IV
Pobre mulher sem pão, quando de porta em porta
tendo batido em vão foste á do lupanar,
e ali deixaste a honra e a virgindade morta,
como noiva infeliz que levam a enterrar!
quando foste bater, chagado coração
ás portas soluçando, e que ninguem te abriu,
e o leito do bordel quaes taboas d'um caixão
te sepultou em vida, e teu calor cingiu!
quando tendo sonhado um sonho aureo e esplendente,
illusões d'uma infanta e os sonhos d'um donzel,
viste tudo findar na enxerga repellente
do teu leito de infamia—o catre do bordel!
Quando tendo elevado ao ceu teus magros braços,
como outr'ora Jesus o fez nas Oliveiras,
só achaste o silencio e o echo dos teus passos,
o riso da cazerna e a noute das rameiras!
quando ó loura mulher no berço excommungada
por um Destino ferreo, inhospito, infeliz,
por tua propria Mãe talvez abandonada,
pobre flor que hão lançado ao pantano a raiz!
Quando foste forçada ás bachanaes rasteiras,
e a despir e a manchar as brancas vestes tuas,
e a deixar teu amor na lama das regueiras,
como os sedentos cães que vão beber nas ruas!
Quando ó filha do Povo, ó pobre filha impura,
que uma mãe não beijou, que um Pae não protegeu,
achaste a Fome vil, velha de boca escura,
n'uma rua infernal, por um chuvoso ceu!
quando ó dahlia da Dôr, planta dos atoleiros,
pobre filha do Povo, exhausta, quasi exangue,
tu vaes servir de gaudio á noute dos banqueiros,
sentindo dentro em ti as lagrimas de sangue!
quando ó selvagem flor, ó poça do abandono,
sem lagrimas de Mãe, sem osculos de irmão,
a Fome te obrigou qual magro cão sem dono
a buscar na valleta o teu immundo pão!
Dize sabias já, rainha da enxurrada,
ave que não tens ninho e que empurrou a Fome
que ha entes como tu—raça vil, condemnada,
que vendem seu pudor, que vendem o seu nome?
Dize sabias já, loura infeliz sem pão
que um seductor manchou, ou que uma Mãe vendeu,
que ha quem venda a sua honra, a gloria, o seu brasão,
sem terem como tu os chascos e o labeu?
Dize sabias já que em quanto vaes na praça
entre um circulo vil de chascos quaes facadas,
elles vão affrontando a multidão que passa,
em gloriosos trens de portas brasonadas?
Dize sabias já, ó branca meretriz,
que aos homens como cães cedes teu corpo nú,
que ha torpes malandrins, gloria do seu paiz,
mais vis do que os ladrões, mais rameiras que tu?
Tu não sabes talvez, ó lama apedrejada,
por toda a rua hostil, por toda a rua séria,
a distancia que vae dos outros ao teu nada.
Ó tres vezes cruel! tres vezes vil Miseria!
Porém eu um rebelde ás Praxes como espadas,
entre a mulher sem pão e os pifios cannibaes,
ó prostitutas vis! [cadellas açoutadas]!
Ó rameiras da rua!—eu vos respeito mais.