IV
Economista profundo, é um poeta e pensador; o illustre democrata, á maneira que nos apresenta uma das suas muitas, mas bonissimas reformas, não póde, precipitando o tempo pela imaginação, deixar de nos entoar um de{37} seus hymnos tão enthusiastas, tão intimamente consoladores de esperança no futuro para o pobre, o desvalido proletario.
A inspiração é tanta, a crença é tão forte, a fé é tão viva, que bastas vezes o tomarieis por um d'esses prophetas que nos pinta a antiguidade, a anathematisar os maus, de sobre esboroadas minas, a aviventar no coração dos bons a emmurchecida esperança em melhores tempos e mais christãos.
Ao ver tantas promessas de ventura, muitos, de incredulos, se negarão a dar-lhes fé; muitos lhe chamarão sonhos febris d'um sentido scismar de poeta; mas nenhum se atreverá a apodal-os de veneno ou de maldade. Muitos dirão com o poeta:
Vãos desejos, talvez: mas bons de certo.{38}
Mas nenhum terá força de lhes lançar o anathema terrivel, com que, verdade é, o seculo sóe pagar as ideias boas e nobres.
Quiçá cedo é, para diffundir a vontade de reformas: seja; que o não é: quem acampa nos arraiaes longinquos e desertos do futuro, e o aguarda sereno e firme na sua fé, tem uma nobre missão:—a de abrir e esclarecer, sentinella do porvir, a estrada da nova era; que outros, vagarosos, de prudentes, só mais tarde pisarão.
Não é tarde; que o mundo foge no infinito do espaço e caminha direito ás regiões encobertas do futuro; e, quando o seculo aperta o passo, não ha face de verdadeiro democrata, que deva pejar-se de o acompanhar n'este caminhar providencial.
Se é sonho, a sonhar por sonhar mais val, como diz Pelletan, o sonho{39} que diz a tudo quanto soffre cá na terra:
—Levanta-te, e espera! do que o que lhe repete:—Soffre, que para o teu mal não ha salvação nem lenitivo!