VISÃO

(A J. M. Eça de Queiroz)

Eu vi o Amor—mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem tregoa e de intimos cançaços.

Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto n'um nimbo pardacento…
Na attitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços…

E arrancava das aras destroçadas
A uma e uma as pennas maculadas,
Soltando a espaços um soluço fundo,

Soluço de odio e raiva impenitentes…
E do phantasma as lagrimas ardentes
Cahiam lentamente sobre o mundo!

1880—1884

Transcendentalismo

(A J. P. Oliveira Martins)

Já socega, depois de tanta lucta,
Já me descança em paz o coração.
Cahi na conta, emfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e á Sorte se disputa.

Penetrando, com fronte não enxuta,
No sacrario do templo da Illusão,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e pó, uma materia bruta…

Não é no vasto mundo—por immenso
Que elle pareça á nossa mocidade—
Que a alma sacia o seu desejo intenso…

Na esphera do invisivel, do intangivel,
Sobre desertos, vacuo, soledade,
Vôa e paira o espirito impassivel!