*ALGUMAS PALAVRAS*

Achámos sempre de supremo mau gosto ver o auctor, na sua propria obra, demorar-se complacentemente n'um prologo, como que fabricando uma auréola.

Por isso, isto não é a demorada profissão de fé d'um poeta novo, nem a rhetorica pomposa e esteril de quem intenta dar realce a um livro.—É apenas uma explicação.

Este livro, producto d'uma inspiração meridional e algumas verdades heroicas, não se filia, exclusivamente, em nenhuma escola conhecida.

É uma obra na qual influiram muitas e varias correntes do espirito humano, e muitas impressões, muitas nobres ideas do seu tempo.

No entanto, o auctor conhece que fez uma obra sua, com horisontes particulares e pontos de vista seus, e não apenas uma synthese das ideas dominantes de qualquer escola aplaudida.

Na mysteriosa, singular, e complicada elaboração intelectual do espirito humano, qual será o auctor assás sincero que possa sempre assí*gnalar com segurança a origem d'uma idea, ainda que essa idea seja tão luminosa como a rotação da terra, a descoberta da alavanca, ou a creação de João Valjean?

Quem poderá dizer á borboleta, ao lyrio, ao monstro marinho, e áquellas aves singulares da America que teem todo um arco celeste de tintas nas plumas, a parte que elles devem na vida, nas côres, no aroma, nas plumagens, ao Sol, ás nuvens, aos ventos—e a todas as forças chimicas da Natureza?

Do mesmo modo tambem as grandes sementes que espalharam os espiritos que nos precederam, ou as d'aquelles que ainda hoje arroteiam o campo, fasem desabrochar uma infinidade de pomos intellectuaes na grande planicie dos seculos, por aquelle mesmo trabalho lento e maravilhoso, pelo qual o Sol vae preparar ao mais fundo da terra o diamante.

E assim é facil, por um contraste notavel, n'um dado espirito poderem ter operado as influencias da leitura de Proudhon, de Cicero, de Vico, de Dante, de Baudelaire, de Renan, Voltaire e de S. Agostinho, e d'ahi depois crear-se uma entidade tão diversa d'estas entidades em particular, que nenhum d'elles o teria por discipulo.

Quem poderá assignalar a S. Jeronymo, o grave doutor da Egreja, o aspero e cavado ermita do mosteiro de Betlem, a influencia que tiveram nos seus escríptos o estylo delicado de Cicero, Horacio, e os licenciosos poetas pagãos? Nenhuma influencia se operou talvez visivel; mas talvez muitas secretas e particulares.

É por isso que compete ao escriptor trabalhar a sua idea, lapidal-a, polil-a, desenvolvel-a, facetal-a, de maneira que ella seja como que um grande elo em que se vão encatenar um rosario luminoso d'outas novas, e que ella saia transformada d'esse vasto laboratorio intellectual, por um processo mysterioso semelhante ao do que faz a Natureza transformando da lagarta a borboleta, do carvão o diamante, e da ostra doente a pérola.

O escriptor é um producto litterario do seu tempo, das suas leituras, do seu temperamento, do seu estudo—e obedece mais que tudo ainda á sua consciencia, e a influencia do Sol sob que nasceu.

O poeta que não obedece a nada d'isto—não é um poeta na grande accepção da palavra: É um plagiario, um parasita que vive da imitação servil dos outros, e que é tão digno de se agremiar a elles como o sapo de fazer união com as borboletas.

É por isso, pois, que este primeiro livro é d'um meridional; mas d'um meridional moderno, que celebra o Sol por que desperta o homem para a Acção para a Vida e para o Trabalho, e que achou curioso,—no seu tempo—fazer um livro de vida, d'imaginação, de ironia, de sol, e de liberdade—o mais heroico dos ideaes.

Mau grado algumas affeições litterarias dos começos do auctor—entre as duas escolas modernas de que tanto se tem discutido, o satanismo e o realismo, não preferiu nem uma nem outra.

O satanismo por que tem uma philosophia absurda que consiste em querer ao eterno equilibrio do Bem e do Mal, em que se baseia a harmonia da Natureza que assombrava Rousseau e que lhe valeu de Voltaire a sangrenta satyra do doutor Pangloss—antepor, pertinazmente, o predominio do Mal.

E o realismo, reduzido ás condições de escola—isto é de convenção—por que debaixo d'uma vã, rhectorica, apparencia d'analyse, de critica e de experiencia, revela o sordido e o obsceno, ou cae como o satanismo na preoccupação do Mal em tudo, e a descrevel-o—o que é mais desagradavel ainda.

Na pintura o realismo, com processos exagerados e abusando das minuciosidades tem procurado impôr pela verdade, ora procurando o feio com um furor, como nunca a Arte Antiga se lançou no Bello, ora abusando dos pormenores, como se a pintura podesse retratar a Natureza, e se o fim da Arte não fosse servir-se d'ella como meio.

Alguns pintores inglezes da escóla realista chegaram a fazer quadros curiosissimos de serem analysados a microscopio; tal era a fidelidade e o rigor das menores cousas.

E, comtudo este exagero não póde nunca dar senão a consciencia ou a medida d'um talento d'um artista, e não a vastidão d'um genio, que não póde nunca restringir-se a pequenos effeitos visuaes, ou á fidelidade.

Alem d'isso, se a simples fidelidade fosse a maior aspiração da Arte, o microscopio d'um observador inglez teria direito quasi a procurar n'um copo d'agua os animalculos que a povôam.

Todas as extravagangias da escola bolonheza, de Paulo Veronezo e seus seguidores, ostentando em todos os quadros as magnificencias da architectura, d'entre os quaes um d'elles ficou mui celebre, as Bodas do Caná, não teem nada d'exagerado em relação ao furor, e á preocupação quasi comica do feio, que domina Courbet e os seus neóphitos.

Os poetas realistas, esses mais declamadores do que profundos, mais horrivelmente minuciosos do que verdadeiros, teem feito um mundo de mulheres perdidas, de Manfedos de crapula, de trufas, de velludos, e de lepras, e teem-se posto n'uma tal gamma d'inspiração, simulando a sciencia, e affectando chamarem ao diamante vil carvão, que teem tirado a poesia a tudo,—á arvore, á flor, ao diamante, e até ao carvão.

Estes são os exageros em que ultimamente tem caido esta escóla, e dos quaes já agora morrerá,—descrevendo ainda uma pustula.

Entre pois estas hesitações e absurdos d'escólas, o auctor achou melhor não preferir nenhuma, reservando todas as suas affeições para uma poesia mais sadia, forte e verdadeira, e que não desprese nem o amor, nem a imaginação, nem a liberdade.

Esta poesia nova, que procura o seu caminho tão gloriosamente no meio d'estes tempos tão turbados, já certa de triumphos verdadeiros, e a que alguns teem chamado Humanismo, é a que comprehendendo o homem com todas as suas paixões e as suas virtudes, nem deprimindo-o scepticamente, nem fazendo-o perder chimericamente nos astros, ha de estebelecer o verdadeiro equilibrio entre o ideal e o real, e mirando como a philosophia a melhorar a humanidade e a alargar o ideal humano, ser digna da nobre missão que n'estes tempos lhe está confiada.

Mau grado as vãs declamações ultimas contra o lyrismo, por alguns pregoeiros d'uma theoria de que não ouviram senão a primeira palavra, o auctor está convencido de que a verdade, a pureza e o sentimento são e foram sempre os distinctivos d'um verdadeiro artista, e que aquelle poeta que jámais cantou a Mulher e o Amor, é um ente tão duhio na Sociedade, como um sacerdote da deusa Tani em Carthago.

Alem d'isso recorda-se e recorda aos declamadores levianos que Lucrecio no mais bello e admiravel poema philosophico sobre a Natureza, que se tem escrito no mundo, De natura rerum, começou por uma elevada invocação a Venus—que é a mulher na Antiguidade feita deusa.

Hoje um poeta moderno que tem um ideal da mulher muito mais nobre, mais puro, mais casto, devido á philosophia christã, por que não ha de tratar de a engrandecer, de a elevar e distinguir, dando-lhe—como Philosophia e como Arte—o papel que ella tem direito a representar na sociedade—banindo dos seus livros a poesia da cortezã?!

O auctor no seu livro apenas duas ou tres vezes alludiu a ellas, e foi para as lamentar, e, talvez, injustamente, para as condemnar.

Injustamente; porque a bondade é tambem uma justiça superior; e uma das grandes missões do poeta é a d'alem de ser justo, ser bom.

E em nenhuns tempos a missão do poeta foi tão grande de cumprir como hoje.

Uma pretenciosa e depravadora lepra lavra na sociedade; uma enorme corrupção de gosto e de ideal nas letras. O jornalísmo, a parte mais deficiente da litteratura portugueza, toma sobre a desgraçada ignorancia geral um ascendente que seria comico se não fosse para lamentar, e invade como uma grande corrente, sem dique, a opinião publica, reduzindo a Economia, a Arte, a Politica e a Philosophia a questões de visinhas despeitadas.

A Mocidade, de quem ha tanto a esperar, explora avidamente o bel esprit que tanta indignação causava a Rousseau, todo forjado segundo os moldes mais deploraveis do espirito sem ideal francez, e que está para a verdadeira ironia austera e demolidora, como Proudhon está para uma cocotte e o sentimento de Chénier está para o sentimentalismo de salla de Feuillet.

Tendo-se o auctor feito conhecer por algumas poesias liberaes, muitos perguntarão talvez a rasão por que não deu no seu livro mais latitude á ultima parte.

Essa razão foi unicamente a de não querer fazer um livro exclusivamente didactico, e por que as poesias que publicou e que entravam no plano do seu livro lhes restringiram o espaço.

Alem d'isso porque tambem, as luctas religiosas da Allemanha, os eternos combates entre a Egreja e o Estado lhe haviam feito conceber o plano do Antichristo, onde mais latamente poderia desenvolver algumas theorias e tratar questões do mundo politico e religioso.

Quanto a esta obra, seja qual fôr o logar que a Critica lhe faça occupar, ella não é mais do que a primeira pedra d'um edificio que existe todo construido na imaginação do auctor.

Mas por muito insignificante que ella seja, elle recorda a todos que se teem visto n'uma sociedade esterelisadora, em lucta continua com um ideal novo e grande, como Jacob toda a noute com o anjo, que o seu desejo constante foi sempre fugir do exagero e do mau gosto.

Se nem sempre o conseguiu, ainda assim os justos, e os fortes, pela sua vontade, o saberão apreciar.