XVII
Não ha nada mais caprichoso do que o coração humano, e, por consequencia, nada mais enigmatico, nada mais incomprehensivel. Prende-se muitas vezes com as cousas mais simples d'este mundo, e olha, outras tantas, com indifferença para sacrificios, que, d'um só jacto o deviam attrahir para sempre. Ora se exalta, ora se humilha pelos mesmos motivos, e nas mesmas circumstancias; ora se lamenta e ora sorri com a mesma causa, indo, muitas vezes, até ao ponto de juntamente chorar e rir, de implorar e impôr-se!
Eu não sei, mas creio que de todas as sciencias, a sciencia do coração é a mais difficil, a mais transcendente, a mais impyrica.
O coração offende-se com cousas pequenissimas, que muitas vezes não perdôa, e é capaz de não se offender com cousas de vulto, ou de facilmente as esquecer e perdoar!
Luiz ainda não tinha chegado ao Rio e já ia arrependido das asperezas que dirigira a Magdalena! Já a julgava innocente, e incapaz da trahição, que lhe imputou durante os momentos de mágoa e de colera do seu amante coração.
Em verdade, passados os primeiros impetos, serenadas as primeiras impressões violentas, Luiz começou a recordar os protestos de innocencia de Magdalena, viu as lagrimas que ella derramou, atravez d'um prisma muito menos carregado, e convenceu-se de que só uma injustiça as fizera derramar, e censurou-se a si mesmo pela precipitação com que procedera!
Tivera tentações de retroceder para, tanto quanto podésse, desfazer o mal que originara, mas era impossivel pelo adiantado da hora.
As lagrimas da formosa menina estavam-lhe pesando na alma e no coração, d'um modo terrivel. Elle, depois de passada a grande exaltação que o dominára, não podia attribuir a Magdalena um crime tamanho. Era nova de mais para tanta maldade, muito innocente e ingenua para tanta hypocrisia, e assaz bondosa para tamanha crueldade.
Alli a grande infamia, o grande mal fôra necessariamente commettido pelo mulato, fôra fatalmente tramado por Americo.
Que mal havia feito Luiz a Magdalena para que ella se vingasse d'elle d'um modo tão barbaro e tão cruel?
Depois, a memoria de sua mãe tão solemnemente, invocada n'um protesto de fidelidade e de amor, seria uma cousa tão pequena, que se olvidasse, unicamente para satisfazer um capricho, para attrahir mais um galanteio?
Não era crivel.
Magdalena estava innocente, e com esta convicção entrava Luiz em casa, na rua dos Pescadores, apezar da scena violenta em que o vimos, apezar de toda a sua inexorabilidade, durante a meia hora em que se achou na presença d'ella.
No entanto, como havia agora de remediar o mal feito?
Uma confissão sincera d'um sincero arrependimento era a unica solução do problema.
Seria, porém, bem acceita? Ouvil-a-ia Magdalena? Quebraria ella o seu orgulho, altamente despertado e inflamado pelas injustiças que elle fez ao seu caracter, á sua lealdade e ao seu coração?
Isto lançava-lhe uma duvida no espirito, e esta duvida era um punhal aguçadissimo que o feria dolorosamente.
Entrou em casa preoccupado com tudo isto, nas alternativas do receio e da esperança d'uma absolvição e d'uma condemnação.
Americo sahiu-lhe quasi ao encontro, e apenas o viu fitou-o expressivamente, como tentando lêr-lhe no rosto quanto se lhe passava na alma.
Luiz nem sequer lhe deu as honras de o olhar. Seguiu para o escriptorio, na firme resolução de completamente desprezar o infame, decidido a castigar-lhe a menor insolencia.
O mulato, porém, não era homem que se contentasse em estudal-o silenciosamente; embebido na ideia de conseguir os seus fins, pouco lhe importavam os meios e até as consequencias.
Dirigiu-se tambem ao escriptorio.
Luiz estava sentado escrevendo uma carta. Americo olhou-o, viu a severidade do seu rosto, mas nem assim recuou.
--Então? perguntou elle.
Luiz sentiu como que subir-lhe o sangue á cabeça e turvar-se-lhe a vista, mas não respondeu. Chamava a prudencia em seu auxilio, porém o desafio d'Americo era forte de mais para que lhe podesse resistir.
--Então? interrogou novamente o mulato com ar de refinado cynismo.
Luiz guardou ainda silencio durante alguns segundos, mas occorreu-lhe a ideia de que o seu silencio poderia traduzir-se por cobardia ou humilhação e volveu-se então para o mulato, fitou-o corajosamente e perguntou tambem com voz firme:
--Então o que!
--Qual de nós vence? acudiu Americo sorrindo.
--Ainda o duvidas canalha! Pois não o duvides, infame. Ha-de vencer o justo, que sou eu, tão certo como seres castigado, que és o despresivel.
--N'esse caso provou-se a innocencia da menina?
--Provou-se que és um salteador infame e cobarde, da honra dos que te chamam amigos e te sentam á sua meza, que é o mesmo.
--Vê que me insultas! se não apresentas as provas!
--Quem desce a isso, biltre! Teme o castigo e não peças as provas!
--Ah! ah! ah! vens, de mais a mais um pouco tragico. O que faz o amor!
--Americo! bradou Luiz quasi de todo exaltado.
--Começam as ameaças?
--E não ha duvida em que comecem tambem as obras. Retira-te, que já te não vejo. Não me provoques, porque te desprezo, como reptil asqueroso! Sahe! Não me obrigues a sujar a mão na lama que tens na cara!
--Luiz! gritou Americo, agarrando em um tinteiro.
--Canalha! bradou Luiz, estendendo-lhe a mão na face bronzeada, com a força d'um desesperado.
Estava travada a lucta. O mulato tinha mais força physica, mas Luiz possuia mais força moral e era mais corajoso. Aquillo foi um vulcão que se accendeu subitamente. Um instante depois estavam enlaçados um no outro, n'uma lucta medonha, incrivel e desesperada. Sentiam apenas o ruido dos pés, movendo-se aos impulsos fortes de um e outro lado, e a respiração abafada de cada um dos contendores. Americo só tentava lançar Luiz a terra, este porém resistia valentemente. E n'um momento favoravel atirou um murro ao infame que lhe fez logo brotar o sangue do nariz. O mulato enfureceu-se pela dôr e pelo orgulho, exasperou-se damnadamente, e atirou as mãos ao pescoço de Luiz, n'uma expressão de raiva desmarcada, no intento mesmo de o estrangular.
E de certo o teria feito; sem duvida, seriam funestas as consequencias d'aquella contenda se não fosse a apparição, no momento fatal, de um homem, cujo olhar quasi paralysou completamente a acção do mulato.
Era o cabinda, era o velho, mas sympathico, o negro, mas dedicado, o escravo, mas d'alma grande.
O negro vinha encarregado d'entregar a Luiz a carta de Jorge de Macedo. Muito contente da sua missão, porque lhe dizia o coração que se andava tratando da ventura de sua filha, o negro transpoz apressadamente a distancia que vae do Botafogo ao Rio, á rua dos Pescadores.
Chegou, entrou, dirigiu-se á porta do escriptorio, tranquillo, socegado, contente, sem sequer se lembrar da scena que ia encontrar. Quando deu com os olhos nos dous, que ferozmente se debatiam, sentiu um como abalo electrico interior e não esperou por mais nada. Atirou-se em seguida ao mulato, que lançava as mãos ao pescoço de Luiz, agarrou-o pela gola do casaco, deu-lhe um fortissimo puxão e elle, largando Luiz, mais com receio do cabinda do que por vontade propria, foi cahir ao chão no meio do escriptorio.
--O negro cá está! bradou o cabinda.
--Não preciso de ti! acudiu Luiz.
--Só assim! murmurou Americo, espumante de raiva.
--Agora, meu branco, isto, que manda o senhor! disse o negro desprezando Americo, que tentava levantar-se, e entregando a Luiz a carta de Jorge.
--E a senhora moça? interrogou Luiz.
--Tem chorado muito; o branco não gosta d'ella, não!
--Vêl-o-has, cabinda!
E procedeu á leitura da carta de Jorge.
Ao terminar, tinha uma como nuvem diante dos olhos. Pareceu-lhe que uma grande tempestade se ia desencadear sobre a sua cabeça. E o que tinha fóra de toda a duvida é que era chegado o dia em que tinha de decidir-se a sua sorte. Mas se, por um lado, o apoquentavam os receios de não conseguir a suspirada felicidade, tinha, pelo outro, a consolação da tranquillidade da consciencia.
O mulato, entretanto, havia-se levantado, e dispoz-se a sahir, dizendo:
--Contra dous não posso, mas hei-de vingar-me!
--Nem contra um! a tua causa é a primeira a ser contra ti, canalha! bradou Luiz.
--O negro póde muito, o mulato bem o sabe.
--Deixemos agora as questões. O snr. Macedo convida-nos a irmos immediatamente ao Botafogo, para tratarmos negocios d'importancia. Quem sabe se será para nos julgar? Como nada receio, vou já. Convido-o; faço o meu dever, e nada mais.
--Ah! o branco é bom, ha-de ser feliz e a minha filha tambem. Depois que importa que o velho cabinda morra? morre contente, porque deixa contente a sua filha!
E o velho escravo seguiu Luiz, emquanto que Americo ficava limpando o sangue, que ainda, como signal da lucta em que se empenhára, lhe corria do nariz.
Aquelle convite de Jorge de Macedo fôra um incendio, que crestára todas as esperanças ao mulato. Para elle era inevitavel que não só não conseguia nada, senão tambem que estava perdido, porque Jorge havia de fazer justiça, castigando-o.
Pensou primeiro em fugir, mas depois achou que semelhante partido ainda mais o condemnaria, porque seria mais uma prova da sua culpabilidade, e dispoz-se a soffrer tudo.
Assim, emquanto que Luiz ia ganhando novas esperanças, emquanto atravez das nuvens que lhe toldavam o horisonte ia como que descortinando a luz brilhante, formosa e esplendida da felicidade que tanto sonhára, ia o mulato convencendo-se de que a Providencia vela sempre pelos bons e pelos justos, de que o mal tem sempre o seu castigo do mesmo modo que todo o bem é premiado.
Para um iam desabrochando, embora receiosas e timidas, as flores, cujos perfumes embriagam a vida.
Para outro, os espinhos que magoam, e ferem, e doem a todos os momentos.
E Magdalena, o nosso anjo, Magdalena, a formosa, esperava no entanto, cheia d'anciedade, pela chegada dos dous e pelo resultado d'aquella conferencia que ia ter logar agora.
O que lhe dizia o coração nos sobresaltos com que a agitavam?
O que lhe dizia a alma na esperança que a enflorava?
Tudo lhe dizia amor, ventura e ternuras!
Tudo lhe fallava de felicidades, porque era bondosa, meiga, innocente, candida, e sobretudo, porque era boa filha, porque nunca déra um desgosto áquelle que a mirava doudo d'amor!