I
Eis agora aqui um livro, que, em meio da geral fermentação de tumultuosas paixões e ambições immoderadas que agitam as nossas modernas sociedades;{40} em meio d'este lamentavel estado de geral descontentamento e desgosto de que todos mais ou menos somos victimas; quando, segundo judiciosamente observa Aimé Martin, o artista descrê da arte, o padre de Deus, o mancebo do futuro, e até a mulher do amor, e nem um só tem o menor vislumbre de esperança na felicidade com que ainda póde topar no estado que lhe deparou a providencia; eis agora—digo eu—um livro que, em meio de tudo isto, nos promette essa almejada felicidade, que nos aponta o como a poderemos alcançar, que o prova—e o que mais é—não fala em referencia aos grandes, aos poderosos, aos que por si tem todos os dons da fortuna, mas ao pobre, ao desvalido, ao que chora e soffre em meio das trevas da ignorancia, da miseria, quasi, direi, da servidão.
É mister ser-se um grande poeta—poeta{41} de muito crêr e muito esperar,—para poder lançar um olhar seguro por sobre todas essas populações miseraveis dos nossos campos—orphãs da moderna civilisação—palpar-lhes todas as feridas, ouvir-lhes todos os queixumes, conhecer todo o fundo de seus males, e vir depois ainda crente, mais crente talvez do que nunca, entoar um hymno de esperança e felicidade para esses que por cruel ironia só lhes respondem com lagrimas e gemidos.