XIII
Houve um momento de silencio, curto, mas terrivel para Magdalena, que, ao ouvir o cabinda, julgou que elle ia espatifar o mulato, e para este tambem, vendo-se em face d'um inimigo tão possante.
A lua inundava, agora, com os seus raios deslumbrantes o palco, onde se representava aquelle drama; e para contraste das paixões, que alli se agitavam, n'aquelle instante, um sabiá, poisado nos galhos d'uma jaqueira, começou a vibrar as doces melodias do seu canto suavissimo.
Magdalena estava tranzída de medo; o mulato espumante de raiva, no meio da sua impotencia; e o cabinda risonho, mas n'uma alegria feroz.
Era um quadro digno d'um pincel aprimorado.
--Mato a serpente, senhora moça! dissera o negro a Magdalena, quando esta lhe perguntava o que fazia, vendo-o agarrado ao pescoço do infame mulato.
Este, ao ouvil-o sentiu-se como aniquilado, mas por um exforço, proprio do instincto dos da sua raça, poude desembaraçar-se do negro, guardou rapido a fita das tranças de Magdalena, que lhe ficára nas mãos, recuou dois passos, e de subito agitou no ar um punhal, cuja lamina pequenina brilhava aos raios da lua.
Magdalena, como que perdida, cheia da coragem, que os grandes lances despertam nas almas mesmo mais fracas, correu para Americo, a suspender-lhe o golpe, que ella julgava imminente sobre o cabinda.
N'este momento, porém, crusava-se no ar com o punhal d'Americo uma comprida e ponteaguda faca, vibrada pela mão vigorosa do negro.
Duas vidas estavam suspensas das pontas d'aquelles dois instrumentos. Os braços podiam descer ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo fazerem duas victimas, rasgando dois seios.
E assim aconteceria, se não fosse uma imprudencia de Magdalena, imprudencia que a poderia ter morto, mas que felizmente não teve resultados funestos.
Quando a força dos dous inimigos ia ser empregada em vibrar o golpe, chegava Magdalena collocando-se entre elles.
Suspenderam-se então, mas nos olhos de cada um chammejava feroz a raiva, o odio, uma tempestade, finalmente, horrorosa e tetrica.
--Que faz, senhora moça! gritou o negro.
--Estás doido, cabinda!
--É o que te vale, canalha! acudiu Americo.
--Basta, senhor, d'injurias e d'infamias! Sou mulher e fraca, mas não tenho receio de o mandar calar e de retirar-se!
--Creança!
--Lacaio!
O cabinda era um vulcão latente. Continha-o a presença de Magdalena. No entanto, as forças, ou antes, a paciencia, ia começando a faltar-lhe e ai do mulato se a lava podesse romper!
Americo sentiu-se humilhado com a affronta provocada, e respondeu atrevidamente a Magdalena:
--Ponha essa palavra na bôcca d'um homem e diga-lhe que m'atire.
--Ó senhora moça! deixe-me com elle! gritou o cabinda investindo para Americo.
--Não, que te enlameias!
--Respeito-a porque é mulher, porque é uma creança. Todavia, creia que não ficaremos sem saldarmos as contas.
--Quando quizer. Vamos, cabinda.
E Magdalena, aquella creança que nós conhecemos, bondosa, meiga, delicada, sensivel, tomou, lançando ao mulato o seu olhar expressivo de cólera, o negro pelo braço e arrastou-o consigo, affastando-se em direcção a casa.
O cabinda cedeu, e nem elle era homem que resistisse á sua filha, mas não sem que se voltasse para traz, gritando ao mulato:
--O negro cá fica. Cautella com o cabinda.
Americo tragou a ameaça em silencio e ficou só, no meio da febre da sua exaltação, que pouco a pouco devia ir diminuindo.
Sentou-se e esteve scismando durante alguns minutos. Occorreu-lhe, porém, a lembrança de que o negro poderia voltar, achou-se fraco perante a robustez do seu inimigo e deixou a chacara saltando para fóra.
Estava cançado.
As coisas começavam a correr-lhe mal, e isto exasperava-o mais, que as offensas e as affrontas que havia recebido.
Deixou correr as ideias atraz dos seus desejos de vingança, mas teve um momento em que quasi succumbiu.
Americo, em vez d'um, via, agora, tres inimigos diante de si:--Luiz, Magdalena e o negro.
A lucta era desigual e poderosos os seus contendores.
O primeiro ensejo, a primeira occasião favoravel, fôra de toda perdida, e longe de aproveitar-lhe antes o collocou em mais critica posição.
Os cuidados e as precauções haviam de redobrar-se agora contra elle, e isso obrigava-o, para conseguir os seus fins, a redobrar tambem d'astucias e d'ardis.
No entanto, as esperanças de derrubar Luiz do altar do coração de Magdalena, não o abandonaram de todo. Mais ou menos lá lhe floriam no coração, entre os sentimentos ignobeis da preversidade que o dominava.
No entanto, Magdalena acompanhada pelo cabinda, ao dirigir-se a casa, depois d'aquella scena violenta, que tanto a excitára, ia-lhe dizendo, com ar de quem lhe impunha a sua vontade:
--Olha que não quero que alguem saiba do que se acaba de passar-se.
--Descance a minha filha.
--Nem mesmo ao senhor Luiz, quando chegar, ouviste?
--Nem o branco?
--Nem esse.
--Então o mulato hade ficar assim?
--Perdoo-lhe, Cabinda.
--Mas o negro é que não perdoa senhora moça.
--Ha de perdoar, porque eu assim o quero.
--E se elle voltar? o mulato é mau...
--Se voltar, fallaremos então.
--Oh! senhora moça! o negro tem bom olho e pulso forte. E o cabinda estende-o logo como o caçador á onça do mato.
--Já te disse que não fazes nada.
--A minha filha manda.
--E tu obedeces.
Tinham chegado á escadaria de pedra que conduzia á habitação. A preta Maria, que era a mucamba de Magdalena, uma especie de creada grave, vinha descendo já para ir procural-a, estranhando que contra o seu costume, a senhora moça andasse pela chacara áquella hora.
Magdalena apenas a viu perguntou logo:
--Onde vaes, Maria.
--Ia procurar a senhora moça.
--Ainda bem que te poupo esse trabalho. Fui passear até ao lago, acompanhada do cabinda.
--Eu não via a senhora moça, e fiquei logo com cuidado.
--Obrigada. Estava a noite tão bonita que não pude resistir-lhe.
--Fez bem, senhora moça.
--Pergunta ao cabinda, como, na grande tamarindeira, do lago, estava cantando um sabiá!
--Bonito, Maria!
E n'isto foram entrando em casa.
Perto da meia noite entrava tambem o mulato no seu quarto da rua dos Pescadores. Levava estampado no rosto a expressão d'um grande descontentamento. A decepção que soffrera fôra grande e, sobre tudo, inesperada.
Depois, não era só isto o que o preoccupava; era tambem a ideia de que tinha ainda novas scenas, apenas Luiz chegasse, porque tinha como certo que Magdalena não deixaria de narrar-lhe a sua ousadia, e tudo quanto tinha acabado de passar-se.
Americo reconhecia agora a falsidade da sua posição.
Além d'isto, se todas estas coisas chegassem aos ouvidos de Jorge, era mais facil que elle perdoasse a Luiz, e attendesse aos rogos de Magdalena, sua filha, do que esquecesse a infamia tentada por Americo.
O que elle tinha como certo; era que as coisas depois dos ultimos acontecimentos, dessem de si, tivessem um resultado qualquer. Luiz era um homem de dignidade e a isto juntava agora todo o amor que o inflammava. E bem ameaçado deixára o mulato antes de partir para Macahé, fazendo-lhe sentir que Magdalena lhe era uma pessoa sagrada, e que teria de justar com elle todas as contas, se de qualquer modo a offendesse, injuriasse ou affrontasse.
Todavia, Americo, apesar de sentir o peso de todas estas reflexões que lhe suggeria o seu espirito, não deixava, ainda assim, de conceber uma esperança. Desanimar, não desanimava.
Tinha a pertinacia dos da sua raça pouco pura, a teimosia dos que, dotados de maus sentimentos e indole perversa, não duvidam nem hesitam em ir augmentando o mal, para conseguirem os seus fins, á medida que os obstaculos, que as barreiras se vão levantando.
Era por isso que o mulato, no silencio do seu quarto, examinando agora o bilhete de Magdalena e a fita de sêda que as tranças dos cabellos d'ella lhe deixaram nas mãos, dizia com expressão de grande malvadez: --Ainda cá está isto! Valem e podem muito estes objectos!