VERSÕES.

O SECCAR DAS FOLHAS.

(Millevoye).

Das ruinas destes bosques
O outomno alastrou o chão:
A selva perdeu seus mimos;
Os rouxinoes mudos são.
No bosque, amigo da infancia,
Triste um joven vagueiava;
Na sua aurora a doença
Para o sepulchro o inclinava.
«Adeus floresta querida!
Vestes lucto por meu fim?
Como te cai folha e folha
A morte me segue assim.
Intima voz, que revela
Seu fado extremo aos mortaes,
Me diz:—vês cahir as folhas?
São essas só: não ha mais!
Sobre esta pallida fronte
O torvo cypreste ondeia,
Como o que, pharol de mortos,
Sobre campas se meneia.
Antes da vide na encosta,
Antes da relva no prado,
Os dias da juventude
Terão para mim murchado!
Minha linda primavera
Qual a van sombra passou!
Eu morro: o euro gelado
Da vida a seiva mirrou.
Cáe, oh passageira folha;
Vem esta senda cobrir;
Esconde ao pranto materno
Logar onde vou dormir.
Mas se vier minha amante,
Involta em véu luctuoso,
Ao pôr do sol, na lameda,
Dar-me um suspiro saudoso,
Com o teu leve rugido
Desperta, oh, desperta o morto;
Que assim sua sombra tenha
Ainda allivio e conforto!»
Disse: afastou-se, e não volve:
Ultima folha cahiu:
Era o signal: seu sepulchro
Sob o carvalho se abriu.
Mas sua amante não veio:
E só do valle o pastor
Quebrou com som de passadas
Repouso do trovador.

A NOIVA DO SEPULCHRO.

(Imitado do inglez).

I.

Juncto da raia d'Hespanha,

Em monte calvo e deserto,
Vê-se um vulto negro ao longe,
Castello é, vendo-se ao perto:

Mas castello derribado,

De bons tempos, de outras eras,
Hoje abrigo escuro e triste
De reptis e bravas feras.

Foram formosos e fortes

Esses muros derrocados,
Por onde trepam as heras;
Que cingem bastos silvados.

A voz delrei nelle tinha

Nobre alcaide dom Sueiro;
Nobre por sua linhagem,
Nobre por bom cavalleiro.

Noivados, torneios, festas,

Ninguem sem elle fazia:
Ninguem, sem o convidar,
Ajustava montaria;

Que nunca da sua bésta

Viróte partiu em vão;
Como nunca os justadores
O viram perder o arção.

Mulher, que elle muito amara,

Lh'a roubara a sepultura;
Mas por este golpe o alcaide
Não mostrou grande tristura.

Até corria entre o povo

Um mysterio de maldade...
Suppunham uns ser mentira;
Criam outros ser verdade.

Mas o que? Cubria a terra

Esse caso mysterioso;
E só o povo sabía
Ser viuvo o que era esposo.

II.

Cedo se ergue dom Sueiro;

Cavalga no seu cavallo,
E para caçada alegre
Passa áquem do extremo vallo.

Por essas margens do Lima,

Debaixo de puro céu,
O nobre senhor alcaide
Á rédea solta correu.

Veredas segue torcidas,

Até descubrir o outeiro,
Que revestem pela encosta
O zimbro, a urze e o pinheiro.

Soam sonoras buzinas,

Ri do dia o lindo alvor,
E no meio da paizagem
Uma brilha e outra flor.

Dom Sueiro o seu cavallo

Incita com ferrea espora;
Que no logar aprazado
Deve estar dentro de um' hora.

Nada lhe põe embaraço;

Nem resonantes ribeiros,
Nem as chans apaúladas,
Nem escarpados outeiros.

Mas ao sair da floresta,

Ainda perto do rio,
Viu ir formosa donzella
Buscando do ermo o desvio.

Celestes são seus meneios:

Não mortal, anjo parece:
Da sua tez a brancura
Alva açucena escurece.

O seu corcel dom Sueiro

Fez parar. Já se esquecera
Da caçada; e que no monte
Em breve estar promettera.

—Dizei-me vós, oh donzella,

Quem sois, que nunca vos vi;
Que por minha alma vos juro
Sois já senhora de mi.»

Resposta nenhuma teve,

Que ella não lhe respondia,
E, sempre guiando ao valle,
A curva senda seguia.

—Não me fugireis assim:

Bofé que não fugireis!
Um momento, um só momento,
Dom Sueiro escutareis!»

Disse: desmonta, e persegue-a,

Nos braços para a estreitar;
Mas ella furta-lhe o corpo,
E elle abraça o subtil ar.

—Dizei-me vós, oh donzella,

Pela vossa alma dizei,
De que procede tal susto,
Que a meu pesar vos causei?

Que, pelos céus o asseguro,

É verdadeiro este amor.
Não me fujaes, bella dama:
Não ha de que ter pavor.

De esposo, se vós quereis,

Dar-vos-hei, contente, a mão:
Sereis dona de um castello,
Dona do meu coração.»

—Dom Sueiro, oh dom Sueiro—

Tornou a dama formosa—
Eu sei quem és, qual teu nome,
E eu seria tua esposa:

Mas como crer nos teus dictos,

Dictos de homem fraudulento?
Conheço tuas perfidias,
E qual é teu vil intento.

Dês que morreu dona Dulce,

A tua infeliz mulher,
A linda Elvira roubaste
Para teu ludibrio ser.

Com promessas refalsadas

Enganaste uma innocente.
Quem crerá juras de um ímpio,
Que só jura quando mente?

Ella te creu, desditosa!

Porém não te creio eu:
Nem, qual de Elvira o destino,
Será o destino meu.

E como soffrera, esposa

Tua sendo, uma rival?
Folgáras tu nos meus zelos;
Folgáras della no mal?

Ousáras tu, dom Sueiro,

A pobre Elvira expulsar,
E dias de angustia e pejo,
Misera, vê-la tragar?—

«Oh, voto a Christo, que sim!—

O nobre alcaide atalhou:
E desfazer-se de Elvira,
Com mil pragas, protestou.

—Mas dizei vós, dama linda,

Quem sois? quem são vossos paes?
Que eu vos direi de mim tudo,
Se tudo me perguntaes.—

«Nunca!—tornou a donzella:—

Quem eu sou não te direi.
Nada te devo por ora:
Quando dever pagarei.

Mas pódes estar seguro,

Que, bem que nobre senhor.
Não é que o meu o teu sangue
Sangue de maior primor.—

«Pois sim, querida, pois sim!—

Dom Sueiro proseguia;
E algum signal de ternura
Á bella dama pedia.

«Não, oh não, meu cavalleiro!

Quando a mim te vir ligado
Tua serei; que antes disso
Fôra horroroso peccado.—

«Porém dizei-me, oh donzella,

Onde vos hei-de encontrar?
Que, pela cruz, ahi juro
Nossas nupcias celebrar.—

«Oh, que não será de dia;

Que mal de nós julgarão!—
Tornou a dama—e os praguentos
Certo de mim se rirão.

É pela noite que eu voto;

De noite no cemiterio,
Quando soar doze vezes
O sino do presbyterio.

Sob o teixo solitario,

Onde ninguem nos não veja;
E aonde nunca chegar-se
Quem passar ousado seja.—

«Vivam meus lindos amores!—

Interrompeu dom Sueiro:—
Sob o teixo, á meia noite?...
Veremos quem vae primeiro.—

«Sim!—volveu ella—a ess' hora.

Nenhuma fôra melhor;
Porém, da tua palavra
Que me darás em penhor?—

«Minha paixão em seguro

Do que promettí te dou:
Nunca promessas mentidas
Fez quem devéras amou.

Curvando o joelho, eu juro

Teus grilhões sempre rojar:
Meu corpo e alma são teus;
E o tempo o ha-de provar.—

«Basta!—a donzella lhe disse.—

Dom Sueiro, sou contente.
São meus teu corpo e tu' alma:
Meus serão eternamente.—

Dicto isto, ao longo do rio

Ligeira a senda seguiu,
E elle aos outros caçadores
Alegre se reuniu.

III.

Já da larga montaria

O folguedo se acabava,
E dom Sueiro ao castello,
Ao seu castello voltava.

Arde-lhe na alma o desejo

Com as imagens do goso,
E róe-lhe idéa damnada
O coração criminoso.

Infeliz e linda Elvira,

Nos dias da juventude,
Perdera nos braços delle
Flor de innocencia e virtude.

Mas gosos faceis não duram;

Breve após o tedio chega:
Elvira é já enfadonha:
Novo amor o alcaide cega.

Cumpre de si afasta-la:

O caso difficil é:
Ajunctará crime a crime?
Elle outro meio não vê.

Emfim decidiu-se: a morte

Em aurea taça lhe deu.
Nobre senhor, folgar pódes,
Teu crime a terra escondeu!

Era noite: e dom Sueiro

Para o adro ermo partia.
Logar, horas ou remorsos,
Nada terror lhe infundia.

Brilha a lua em seu crescente:

Passa a noite silenciosa;
E só lhe quebra o socego
O mocho e a fonte ruidosa.

Ao cabo o adro elle avista:

No meio o teixo lhe avulta:
Não deu meia noite ainda;
A dama ainda se occulta.

Mas troa o sino! Uma!... Duas!...

Contou; contou: mais dez são:
E uma donzella, de branco,
Surge da lua ao clarão,

E está debaixo do teixo.

Para lá o alcaide corre.
Não enganou seus desejos
Essa por quem elle morre.

Porém que é isto? Recúa?

Para trás a face vira?
Sim; que não era a donzella,
Mas o phantasma de Elvira.

«Maldicto!—clamou o espectro—

Pune a traição o traidor.
Negro o sepulchro te espera.
De teu mal és só o auctor.

Pensa, monstro, emquanto é tempo;

Que não tardará teu fim.
Teu nome apagou-se. Agora,
Recorda-te bem de mim!—

Não disse mais; e esvaeceu-se.

Dom Sueiro, espavorido,
Fugiu: sem volver os olhos,
Sem parar, sempre ha corrido.

Brilha a lua em seu crescente:

Passa a noite silenciosa;
E só lhe quebra o socego
O mocho e a fonte ruidosa.

Á porta do seu castello

Já dom Sueiro chegava.
Alli, vestida de branco,
Do bosque a donzella estava.

«Mal-hajas tu, cavalleiro:—

Apenas o viu lhe disse:—
O ter de mulheres medo
É signalada pequice.

Fui eu que fiz de phantasma:

Teu valor conhecer quiz.
Tremer como tu tremeste
É só proprio de homens vís.—

As faces do nobre alcaide

De vermelho se tingiram;
Mas voltou logo a ternura;
Passados sustos fugiram.

«Vinde a meus braços, querida!

Vinde: não vos detenhaes,
Digna de ser minha esposa
Só vós sois, e ninguem mais.

Neste sitio, hoje vos juro

Amor firme e puro e ardente:
Em corpo e alma sou vosso;
Sê-lo-hei eternamente.»—

«Em corpo e alma!?—ella clama,

Com uma voz sepulchral.—
Certo será graciosa
Nossa união conjugal!»

Então, qual bravo terçol,

Que em sua presa poz mira,
Ao mesquinho dom Sueiro,
Abrindo os braços, se atira.

«Arredo! Filha do inferno!—

Grita o alcaide.—Isto o que é?»
Ai!... olhou... É dona Dulce,
Não a donzella, quem vê.

Com os braços descarnados

Ella o collo lhe estreitou,
E os labios apodrecidos
Aos labios delle chegou.

Mortal halito de serpe

Seu halito assemelhava:
Sua figura era horrivel:
Tocada apenas gelava.

«Deixa-te agora de medos:—

Disse o espectro a dom Sueiro.—
Que é da audacia que mostravas,
Audacia de cavalleiro?

Tremes?... De quê, assassino?

Antes devêras tremer,
Quando envenenaste Elvira,
E a tua pobre mulher.

Meu amor e meus encantos

Pouco tempo te prenderam:
Em mim do sepulchro os vermes
Por tua mão se pasceram.

Depois, a amar-me tornando,

Repetiste um crime horrivel...
Teu amor é frouxo sempre;
Teu odio sempre terrivel!

Mas agora, odiada ou grata,

Não sairei de teu lado:
Nada quebra no outro mundo
Dos mortos negro noivado.

Alma e corpo me cedeste:

O corpo aqui dormirá:
Porém tua alma comigo
Mais longe se acolherá!»

Não lhe respondeu o alcaide,

Que a morte empallidecera,
E, ao som de arranco profundo,
No chão, extincto, batera.

Mas contam 'inda os pastores,

Que á meia-noite vagueia
Nas margens do ameno Lima,
Que murmurando serpeia;

E que, gritando e gemendo,

O seguem duas figuras,
Ambas com brancos vestidos
E tisnadas cataduras.

O CANTO DO COSSACO.

(Béranger).

Vem, meu ginete: oh vem, meu nobre amigo!
Chama-te em altos sons tuba do norte.
Prestes no saque, intrepido nas brigas,
Dá, guiado por mim, asas á morte.
Os teus jaezes não arreia o ouro;
Mas de meus feitos o terás em paga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus pés esmaga.
Tuas rédeas me entrega a paz que foge.
Ei-los por terra os europeus baluartes!
Meus aureos sonhos realisa agora;
Terás repouso na mansão das artes.
Volve a terceira vez ao Sena inquieto,
Que te lavou sangrento, e a sede apaga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus pés esmaga.
Reis, sacerdotes, grandes nos clamaram,
Entre o choro de mi­seros humanos:
—Cossacos, vinde ser de nós senhores!
Servos seremos, por ficar tyrannos.»
E a cruz e o sceptro quebrarão meus fortes;
Que eu hei tomado minha lança e adaga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus pés esmaga.
De um enorme gigante vi o espectro
Nosso campo correr co' a vista ardente;
E, gritando:—meu reino outra vez surge!»—
Mostrar com a acha d'armas o occidente.
A sombra era immortal do rei dos Hunos;
D'Áttila a voz, qual maldicção aziaga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus pés esmaga.
De que serve seu brilho á velha Europa?
Que lhe presta o saber para salvar-se?
Os turbilhões de pó, que hão-de sumi-la,
Debaixo de teus pés vão levantar-se.
Templos, palacios, leis, memorias, usos,
Na correria extrema, e pisa e estraga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus pés esmaga.

O CAÇADOR FEROZ.

(Burger).

Sua buzina tocára

O conde, altivo senhor:
«De pé, de cavallo, álerta!—
Disse; e monta o corredor.

O nobre animal relincha:

Pula e parte; e a turba após.
Ei-los vão! Quem era o conde?
Era o caçador feroz.

Por estevaes e por sarças,

Por campinas cultivadas,
Voam rapidos. Resoam
Motejos, gritos, risadas.

O sol que vinha rompendo

Em luz as veigas banhava,
E do zimborio do templo
O lanternim scintillava.

«Tlim, tlão!—convocando á missa,

Tangia o sagrado sino;
E involto nos sons de um orgam,
Do côro se ouvia o hymno.

Duas sendas lá se cruzam;

E a turba chegára lá.
Da direita um cavalleiro,
E outro da esquerda está.

Nedio ginete, qual neve

Alvo, guiava o primeiro;
O segundo, á rédea solta,
Esporeava um fouveiro.

Quem taes cavalleiros eram

Creio certo adivinha-lo,
Bem que ainda com certeza
Não me atreva a declara-lo.

Da direita ao cavalleiro

Fulgia o rosto formoso;
Porém no olhar do da esquerda
Fulgor havia horroroso.

«Bem vindos sois, cavalleiros;

Bem vindos á montaria!
Qual prazer, no céu, na terra,
Ao nosso se igualaria!—

Assim disse o conde, e rija

Palmada na côxa deu.
Atirando pelos ares
A grande altura o chapeu.

«O som da tua buzina—

Tornou logo o da direita—
Nem aos canticos do côro
Nem do sino ao som se ageita.

Ruim caçada te espera!

Atrás te cumpre voltar.
Contra ti a ira celeste
Não queiras desafiar.»

«Nobre conde monteae—

Prestes o outro atalhou—
Que importa a bulha do côro,
E se o sino badalou?

Deixae ao povo o seu medo:

Que para a relé foi feito.
Não são palavras sandías
Das que merecem respeito.—

«Ah, bem dicto! Oh tu da esquerda,

Um heroe és quanto a mim.
Só padre-nossos empecem
A algum caçador ruim!

Que tem missas, que tem resas

Com o montear, sandeu?
Se medo queres metter-me,
Falhou o calculo teu.—

Disse o conde. Ávante correm:

Vão por campinas e outeiros.
Sempre da direita e esquerda
Estão os dous cavalleiros.

Eis, lá em distancia, um cervo

Branco transpõe a assomada,
Tendo de pontas galhosas
A erguida fronte adornada.

Então o conde a buzina

Com mais alento assoprou,
E tudo, a pé, a cavallo,
Com mais rapidez voou.

Ora dos que por diante,

Ora dos que de trás vão,
Um ou outro rebentado
Fica no meio do chão.

E o conde:—Cahem? No inferno

Baqueiar podesseis vós!
Os que desalentam fiquem:
Sem elles bem vamos nós.—

N'uma seara guarida,

Fugindo, o cervo buscou:
O pobre dono do campo,
Triste, ao conde se chegou:

«Meu bom senhor—clamou elle—

Compaixão, meu bom senhor!
Ah, poupae mesquinhos fructos
De um abundante suor.—

Da direita o cavalleiro

O conde amoestou então:
Cortezes eram seus dictos,
Cortezes e de razão:

Mas, atiçando-o o da esquerda

Á maldade perpetrar,
Desprezou o da direita
Para o maldicto o enredar.

«Fóra cão!—ao camponez

Grita o conde esbravejando—
Quando não, com mil diabos,
Soltar-te a matilha mando.

Álerta, socios! O açoute

Pelas orelhas chegae-lhe;
E que sou fiel ás juras
Dessa maneira provae-lhe.»

Dicto e feito. O conde salta

Por cima os vallos fronteiros;
E atrás delle, estrepitando,
Homens, cavallos, balseiros.

O tropel, com grita horrenda,

Pisa e destroe a seara;
Que ninguem do lavrador
Dorido choro escutára.

Pelo estridor acossado,

Que já bem perto sentia,
O cervo os crueis intentos,
Veloz fugindo, illudia.

Através de montes, valles,

Perseguido e não tomado,
Manhoso se foi metter
Entre um rebanho de gado.

Entrando do campo ao bosque,

Saindo do bosque ao claro,
Seguiram-no os cães, e em breve
Lhe acharam da pista o faro.

Cheio de angustia o pastor,

Por seu rebanho temendo,
Por terra se arremessou
Aos pés do conde, tremendo.

—Deixae meu pobre rebanho;

Senhor, tende dó de mi:
De muitas tristes viuvas
O gado retouça aqui.

Cada qual das pobrezinhas

Tem das rezes uma só:
Eis toda a sua riqueza:
Senhor, tende dellas dó.»

Da direita o cavalleiro

O conde amoestou então:
Cortezes eram seus dictos,
Cortezes e de razão:

Mas a maldade do conde

Sempre atiçava o da esquerda,
E elle, o bom ludibriando,
Corria á ultima perda.

«Cão! A mim oppôr-te queres?

As contas vou-te eu fazer.
Quem me déra entre essas vaccas
Comtigo as taes velhas ver;

Que seria o mais suave

Prazer do coração meu
Montear-vos, mais que fosse
Pelas campinas do céu.

Álerta, socios, ávante!

Cães, avança! csê! perdido!—
E os cães no que acham mais perto
Saltam com fero latido.

O pegureiro por terra

Cái em seu sangue banhado,
E sanguento o gado fica
Todo alli atassalhado.

Á morte escapou a custo

O veado, que fugia
Cada vez menos ligeiro,
N'uma floresta sombria.

Cuberto de escuma e sangue,

Perdida a respiração,
Do bosque em meio salvou-se
No alvergue de um ermitão.

Segue-o o tropel incançavel:

Estala o açoute incessante:
Soam buzinas; retinem
Os gritos de—abóca! ávante!»

O solitario piedoso

Da cabana então saíu,
E ao conde, com brando gesto,
Taes palavras dirigiu:

—Senhor, deixa teus intentos,

E o sacro asylo venera:
A creatura ao céu se queixa;
Delle teu castigo espera.

Aos bons avisos, oh conde,

Cede pela ultima vez;
Quando não, na perdição,
Certo, abysmado te vês.»

Cuidadoso o da direita

Ao conde correu então:
Cortezes eram seus dictos,
Cortezes e de razão.

Mas o da esquerda atiçando

Nelle o animo damnado,
Do bom apesar do aviso,
Ai, do mau foi enganado!

«Perdição?! Disso me rio,

Não cuideis que eu tenha susto.
No terceiro céu que fôra
Me escapára o cervo a custo.

Que me importa a ira divina?

Vae-te prégar ao deserto.
Teus sermões a montaria
Não farão falhar, por certo.—

Assim disse o conde. O açoute

Sacode; as buzinas soam.
«Csê! abóca!..—Ui! de diante
Homens e cabana voam.

De trás corceis, homens fogem:

Sons e gritos de caçada
Se esvaecem de repente
Da morte na paz gelada.

Pávido o conde olha em roda:

Tóca a buzina... não soa:
Grita... em vão: nada ouve: o açoute
Vibra: mas no ar não toa.

Para um e para outro lado

O seu cavallo esporeia...
Nem para trás voltar póde,
Nem àvante se meneia.

Então escurece emtorno:

Cada vez mais de ennegrece:
Qual sepulchro fica: ao longe
Bramir triste o mar parece.

Lá troa voz de trovão!

Que era o que dizia a voz?
Era a sentença do conde,
Sentença medonha e atroz.

«Genio infernal, atrevido

Contra Deus, homens e feras!
Das creaturas os gemidos
Resoaram nas espheras.

Tuas maldades e insultos

Alto pedem punição,
Onde da vingança o facho
Ondeia erguido clarão.

Malvado, foge; que os monstros

Do inferno te vão seguir,
Para que sejas exemplo
Aos tyrannos do porvir!»

Qual d'aurora boreal,

Flavo pallido fulgor
Tingiu então na floresta
Das folhas a verde côr.

Immovel, pasmado, mudo,

Gelado o conde ficou;
Trépida angustia dos ossos
Á medulla lhe chegou.

Frio susto pela frente

Contra elle arroja o terror:
Pelas costas o persegue
O trovão atroador.

O susto o gela; o céu ruge...

Da terra vai-se elevando
Negra agigantada mão,
Ora abrindo, ora fechando.

Pelos cabellos da fronte,

Ai, quer o conde prender!..
Elle atrás o rosto volta;
Nem mais o pôde volver.

Em roda chammeja a terra

Verde, azul, vermelho fogo:
Delle um mar rodeia o conde:
Surge o inferno em peso logo.

Lá dos abysmos profundos

Sáem mil mastins raivosos,
Que, pelo averno açodados,
Se tornam mais furiosos.

Toma alento o conde, e foge:

Por montes, por campos vai,
Do seio arrancando a espaços
Do espanto terrivel ai:

Mas por todo o largo mundo

Atrás delle ruge o inferno,
De dia do orbe no centro,
De noite no ar superno.

Ficou-lhe a face voltada,

Por mais que ávante corresse,
Sem que dos horridos monstros
Os olhos tirar podesse.

Eis como a caçada foi

Do tropel desenfreiado,
A qual até nossos dias
Tão constante tem passado,

Que, muitas vezes, durante

As horas da noite escura,
Ainda ao dissoluto causa
Do medo o horror e amargura

De bastantes caçadores

Podia a boca dize-lo,
Se antes não lhes conviesse
Calado comsigo te-lo.

O CÃO DO LOUVRE.

(Delavigne).

Tu que passas, descobre-te! Alli dorme

O forte que morreu.

Dá ao martyr do Louvre algumas flores;

Dá pão ao seu lebreu.

Da batalha era o dia. O canhão troa:
E o livre corre á morte, e juncto delle

O seu cão vai:

A mesma bala ambos feriu: o martyr
Não deploreis: o amigo seu que vive

Só pranteai!

Tristonho, sobre o forte elle se inclina,
Affagando-o e gemendo; e a ver se acorda

Põe-se a latir;

E do seu companheiro no combate
Sobre o cadaver sanguinoso o pranto

Deixa cahir.

Essa gleba guardando onde repousam
As cinzas dos heroes, nada o consola

No seu gemer;

E ao que o ameiga triste repellindo,
«Oh, que não és meu dono!—o cão parece

Tentar dizer.

Quando sobre as grinaldas de perpetuas
O matutino alvor da aurora o orvalho

Faz scintillar,

Os olhos abre vívidos, e pula
Para affagar seu dono, que elle pensa

Ha-de voltar!

Quando da noite a viração as c'roas
Fez ranger sobre a cruz do monumento,

Desanimou:

Elle quizera que seu dono o ouvisse;
E ladra e uiva; mas o adeus de á noite

Lá lhe faltou!

O inverno chega, e a neve, com violencia,
Cái, e branqueia, e esconde esse gelado

Leito de morte:

Ei-lo que sólta um lugubre gemido,
E busca, alli deitando-se, ampara-lo

Do frio norte.

Antes que os membros lhe entorpeça o somno,
Mil tentativas para erguer a campa

Inuteis faz:

Depois comsigo diz, como hontem disse,
—Quando acordar, por certo, ha-de chamar-me.»

E dorme em paz.

Mas, na alta noite, em sonhos vê trincheiras,
E seu dono entre as balas encontradas

Cahir ferido:

E ouve-o que o chama com sibillo usado;
E ergue-se e corre após uma van sombra,

Dando um bramido.

É alli que elle espera horas e horas,
E saudoso murmura: alli pranteia,

E morrerá.

O seu nome qual é? Todos o ignoram.
O que o sabía, o dono seu querido,

Nunca o dirá!..

Tu que passas, descobre-te! Além dorme

O forte que morreu.

Dá ao martyr do Louvre algumas flores,

E esmola ao seu lebreu.

LEONOR.

(Burger).

Ralada de ruins sonhos

Já desperta está Leonor,
E 'inda agora os céus d'oriente
Da manhan tingiu o alvor.

«Guilherme, és morto?—ella exclama—

Ou trahiste a pobre amante?
Se vives, porque retardas
De te eu ver feliz instante?»

Nas tropas de Friderico

Tempo havia que partíra
Para a batalha de Praga,
E cartas delle quem vira?

Mas a imperatriz e o rei[1],

De guerras, emfim, cansados,
Depondo os animos feros,
De paz faziam tractados.

Já aos seus lares tornavam

Ambas as hostes folgando.
Cingem frentes ramos verdes;
Vem atabales rufando.

E por montes e por valles

Velhos e moços chegavam,
Dando brados de alegria,
A encontrar os que voltavam.

«Boa vinda! Adeus!—diziam

As filhas, noivas, e esposas.
E Leonor? Nenhum dos vindos
Lhe faz caricias saudosas.

Por Guilherme ella pergunta;

Por qual estrada viria.
Vão trabalho; vans perguntas:
Novas delle quem sabia?

Não o vê. Passaram todos...

Em furioso devaneio,
Ei-la arranca as negras tranças;
Fere crua o lindo seio.

Sua mãe, correndo a ella:

«Valha-me Deus!—lhe bradou.—
Minha filha, pois que é isso?!»
E entre os braços a apertou.

«Minha mãe, perdeu-se tudo!

O mundo, tudo perdi:
De nada Deus se condoe...
Oh dor, oh pobre de mi!—

«Ai! Jesus venha á minha alma!

Filha, um padre-nosso resa.
Deus é pae: sempre nos ouve:
Nunca a humana dor despreza.—

«Minha mãe, inutil crença!

Que bens me tem feito Deus?
Padre-nossos!.. padre-nossos!..
Que importam resas aos céus?—

«Ai! Jesus venha á minha alma!

Pois não é quem resa ouvido?
Busca da igreja o consolo
Verás teu pesar vencido.—

«Mãe, oh mãe, esta amargura

Nenhum sacramento adoça:
Não sei nenhum sacramento,
Que aos mortos dar vida possa.—

«Filha, quem sabe se, ingrato,

Elle ás promessas faltou;
E lá na remota Hungria
Novo amor o captivou?

Se, mudavel, te abandona,

Do crime o premio terá:
Do ultimo trance na angustia
O remorso o punirá.—

«Morreu-me, oh mãe, a esperança.

Perdido... tudo é perdido!
Morrer, tambem, só me resta.
Nunca eu houvera nascido!

Foge, oh sol resplandecente!

Manda a noite e os seus terrores...
Deus, oh Deus, que nunca escutas
O gemer de humanas dores.—

«Meu Senhor! A desditosa

Não pensa o que a lingua exprime.
Não julgues a filha tua:
Nem te lembres do seu crime.

Vans paixões esquece, oh filha:

Cogita no goso eterno,
No sangue que te remiu,
E nos tormentos do inferno.—

«O que é goso eterno, oh mãe,

E o inferno em que consiste?
Com Guilherme ha goso eterno,
Sem Guilherme o inferno existe.

Sem elle, que a luz fugindo,

Se troque em nocturno horror;
Sem elle, no céu, na terra
Só conheço acerba dor!»

Assim no sangue e na mente

Furia insana lhe fervia:
Cruel chamando ao Senhor,
Mil blasphemias repetia.

Desde o sol brilhar no oriente

Até que o céu se estrellava,
As mãos, louca, retorcia,
O brando seio pisava.


Porém ouçamos!.. A terra

Pisa um cavallo lá fóra!..
E pelos degraus da escada
Tinem sons d'espada e espóra...

Ouçamos! Batem na argola

Pancadas que mal feriram...
E através das portas, claro,
Estas palavras se ouviram:

«Oh lá, querida, abre a porta.

Dormes? Estás acordada?
Folgas em riso? Pranteias?
De mim és 'inda lembrada?—

«Guilherme, tu?! Na alta noite?

Tenho velado e gemido.
Quanto padeci!.. Mas, d'onde
Até 'qui tens tu corrido?!—

«Nós montamos á meia-noite

Só. Vim tarde, mas ligeiro,
Desde a Bohemia, e comigo
Levar-te-hei, por derradeiro.—

«Oh meu querido Guilherme,

Vem depressa: aqui te abriga
Entre meus braços; que o vento
Do bosque as crinas fustiga.—

«Rugir o deixa nos matos.

Sibilla? Sibille embora!
Não paro... que o meu ginete
Escarva o chão... tine a espóra...

Nosso leito nupcial

Dista cem milhas d'aqui.
Sobraça as roupas... vem... salta
No murzelo, atrás de mi.—

«Além cem milhas, me queres

Hoje ao thalamo guiar?
Ouve... o relogio ainda soa:
Doze vezes fere o ar.—

«Olha em roda! A lua é clara:

Nós e os mortos bem corremos.
Aposto eu que n'um instante
Ao leito nupcial iremos?—

«Mas dize-me, onde é que habitas?

Como é o leito do noivado?—
«Longe, quedo, fresco, breve:
De oito taboas é formado.—

«Para dous?—«Para nós ambos.

Sobraça as roupas: vem cá.
Os convidados esperam:
O quarto patente está.—

Sobraçada a roupa, a bella

Para o ginete saltou,
E ao seu leal cavalleiro
Co' as alvas mãos se enlaçou.

Ei-los vão! Soa a corrida.

Ei-los vão, á fula-fula!
Ginete e guerreiro arquejam:
A faisca, a pedra pula.

Ui, como, á direita, á esquerda,

Ante seus olhos se escoam
Prado e selva, e do galope
Sob a ponte os sons ecchoam!

«Tremes, cara? A lua é pura.

Depressa o morto andar usa.
Tens medo de mortos?—«Não.
Mas delles falar se escusa.—

«Que sons e cantos são estes?

O corvo alli remoinha!
Sons de sino? Hymnos de morte?
É morto que se avizinha!—

Era de feito um saimento,

Que andas e esquife levava:
Aos silvos de cobra em pégo
Seu canto se assemelhava.

«Um enterro á meia-noite,

Com psalmos e com lamento,
E eu a minha noiva levo
Ao sarau do casamento?

Vinde, sacristão e o côro,

O ephitalamio entoai-nos;
Vinde, abbade, e antes que entremos
No leito, a bençam lançai-nos.—

Cala o som e o canto: a tumba

Some-se: finda o clamor
A seu mando; e o tropel voa
Na pista do corredor.

Sempre mais alto a corrida

Soa. Vão á fula-fula.
Ginete e guerreiro arquejam:
A faisca, a pedra pula.

Como á dextra e esquerda fogem

Montes, bosques, matagaes!
Como á dextra e esquerda fogem
Cidades, villas, casaes!

«Tremes, cara? A lua é pura.

Depressa o morto usa andar.
Temes os mortos, querida?—
«Ai, deixa-os lá repousar!—

«Olha! Ao redor de uma forca

Dançar em tropel não vês
Aereos corpos, que alvejam
Da luz da lua através?

Oh lé, birbantes, aqui!

Birbantes, acompanhai-me!
Vinde. A dança do noivado
Juncto do leito dançai-me.—

E os vultos vem após logo,

Ruído immenso fazendo,
Como o furacão nas folhas
Seccas do vergel rangendo.

E resoando a corrida

Ei-los vão, á fula-fula.
Ginete e guerreiro arquejam:
A faisca, a pedra pula.

Para trás fugir parece

Quanto o luar allumia;
Para trás suas estrellas
Sumir o céu parecia.

«Tremes, cara? A lua é pura.

Depressa o morto andar usa.
Temes os mortos, querida?—
«Ai, delles falar se escusa!—

«Murzelo, o gallo ouvír creio!

Breve a areia ha-de correr...
Murzelo, avia-te, voa;
Que sinto o ar do amanhecer!

Nossa jornada está finda:

Ao leito nupcial chegámos:
Ligeiro os mortos caminham:
A méta final tocámos.—

D'uma porta ás grades ferreas

Á rédea solta chegaram,
E de fragil vara ao toque
Ferrolho e chave saltaram.

Fugiram piando as aves:

A corrida, emfim, parára
Sobre campas. Os moimentos
Alvejam; que a noite é clara.

Peça após peça, ao guerreiro

Cáe a armadura lustrosa
Em negro pó impalpavel,
Qual de isca fuliginosa.

Sua cabeça era um craneo

Branco-pallido, escarnado:
Nas mãos tem fouce e ampulheta,
Triste adorno de finado.

Alça-se e arqueja o ginete:

I­gneas fai­scas lançou,
E debaixo de seus pés
Abriu-se a terra, e o tragou.

Dos covaes surgem phantasmas:

Feio urrar os ares corta:
Bate incerto o coração
Da donzella semimorta.

Ao redor danças de espectros

Em remoinho passavam:
Canto de medonhas vozes
Era o canto que cantavam:

«Aflliges-te? Oh, tem paciencia!

Não fosses com Deus audaz.
Teu corpo pertence á terra:
Á tua alma o céu dê paz.—

A COSTUREIRA, E O PINTASILGO MORTO.

(Lamartine).

Tu cujas azas tremulas
O meu olhar tornava;
Cujo trinado harmonico
Meus dias alegrava,
Ai, já não ouves!—Chamo-te,
E é vão este chamar!
Chegou a estação gelida;
Foi para te matar.

Nunca me has-de esquecer! Por bem seis annos,

Companheira leal
Tu me foste, avesinha;

Meiga entre as meigas, desprezando os campos,
Deslembrada da mãe, que, á noite, aninha

No movel cannavial.

A ti, affeita a mim, affiz-me em breve.

Meu unico recreio
Era brincar comtigo.

Ao veres-me encerrar no pobre alvergue
Gorgeiavas, e o tedio o canto amigo

Volvia em brando enleio.

Meu amor te suppria a liberdade;

Meus passos traduzias,
Meu gesto, meu falar;

Repetias-me o nome em teus modilhos;

Punhas-te a chilrear
Quando sorrir me vias.

Oh, que par! Que viver sereno e sancto!

Estavamos tão bem!
Nosso parco alimento

Com a ponta da agulha eu mourejava,
E dizia scismando:—o meu sustento

É o delle tambem.»

Sementes varias dava-te co' a alpista,

E, qual ramalhetinho
Feito na orla do prado,

Á 'splendida gaiola atar me vias,
Para debique teu, de herva um punhado,

De alface um tenro olhinho....
Se ao menos fosse licito
Saberes que pranteio!..
Ai, foi em dia identico,
Que teu adejar veio
Fazer brilhar o jubilo
Neste triste aposento,
Onde em saudosa magua,
Sósinha te lamento!