*SONETO.*

Pobre, ou rico, Vassallo, ou Soberano,
Iguaes são todos, todos são parentes,
Todos nascêrão ramos descendentes
Do tronco antigo do primeiro humano.

Saiba quem de seus titulos ufano
Toma por qualidade os accidentes,
Que duas gerações ha só differentes,
Virtude, e Vicio tudo mais he engano.

Por mais que affecte a vã Genealogia
Introduzir nas vêas a nobreza,
De melhor sangue que Adão teria,

Não fará desmentindo a natureza
Que seja sem virtude a Fidalguia
Mas que hum triste fantasma da Grandeza.

Rimas de J. X. de Mattos.

Tom. II. pag. 47.

Considerações sobre as Leis em geral, e em particular, de alguns célebres, Filosofos, Sabios, e Oradores.

I. Perguntando Plistonacto a Pausanias, a causa, porque entre os Espartanos estavão as Leis, ainda as mais antigas, tanto em seu vigor, respondeo: Porque entre os Lacedemonios as Leis sempre dominão, e nunca forão dominadas.

II. Demósthenes chamava ás Leis, alma da Republica, porque assim como o corpo sem alma logo acaba, assim a Republica faltando as Leis, logo se arruina.

III. Sem Leis, sumptuarias, que dem o tom aos differentes ramos, que podem despedir do throno geral do público interesse, de mui pouco virão a servir a bondade do Sol, a fertilidade do chão, a actividade da industria, e a inergia do homem.

IV. Para nos mostrar que não muitas mas sabias Leis, e á risca observadas são o que formão a felicidade Pública, dizia o sabio Arcesiláo, que assim como aonde ha mais abundancia de Medicos, ha mais enfermidades, assim aonde ha muitas Leis ha mais vicios!

V. As enfadonhas formalidades (que até ao presente se tem observado, porém graças á nossa Nova Constituição que as dissipará) de que se achão carregadas as Leis na prática do Foro de huma grande parte das Nações, que se dizem policiadas, póde ser, que fossem boas na sua instituição primitiva: pelo menos hoje parece que servem sómente de eternisar as materias dos litigios; de dar que fazer aos Advogados; de fazer viver os Officiaes do Expediente; de obrigar a desistir hum pobre; que não tem mais, que muita justiça; e de avizar a Eternidade a hum desvalido desesperado litigante. O grande P. Antonio Vieira, diz com bem graça em hum de seus Sermões, que se o Processo Criminal, que se fez a Jezu Christo em Jerusalem, fosse formalisado pela prática actual do Foro, ainda no seu tempo não estaria consumada a Redempção.

VI. Bias sentenciando á morte hum delinquente, lhe corrêrão as lagrimas; e perguntado porque chorava, se como Juiz podia livrar o Réo, respondeo: Porque não posso faltar ás Leis da Justiça, nem ás da natureza.

VII. A Augusto Cesar, dizia Ovidio: Se todas as vezes, Senhor, que os homens peccão, cahisse sobre o delinquente hum raio, em breve tempo se veria Jupiter sem armas. Mas não inferio bem, diz o Padre Vieira, antes se todas as vezes que os homens peccão, cahisse logo o raio sobre o delinquente, não se acabarião, mas sobejarião raios: porque tanto que o castigo andasse junto com o delicto, nenhum homem se havia de arrojar a delinquir.

VIII. A clareza, e a precizão, são dois attributos indispensaveis das boas Leis. Desde o primeiro até ao ultimo dos homens he conveniente, a meu vêr, que saibão todos, o que lhes he mandado prohibido, ou tolerado. Parece que deveria ser a primeira Cartilha do Mestre Ignacio, que se mandasse lêr aos rapazes na escolla; como acontece com a Biblia nas escolas em Inglaterra.

* * * * *

Este sentimento que nós chamamos Brio, quando elle tem por objecto o amor da nossa Patria, he a primeira das virtudes Sociaes. Todo o homem que possue, e cultiva este sentimento, será sempre o bem-feitor da sua especie, assim como tambem será hum modello de Heroismo para os homens que houverem nascido no mesmo terreno, e fallarem a mesma Linguagem:—Pois: Ainda que seja hum dever o amar a todos os homens, a preferencia que nós dermos aos nossos Compatriotas, ás producções da sua Industria, aos fructos; e Cultura de seu terreno, será á medida de graduarmos a nossa propria estimação; ¿Quem deu tanta superioridade á Nação Ingleza (façamos-lhe justiça neste particular), e tantos respeitos sobre os outros povos da Europa?… O seu Brio Nacional!—Portuguezes lembremo-nos do Brio Nacional dos Heróes que honrárão (e hão-de honrar) tanto a nossa Patria, que em todos os seculos forão, e serão, o espanto, e admiração do mundo ¿Qual seria a Nação, que se não sentira ufana por ter por Compatriota hum Albuquerque, que em immensa distancia da sua Patria, ameaçado de todo o poder de hum Rei Persiano sem quasi algum soccorro, respondeo aos Embaixadores deste ao pedirem-lhe Tributos?—Eis a moeda (apontando-lhes para hum monte de ballas e granadas, e pondo a mão no seu alfange) de Tributo com que costuma a pagar ElRei de Portugal!

He precizo que sejamos quem d'antes fomos.

Quando huma nação tem grandes virtudes Públicas, nunca lhe falta aquella elevação de caracter que a faz sobressahir entre as outras Nações contemporaneas. A criação que El-Rei D. João 1.^o soube dár a seus filhos, e á Côrte, produzio tamanhos effeitos sobre o caracter Nacional, que por quasi dois seculos Portugal conservou a preponderancia do valor, e da fortuna sobre o resto da Europa. Nestes famosos tempos, a Historia Militar dos Portuguezes mostra illustres documentos de quanto se conhecião, e se praticavão as virtudes heroicas que eternizárão o nome dos Gregos, e dos Romanos, e quanto o amor da familia era generosamente sacrificado ao Amor da Patria.—Entre outros grandes exemplos Portuguezes, bastará sómente citar o de Antonio Moniz Barreto, Governador da India.—Achava-se em estreito cerco a importante Fortaleza de Malaca.—o poder dos Achens, e dos Jáos era tão forte, que a prudencia mesma desconfiava do bom successo das nossas Armas. Entre grandes precisões do estado, o Illustre Barreto querendo apromptar acceleradamente os recursos que parecião impossiveis de se haverem diz aos moradores de Goa.—"Portuguezes trata-se de salvar a Patria tanto maior he o nosso perigo, tanto maiores sejão os nossos sacrificios.—Eu tenho hum filho menino, eu o offereço gostosamente á minha Patria.—São necessarios vinte mil padráos (quinze mil cruzados) para conservar Malaca; meu filho seja o penhor de que o emprestimo de que fazeis ao Estado (ainda com melhor razão do que se fizer ao corpo Politico de huma Nação se deve esperar outro tanto) vos será fielmente satisfeito."—Duarte Moniz, menino de sete para oito annos, ficou em penhor.—Malaca foi conservada, e o generoso Barreto, que se desempenhou promptamente para com a Cidade de Goa, deixou a todas as Nações hum eterno monumento do amor da Patria.

* * * * *

O Amor da Patria sempre se interessa mais pelas acções Illustres que nos precedem; porém a nossa curiosidade mais vivamente se inflama quando vemos que o sexo das graças e beleza tem servido de engrandecer a nossa Historia:—No tempo em que o nome Portuguez se fazia temido nas mais remotas partes do mundo em que as nossas Bandeiras tinhão o respeito das Nações da terra, em que a nossa Linguagem foi aprendida pelos mais antigos Povos da Asia para receberem o nosso Mando: As nossas Emprezas encontravão obstaculos, porém não os encontrava a nossa gloria, nem a nossa Fortuna:—A Praça de Diu foi hum theatro de ambas! Apezar de todos os perigos da guerra, sempre o nosso valor foi aquí brilhante coroado. Era o tempo do segundo cerco, para que tinhão concorrido além da grande fama e poder dos Turcos, todos os exforços d'ElRei de Cambaia; porém era tambem ao mesmo tempo (por fortuna nossa, e gloria sua!) o Governador da praça D. João de Mascaranhas. Todos os recursos parecião faltar-nos, excepto o brio e o amor da gloria!—As mulheres quizerão seguir o caminho da immortalidade que as circunstancias offerecião ao Nome Portuguez!!… Sem reparo nem ao estado, nem á idade, todas correm á defeza do commum interesse (geral da Nação) sem o menor indicio de interesse particular mais do que aquelle que resulta a todos os verdadeiros Cidadãos de verem exaltada a sua Patria.—Os trabalhos mais defficeis são gostosamente supportados entre Canticos Patrioticos!—A mãi tinha a vingar hum filho!—A esposa hum marido!—A amante hum namorado. N'hum dia de conflicto geral a companhia, ou a lembrança de tantos penhores queridos, e amados, servio sómente de estimular os exforços communs, e reciprocos:—Isabel Madeira que parecia destinguir-se nas proezas d'este dia tanto, ou mais, como já era destincta pelas virtudes conjugaes:—Hum tiro de Bombarda despedaça, a seu lado, o seu amante esposo, e a deixa na posse de quatro filhos.—As Matronas, e as donzellas que a rodeião levantão hum grito de dor; porém ella fica immovel e seus olhos enxutos!!! Estas unicas palavras respondem á consternação geral das mais, e patenteião a grandeza do seu coração:—"Ninguem haja de lastimar-me! Meu marido morreo pela Patria! Possão meus filhos merecerem esta ventura!" Assim se exprimia em outro tempo o Heroismo Femenil em Lacedemonia.

Observação—Alegoria—Critica—Moral.

Quando as discussões de hum Congresso são feitas por Cidadãos, Sabios, e Prudentes, então lhes podêmos chamar Discussões inspiradas por Deos de Moysés (Omnipotente Deos Creador do Universo), e bem podêmos estar certos que a parte restante dos Cidadãos, que não entrão em tal Congresso, será feliz igualmente, isto he: Serão conciderados igualmente, ou sejão grandes, ou pequenos (Fidalgos, ou Plebêos) pois que o direito das Gentes não conhece distincção mais do que a Virtude, ou o Crime: outro sim apenas destingue quando se trata de premiar os bons; e castigar os máos, que os homens todos são homens!

"Iguaes são todos todos são parentes,
Todos nascerão ramos descendentes
Do tronco antigo do primeiro humano."

Pelo contrario quando as Discussões são feitas por Ex-Cidadãos (homens sò na figura!) ignorantes, e orgulhosos, então lhe podêmos chamar Discussões inspiradas por Jove! Deos dos Poetas! (ou das quimeras que val o mesmo!) e poderêmos ficar certos que os homens neste caso não serão tratados conforme os seus merecimentos, mas sim conforme a sua orgolhosa Representação, e exclamarmos com La Fontaine.

Jove duas mezas poz para os dois lotes
Da gente d'este mundo:
O Destro, o Esperto, o Forte estão sentados
Á primeira;—os pequenos
Comem os seus sobejos á segunda.

* * * * *

Observações Criticas, e Alegoricas.

I. No conceito de todos os Escriptores de boa nota (e até na realidade existente) Portugal em longitude de terreno, e mesmo no circulo circumferencial não he hum dos maiores Reinos!.. Porém quer pela sua riqueza, posição geografica, brio de seus habitantes, em summa por ser cheio como hum ôvo (valho-me desta expressão por não ser eu o primeiro que della uso) foi sempre olhado por todas as Nações Europeas com admiração, ou emulação, conforme lhe quizerem chamar?… Não obstante tal he a alternativa dos tempos, que ou por huma innação, ou por huma politica (que impolitica lhe chamára eu!) mal considerada, este pequeno circulo cheio como hum ôvo, que assim se podia considerar até á época de 1807 que a ex-politica Franceza o galou, e outras circunstancias (pelas causas acima que dissemos) o regalárão, a não ser huma inesperada Providencia com a mira n'hum Heroismo Constitucional, estava o sobredito ôvo a ponto de se chocar de todo!..

II. Dizem os Politicos, (e eu o creio) que por todas as razões o homem deve aprender a Grammatica da sua propria lingua… Suppomos hum inteiro e severo Magistrado: Que bella cousa não he saber conjugar o Verbo—Eu perco (diz hum só que ás vezes he mui bem que perca por que se faz merecedor de perder; pois que tem perdido outros para elle ganhar!): Nós perdemos (ás vezes injustamente): E que a pluralidade do ultimo deve ser preferida á singularidade do primeiro!

III. Quando reina o Despotismo, e o Rigor, o Genio Grande no centro de hum Palacio, vive para si acanhado, aborrecido, e para os outros Entes morto!… Quando a doce liberdade o pequeno Genio dentro de huma choupana vive altivo, magestoso, e entre balbuciantes vozes de ignorancia!! lhe escapão alguns pensamentos interessantes, e desta sorte se torna mais util á Sociedade o Ignorante livre, do que o Sabio captivo.

IV. Quando o Governo he Monarquico, succede, regularmente, que estando hum homem no Throno, he governado o Reino por huma Mulher! e se está huma Mulher, por hum homem! E desta maneira vem a ser Governados os Póvos ora pelos caprichos de hum, ora de outro individuo!

V. Quando o Governo de hum Reino he representado por Cidadãos, todos os Cidadãos desfrutão das graças que lhes competem por seus merecimentos; e quando he representado por hum Governo monarquico apenas as desfructão os Criados Particulares do Paço, e aquelles que tem particularidades com elles!

* * * * *

Que aproveita ao que he depravado nos costumes proceder de Illustre
Geração?

Politica Predicavel, e Doutrina Moral do bom Governo do Mundo.

Pag. 486. §. II. N.^o 8.

* * * * *

Aos Heróes Portuenses, que no dia memoravel 24 de Agosto de 1820 erguêrão pela primeira vez a Voz da Razão, e do Heroismo a Liberdade Constitucional.

Vivei felizes Pios, Vencedores,
Em ouro escriptos sejão vossos nomes,
Em cedro, em diamantes, em todo o mundo.
………………………………….
………………………………….
Em vossos peitos sãos, limpos ouvidos
Caião meus versos, quaes me Febo inspira,
Eu desta gloria só fico contente,
Que a minha terra amei, e a minha gente.

Ferreira.

Menos deloroso he (aos olhos do bom Observador) vêr a virtude sem premio (pois já o leva no primeiro objecto) do que o vicio sem castigo:—O Immortal Vate o expressa.—

E pondo na cobiça freio duro,
E na ambição tambem que indignamente
Tomais mil vezes; e no torpe escuro
Vicio da tyrania infame, e urgente:
Porque essas honras vãs, e esse ouro puro,
Verdadeiro valor não dão á gente:
Melhor he merece-los sem os ter,
Que possui-los sem os merecer
.[2]

Camões.

* * * * *

A Nobreza só he verdadeira onde ha Virtude, sem a qual he vaidade:—Os
Viciosos não são verdadeiramente Nobres, e infamão a sua Nobreza.—

Rosto de formosura, e graça ornado,
Riqueza, geração, forças, e honra.
E todos os mais bens da vã fortuna,
Juntamente porás n'huma balança;
N'outra a Virtude subirá ás estrellas
A balança ligeira da fortuna:
Mas a grave e pezada da Virtude
Com o seu pezo aos abysmos decerá
.

Diogo de Teive.

* * * * *

Não he o Soberano, mas sim as Leis as que devem Reinar sobre os
Póvos.

Massillon.

* * * * *

Se o Costume he Lei, e o vicio he Engano, A estrada vos mostro do Desengano.

* * * * *

Eu a Virtude elevo, o Crime abato,
Exalto o Luzo, o Gollo vitupéro,
D'este as acções tyranicas relato;
Daquelle o Patriotismo, o peito féro:
Poeticas ficções não junto ao facto,
Natural singeleza seguir quero,
Rodeios não procuro á sã verdade
Assim fallar costuma á humanidade
.

O Porto Invadido, e Libertado.

Cant. 1.^o 1.^a Out.

D'hum Cáhos surjamos qual d'antes eramos!

(Do Observador Constitucional.)

Aquella antiga idade, que contemplo
Dos nossos afamados Portuguezes,
Das quaes erguidas vês hum e outro templo.
……………………………………
……………………………………
Tendo a mediocridade por riqueza,
Todo o sobejo fausto aborrecião;
Quão limpa, e formosa era a sua pobreza!

Ferreirra 2.^o Livro das Cartas:—Carta 3.^a

* * * * *

Quantos ha na nossa Aldea
Leões e Lobos fingidos,
Que hoverão de andar despidos,
Senão fôra a pelle alheia
.

Francisco Rodrigues Lobo.

*FIM*.

Vende-se por 120 rs. nas lojas de João, Henriques, ao fundo da Rua Augusta; de Antonio Manoel Polycarpo da Silva, de baixo da Arcada do Senado, e Carvalho, defronte da Rua de S. Francisco ao Chiado.

*Notas:*

[1] Posto que fosse nossa tenção publicarmos esta Alegoria com o Nome por extenso que acima occultamos deste sabio Varão, fomos instados pelo mesmo (a quem solicitamos o consentimento, e a quem a remettemos em manuscripto antes de a publicarmos para que não fizessemos menção do seu nome); pois que elle antes queria ser sepultado no esquecimento do que incensado com Elogios! Assim o deviamos nós esperar; pois que he do verdadeiro sabio eximir-se aos Elogios, e do Ignorante sollicitá-los!

[2] Os titulos.