II
Mas o velho tyranno solitario,
De coração austero e endurecido,
Que um dia, de enjoado ou distrahido,
Deixou matar seu filho no Calvario,
Surriu com rir extranho, ouvindo o vario
Tumultuoso côro e alarido
Do povo insipiente, que, atrevido,
Erguia a voz em grita ao seu sacrario:
«—Vanitas vanitatum! (disse). É certo
Que o homem vão medita mil mudanças,
Sem achar mais do que erro e desacerto.
Muito antes de nascerem vossos paes
Dum barro vil, ridiculas creanças,
Sabia eu tudo isso… e muito mais!—»
MORS-AMOR
Esse negro corcél cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me apparece
Da noite nas fantasticas estradas,
Donde vem elle? Que regiões sagradas
E terriveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?
Um cavalleiro de expressão potente,
Formidavel, mas placido no porte,
Vestido de armadura reluzente,
Cavalga a féra extranha sem temor.
E o corcél negro diz: «Eu sou a Morte!»
Responde o cavalleiro: «Eu sou o Amor!»
Á VIRGEM SANTISSIMA
(Cheia de Graça, Mãe de Misericordia)
Num sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizivel anciedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…
Não era o vulgar brilho da belleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as ha na natureza…
Um mistico sofrer… uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…
Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!
ELOGIO DA MORTE
Morrer é ser iniciado.
Anthologia grega.
I
Altas horas da noite, o Inconsciente
Sacode-me com força, e acórdo em susto.
Como se o esmagassem de repente,
Assim me pára o coração robusto.
Não que de larvas me povôe a mente
Esse vacuo nocturno, mudo e augusto,
Ou forceje a rasão por que afugente
Algum remorso, com que encara a custo…
Nem fantasmas nocturnos visionarios,
Nem desfilar de espectros mortuarios,
Nem dentro em mim terror de Deus ou Sorte…
Nada! o fundo dum poço, humido e morno,
Um muro de silencio e treva em torno,
E ao longe os passos sepulcraes da Morte.