III

Remissa e vagarosa, porém, vae a instrucção por esta boa terra de Portugal; e ai de nós se não se attende a este grave mal com promptos remedios, ai de nós, por que um povo que possue a liberdade sem instrucção, que só o póde n'ella iniciar e nos sagrados direitos em que se resolve, a custo poderá conserval-a, e o que é mais, conserval-a sem abusar.

Saidos apenas d'um baptismo de sangue, em que nos foi mister mergulhar para grangear uma alma nova,{13} para reconquistar a austera mãe dos povos, a liberdade, conservamos ainda vestigios cruentos, reminiscencias odiosas d'essa lucta fratricida, bem que em prol da patria; e é só a instrução que nos póde lavar da fronte as manchas do sangue de nossos irmãos, e conduzir-nos a bom fim.

Qual é pois a causa da ignorancia—indigna do seculo—em que vegeta todo o nosso povo e grande parte da burguezia? Porque não é só o proletario, é tambem a classe media em grande escala, que não cura de seus direitos e liberdades, considerando-os, indifferente, como uma invenção do seculo, e desconhecendo que só elles são as garantias unicas e segurissimas da sua individualidade e progresso.

A causa não está na escassez de livros populares, que alguns temos nós e de elevado merito; nem mesmo na indifferença{14} do povo portuguez, que sabido tem elle mostrar o como zela seus direitos, uma vez compenetrado por elles. A resposta já de ha muito a deu um grande homem e um grande Portuguez, quando se lastimava de que possuindo nós ainda todos os elementos d'uma grande ventura, só nos faltasse um a vontade dos que podem.