III

Retemperados pelas aguas lustraes d'um novo Jordão, por esse baptismo de fogo e sangue, pelo qual á Providencia aprouve fazer-nos passar, como iniciação nos umbraes do templo da liberdade, que a custo iamos conquistando, de tal arte nos cegou a novidade da conquista, tão afanosos nos mostramos no empenho de a bem guardar, que de todo nos esquecemos de que não é ella o fim unico (como se já suppoz) dos humanos destinos, mas antes um como meio de alcançarmos outros progressos; um primeiro passo, d'entre os muitos que ainda temos a dar: uma mera iniciação para aquelles que assentam o seu campo nos ainda mui desertos arraiaes do futuro.

Argos vigilantes, perdemo-nos enlevados na contemplação do thesouro, que assim nos traz presa a vista e a alma,{44} sem nos lembrarmos, que em volta a esse pomo d'ouro, que com tanto amor guardamos, outras e muito formosissimas flores se definham e morrem, sem que produzam fructo, á mingua talvez d'uma gotta d'agua, com que—a haver boa vontade—se lhes poderia dar vida ás raizes sequiosas.

A agricultura, com ser a mais esperançosa para bom fructo, de todas essas flôres, que vão murchando no pó ao minguar-lhes o alimento, é por ventura de todas ellas a que mais soffre, e a quem mais se recusa esse alento e essa protecção, de que por tantos titulos nos é credora.