a) A SUA ACÇÃO COMO ELEMENTO DE DISSOLUÇÃO NACIONAL
O regímen republicano português cavou um grande abismo entre si e a nação; tem sido sempre, infatigavelmente, um elemento de dissolução nacional, porque, ao proclamar-se, olhou para a nação e perguntou: qual é o principal problema a resolver? A ordem pública?, o pão?, a situação internacional?, o ensino?, o trabalho? Não! O primeiro problema, o fundamental, aquele em que todos têm os olhos, aquele que representa a aspiração colectiva e a máxima urgência,--é o da expulsão dos Jesuítas! E começou-se por aí. Andavam todos os lares domésticos portugueses desassossegados, inquietos; todas as famílias estavam oprimidas, vivendo sob pesadelos enormes, por falta de uma lei que estabelecesse o divórcio. E veio a lei do divórcio. A seguir, surge a lei da separação e atrás{21} disto, a república nada mais nos deu que constitua seu património e sua glória, porque para mais não chegou o seu conhecimento da vida pública... O resto é a multidão dos pequeninos expedientes, daquelas pequeninas providências que vieram atrás da lei do divórcio, da expulsão dos Jesuítas e da lei da separação.
Nos centros, nos comícios, nas batuques partidários, onde se planeiam ataques e ódios contra os monárquicos, foram esses os problemas que unicamente preocuparam toda a atenção dos grandes estadistas e dos grandes legisladores de 1910. Não se fez uma obra positiva; e até o que podia ser bom por acaso, até isso nunca o fizeram senão por mal...
No meu bairro está a construir-se um edifício que é destinado à Maternidade. Imaginam que esta Maternidade se está erguendo por amor à mãe? Não; pois o lugar é impróprio e detestável; mas porque se estava levantando ali uma capela ao Sagrado Coração de Jesus, vá de fazer a maldade, de pregar a partidinha, de pôr a nota mesquinha e irritante: arrasam-se{22} os alicerces da capela e ergue-se a Maternidade. Não há uma só medida que possamos dizer que seja ampla, genérica e absolutamente boa; todas tem um fundo antipático de maldade; em todas elas, há um bico de alfinete envenenado... O país olhou o regímen republicano, um pouco convencido de que chegara a hora de viver tranquilo. Estava cansado de lutas civis, de lutas políticas, de campanhas de descrédito; e o novo regímen, em vez de procurar aproveitar a aura que o bafejava, começou a provocar represálias, ódios, invejas e más vontades, incompatibilizando-se de tal maneira com a Nação, que, perante o movimento de 5 de Dezembro, ela limitou-se às palmas, aos vivas e aos apoiados, a isso que eu chamo o apoio teórico.