III
A fama, a gloria, o nome, e a saudade.
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Oh! ditoso morrer! Sorte ditosa!CAMÕES—Sonetos.
1
Póde o tempo esquecer, por largos annos,
Os feitos d'um Heroe, acções d'um povo,
Quando o tempo resolve em seus arcanos,
O consagrar algum Heroe mais novo,
Ou commentar cruezas de tyrannos,
Pois cada tronco tem o seu renovo;
Mas desse olvido ha de surgir, um dia,
O tempo que esses feitos esquecia.
2
Revive, assim, a grandiosa Gloria
Do compendio da vida d'esse Infante,
Que enche de brilho as paginas da Historia,
N'uma lição famosa e fecundante;
E nesse consagrar tanta victoria,
Nesse avivar exemplo tão gigante,
Cumpre um dever o povo que pretende,
Que é pela Historia que se instrue e aprende.
3
Filho de Reis, podia, na grandeza,
Trazer a vida, e em ocios, regalada;
Preferiu, da Sciencia, a realeza,
Porque era d'ella uma alma enamorada,
Levando, em protegel-a, a gentileza
De, em seus Paços, a ver bem hospedada,
Que eram de illustres Sabios, grande gremio,
Sabios, que honrava e a quem dava premio.
4
Pelo seu coração foi mui piedoso,
Varão d'inteira Fé, de firme Crença,
Erguendo muito monumento honroso,
Que a tradição, agora, ainda incensa,
Como para attestar o caloroso,
Real valor d'essa piedade immensa,
De quem tinha, por si, segura a regra,
Que sem religião a vida é negra.
5
Affavel, terno, todo castidade,
Abria o seio ás afflicções dos pobres,
Que consolava ao sol da caridade,
Mudando em oiro a falta dos seus cobres,
Nos extremos do affecto e da bondade,
Taes como os dispensava aos ricos nobres,
Chegando, por impulsos desvelados
A ser chamado até—Pai dos Soldados!
6
Protector dos estudos, contribuia,
Com larga renda e generosa offerta,
Para pôr a instrucção em pleno dia,
Nos proprios Paços seus, fulgindo certa,
Como mãi do Progresso, que antevia,
E fonte de ventura, em jorro aberta;
Pois se do mar, das armas era amante,
Punha nas Lettras um amor constante.
7
Talent de bien faire era o seu lemma:
—De fazer bem, vontade sempre ardente,
E nessa ancia do bem, viva e suprema,
Exemplo sublimado a toda a gente,
Talhou o maior canto do seu poema;
É raro achar brazão mais resplendente,
Como egualmente o é, entre a nobreza,
Mais virtude, mais Gloria, mais grandeza!
8
Foi-lhe a vida sublime uma epopeia!
Heroe, que faz Heroes pelo traslado,
Dos dons com que seus dias encadeia,
Só pelo Patrio amor, sempre inspirado!
Dá flôr e fructo o exemplo que semeia,
Fertil foi sempre o campo que ha lavrado,
E dessa enorme e estranha sementeira,
Inda, hoje, ha grão ao sol da nossa eira!
9
Quando morreu, coberto foi de pranto,
Do povo, que o seu nome idolatrava;
Foi tecido de lagrimas o manto,
A mortalha, que ao tumulo levava!
Diziam todos que morrêra um santo!
Dizia o proprio mar que... orphão ficava!
Chorava, assim, uma nação inteira,
Como que a sua esperança derradeira!
10
Um povo, que acalenta o seu presente,
Ao sol das tradições do seu passado,
Levanta, agora, um monumento ingente,
Ao seu Navegador afortunado,
Na aspiração da Gloria resplendente,
Porque o que é grande é mister ser lembrado.
Aprenda bem o povo a lêr na Historia,
E Deus o inspire para maior Gloria.
FIM
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