II
Bem que a Europa jazia manietada mais ou menos pelos grilhões da tyrannia, comtudo não se mostram os governos descuidosos em promover a illustração pelo meio das massas: por toda a parte, nomeadamente na França, na Italia, na Allemanha e até na inculta Russia, se veem a cada passo escholas para o pobre, e não é raro topar o trabalhador, pela hora da sésta, entretendo-se a{11} folhear, lêr e entender livrinhos, que, apesar de mui comesinhos e de popular expressão, nem por isso deixam de o iniciar no saber.
É certo que os verdadeiros promotores d'este progresso intellectual não são os oppressores, que mal têm elles tempo de se rodearem de lanças e bayonetas: são os democratas, os verdadeiros amigos do povo, que por elle velam, e cuja voz, que é a voz da verdade e da justiça, apezar de proscripta e desterrada, brada tão alto, que a propria tyrannia, em que lhe pese, se vê forçada a se sujeitar mais ou menos aos mandatos d'esses representantes da opinião: parece que a providencia capricha em haver os tyrannos por instrumento da propria ruina; pois só a illustração, que dá ao homem a consciencia de seus direitos, póde derribar ruins governos e oppressores. Assim a instrucção progride e gradualmente{12} estende a sua rede, anhelando abraçar todas as camadas da sociedade, ministrando á terra virgem, mas productivel semente de muita ideia, que se há de resolver em ainda muito mais obras de bem e só para o bem.