MAIO.
He a apparição d’este mez uma festa da natureza, em que sempre os homens se alegrárão: quizeramos poder tributar-lhe algumas flores pelas tantas que nos elle concede. Não teçamos o seu encomio d’aquillo que sendo sensivel a todos não carece de ser descrito. Zéfiros e rosas, rolas e rouxinoes, abelhas e borboletas, a terra toda verde, o ceo todo azul, as noites começando a fugir como envergonhadas de esconder as alegrias da natureza, objétos são que ainda que desde a origem do mundo se apresentem sempre novos, já se tornárão lugares communs nas descrições da poesia. Voltemo-nos para as recordações; embalemos e adormeçamos com ellas por um pouco o espirito martirisado dos absurdos e crueldades d’estes máos tempos, em que ja se não crião fabulas risonhas e innocentes, coloridas pela imaginação, animadas pelo amor.
Forão os homens antigos os que idolatras da concordia, para melhor a insinuarem á terra, collocárão nos astros a sua imagem brilhante, e ao signo de Maio chamarão o signo dos Gémeos. Elles forão os que sensiveis aos encantos das Artes, consagrarão este mez a um Deos, que vivificando a natureza pela luz e calor, presidia com a Lira na mão aos prestigiosos artificios que a embellezão. Almas petrificadas ha ahi, para quem estas saudades do mundo antigo são frivolas, comparadas com um artigo de gazeta; para nós he delicioso andar mergulhando pelo oceano dos seculos, e não voltar a assentar-nos na nossa Ilhota escabrosa e esteril, senão carregados dos coraes, das pérolas, das riquezas formosissimas, que se cá não produzem. O fundador de Roma dedicou aos mancebos (Juvenes) o mez de Junho; era essa a idade que lhe fazia ganhar vitorias, mas ja primeiro havia consagrado o Maio aos velhos (Majores), porque feroz como era, Romulo experimentava o afféto que nos attráe para com o antigo. Passemos por alto Festas misteriosas da Deoza Bona, celebradas pelas Romanas no primeiro de Maio, em todo o segredo dos Penates e sem testemunha de varão; visitas das Vestaes ao Pontifice Maximo e principaes Magistrados da Republica; contemplemos a expiação dos Lémures, pois que usos nossos me parecem ter d’ahi recebido origem.
Á meia noite levantava-se o pai de familias, hia-se descalço, calado, e chêo de terror santo, á fonte, dando por todo o caminho amiudados estalos com os dedos para afugentar os genios máos. Lavava trez vezes as mãos, e tornando-se para casa, vinha atirando uma a uma, por cima da cabeça e para traz de si, favas negras, de que trazia chêa a boca, e articulando taes palavras—com estas favas me resgato a mim e aos meus:—o que por nove vezes repetia, sem olhar para traz, para não espantar o espétro que vinha apanhando as favas negras. Tomava agua por uma ou duas vezes, batia n’um vaso de bronze, e para conjurar a sombra a lhe largar a casa, por nove vezes repetia—Sahi, ó manes paternos.—Eis provavelmente d’onde provierão estes sustos vagos que ainda se dão a sentir aos homens rusticos no princípio de Maio; este uso de se repartirem e comerem castanhas seccas para evitar que o Maio se apodere de nós. A imaginação do bom povo perdeo de vista essas larvas, mas o medo que ellas produzírão lhe ficou: he uma especie de moeda, que safada como está de passar de mãos em mãos, ainda conserva a sua valia.
Outros costumes de Maio tem o nosso Portugal, a que folgáramos que alguem escavasse e descobrisse a raiz, sendo certo que na historia a devem ter. O Maio pequenino, que seguido de todas as crianças do bairro, corre enfeitado de flores, as ruas da cidade, ao som de um cantar antigo e uniforme; aquellas mimosas Maias tão arraiadas e donosas, que á orla dos caminhos se encontrão comprimentando os passageiros; aquell’outro estilo, ja talvez hoje passado, de se deitarem n’um mesmo leito um casal de creanças innocentes, para se lhes cantar em roda um como epithalamio, ou trova de suas bodas; os descantes amorosos dados com a viola n’esta occasião pelos aldeões ás suas escolhidas; não provirá tudo isto de alguma ja perdida lembrança de cultos da Deoza Maia? E a usança de ornar com flores Maias as portas e interior das casas, não será reflexo distante dos festejos Romanos á Deoza Bona?
A religião, que para si tomou ornato de tantas joias ao Paganismo, não se desdenhou tambem de perfilhar este mez. Em muitas freguezias, pelas nossas provincias do norte, o bom Parocho vai benzer no princípio de Maio a bandeja de rosas que entre os devotos se distribuem e se commungão, porque esta flor abençoada traz felicidade.—Vem depois aquellas tão esperançosas, tão cantadas e tão sabidas Ladainhas de Maio.—Hoje os camponezes de França vão plantar o seu Maio á porta das pessoas honradas da sua freguezia: os Inglezes renovão de certo modo as antigas Vigilias de Venus: os Gregos, como se os seus poetas d’outro tempo os inspirassem ainda, e a era das Elegias tornasse a reviver, vão descantar amores e pendurar grinaldas aos umbraes das suas inclinações: e os moradores de Roma, segundo nos foi dito por quem lá foi a essa terra de saudades, ainda agora se reunem na fonte de Egeria a respirar as delicias da natureza, debaixo d’aquelle ceo de tanto amor, que não a pensar em Numa e na grandeza antiga dos Romanos, de que a elles só veio em herança a terra coberta de muitas ruinas.
¿Para que servem todas estas memorias, nos estão perguntando os insaciaveis de Politica? e nós não lhes sabemos responder senão que a nós estes pensamentos nos fazem muito bem, e que aos amigos de passatempos innocentes se não ha de prohibir o que a ninguem faz mal. Deixai-nos ser algum dia do anno semi-pagãos. São as superstições da Politica ambiciosa as que empecem á felicidade, mas estes graciosos prejuisos de nossos pais a nenhuma couza do mundo danão. E de mais, se havemos de dizer toda a verdade, a fé, que a estes pobres erros acompanha, costuma trazer comsigo muita piedade religiosa, e n’ella alguma doçura moral, que nem sempre vai por onde vai a desenganada Filosofia. Ditoso d’aquelle engenho que podesse trazer outra vez ao mundo a innocencia que nos lá ficou no paiz das fabulas! mas interromper um sonho de poesia quando se julga que a felicidade vem apoz os nossos passos, voltarmo-nos, como Orfeo, para a abraçar, e vermo-la fugir e desapparecer n’um ai, e um mundo de realidades dolorosas estender-se immenso deante de nós, oh! isto he muito triste!
ÁCERCA DA PESSOA DO Sr.
Antonio Ribeiro dos Santos.
Pôsto que o escrever de Varão tão conhecido dentro e fóra d’este Reino, qual foi o Sr. Antonio Ribeiro dos Santos, já possa a muitos parecer escusado, o deixar de o fazer, mais que seja por alto, nem a opportunidade da occasião mo consente, nem menos mo consentiria o gôsto, que sempre do refrescar essas memorias me resulta; por quanto na primavera de minha vida, e primeira manhã de minha poesia, foi que a boa de minha fortuna me deu conhecer este Nestor de nossa Literatura, que já então, ao cabo da sua longa e proveitosa carreira, ornado de muitos méritos de sciencias e virtudes, respeitado e apontado de longe, pouzava sereno e magestoso, aguardando pela sua hora, á beira da eternidade.
Que fosse nascido nas terras do Douro, d’onde lhe prouve tomar nome de Elpino Duriense; que fizesse com bons mestres seus estudos; que se tornasse, lendo na Universidade de Coimbra, um de seus mais lustrosos luminares; que na Igreja e no Estado occupasse mui subidos empregos; que fosse o amigo e centro de quantos bons engenhos em seu tempo florecerão, não faltará quem o escreva entre seus outros muitos louvores. Tão pouco me deterei dispartindo entre a Jurisprudencia, a Historia, as Antiguidades, a Literatura, e a Poesia o opulentissimo cathalogo de suas Obras, cuja maxima, e por ventura optima parte, ainda até agora não viu a luz. Não hão de ser mãos tão debeis como as minhas as que revolvão tamanhos trofeos, nem em tão pequeno espaço como este coubéra retratar completo Homem que abrangeu duas idades, bem fazendo-lhes mutuamente a uma pela outra; anticipando em meio do seculo passado o gôsto, o apuro, a filosofia d’este nosso; transplantando para o presente o estudo, a boa fé, o saber do passado; e legando ao futuro thesouros que andou desencantando das antiguidades remotissimas. Menos arremessados são meus dezejos, e mais seguros, que só quero levar meus leitores a com este bom velho encetarem conhecimento.
Corre a primavera do anno de 1814 ou 15, que eu certo o não sei. A morada de Elpino, que em um dos mais desafrontados altos de Lisboa está formosamente situada, longe do bolicio, como bem cabia á sua indole pacifica e genio estudioso, he um templo de Musas, religiosamente vedado aos olhos e vozes de profanos, isto he dos máos e ignorantes, unicos de todos os entes para quem sua porta e animo não erão hospedeiros. Por aquellas salas, gravemente ataviadas á laia dos nossos antigos, de sedas e arrazes, alcatifas, tremós, espaldares e soberbos quadros dos mais perigrinos pintores, reina o silencio, e uma lembrança dos antigos e abundosos tempos de nossos avós, que tanto conforma com os nobres e portuguezes pensamentos de suas poesias, as quaes se raras vezes voão sublimes, nunca, nem por sombras, desmentem da boa moral e sã filosofia. Aqui o bom Elpino nos recebe cordialmente, a meus irmãos e a mim; os filhos do seu amigo são seus amigos, os estudiosos das Musas portuguezas e romanas são os seus amores. O ancião, que ainda entre sabios podéra ser ouvido como oraculo, remoça-se conversando com meninos, apouca-se para que o melhor comprehendão, orna-lhes a moral e o estudo com quantas flores sabe; do centro da gloria lhes ensina por onde se abre o caminho que para lá conduz; e pelo grande espirito e persuasão com que falla, talvez consegue crear algumas vehementes vocações literarias. Outras vezes nos convida para a bibliotheca, suas delicias, e nos acompanha com a alegria na boca. Os seus olhos, como que ao fim de tanto lêr ja quizessem descançar para sempre, não lhe alumião o caminho; e semilhante áquelle grande Bardo Ossian, a quem velho e cego, piedosa conduzia a moça Malvina para os logares usados de sua inspiração, no hombro de uma menina, sua afilhada e leitora, segurava o bom de Elpino uma das mãos, emquanto com a outra arrimada a um bordão, palpava o caminho, e se ajudava em seu quebrado andar.
Era a bibliotheca o íntimo retiro d’este ermitão do Parnaso, fugida para longe das casas, pôsto que tão quietas, e frescamente assentada em meio de muitas sombras, verduras e aromas de seu jardim, hortas e pomares. Grandissima cópia de livros, longamente procurados e custosamente juntos, e entre os quaes se estremavão no numero e riqueza os Gregos, os Romanos, e os antigos Portuguezes, alí estavão juntos, entre o susurro estudioso das ramas e os cantares descuidosos dos passaros. Um Apollo de marmore com a sua lira em punho, parecia estar-se mui bem cabido e contente no meio d’aquelle seu alcaçar, cercado de tantos seus cultores, servido por tão venerando Sacerdote. Lembranças são estas que trago colhidas de minha infancia, e que transplanto para aqui, por não querer que se percão.
Áquelle Homem, n’aquellas tardes, e debaixo d’aquelle této, devo a grande veneração que ainda hoje consagro aos meus livros latinos, não poucos dos quaes mos deu elle proprio; e tocados de suas mãos poeticas, me inspirão ainda agora poesia e virtude, até cerrados, e n’elles confio que me hajão de servir de pranchas, com que n’este pélago de freneticas e descompostas innovações, me não deixe, como tantos que mais valião do que eu, totalmente sossobrar. Nos seus ouvidos indulgentes lançava não só as primicias dos meus versos, mas ainda as traças e esperanças de obras que borbulhavão de uma seiba virgem de quatorze annos. Escutava elle tudo com desvellada benevolencia, umas vezes apontando-me melhores caminhos ou mais faceis, outras desviando-me de commettimentos maiores que meus annos e forças; agora revelando-me regras, logo insinuando-mas com exemplos, com que sempre fiel e muito a ponto lhe acudia a memoria. Não he verdade que ha em tudo isto um não sei que, por onde o que o pratíca não póde menos ser de um grande homem? Oxalá meus esforços melhor houvessem respondido a suas diligencias, ou me não houvesse elle desamparado no começo da carreira, para a qual apenas me aparelhou! Sim, porque embora me hajão a vaidade, a gratidão péde que eu publique, foi este Pontifice das Musas que me iniciou no seu culto, e no seu paternal enthusiasmo me disse—Tu serás poeta.—Scena digna de um pincel eloquente: um ancião coroado de louros, e cego como Homero, sagrando ao culto da mais bella das Artes, um menino cego como elle!