CONSULTA

(A Alberto Sampaio)

Chamei em volta do meu frio leito
As memorias melhores de outra edade,
Fórmas vagas, que ás noites, com piedade,
Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito…

E disse-lhes:—No mundo immenso e estreito
Valia a pena, acaso, em anciedade
Ter nascido? dizei-mo com verdade,
Pobres memorias que eu ao seio estreito…

Mas ellas perturbaram-se—coitadas!
E empallideceram, contristadas,
Ainda a mais feliz, a mais serena…

E cada uma d'ellas, lentamente,
Com um sorriso morbido, pungente,
Me respondeu:—Não, não valia a pena!

Divina comedia

(Ao Dr. José Falcão)

Erguendo os braços para o céo distante
E apostrophando os deuses invisiveis,
Os homens clamam:—«Deuses impassiveis,
A quem serve o destino triumphante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inestinguiveis,
Dor, peccado, illusão, luctas horriveis,
N'um turbilhão cruel e delirante…

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem:—«Homens! porque é que nos criastes?»