ABRIL
Este mez, assim chamado por abrir o seio da terra á fecundidade; consagrado desde a infancia de Roma á Deoza da formosura, á Mãi das Graças, Amores, e Jogos, he o primeiro que ouza, por debaixo ainda das últimas nuvens chuvosas do inverno, sair e folgar com seu manto verde, e bordado de flores. O dia da sua entrada era para os nossos antepassados uma festa popular, menos estrepitosa que o Carnaval, de que parecia imitação, mas tambem mais innocente e serena. Ignoro se esse costume o herdárão elles de nações mais antigas, com quanto dos Romanos o não houvessem, de quem tantos outros lhes vierão. Tão pouco me recordo de haver lido alguma origem historica aos brinquedos rituaes do primeiro de Abril; mas sabido he que elles existírão em nossa terra, e inda hoje se lhes conservão os restos, mormente pelas Provincias. O dinheiro pregado nas ruas, as cartas, e prezentes de lôgro, a pedra que chamavão das agulhas, a fôrca de Judas, e outras quejandas bagatelas para rir, estão entretendo n’esta hora bastantes dos nossos aldeões do norte.
As lembranças velhas tem para mim muito grande saudade, e doçura; doe-me o coração quando vejo ir-se perdendo estas seculares tradições que a ninguem fazião mal, ainda que nascidas em berço de superstição, e que de bom tinhão o transportar-nos a tempos sabidos, e remotos, ou a tempos mais remotos ainda, e ignorados. E que he o que as apaga, e fica em seu lugar? odios, pobreza, e desgraças. Oh! aonde estará um poeta amigo dos serões e da innocencia, que se apresse em nos escrever os Fastos do nosso bom Portugal? No meio da confusão desconsolada do presente, nós beijariamos essa obra como santa reliquia em terra de infieis: veriamos um iris vão mas brilhante, entre nuvens de tormenta. Para excitar algum bom engenho a no-lo dar, he que eu coméço, e continuarei sempre a recordar nos seus dias proprios as nossas antiguãlhas: o que farei com muita avidez, porque d’aqui a alguns annos, o investiga-las será ja tarde. Assim os pintores Italianos se deleitão copiando os restos amortecidos das pinturas a fresco que sobre-vivem ao grande Imperio, e os antiquarios trasladão avidamente os enrolados livros das cidades soterradas, antes que de todo se desfação em pó.