XIV

Passaram-se quatro dias sem acontecimentos dignos de mencionarem-se. Magdalena ia gemendo as suas saudades; o cabinda cuidando dos jardins e da chacara, e Americo curtindo os ardentes desejos da suspirada vingança.

Ao quinto dia surgiu Luiz, regressando de Macahé.

Vinha ancioso o pobre moço; eram vehementes os desejos de vêr Magdalena.

Depois, como a todos os namorados, como a todos aquelles que se alimentam do fogo sagrado do amor, Luiz sentia d'um lado as venturas de ter acabado com uma ausencia, que lhe era extremamente dolorosa, e sentia, do outro, os espinhos afiados, com que o estava ferindo a ideia de que Magdalena o tivesse esquecido, o tivesse abandonado.

Era a duvida, d'um lado, com toda a sua escuridão, com toda a sua noute; e a esperança, do outro, com os resplendores vivissimos do seu formoso sol, com todos os suaves perfumes das flôres da sua primavera.

Além d'isto avultava tambem a incerteza sobre o procedimento do mulato, seu socio.

Teria elle respeitado Magdalena?

Teria commettido alguma infamia, durante os quatro dias e meio da sua dolorosa ausencia?

Ninguem podia responder-lhe; e ávido de saber tudo isto, ávido de vêr Magdalena, de fallar-lhe, de a ouvir, de lhe escutar ainda uma e muitas vezes um protesto d'amor, é que elle entrava agora em casa, trazendo tambem a consciencia satisfeita, pelo bom desempenho da commissão, de que fôra encarregado.

Americo não o esperava de volta tão cedo, e sentiu o que quer que é ao vêl-o entrar, porque estremeceu, e empallideceu subitamente.

Presentiu, naturalmente, a violencia das tempestades, que iam desencadeiar-se, e depois de revolto o mar, quem poderia assegurar-lhe a salvação, ou evitar-lhe um naufragio?

Esperanças, pelo menos, de fazer mal a Luiz, tinha-as elle, embora poucas, mas assentes em que base é que elle não sabia. Resultados da sua indole, da sua perversidade.

Em todo o caso, desistir da lucta, nunca! Seria uma cobardia, uma vergonha immensa, uma nodoa indelevel, segundo o seu parecer, e a isso preferia antes o esmagamento, uma quéda, uma derrota completa, que lhe inutilisasse todos os recursos. Então sim, antes d'isso, não desistiria dos seus intentos.

No entanto, Luiz, entrando em casa, ás oito horas da manhã quiz mostrar-se generoso, ou antes, que tinha confiança em si e em Magdalena, e dirigiu-se a Americo, cumprimentando-o, como que se um resentimento o não estivesse remordendo intimamente.

O mulato respondeu cortezmente, mas com certa frieza.

A sua pallidez, ou antes a mudança de côr que se operara no seu rosto, com a entrada inesperada de Luiz, desappareceram após as primeiras impressões, para dar logar á viva expressão dos desejos que o assaltavam de recomeçar a luta com o seu antagonista.

Tinha o mulato para si, que devia romper, e romper logo, a fim de ganhar sobre o seu adversario a força moral de que precisava. Era uma estrategia boa na apparencia, mas falsa, sem duvida, pelos resultados.

Luiz tambem não era homem para succumbir; dava-lhe alentos o seu amor, e além d'isso era... portuguez!

Ás oito horas e meia entrava Luiz no escriptorio, depois de se ter preparado.

Americo lá estava, sentado a lêr a correspondencia.

Nem sequer olhou para o seu socio.

--Fez-se algum negocio? começou Luiz.

--Bastante, respondeu Americo seccamente.

--Houve alguma novidade, durante estes dias que andei por fóra?

--Importante nenhuma. Apenas uma entrevista que me deu Magdalena, uma d'estas noites, aproveitando para isso a tua ausencia.

Luiz sentiu-se como ferido por uma profunda punhalada, e levantou-se subitamente com a pallidez no rosto, o fogo nos olhos e umas temiveis convulsões nas mãos.

--Mentes! bradou o moço.

--Mentirei...

--Mas como um vilão!...

--No entanto tenho as provas comigo.

--Mostra-as, se és capaz!

--Julgas então que era chegar, vêr e vencer! Enganas-te. Magdalena disfructava-te, porque fazia de ti um brinquedo, com que se divertia, sem nunca pensar em tomar a sério os teus protestos d'amor.

--É falso, repito! E senão mostra-me as provas ou esmago-te como quem esmaga um reptil venenoso!

--Tenho-as aqui e parece-me que bem claras.

--Fazes-me perder a razão, e depois...

--Conheces esta letra? lê...

E Americo deu a Luiz o bilhete em que Magdalena lhe concedia a entrevista.

--E, mais do que isso talvez... tens ainda aqui esta fita da trança dos seus cabellos... Que dizes agora?

Luiz nunca na sua vida sentira o que estava sentindo n'aquelle momento. Era o ciume, a raiva, o desespero e o odio, confundidos, misturados, amalgamados, n'um sentimento que a penna não póde traduzir.

Vacillava-lhe a razão, fugia-lhe a vista, em face d'aquelle bocadinho de papel, que lhe estava queimando as mãos, como fogo do inferno. Era incrivel, mas era a realidade! conhecia a letra de Magdalena, reconhecia tambem a fita que lhe prendia os cachos dos cabellos negros, na tarde d'aquelle jantar saudoso. Luiz desejava duvidar do que estava vendo, mas como, se as provas estavam agora na sua mão! Passou-lhe por diante dos olhos a visão medonha da vingança. Mas a Providencia não desampara os que bem lhe merecem, e limitou-se apenas a exclamar:

--Tão infame é ella como tu!...

--Então já não duvidas? perguntou Americo, attendendo apenas ao estado em que Luiz se achava, e importando-se pouco com as injurias que elle podésse dirigir-lhe.

--Não sei. Todavia quem me affirma que Magdalena não foi forçada a escrever estas linhas, a pôr o seu nome n'esta folha de papel e a entregar-te ou a mandar-te esta fita? Quem?

--Com isso poderá ella desculpar-se se lhe fores agora pedir contas do seu procedimento, bem o sei, mas pouco importa, porque esse bilhete falla bem alto.

--Oh! mas isto é incrivel! isto é um sonho!...

--Não é sonho, não. É a realidade. Acceitaste a lucta, batalhamos. Quando julgavas haver vencido, vês a victoria do meu lado. Acontece muita vez. Além d'isso, que dotes ha em ti que te recommendem mais que a mim? O seres portuguez? o seres branco? É justamente por isso que menos devias confiar em ti. Se tenho côr... sou brazileiro!

--Em todo o caso abusaste da minha ausencia e o teu procedimento não póde ser classificado senão de infame!

--Embora! com tanto que eu vença...

--Isso é o que ainda não está decidido. Não julgues que fico com o que me dizes. Heide indagar, heide empregar todos os esforços para descobrir a verdade. A letra do bilhete e a fita de sêda são de Magdalena, não ha duvida, mas se para as conseguires empregaste alguma violencia, commetteste alguma infamia, ou abusaste de qualquer modo, não te perdôo, Americo; as contas serão então comigo.

--Que pretendes, pois, fazer?

--Indagar a verdade, dissipar esta duvida que me atormenta!

--Como? Fazendo publico que a filha do teu amigo, do teu socio deu a um homem uma entrevista a horas inconvenientes? Queres deshonral-a d'esse modo? Queres dar esse desgosto ao teu protector?

--Muito cynico és, Americo! bradou Luiz espumante de cólera. E tu, canalha, não te lembraste que devias a esse homem tanto como eu, para lhe illudires a filha! Qual de nós a deshonra mais? eu que me julgo hoje com direito de lhe pedir contas de seu procedimento, ou tu que abusaste necessariamente da sua ingenuidade, ou a estás infamando, faltando á verdade, e então és duplamente abjecto e criminoso?

--Indaga.

--Heide indagar, sim. E ai de ti se ousaste calumniar, quem só devia merecer-te todo o respeito.

--Em todo o caso restitue-me isso.

--O bilhete e a fita? nunca!

--São meus.

--Que importa,

--Importa muito. E, ou m'os dás ou...

--As ameaças depois, agora... a verdade!

E Luiz ia a retirar-se quando ouviu no armazem a voz de Jorge que havia entrado.

O mulato estremeceu de medo. Comtudo, já tinha a consolação de ter amargurado e bem o coração de Luiz.

Este, apenas deu a Jorge conta do bom desempenho da missão de que fôra encarregado a Macahé, sahiu, deixando-o no armazem com Americo.

O pobre moço ia fóra de si, como perdido, desvairado, e, diga-se a verdade, bastante indisposto com Magdalena, porque acreditava mais ou menos no seu perjurio.

N'este estado, seguiu para o Botafogo.