem velava

Para em vós um pae vingar!

LOBNA E HALEVA.

Triste umbral haveis cruzado,
Do wali ultimo abrigo,
Que no extremo do perigo
Jaz a ponto d'expirar.
Por seu sangue a feroz filha,
Que essas portas franqueiou,
Vingativa aos céus jurou
Vosso sangue derramar.

D. PEDRO.

A perfidía em recompensa
Só achou o nosso ardor?!
Desleaes! Porque o furor
De mulher cruel servir?

D. HENRIQUE.

Porque a vida nos pedieis,
No olhar terno amor pedindo,
Quando os golpes retinindo
Era livre inda o fugir?

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Porque em noite deliciosa
De deli­rios seductores,
Generosos vencedores
Só pensaveis em trahir?!

LOBNA.

Uma idéa tenebrosa
De Gulnar surgiu na mente
Nessa noite, em que estridente
Veiu a espada aqui luzir:

HALEVA.

«Ide:—disse-nos—sois bellas:
Fascinae os nazarenos,
Talvez possa assim, ao menos,
Da vingança a senda abrir!»

LOBNA E HALEVA.

A leôa do deserto
Entre as cervas se escondia:
Seu aceno constrangia
Pobre escrava a amor fingir.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Com vivacidade e despeito.

Era pois um falso affecto?!...

LOBNA.

Foi-o só um breve instante...

HALEVA.

Hoje puro, hoje constante

LOBNA E HALEVA.

Far-nos-ha por vós morrer.

D. PEDRO.

Pondo a mão sobre o punho da espada.

Que ella venha, pois, e a cerquem
Seus escravos traiçoeiros!
Portugueses, cavalleiros
Somos nós: ha-de tremer!

D. HENRIQUE.

Sabe o forte nos combates
Se este braço é prompto e duro;
O covarde, que no escuro
Fere só, o ha-de saber!

LOBNA E HALEVA.
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Oh, fugi; que aindaé tempo,
Antes de ella aqui volver!
4
D. PEDRO E D. HENRIQUE
Partiremos! Dentro em breve
Nos vereis aqui volver!

O exterior da sala illumina-se de repente: a luz penetra pela gelosia, e pelos porticos da direita e da esquerda. Os infantes, que vão a sair, param e escutam.

CÔRO DE GUERREIROS MOUROS, fóra.

Gloria ao sancto propheta que aos impios
A cerviz insolente vergou,
E do amir português crueis filhos
Do muslim ao punhal entregou!

LOBNA E HALEVA.

Bateu funerea hora...
Morreu nossa esperança!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Resta-nos a vingança...
Sangue por sangue... Embora!

SCENA IX.

Eunuchos negros armados de punhaes, que se precipitam na scena e vão collocar-se no fundo do theatro. Gulnar, saindo da direita, encaminha-se vagarosamente para as escravas e para os infantes.

GULNAR.

A Lobna e Haleva.

Fugir?!... É tarde, infames!
Vós me trahieis, vís!
Tremei! Gulnar velava...
E eu sou vosso juiz!

Aos infantes.

Deponde inuteis ferros,
De Ceuta vencedores!
Lá fóra meus guerreiros...

Apontando para os eunuchos.

Alli meus vingadores.

LOBNA.
HALEVA.

———————————————————————————————————-

«Idetrahi-los—
I­mpia, disseste...
Mui facilcreste
Fingiramor.

Para trahi-los
Nos escolheste!..
Senos venceste
Foi por temor.

LOBNA E HALEVA.

Morrer com elles
É grata pena...
Feroz hyena,
Temos-te horror.

D.PEDRO.
D. HENRIQUE.

———————————————————————————————————-

Aos teusescravos,
Mulherinfida,
Mais largavida
Deixagosar!

Os teus escravos
Com mortal lida
A nossa vida
Tem de comprar!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Que nunca o susto
Nos fez no p'rigo
O ferro amigo
Abandonar.

Começa a ouvir-se um ruído como de golpes de machado.

GULNAR.

Da louca audacia,
Da van affronta
Vingança prompta
Gulnar vai ter.

O ruído augmenta: tinir d'armas, gritos confusos.

Mas qual ruí­do
Confuso soa?
Porque reboa
Voz do adail?!...

Ao chefe dos eunuchos, apontando para o portico da esquerda.

Hussein!.. O ferro
Retine!.. Gritos!
Gemer d'afflictos!
Sons de anafil!..

Toque de trombeta fóra. Hussein sai correndo pela esquerda: Gulnar fica suspensa.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Que escuto?! Lá bradaram:
—São Jorge! Ávante, ávante!»
Oh jubiloso instante!
Restruge o pelejar.

GULNAR.

Acenando aos eunuchos.

Morram os i­mpios! Morram!
Servos, rasgae seu peito.
Sintam, emfi­m, o effeito
Dos odios de Gulnar.

Os infantes dirigem-se para o portico da esquerda: os eunuchos apinham-se diante delles com os punhaes erguidos: o côro das donzellas arabes precipita-se na scena pela direita com gestos de assombro e terror: no mesmo tempo pela esquerda guerreiros mouros fugindo desordenados diante dos cavalleiros portugueses, que rompem por entre os eunuchos e os dous infantes.

SCENA X E ULTIMA.

Os dictos: D. Duarte: córos de cavalleiros portugueses e mouros: côro de donzellas arabes. Os mouros fugindo param no fundo da scena, e os cavalleiros portugueses prolongam-se pela esquerda. Gulnar, recuando, fica rodeada dos eunuchos e das donzellas. Lobna e Haleva refugiam-se juncto dos infantes.

CÔRO DE DONZELLAS.

Que horri­vel espectaculo!
Por toda a parte a morte...

CÔRO DE GUER.MOUROS.
CÔRO DE CAVALLEIROS.

———————————————————————————————————-

Ferros inuteis,ide-vos:
Cumpra-se a nossasorte!

Cede o agareno timido:
Honra ao valor do forte!

Depondo os alfanges nochão.

Brandindo as armas.

D. DUARTE.

Lançando os olhos para os eunuchos armados de punhaes estremece, e correndo para os infantes, ergue as mãos ao céu.

Vivos ainda, e incólumes!
Graças te dou, Senhor!
Laços de um impio amor
Vinha-lhes eu partir...
E a morte ia-os ferir!..
Graças, oh meu Senhor!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Curvando o joelho aos pés de D. Duarte.

Foste enganado, e salvas-nos!..
Perdoa, nobre infante!
Foi de delirio instante,
Que ao erro nos levou.

LOBNA E HALEVA.

Agita ancioso o seio
Insolito pulsar;
Mas d'horrido receio
Não é este agitar!

D. DUARTE.

Pedro, Henrique, sois salvos! Invenci­vel
A espada portuguesa,
Mais uma vez, terrivel,
A barbara fereza
Dos infiéis domou.
O perfido punhal,
Da vingança guiado, em vão se alçou...

GULNAR.

Adiantando-se.

Vencestes, nazarenos!
Folgae na vossa gloria...
Seguí facil victoria.
Puní­-me! Eis-me captiva...
Do vosso amir na prole
Vingar meu pae eu quiz...
Pensando-o era feliz:
Agora infeliz sou.
Morrer é a esperança,
Que o fado me deixou.

CÔRO DE CAVALLEIROS.

Interrompendo Gulnar, e brandindo de novo as armas.

Pune, oh principe, infames traidores:
Lava a affronta do sangue real!
Dos covardes, em trance fatal,
Tinja as faces da morte o pallor!

CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.

Com gesto supplicante.

Por piedade, dos teus seguidores
Não escutes o voto lethal!
Generoso, o seu odio infernal,
Por piedade, não ouças, senhor!

D. DUARTE.

Aos cavalleiros.

Silencio!

Aos mouros.

Livres sois.

Aos cavalleiros.

Nunca aos vencidos

Sangue pediu meu pae. Eu serei digno
Filho do vosso rei.

A Gulnar.

Mulher, és livre.

GULNAR.

Tua clemencia hypocrita,
Tyranno, vem mui tarde!
Pensas apagar, barbaro,
Fogo que immortal arde?!
Dá-me Ceuta, a miserrima:
Torna-me um pae que expira:
Foge das praias d'Africa
Serva, que mal respira!
Foras assim magnanimo:
Grata Gulnar te fora:
Sem isso, um favor unico,
Prompto morrer te implora!

CÔRO DE MOUROS EDONZELLAS.
CÔRO DECAVALLEIROS.

———————————————————————————————————-

Turba-te a dor e acólera,
Filha deBensalá:
A tua raivaindomita
É van e inutiljá!

Da perfida avan cólera
Inutil brame já:
Do seu cruel proposito
Ella nos vingará.

Em quanto duram os córos o principe e os infantes falam em voz baixa: os infantes apontando para Lobna, e Haleva: D. Duarte mostra-se agitado, e depois dirige-se rapidamente para ellas.

D. DUARTE.

Tomando pela mão as duas escravas.

Não!... Innocentes victimas
D'impios não deveis ser!
O vosso amor ingenuo
Cumpre-vos esquecer;
Mas a vingança barbara
Não vos entregarei.
A Portugal seguindo-nos

Olhando para os infantes com aspecto severo.

Eu vos protegerei!

LOBNA E HALEVA.

Só ir nos concede
O fado inhumano
Além do oceano
De amor expirar!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Nest'hora solemne
Do peito no arcano
Nosso amor insano
Juramos calar.

D. DUARTE.

Da nossa clemencia
Aprenda o africano
A ser nobre e humano,
E o que é perdoar.

GULNAR.

Do meu odio immenso
Cruel desengano!..
Feroz lusitano
Se ri de Gulnar!

CÔRO DE CAVALLEIROS.

Risquemos da mente
O perfido engano;
Que o principe humano
É bello imitar.

CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.

A nobre clemencia
Do heroe lusitano
Áquem do oceano
Sempre ha-de lembrar.