III
Eis os termos em que se expressa:
—Quizera que, n'um paiz como o nosso emancipado por cruentos esforços da tutela humiliante, egoista e sanguinaria da monarchia absoluta, cansado do regimen espoliador, traiçoeiro e faccioso da monarchia constitucional, necessitado de restaurar as forças perdidas em luctas estereis e de cicatrizar feridas, que ainda gotejam, ávido, emfim, de gozar as{31} doçuras da liberdade, por que tanto ha soffrido; quizera que o governo do estado fosse feito pelo povo e para o povo, sob a forma nobre, philosophica e prestigiosa de—Republica.
—Quizera que o poder supremo, emanado do voto universal, residisse na assembleia dos representantes do povo e que o poder executivo fosse confiado a um ministerio de tres membros, nomeados pela assembleia.
—Quizera que a administração da justiça corresse imparcial, rapida e gratuita; que os serviços feitos ao paiz tivessem uma recompensa condigna; que os crimes achassem correcção em vez de vingança, e que a pena de morte, vestigio maximo da barbaridade, fosse abolida.
—Quizera que a guarda nacional, milicia gratuita, que não obriga o cidadão a abandonar as suas ocupações, constituisse{32} o grosso da força armada; e que o exercito subsidiario se reduzisse unicamente aos corpos scientificos.
—Quizera que a despeza publica fosse inferior á receita; que se proscrevesse o ruinoso systema das dividas; e que a applicação dos rendimentos do Estado fosse inteiramente productiva, illustrada e philantropica.
—Quizera que a rede tributaria, que ameaça de estancar o paiz, ficasse reduzida a um só imposto progressivo sobre a renda, cobrado sem despeza e realisado sem agio.
—Quizera que os capitaes, pela barateza do juro, auxiliassem a producção, em logar de absorverem a maior e melhor parte de seus lucros.
—Quizera que o direito á subsistencia pelo trabalho tivesse nas officinas, colonias e obras publicas, uma util garantia; que o trabalho das mulheres{33} ganhasse uma area mais vasta, e que fosse melhor retribuido.
—Quizera que a Agricultura, a Industria fabril e o Commercio recebessem do estado uma desvelada protecção, como fontes principaes da riqueza.
—Quizera que as estradas, os canaes, as barras, e em geral, todos os meios de viação merecessem a preferencia no extenso capitulo das nossas necessidades.
—Quizera que a communicação do pensamento não achasse obstaculos; e que o correio fosse inteiramente gratuito, tanto para as cartas como para os escriptos periodicos.
—Quizera que os orphãos, os doentes e os invalidos, que dependem da caridade publica, encontrassem nas casas de mesericordia lenitivo para os seus males; e que se franqueassem a todos os operarios as instituições economicas e preventivas da miseria.{34}
—Quizera que os cuidados exercidos sobre a saude publica conseguissem minorar e extinguir, se tanto fosse possivel, as causas de infecção, que vão minando gradualmente a robustez das gerações.
—Quizera que o derramamento da instrucção chegasse ás ultimas camadas sociaes; que a imprensa publica se tornasse um instrumento de progresso; e que o estado protegesse o talento abandonado, que a falta de cultura não deixa medrar.
—Quizera que a religião de nossos paes não servisse de escudo a interesses egoistas e mundanos, mas que acompanhasse o progresso da humanidade; que os bispos fossem, como n'outros tempos, eleitos pelo povo; e que os parochos se elevassem á altura de mestres e de moralisadores.
—Quizera que os interesses da localidade{35} fossem attendidos primeiro do que tudo; que o territorio se dividisse para todos os effeitos em grandes e bem regidos municipios; e que as aldeias tivessem os melhoramentos indispensaveis ao bem commum dos moradores.
—Quizera que a associação, origem de maravilhas, se estendesse a todas as classes da sociedade e principalmente áquellas que vivem do seu salario.
—Quizera que a familia, instituição primitiva e santa, não apresentasse o quadro odioso dos direitos de primogenitura, que dão a uns filhos a regalia de senhores, em quanto conservam outros na humiliação de servos.
—Quizera que a propriedade, direito natural e civilisador, se estendesse ao maior numero de individuos; e que para completar a liberdade da terra se permitisse a remissão de todos os encargos que a oneram.{36}
—Quizera, por ultimo, que Portugal, como povo pequeno e opprimido, mas conscio e zeloso da sua dignidade, procurasse na—Federação—com os outros povos peninsulares a força, a importancia, e a verdadeira independencia que lhe faltam na sua tão escarnecida nacionalidade...
Não há querer mais nobre, aspirações mais santas; a par do grande philosopho, haverá ahi quem desconheça o poeta e o humanitario?