_A ALVARO DE CAMPOS,

O MESTRE._

I

Para Além d'aquelles montes
Não ha aves, nem ha fontes,
Nem ribeiros, nem campinas,
Nem casaes pelas collinas.

Para Além d'aquelles montes
Não ha segredos de fontes,
Nem Sombras nas Alamedas,
Nem hervas, passos ou sedas.

Para Além d'aquelles montes
Já não ha arcos de pontes,
Nem mãos finas de donzellas,
Nem lagos, barcos ou vellas.

II

Para Além d'aquelles montes
Existe apenas Espaço!
Espaço e tempo são Pontes
Que Deus tem no seu regaço.

Pontes que ligam de Auzente
Infinito e Eternidade.
Só sensações são Presente,
Só nellas vive a Verdade.

Passado nunca passou,
Futuro não o terei:
Pois sempre Presente sou
No que Fui, Sou e Serei.

Junho, 1915.

AO SR. MARIO DE SÁ-CARNEIRO.

Ha pouco quando bordava
Picou-me a ponta dos dedos
A agulha com que bordava…

E a seda toda de branca,
Branca da côr dos meus dedos,
Essa seda que era branca
Ficou com papoulas rubras…

Que o sangue das minhas veias
Já creou papoulas rubras…

Mas tão sós e tão alheias!

Junho, 1915.

AO SR. FERNANDO PESSOA.

Nada em Mim é necessario
Nem mesmo o que foi sonhado,
Ó contas do meu rosario
D'um sonho nunca acabado.

Tudo tão feito de Mim…
Só meu longe de passado
É como um sonho sem fim
Que o Outro tenha sonhado.

Cruso os meus braços. Não fallo.
Ouço uma voz dolorida
Dentro de Mim evoca-lo.

Marinheiro! Ilha Perdida!
E o meu sentido a sonha-lo
É a verdade da vida.

Junho, 1915.

AO SR. ALFREDO PEDRO GUISADO.

Sobre misterios já idos
Ergui-me em curva e de pé
Do meu corpo fiz sentidos
Num sonho de Salomé.

Curvos os olhos doridos…
Curvas as mãos e os braços…
Todo o meu corpo pedaços
Dos espelhos dos sentidos…

Dancei… Dancei… E o Ver-Me
Toda de curva e de pé
Era o sentido de Ser-Me.

Presente no meu olhar,
Eu fui Outra Salomé
Feita de Mim a dançar.

Junho, 1915.

AO SR. CÔRTES-RODRIGUES.

Passo no mundo a vivê-lo,
Passo no mundo a senti-lo,
E esta côr do meu cabello
É o vê-lo e o possuí-lo.

Passo no mundo a sonhá-lo,
Numa forma de vivê-lo,
E o meu sentido d'olhá-lo
É o sentido de vê-lo.

Só em Mim me concretiso,
E o Sonho da minha vida
Nesse Sonho o realiso.

E sempre de Mim Presente,
Todo o Meu Ser se limita
Em Eu Me Ser Realmente.

Junho, 1915.