III
Eil-a fundada em fim, idealmente, ao menos essa unidade, esse sonho milenario do mundo antigo! E quem dirá as dores, as lutas, as esperanças, as angustias de mil gerações esquecidas, cujas lagrimas regaram, e de cujo pó se alimenta ainda essa arvore d'immortal amor?{16}
Innumeras raças extinctas passaram curvadas sobre a terra; crusaram no perigrinar de cem odisseias misteriosas, todos os continentes, para que seus passos apenas deixassem como derradeiro vestigio sobre a face do globo as letras fatidicas d'esse epitafio de glorias, essa palavra unica—unidade! Tudo o mais é o segredo do tempo. Os seculos desconhecidos esconderam sob a dobra dos immoveis sudarios a memoria dos obreiros com o risco e os instrumentos do trabalho—e vê-se a prodigiosa obra anonima erguer-se recortando o perfil extranho no horisonte desmaiado do passado, como o vulto da esphinge incomprehensivel no ceu dos grandes desertos!
É a melancolia da historia! Por entre o canto das Epopeias antigas escuta-se a espaço o gemido surdo d'esse desconhecido e infeliz mundo de escravos sobre cujos hombros doridos os heroes{17} assentavam as suas cidades de luz...
E os palacios heroicos da humanidade, que são as horas solemnes da sua inspiração, encobrem-nos tambem os peitos escuros mas fortes sobre que se ergueram esmagando os talvez, esses torreões de brilho!
Mas que importam os sacrificios? O carro de triumpho não se lembra da mina sombria d'onde sahiu o metal das rodas que o levam.
A obra do misterio, a cupula esplendida da historia antiga ergue-se e ninguem, sabe ahi por que mãos se ergue. Mas solida é a sua base, que nenhuma convulsão lançará por terra como o canto de granito nos alicerces do circo romano.
A estatua ideal da Fé humana achou emfim o pedestal de marmore immaculado, onde se firmem seus pés divinos—a consciencia da nobresa do destino do{18} homem, a revelação da sua mesma divindade.