II
Este facto unico, aos olhos dos que lêem a historia nas lettras impalpaveis mas luminosas das ideias, e não nos hieroglificos barbaros e confusos dos acontecimentos fataes, basta a explicar o misterio que segue tudo o que depois virá.
A adopção do ideal hebraico pelo genio grego: o christianismo, misterioso hospede oriental recebido com amor sob o tecto cheio de luz do Occidente; Jesus{13} sentado entre os philosophos da Alexandria escutado e applaudido no Agora de Athenas; Christo descendo da sua cruz da Judea para, subindo ao Capitolio romano, estender os braços e tomar posse do mundo—este drama da fortuna inexplicada d'um Deus desconhecido, esta Odisseia das perigrinações da religião d'um mundo, acolhida, amada entre os cultos d'outro mundo tão distante—que ha em tudo isto d'incrivel? No dia em que Socrates exclamou «ha um Deus no homem» o primeiro arco da ponte extraordinaria estava lançado: ficou firme, sustido no fundo do oceano. Christo completou este caminho maravilhoso, lançou o segundo arco! Desde essa hora os filhos da Sára oriental podem atravessar de novo o Mar Roxo a pé enxuto: e a terra promettida, o occidente de doce e humana luz, cá está para os receber em seu seio vastissimo.{14}
O milagre, o milagre verdadeiro, começara ha seculos—o ideal commum—a unidade na aspiração. A realisação devia para ambos ser igual. A mesma prece deve subir ao mesmo céo. Egual desejo devia tarde ou cedo affirmar-se na mesma realidade. Maria é a irmã das Sybilas... Jesus por que não será então o irmão de Socrates? As differenças de genio, de raça, nada são aqui: o ideal commum, isso é tudo. E esse que assentou sobre a sua solida base a fé eterna da humanidade, a unidade dos corações, a verdadeira cidade de Deus! O christianismo creou a humanidade (no grande e verdadeiro sentido da palavra) mas foi a humanidade toda que o creou a elle, não o genio estreito d'uma raça.
Fundando a unidade divina, construiu a unidade humana mas os elementos da obra todos é que suscitarem o operario, é que o fizeram.{15}
No dia em que Jesus se chamava a si Christo, n'esse dia deixou de ser judeu para se naturalizar homem. E o filho do homem—o filho da humanidade. Do desejo dos dois mundos brotou esse lyrio divino... mas o perfume que lhe sae do calix não ha templo bastante para o conter! Todo o ceu é essa cathedral: o templo de Jerusalem, o Parthenon e o Capitolio são naves, apenas, d'essa egreja universal!