NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Auguste Comte et la Philosophie Positive, cap. 3.º, pag. 38 a 52. Esta opinião de Littré tem sido vivamente discutida, entendendo muitos escriptores que remonta bem mais além a genealogia d’aquelle pensamento. Vico, inspirado nos seus trabalhos da divisão, que, segundo Herodoto, os egypcios fizeram dos seus annaes em edade dos deuses, edade dos heroes e edade dos homens, tem sido citado muitas vezes como precursor de Augusto Comte na organisação da lei dos tres estados. Ainda ultimamente o citou com este proposito o sr. dr. Theophilo Braga, nos seus Traços geraes de Philosophia Positiva, pag. 33 e segg.
Stuart Mill sustenta que para a comprehensão perfeita d’aquella idéa, que é a base fundamental da sociologia, contribuiram os mais poderosos espiritos dos ultimos dois seculos. Eis o que elle diz: «Montesquieu, o proprio Machiavel, Adam Smith, todos os economistas francezes e inglezes, Bentham e os pensadores da sua escola, tinham a plena convicção de que os phenomenos sociaes obedeciam a leis invariaveis, e o seu grande trabalho, como philosophos especulativos, foi descobril-as e demonstral-as. O que se póde dizer é que estes philosophos não foram tão longe como A. Comte, descobrindo os methodos mais proprios para pôr em toda a luz aquellas leis.» (Stuart Mill, Auguste Comte et le positivisme, trad. do dr. Clemenceau, pag. 55 e 56).
Esta discussão, muitissimo importante sob o ponto de vista historico, é interminavel. Todos teem razão e todos deixam de a ter.
Os grandes pensamentos não se improvisam; teem sempre uma genese mais ou menos longa, mais ou menos lenta, e segundo fixamos de preferencia um ou outro dos pontos salientes da sua determinação, assim nos vae parecendo que é esta ou aquella a sua verdadeira origem. Confundimos vulgarmente o principio com a phase. N’esta ordem de idéas somos levados a crer que o melhor é datar a origem das leis scientificas, não dos que remotamente as entreviram, mas dos que, aproveitando os trabalhos precedentes e criticando-os com prudencia, projectaram sobre ellas a luz d’uma boa demonstração. Pelo que, acceitamos neste ponto a opinião de Littré exposta no texto.
[2] Vamos transcrever na integra a passagem de Turgot, que lhe valeu aquella gloria: «Tous les âges sont enchaînées par une suite de causes et d’effets qui lient l’état du monde à tous ceux qui l’ont precede; les signes multipliés du langage et de l’écriture, en donnant aux hommes le moyen de s’assurer la possession de leurs idées et de les communiquer aux autres, ont formé, de toutes les connaissances particulières, un trésor commun qu’une génération transmet à l’autre, ainsi qu’un héritage toujours augmenté des découvertes de chaque siècle; et le genre humain, considéré depuis son origine, paraît aux yeux du philosophe un tout immense qui lui-même a, comme chaque individu, son enfance et ses progrès. (Deuxième Discours sur les progrès successifs de l’esprit humain, 1750, pag. 52, œuvres, Paris, 1808.)
[3] Idée d’une histoire universelle au point de vue de l’humanité (1874), trad. de Littré. Este opusculo compõe-se de nove proposições muito concisamente demonstradas. Littré (cit. pag. 53 e segg.) diz que é desconhecido em França o opusculo de Kant. Esta affirmação foi feita em 1864, e muito antes deviam ser conhecidas aquellas idéas do philosopho allemão, ao menos pela exposição que d’ellas fez J. Willm, na sua Historia da philosophia allemã desde Kant até Hegel, tom. 2.º, pag. 62 e segg., ed. de 1847. Vid. esta obra, e o livro de Littré, de pag. 53 a 70.
[4] Tableau des progrès de l’esprit humain.
[5] Henri Taine, Les origines de la France contemporaine, tom. 1.º, pag. 226 e segg.
[6] Cosmos, l. 75, cit. pelo sr. L. Coelho, Elogio de Humboldt, pag. 506.
[7] Introduction à la Science Sociale, pag. 47, 48 e segg.
[8] H. Spencer, cit. pag. 49.
[9] Ernest Renan, Les sciences de la nature et les Sciences historiques, Revue des deux mondes, 15 octobre, de 1863.
[10] Introduction à la Science Sociale, pag. 35.
[11] Cit. pag. 31.
[12] Introduction à la Science Sociale, pag. 32.
[13] Introduction à la Science Sociale, pag. 38.
[14] Rom. XI, 34.
[15] Lib. 1.º de Gen., cap. XVI, cit. por Liebermann, Inst. Theol., tom. 2.º, liv. 3.º, pag. 145.
[16] Cit. Inst. Theol., pag. 135.
[17] Histoire de la phil. allemande depuis Kant jusqu’à Hegel, pag. 334 e segg. do vol. 1.º.
[18] Job, XXIII, 13.
[19] Cit. I, 13.
[20] Les Premiers principes, trad. de M. E. Cazelles, 1.ª parte, até pag. 132.
[21] Cit. pag. 20.
[22] Cit. pag. 23.
[23] Cours de Phil. Posit., d’A. Comte, préface d’un disciple, pag. XLIV.
[24] Cours de Philosophie Positive, tom. 1.º, pag. 8 e 9.
[25] Auguste Comte et la Phil. Positive, pag. 50.
[26] Fragments de Phil. Positive, pag. 119.
[27] Fragments de Philosophie Positive (Paroles de Phil. Posit.), pag. 119 e 120.
[28] A. Comte et la P. Posit., pag. 50 e 51.
[29] Revue de la Phil. Posit., tom. X e XI.
[30] Revue de la Phil. Posit., tom. XI, pag. 33.
[31] Revue de la Phil. Posit., tom. XI, pag. 32.
[32] Les Sciences Naturelles, pag. 222 e 223. Huxley traslada para o seu livro o seguinte trecho de A. Comte (P. Posit., pag. 491, vol. 4.º): «A proprement parler, la philosophie théologique, même dans notre première enfance, individuelle ou sociale, n’a jamais pu être rigoureusement universelle, c’est-à-dire que, pour les ordres quelconques de phénomènes, les faits les plus simples et les plus communs ont toujours été regardés comme essentiellement assujettis à des lois naturelles, au lieu d’être attribués à l’arbitraire volonté des agents surnaturelles. L’illustre Adam Smith a, par exemple, très-heuresement remarqué dans ses essais philosophiques qu’on ne trouvait, en aucun temps ni en aucun pays, un Dieu pour la pésanteur. Il en est ainsi, en général, même à l’égard des sujets les plus compliqués, envers tous les phénomènes assez élémentaires et assez familiers pour que la perfaite invariabilité de leurs relations effectives ait toujours dû frapper spontanément l’observateur le moins préparé. Dans l’ordre moral et social, qu’une vaine opposition voudrait aujourd’hui systématiquement interdire à la philosophie positive, il y a eu nécessairement, en tout temps, la pensée des lois naturelles, relativement aux plus simples phénomènes de la vie journalière, comme l’exige évidemment la conduite générale de notre existence réelle, individuelle ou sociale, qui n’aurait pu jamais comporter aucune prévoyance quelconque, si tous les phénomènes humains avaient été rigoureusement attribués á des agents surnaturels, puisque dès lors la prière aurait logiquement constitué la seule ressource imaginable pour influer sur le cours habituel des actions humaines. On doit même remarquer, à ce sujet, que c’est, au contraire, l’ébauche spontanée des premières lois naturelles propres aux actes individuels ou sociaux qui, fictivement transportée à tous les phénomènes du monde extérieur, a d’abord fourni, d’après nos explications précédentes, le vrai principe fondamental de la philosophie théologique. Ainsi, le germe élémentaire de la philosophie positive est certainement tout aussi primitif au fond que celui de la philosophie théologique elle-même, quoiqu’il n’ait pu se développer que beaucoup plus tard, etc.»
Foi d’estas palavras de Comte que Huxley tirou as conclusões indicadas no texto. Huxley não se limitou a criticar a lei comteana; quiz tambem, por sua vez, reduzir a uma formula superior todo o desenvolvimento historico da humanidade. Como Littré, procurou relacionar as phases do desenvolvimento individual com as da evolução collectiva, e, por esta fórma, racionalisar a sua theoria historica.
Segundo Huxley, logo desde a infancia a intelligencia humana reflecte a natureza por dois modos: physicamente e anthropomorphicamente. Quer dizer que o homem, nas primeiras edades, tem das cousas uma comprehensão positiva, não se soccorre para as explicar a personificações imaginarias, considera-as como factos ultimos e contenta-se com isso; e que, ao lado d’esta condição mental, se desenvolve uma outra, que consiste em suppôr animados d’uma natureza semelhante á sua os seres humanos que o cercam. Este anthropomorphismo estende-o depois a criança a outros objectos, menos semelhantes, mas em algum ponto parecidos com ella. Mais tarde, a intelligencia do homem reconhece o conflicto apparente entre as suas duas interpretações da natureza,—a interpretação anthropomorphica e a interpretação physica; e é então que elle ou adopta inteiramente aquella interpretação, e desenvolve-se a tendencia theologica, ou acceita unicamente a segunda, e desenvolve-se n’esse caso a tendencia scientifica, ou fica n’um meio termo, que é o estado metaphysico.
O que é verdadeiro do desenvolvimento intellectual do individuo, tambem o é, mutatis mutandis, do desenvolvimento da especie,—diz Huxley. E procura demonstral-o. «O fetichismo, o culto dos antepassados e dos heroes, a demonologia dos selvagens primitivos são para elles os diversos modos de significar a crença nos espiritos e a sua interpretação anthropomorphica dos insolitos acontecimentos que a acompanham. A feitiçaria, a magia, traduzem praticamente estas crenças... Nos progressos que a especie faz do estado selvagem para uma civilisação adiantada, o anthropomorphismo, desenvolvendo-se, volve-se em theologia, e o physicismo em sciencia; mas estas duas tendencias desenvolvem-se simultanea e não successivamente.»
Depois, dilatam-se os dominios do physicismo, o anthropomorphismo refugia-se na sua ultima fortaleza, o proprio homem, e as philosophias, chegadas a um gráu superior de perfeição, é então que começam a trabalhar sobre o maior dos problemas especulativos, o problema ultimo, que póde formular-se d’este modo: A natureza humana possue um elemento de liberdade, o livre arbitrio das suas vontades, condição essencialmente anthropomorphica; ou, em verdade, é necessario consideral-a apenas como o mais curioso e o mais complicado dos mechanismos do universo?
Se nos não enganamos, Huxley não se logrou do seu intento de dar um fundamento psychologico á lei empirica do desenvolvimento social. Referir a tendencias psychologicas as differentes phases da evolução historica, sem precisar d’um modo rigoroso a existencia d’essas energias innatas, é deixar as difficuldades no pé em que estavam. Já se sabia antes de Huxley que os factos historicos correspondiam a tendencias humanas; o que se não sabia, nem por ora se sabe, é o modo de existencia e o processo de acção d’essas tendencias. Sem a resolução d’estas difficuldades, é inevitavel o empirismo historico. Como A. Comte, Huxley não racionalisou a sua theoria, a qual, mesmo no ponto de vista empirico, se nos afigura menos exacta. (V. Les Sciences Naturelles et les problèmes qu’elles font surgir, de pag. 224 a 231.)
[33] Les Premiers principes, pag. 140.
[34] Les Premiers principes, pag. 149 e 150.
[35] Les Premiers principes, pag. 180.
[36] Les Premiers principes, pag. 424.
[37] Premiers Principes, Introduction du traducteur, de pag. XXXI a XLVIII.
[38] Cit. pag. 359, not.
[39] Les Premiers principes, de pag. 355 a 378.
[40] E. Laugel, Révue des deux mondes, 15 février, 1864.
[41] Revue de la Phil. Posit., tom. IX, pag. 368.
[42] Charles Darwin et ses précurseurs français, étude sur le transformisme, de pag. 176 a 178.
[43] Cit. pag. 187.
[44] Les Sciences Naturelles et les problèmes qu’elles font surgir, pag. 430.
[45] Revue de la Phil. Posit., tom. IX, pag. 368.
[46] Lois scientifiques du développement des nations, W. Bagehot, pagg. 47 e 48.
[47] Introduction à la Science Sociale, Préparation par la biologie, pag. 369 e segg.
[48] André Sanson, La loi d’extension des races, Revue de la Phil. Posit., tom. XIII.
[49] Feuilleton de la République Française du 15 mars 1878.
[50] Wyrouboff. Le communisme russe, Revue de la Philosophie Positive, tom. VII.