*SONETO.*
Com o tempo o prado secco reverdece,
Com o tempo cahe a folha ao bosque umbroso,
Com o tempo pára o rio caudaloso,
Com o tempo o campo pobre se enriquece.
Com o tempo hum louro morre, outro florece,
Com o tempo hum he sereno, outro invernoso,
Com o tempo foge o mal duro e penoso,
Com o tempo torna o bem já quando esquece.
Com o tempo faz mudança a sorte avara,
Com o tempo se aniquilla hum grande Estado,
Com o tempo torna a ser mais eminente.
Com o tempo tudo corre, tudo pára,
Mas só aquelle tempo que he passado,
Com o tempo se não faz tempo presente.
* * * * *
Ainda que huma sabia Constituição Nacional não abrangesse (como abrange) hum bem geral composto de diversos, e infinitos bens, bastava aquelle de constituir hum sabio, e digno Codigo, que dê a Deos o que he de Deos, a Cesar o que he de Cesar: Em suma:—Que já mais possão ter as Leis as interpetrações que lhes derão (posto que com ironia) Solon, Anacharsis, e o sabio P. M. Fr. José Suppico, como abaixo transcrevemos.
Solon, e Anacharsis, comparavão as Leis ás teas de aranha, porque assim como estas só prendem algum mosquito, ou bichinho semelhante, e os maiores as rompem, e zombão dellas, assim tambem as Leis só opprimem, e castigão os humildes, e pobres; e os grandes as despresão, e fazem tão pouco caso dellas, que nem ainda as tocão com o dedo!
O muito Reverendo P. M. Fr. José Suppico: Repara, ou pondera no empenho que Herodes mostrou em querer tirar a vida a Christo, e não o esperar no Templo, quando o levassem a apresentar a elle. Para que se cança Herodes em matar innocentes, em perseguir justos, em dobrar sentinellas, e em povoar estradas? Espere no Templo a Deos Menino. Mas oh que andou Herodes como Principe; e tinha ouvido dizer aos Magos, que Christo nascia Rei: E nesta supposição diz entre si: Não tenho que me cançar em procurallo no Templo; he Rei? he Grande? Pois não ha de ir ao Templo, porque se o ir ao Templo he observancia da Lei, estes não guardão as Leis, quebrão as Leis.
Torno a repetir segunda vez: Quando huma sabia Constituição não nos trouxesse outro bem, mas sómente aquelle de pôr o Ministro n'huma severa restrincção de dar a Deos o que he de Deos, e a Cesar o que he de Cesar, isto he: Virtude para o premio, Vicio para o castigo, serem em suma estes os dois pontos fixos das suas deliberações sem aquella distincção que todos nós sabemos, de que tanto se vangloriavão os Nobres (que deixão de o ser huma vez que pretendem torcer a Vara da Justiça) e se lastimavão os plebêos!
Não precisa ser grande Juris-Consulto para saber (quando se não queira fechar os ouvidos á vos da razão, ou do interesse!!) que o premio he dado—Á Virtude—e o castigo ao Crime—que o plebêo depois de praticar huma virtude, he nobre, e que o nobre depois de praticar huma vileza he plebêo. Esta verdade inegavel confessa mesmo o Rustico applaude, e elogia o Sabio, e o Poeta canta: