XVI

Eram quatro horas da tarde, approximadamente, quando Jorge regressou á chacara, depois de ter deixado o armazem.

Magdalena chorava sósinha no seu quarto.

Sympathicas lagrimas aquellas!

Eram as lagrimas verdadeiras, das dôres d'um amor casto, puro e ardente, deslisando silenciosas, como perolas finissimas, pelas faces assetinadas do rosto d'um anjo, cahindo e sumindo-se no seio, de dentro do qual ellas brotavam!

Eram as flores pallidas, destoando muito das rosas frescas, das candidas açucenas, dos lyrios perfumados, d'um vasto jardim de crenças!

Eram as nuvens crepusculares, velando um pouco o sol d'aurora deslumbrante d'um olhar limpido e formoso, em que se reflectia o céo, com toda a magia dos seus infinitos esplendores!

Eu não sei, mas creio que nada ha mais attrahente do que as lagrimas d'uma mulher, moral e physicamente bella, quando, em cada uma, ha os aromas embriagadores d'um grande sentimento; quando, cada uma traduz, na sua mysteriosa, mas eloquente linguagem, uma estrophe melodiosa d'uma paixão ardente, mas pura, casta e honesta.

Parece-me que não.

As lagrimas teem então a fascinação irresistivel da sympathia, teem o condão poderoso do magnetismo, que attrahe, e enleva, e encanta.

Eram assim as lagrimas da Magdalena.

No entanto, o momento d'exaltação havia passado; haviam cessado os pequenos assomos de cólera, que lhe despertaram as asperezas, com que fôra tratada por Luiz.

Após o seu desabafar, por meio d'uma explosão, em que a vimos, reagindo contra as palavras do sympathico moço, que a estavam ainda ferindo tão injustamente, veio a reflexão e com ella a desculpa, com a qual Magdalena ia já cobrindo Luiz.

Um amor verdadeiro perdoa sempre, porque não deixa de ser amor. Exalta-se facilmente, até com as coisas mais pequeninas, que não lhe escapam, que elle descobre sempre, mas não resiste nunca a proclamar a sua absolvição.

Se é amor verdadeiro!...

Luiz apezar d'aquella scena violenta, d'aquellas arguições irreflectidas, d'aquellas arrogancias geradas pelo seu sentimento ferido e julgado em desprezo, era ainda o eleito de Magdalena, era ainda o homem por quem palpitava o seu coração, por quem floriam as rosas brancas da sua alma candida e perfumada.

Atravez do tenue véo do resentimento em que ella estava, e que mais ou menos a dominava, jazia ainda, illuminada pelos raios deslumbrantes do sol do amor, a imagem de Luiz, a imagem do primeiro homem que a impressionára, e que ella não podia deixar de contemplar com olhos affectuosos, de acariciar com a ideia, de ameigar com o sentimento.

Pobre creança, que o amor começava por beijar tão phreneticamente!

Pobre avesinha, a quem tentavam impedir os primeiros vôos!

Jorge chegou, pois, do armazem, e estranhou que Magdalena o não estivesse esperando, como era de costume. Fizeram-lhe falta os doces beijos, as suaves caricias, as meiguices consoladoras, com que a filha adorada o acolhia sempre no topo da escadaria.

Entrou e perguntou por ella. Tivera um presentimento o seu coração de pae affectuosissimo. Responderam-lhe que estava no quarto. Dirigiu-se immediatamente para lá, pensando, fóra de qualquer duvida, que Magdalena, a não estar encommodada, não faltaria a esperal-o, com os seus affagos de filha estremosa.

A porta estava fechada por o lado interior, e esta circumstancia mais sobresaltou ainda Jorge.

--Magdalena! chamou elle, batendo mansamente. Ouviu dentro um leve ruido, mas ninguem lhe respondeu. Era Magdalena que tentava limpar as lagrimas e dar ao rosto e aos olhos uma expressão que não a trahisse.

--Magdalena! minha filha! volveu Jorge, batendo segunda vez, e já um pouco opprimido.

--La vou papae!

Jorge serenou-se, ouvindo-a. Magdalena abriu effectivamente a porta, e, diga-se a verdade, mais para occultar que havia chorado, do que por extremos d'affeição filial, lançou-se-lhe ao pescoço, tentando assim encobrir o rosto.

--Papae! disse ella com voz meiga.

--Estou muito zangado comtigo! disse elle, beijando-lhe os negros e formosos cabellos.

--Comigo? continuou ella cada vez mais acariciadora e mais impressionada. Porque?

Jorge desprendeu a filha de si, tomou-lhe delicadamente a cabeça nas mãos, e imprimiu-lhe um novo beijo na fronte, ébrio d'affeição paternal.

--Porque! Ainda m'o perguntas!... Mas, que tiveste, ajuntou elle, mudando subitamente d'expressão, que ainda tens nos olhos os vestigios das lagrimas?

--Eu? respondeu Magdalena, tentando illudil-o.

--Tu, sim, minha filha; então não estou eu vendo que choraste.

--Não, papae, engana-se.

--Diz a verdade, Magdalena.

Magdalena, debaixo da impressão que a dominava fôra, pouco e pouco, sentindo subir de novo do coração aos olhos as lagrimas, que tentava sopear. Era um vulcão latente, prestes a romper n'uma erupção medonha. Quando, porém, Jorge instava ardentemente para que ella lhe revelasse a verdade, a afflicta menina não poude conter-se por mais tempo, não poude, nem por mais um momento, domar as ondas que lhe referviam no seio, e lançou-lhe novamente os braços ao pescoço, occultando o rosto, e exclamando soluçante:

--Sou muito desgraçada, papae!

E as lagrimas represadas romperam o dique que as detinha, cahindo copiosas dos olhos negros e formosos de Magdalena.

Jorge sentiu uma dôr aguda, profunda e intensa, dentro do seu coração de pae, de pae que via a unica filha, a sua maior affeição no mundo, a chorar, chamando-se desgraçada!

Elle que daria tudo, a vida até, para que Magdalena não soffresse uma dôr, uma unica, pequenina que fosse, sentiu-se quasi desfallecido, com a dolorosa scena porque estava passado. Longe, bem longe, de vir encontrar a filha estremecida n'aquelle estado lacrymoso, antes pensava vir achal-a contente, alegre e ditosa, que n'isso ia um dos seus maiores cuidados, que para isso trabalhava elle constantemente.

Todos os paes são extremosos e dedicados, e não ha desgosto, por maior, que possa fazer estancar a fonte limpida das affeições paternas. Jorge de Macedo, era porém, duplamente affeiçoado a sua filha, porque era ao mesmo tempo, pae e mãe. Beatriz, sua esposa adorada, partindo d'este exilio, chamado mundo, para a vida d'alem-tumulo, legou-lhe, não só o thesouro d'uma filha para consolo das suas dolorosas saudades, senão tambem as joias do subido affecto com que amava o fructo formoso do seu verdadeiro e acrisolado amor.

Foi por isso que elle, ao ver Magdalena n'aquella explosão de pranto, sentiu cravar-se-lhe no seio um como punhal d'aguçadissima ponta.

--Desgraçada, minha filha?! exclamou elle pallido e convulso. Por piedade, diz-me o que tens!

--Oh! soffro muito... muito!... balbuciou ella, soluçando ainda.

--Filha! minha filha, não me mates! Diz-me o que tens, conta-me o que te aconteceu!

E Jorge beijava-a phreneticamente, bebia-lhe as lagrimas que cahiam crystallinas, quatro a quatro, e affagava-lhe os cabellos fartos, que se haviam desatado pendendo em duas grossas e luzidias tranças.

Magdalena não podia fallar suffocada pelo pranto. Jorge, porém, cada vez mais afflicto, continuava n'uma dolorosa anciedade:

--Falla, filha. Tens aqui o coração d'um pae, doido d'amor por ti, para acolher as tuas mágoas, como tem acolhido sempre os teus sorrisos. Magdalena... Magdalena...

--Deixe-me descançar, papae... deixe-me serenar, e não se afflija....não?

--Então para que choras d'esse modo?

--Oh! exclamou ella, porque sou uma creança, papae!...

E sentou-se, como para descançar d'uma grande fadiga. O seio arfava-lhe com violencia. Tinha no rosto a pallidez sympathica, que tantas vezes inspira os poetas, e as mãos delicadas entrelaçadas uma na outra. Jorge, ao vêl-a sentada, ia ajoelhar-se junto d'ella, para mais uma vez, e carinhosamente, a interrogar, mas ella obstou a isso, accudindo de subito:

--Não, papae, sente-se aqui, ao meu lado...

--Mas conta-me o que tens, minha filha, disse elle, sentando-se. Bem sabes como devo estar soffrendo!

Magdalena, que conhecia bem a grandissima affeição, que seu pae lhe votava, e por consequencia, que bem avaliava as dores que o estavam alanceando, encheu-se de coragem, e disse-lhe, tomando-lhe as mãos:

--E não se zanga comigo?

--Não, minha filha.

---Então ouça-me.

E Magdalena relatou a Jorge tudo quanto se passára, desde o jantar dos seus annos até á scena violenta, que dera logar áquellas afflições e áquellas lagrimas. Mencionou tudo, não esquecendo a minima das circumstancias. Jorge estava ouvindo-a mais que admirado, n'um silencio profundo, religioso até. Sentia-se chocado, grandemente chocado, e, para isso bastava apenas a surpresa que ia recebendo, porque bem longe andava elle de suppôr siquer o que se havia passado.

Alma sensivel, porém, Jorge ia ouvindo a filha adorada, e não a condemnava, não. Elle tambem tivera sonhos na sua mocidade, e a narração de Magdalena fez-lhe passar, deante dos olhos do espirito, os primeiros dias floridos do seu amor e do amor da sua querida Beatriz. No entanto, ao saber das tentativas arrojadas de Americo, na noite da entrevista, junto ao lago da chacara, Jorge não poude occultar a sua exaltação e levantou-se exclamando:

--Infame! Era assim que me queria pagar o quinhão da minha fortuna, que ha dias lhe dei!...

E Magdalena proseguiu na exposição dos acontecimentos. Nada escondeu, nada furtou, nada occultou, de quanto se havia passado, e só a verdade presidiu a narração de cada facto. E tambem, para que havia de obrar de outro modo? Não era Jorge seu pae? e uma pae tão benevolo? tão meigo? tão bondoso?

Elle, quando Magdalena acabou, para mais a tranquilisar, affagou-a, dizendo-lhe:

--Não te afflijas, minha filha. O que preciso é que me digas se gostas muito do senhor Luiz, mas que me digas a verdade.

--Oh! muito, meu papae!

--E não te enganarás?

--Não, eu bem o sinto.

--Então ainda hasde ser muito feliz.

Momentos depois, partia o cabinda do Botafogo para o Rio, no vapor da carreira, com a seguinte carta de Jorge para Luiz.

Meu socio e amigo.

«Para negocios de gravidade preciso, ainda hoje mesmo, fallar-lhe e ao senhor Americo. Rogo-lhes pois o obsequio de chegarem aqui, onde os fica esperando o seu

Socio amigo, etc.

Jorge de Macedo.»

E em quanto o negro transpunha a distancia que vai do Botafogo á cidade, ficavam Jorge e Magdalena entregues á refeição do jantar, conversando já mui animadamente, muito contentes, entre os perfumes suavissimos das flores formosas do affecto que lhes enchia as almas.