II

O mysterio que desde a creação estava suspenso sobre o Atlantico, e occultava ao conhecimento do homem metade da superficie do globo, tinha reservado para o Infante D. Henrique, o navegador, um campo de nobres commettimentos.

RICHARD HENRY MAJOR—Vida do Infante D. Henrique.

1

Como um extenso campo, pelo arado
Fendido em sulcos para a sementeira,
O Atlantico, por elle, foi sulcado,
N'uma larga derrota lisongeira,
Em que, sempre, um caminho era traçado,
De larga via e luminosa esteira,
Levando o Infante ás terras procuradas,
As naus e as galés afortunadas.

2

Os Açores, Madeira e Porto Santo,
Pelo arrojo de Zarco e Tristão Vaz,
Surgem formosas, como por encanto,
Ao que, por descubril-as, tanto faz.
Leva a Ceuta os seus feitos e, no emtanto,
Sempre no seu intento firme e audaz,
Segue lançando o penetrante olhar,
As ondas do attrahente e vasto mar!

3

Diogo Gomes põe as lusas quinas,
Em Cabo Verde—essa africana porta
—Como se as hasteasse nas campinas,
Onde não houve nunca esperança morta.
Rasgam-se as nuvens densas de neblinas,
Ante o fervor, que o heroismo exhorta,
E á bahia d'Arguim o accesso expande
A maritima audacia, e ao Rio Grande!

4

Desvenda-se esse Mar, que Tenebroso,
Toda a coragem transformava em medo,
Como rendido ao susto perigoso,
Quem quer sondar o abysmo d'um segredo;
E esse campo de vagas, mysterioso,
Tão tido por feroz, insano e tredo,
Deixa de ser phantastica voragem,
Para prestar aos lusos vassalagem!

5

Levado na corrente caudalosa,
Que os animos inspira com ardor,
Dobra, n'uma derrota gloriosa,
Gil Eannes, o Cabo Bajador;
E essa tarefa rude e trabalhosa,
Que ao Infante traz mais um esplendor,
Novo florão engasta em seu diadema,
Nova estrophe nos cantos do seu poema!

6

Andavam cavalleiros, moços, pagens,
Entre si, disputando a primasia,
De derrotas incertas, de viagens,
Tidas por mais difficeis, dia a dia,
Buscando, cada qual, novas paragens,
Consoante as pintava a phantasia;
E foi assim, que, com fervor e fé,
Chegaram a Benim, Congo e Guiné!

7

Vencem os seus o Cabo das Tormentas,
Que foi, depois, Cabo da Boa Esperança,
Não sem luctas e luctas violentas,
Em que o trabalho mais renome alcança;
Não sem rudezas grandes e cruentas,
Dessas que a fama em seus laureis entrança,
E coube ao Duque de Vizeu a Gloria,
Dessa arrojada empreza meritoria.

8

Levanta em Sagres a grandiosa Escóla,
Onde a navegação acha elemento,
Para as expedições, que desenrola,
Em busca de qualquer descubrimento,
Quando uma frota sua o mar assola,
Ou uma nau se expõe ao mar e ao vento,
Escóla, que assombrava o mundo inteiro,
E em que, no estudo, o Infante era o primeiro!

9

Se pelo mar conquista tanta fama,
E o seu nome circumda glorioso,
Das joias das acções que lá derrama,
Como navegador audacioso,
Tambem como homem d'armas se proclama
Disciplinado, firme e valoroso,
Como se fôra feito para a lucta,
Quem, pela Patria, a Gloria só disputa.

10

Nos mares, onde tantas caravellas,
Rasgaram horisontes dilatados,
Sem receio da furia das procellas,
Nesses longinquos portos ignorados,
Onde as galás molharam suas velas,
Levando a Cruz e a Fé aos seus povoados,
Andam, inda, hoje, vivas, por memoria,
Do grande Heroe, as tradições de Gloria!