ADVERTENCIA.
Notar-se-ha que por todos os Poemettos d’este livro se dão sempre versos á infancia, e n’este Idillio tem ella não uma parte, nem a principal, senão o todo: se o porque, pode importar a alguem, agora lho direi brevemente.
Parece-me um Menino, de todas as couzas graciosas que Deos fez u graciosissima. Aquelle ajuntamento e consonancia de tantos dotes; formosura, d’elle proprio nem buscada nem sabida; graças que lhe ninguem ensinou; singeleza e candura; alegria, fraqueza, innocencia; e muito afféto, e muito mostra-lo; e total descuido do porvir; e não o temer nada; e a poesia particular do seu dizer; e a sua grammaticazinha natural que a nó nos faz rir, couzas são estas que apoz si me levão esquecido e encantado. No trato d’estes botões da humanidade, que vem abrindo, parece-me, e ja pareceo a muitos, poderem-se lucrar boas vantagens: ja não fallo em seu bondoso contentamento que talvez se pega, e na felicidade de recobrarmos horas de meninice, imitando-os, sem saber, a elles, como elles nos imitão a nós; fallo porem no muito que o nosso espirito se acostuma então a estremar o bom do máo, e a joeirar cá dentro o puro do impuro, para nem por sonhos profanar o que das mãos da natureza saío e se conserva santo. E demais, um Menino não sabe nada, quer saber tudo, e por tudo nos pergunta: ¿não he isso estar-nos pondo a caminho de muitos descobrimentos de verdades e relações das couzas, que nunca aliás por nossa preguiça ou descuido fariamos?—Muitas pessoas vejo, e faz-me pena, desamarem as creanças, despreza-las, havê-las por menos de gente, tolher-lhes as fallas, as obras de sua idade, e Deos sabe se tambem o entendimento: eu por mim, quero-lhes muito, porque entendo que excedem em valia aos seus desprezadores, e sinto que a mim me levão grande vantagem em bondade e ventura. De um ajuntamento esplendido mil vezes tenho fugido para elles: no campo, melhor que em nenhuma outra parte, saboreio esta doçura a meu contento. Todos os pequenos das aldeas em que tenho estado me conhecem, e sei que são meus amigos: apinhão-se-me ao redor em me vendo; invento jogos, historias ou conversas para elles; divirto-os, divertem-me; uns com outros, e uns de outros aprendemos.
Erão horas bem doiradas essas de minha vida, como as ja tivéra João Jaques, como as terão tido muitos, e como as poderáõ ter quantos as dezejarem.
Lisboa: 7 de Janeiro de 1837.
OS
CANTOS DE ABRIL
IDILLIO.
Por um serão de Abril suave e ameno,
Menalca, a bella Dafne, e seus trez filhos,
Estavão-se a folgar ante a cabana.
Por entre as parras do sonoro alpendre
A mansa lua chêa se enlevava,
Espreitando esta rústica familia.
Menalca erà ja velho: os justos Deozes,
Querendo premiar lhe a larga vida
Passada em os amar e amar aos homens,
De Citheréa ao Filho havião dito:
“Filho de Citheréa, entrega Dafne
Por esposa na Menalca, a fim que o velho
Remoce, vendo ao lar a mocidade,
E a virtude que tem o alegre em outrem.”
Amor nem sempre aos Deozes obedece,
Porem amava a Dafne; entrançou logo
A florente cadêa, e vendo-os prezos,
Tanto a si mesmo do que fez se aprouve,
Que ficou sempre entre elles na cabana.
“Filho de Citheréa, accrescentárão
Depois os Deozes, da-lhe o teu retrato
Em filhos, e uma filha irmã das Graças,
A fim que em seu crepúsculo da tarde.
O velho inda se alegre, e abrace esp’ranças:
Da-lhe prole, o fada-la a nós pertence.”
E Amor lhe déra prole, dois meninos
Seu retrato, e uma filha irmã das Graças.
Ja rosas de abril decimo florecem
No semblante de Silvia; um anno a vence
Titiro; e vence a este um anno Alexis.
Menalca, em juncos molles estendido,
Tem da esposa no candido regaço
Como em ninho amoroso a branca fronte:
Pelas feições transpira-lhe bondade;
O mistico luar o diviniza.
Dafne o contempla muda, e niveos dedos
De afagar umas cãs sentem vaidade.
Elle a querida mão colhe entre as suas,
Beijada a achêga ao rosto, os fracos olhos
Derrama pelos céos alumiados,
E fitando-os na lua “Olhai, meus filhos,
Olhai, disse elle, como brilha a lua!
Que suavidade e paz não côa ao largo
O astro das noites! como attráe da terra
Nosso espirito humilde a pensamentos
De outro mundo melhor, mansão de Deozes!
Que esp’ranças, de saudades misturadas,
Não traz a pura noite ás almas puras!
Dias que em vão suspiro, amenos dias
Da minha mocidade...! agora jazo
Como arvore das folhas despedida,
Que mais não florirá, porque o machado
Ja lhe abrio marca para se ir ao fogo.
Então era eu cantor chamado ás festas,
E afamado por longe entre os cantores
Na frauta e no rabil, porque os meus cantos
Erão sempre á Virtude e á Natureza.
Por uns serões assim, como acodião
Todos a ouvir-me! As Ninfas era fama
Que descião do bosque, e pelas sarças
Vinhão pôr mais de perto o ouvido á escuta:
E os ventos se detinhão, recostados
Aos duros troncos, sem bolir co’os ramos.
Té dizião que a frauta, em que eu tangia,
O benevolo Pan ma déra em sonhos.
E ora jaz, annos ha, de pó coberta!
Em tôrno ao meu fogão ja não se apinhão
Os pegureiros a aprender-me os cantos,
Meu cabello nevou, nevou minha alma.
Ah! se não fosseis vós, Dafne, meus filhos,
Vivido tenho assaz, pedíra aos Numes
Tornar a ver meus pais n’outras cabanas,
Onde he perpetua a luz, e a eternidade
Uma estação de musicas e flores.
Quando eu la renascer á vossa espera,
Á tua espera ó Dafne, á vossa ó filhos,
Resurgirá comigo a minha frauta;
E com ella enganando aquella ausencia,
Penosa até no Elisio, em versos novos
Louvando os Immortaes, e eterno eu mesmo,
Pedir-lhes-hei comtudo que só tarde
Vos levem para mim; que vos derramem
De virtudes e bens copiosas bençãos
Sempre n’esta cabana, onde hei nascido;
E que no meu sepulchro o passageiro
Diga parando—Ó bom pastor Menales,
Leve te seja a terra, e tu contente
Porque os teus filhos te excedêrão todos.”
Aqui sentio caír na fronte calva
Uma calada lagrima, e doeo-lhe
Ter nublado o prazer de seus Penates.
Senta-se, alegra o rosto, enchuga os olhos;
E unindo ao seio a esposa “Ouvi meus filhos:”
O cantar diz co’a noite, agrada á lua,
Contenta á vossa mãi. Cantai louvores
D’este suave Abril; nunca em meus versos
Deixei de o celebrar, quando era moço.
Os pastores de outr’ora Abril sagrarão
A Venus, graciosa Mãi de tudo.
Vede-a n’aquella estrella estar sorrindo;
As glorias do seu mez são glorias d’ella.
Alexis, principia, eu te acompanho
Co’a tua mesma frauta; os sons da frauta
Dão como vida ás solidões da noite.
Seja a toada a que inventei (quão lédo!)
No dia que nasceste, e a nossos olhos
Se doirou de alegria esta cabana:
Bem a sabes, começa, e Pan te ajude.
ALEXIS.
Eu amo o verde Abril, porque he formoso,
Todo está chêo de arvores vestidas.
TITIRO.
Eu amo o alegre Abril, porque he sonoro;
Vem cantado por bandos de avesinhas.
SILVIA.
Eu amo o rico Abril porque he cheiroso,
Espalha em cada prado um mar de flores.
ALEXIS.
A folhagem traz sombra, as sombras trazem:
Seus folgares da sésta á gente grande,
E a nós para brincar franca licença.
TITIRO.
As aves são dos ares alegria;
Chamão na madrugada os preguiçosos,
E divertem na lida aos lavradores.
SILVIA.
Flores dão côr á terra, e cheiro ás auras;
Flores são mãis da fruta; os Deozes rindo
As crearão, e rindo acceitão flores.
ALEXIS.
O Pan que está na gruta do arvoredo
Não pára senão lá, por mais que o mudem;
Sinal que um bosque e a sombra apraz aos Deozes.
Tudo ali he formoso á maravilha!
Por baixo a fresquidão, por cima o verde;
A terra de reflexos variada;
O této sonoroso e movediço;
Mais alto, o ceo azul, dado ás amostras.
E que direis do rio entre arvoredos?
¿Como se pintão na agua aquellas folhas,
E o vento que as revolve, e as pombas alvas
Pelos ramos, e um sol desfeito em muitos?
Parece que no fundo do remanso
Tem Pan outro arvoredo, igual em tudo.
Quando hoje eu lá passava, a Pan dei graças,
Porque achei que um tal sítio encantaria
Ó meu Pai, teus passeios solitarios.
TITIRO.
Fonte como a das Náiades nenhuma:
Cantão-lhe em volta passaros sem conto;
Sinal que o bando alado apraz ás Ninfas.
Por ali me regala ir espreitando
Tantos ninhos por entre tantas folhas.
Admiro a perfeição d’aquelles berços,
E o tino com que os pobres de uns brutinhos
Os souberão livrar a soes e a chuvas:
Aqui uma avezinha inda sem pennas,
Outra a romper da casca; alem uns ovos
Branquejão d’entre o musgo, e ja palpitão;
Se os tóco, sinto dentro o passarinho,
E fujo com temor que a mãi o engeite.
¡Ver as mãis vir do pasto alvoraçadas,
Darem o almoço aos filhos que pipilão,
E co’as azas e peito agazalha-los!
E ver logo os maridos tão contentes
A gorgear-lhe á roda! o porque o fazem
Mal sabeis vós; cuidais que he diverti-las!
Oh que não: he ja dar lições e exemplos
De canto aos filhos seus: não de outra sorte
O nosso pai nos ensinou seus versos.
SILVIA.
C’roas frescas de rosas cada dia
De Citheréa ás portas amanhecem;
Sinal que a Citheréa aprazem flores.
Todo o anno era Abril se eu fôra a Deoza!
Nunca no meu altar e ás minhas portas
Faltarião montões de flores frescas.
Todas só para ti as cobiçava,
Ó minha mãi: com ellas te enfeitára
Cada hora do dia; cada noite
As renovára ao leito onde tu dormes;
Não porias teus pés senão em flores.
Se o passageiro ás vezes me pergunta,
Quando me encontra á borda do caminho,
“Quem he a tua mãi?” eu lhe respondo
Chêa de gloria “A minha mãi he Dafne!”
Hontem de tarde o graciosa Amintas,
O pobre guardador das duas cabras,
Quando o meu pão lhe dei pedio-me um beijo,
Chamou-me bella, e disse que o meu rosto
Era como o de Dafne, ou como as rosas.
Sendo assim, bella sou, que outra pastora
Igual a minha mãi não ha na aldea,
Nem flor em todo o mundo irmã da rosa.
ALEXIS.
O vizinho Milão, que hoje he tão rico,
Não tinha mais que uma arvore, e de terra
Só quanto aquella sombra lhe cobria.
“Corta-a Milão, dizião-lhe os pastores,
Alegras teu campinho, e terás lenha
Para aquecer a choça um meio inverno”—
—“Eu? respondia o triste, eu pôr machado
Na boa da minha arvore? primeiro
Me falte lume alheio o inverno todo,
Que eu mate a que a meu pai ja dava séstas;
A que de meu avô me foi mandada,
Que a não poz para si; e a que nos braços
Me embalou tanta vez sendo menino.
Os Deozes a existencia lhe dilatem,
Que assim lhe quero eu muito, e o meu campinho
Produza o que podér, que eu sou contente.”—
Sorrião-se os pastores; o carvalho
Cada vez mais as sombras estendia,
E Milão de anno em anno hia a mais pobre.
Lembrou-lhe um dia, em bem, que uma videira
Plantada a par com o tronco, o enfeitaria,
E os cachos pendurados pela cópa
Lhe darião tambem sua vindima:
E eis que ao abrir a cova, acha um thesouro!
Desde então ficou rico, e diz-me sempre,
Que os Deozes immortaes lhe hão dado em prémio
Por amar suas arvores. He elle
Quem mas ensina a amar, são d’elle os versos,
Com que ao bosque de Pan cantei louvores.
TITIRO
Deozes, tocai o peito de Mirtilo
Porque não sáia máu quando fôr grande.
Hoje, entrando na mata, o vi la dentro
Andar armando aos passaros. Que pena,
Disse em mim; não ser passaro um momento;
Não poder ir correndo o bosque aos pios,
E dizendo em cada arvore “Cautella
Meus irmãozinhos do ar; vejo inimigo;
Não saiaes; o inimigo anda no bosque...!”
Paciencia, assim mesmo hei de acudir-lhes.
Vou-me por entre as moutas rastejando
Até ao ouco e immenso castanheiro,
Que abre em seu tronco uma portada de heras,
E se nomêa a casa de Silvano.
Trepo, e dentro me escondo: os meus vizinhos
Lá por cima na cópa papeavão,
Cuido que adivinhando o que eu faria.
Encósto a boca á fresta carcomida,
Que está fronteira ao portico da entrada,
E clamo em rouca voz “Pára Mirtilo.”
Parou, ergueo-se, e poz-se a olhar em roda;
Vendo tudo em socego ás redes torna.
Com voz mais estrondosa e mais horrenda,
Torno-lhe eu a bradar “Mirtilo pára.”
Não esperou terceira: arroja tudo,
Salta, vôa; oh que riso! uns echos fêos
Lhe hião gritando apoz “Mirtilo pára.”
Somio-se; á terra pulo, espreito o mato,
Acho as redes, os presos sólto, os mortos
Levo-os onde ôlho de ave os não descubra:
Encho-as de pedras, na torrente as lanço,
E corro a procura-lo—“Oh tu não sabes,
Lhe digo, de que morte escapo agora!
Não te engano, era um Deos, vi-o eu, rangia
Os dentes, bracejava uma alta fouce,
Vinha a saír das sombras do arvoredo;
Vio-me e gritou me “Pára” eu páro e chóro.
—“Es tu que andas armando ás minhas aves?
Pois eu vou dar-te o ensino; as tuas redes
Ja te lá vão por esse rio abaixo,
E agora has de ir tu morto á caça d’ellas.”—
E então vem para mim, co’a fouce aos lanços
Cortando pelo ar—“Bom Deos, perdoa,
Lhe grito a soluçar co’as mãos erguidas,
Eu sou Titiro, o filho de Menalca,
As tuas aves amo, e temo os Deozes:
Eu redes, eu caçar!”—“Estou perdido!
Disseste que eu ... Mirtilo me interrompe.”
—“Não, Mirtilo, socega, eu não lho disse,
Nem sabia que tu ... fallemos baixo
Que nos não ouça o Deos. Olha, este p’rigo
Passou, mas outra vez não te aventures,
Que eu bem sei como o vi, não te perdoa.
Deixa ás pobres das aves innocentes
Divertir-te e cantar; nada mais querem;
Não tens razão, não teus de as perseguires.
Quanto ás redes, eu quero consolar-te:
Ouve Mirtilo, acceita este cestinho
De cana entretecida em juncos verdes,
E este meu cajadinho em boa altura
Liso, airoso, e sem nós.”—Assim dizendo,
Enfiei-lhe no braço o meu cestinho
De cana entretecida em verdes juncos,
E entreguei-lhe o cajado. Então Mirtilo
Me abraçou, e saltando de contente,
Jurou-me nunca mais armar ás aves.
SILVIA.
Glicera por vaidosa he que ama as flôres:
Apanha-as para si não para os Deozes,
Não lhas merece a Mãi e alcança-as Mopso.
Quando em nosso jardim vejo Glicera,
Ja me eu ponho a tremer: corta as melhores,
He seu costume; enfado-me, sorri-se;
Chóro, ri-se; e enfeixando-as, me repete:
“Que te servem por ora estas floritas?
Deixa passar mais cinco primaveras,
E então sim, nem mais uma hei de furtar-te;
Pois sei te hão de servir quaes me hoje servem.”
Coitado de quem he como eu menina,
Que se manda esperar por primaveras!
Que podia eu fazer? queixei-me ás Ninfas.
Hontem, ja pôsto o sol, quando erão horas
De logo vir Glicera, a presumida,
Que furta e vai cantando; ajoelhei-me
Co’as mãos póstas por entre as minhas flôres.
E disse: “Como as arvores tem ninfas,
Que lhes morão la dentro e as aviventão,
Ha ninfazinhas a velar nas flores.
Ninfazinhas das flores, escutai-me:
Se a rega, com que as folhas aquecidas
Vos refresquei ha pouco, vos foi grata,
Olhai por vós, fazei com que Glicera,
Como eu vos vi e ouvi, vos veja e ouça;
Apparecei-lhe como a mim, por sonhos,
Vestidas de mil côres, perfumadas,
Pequenas, mui mimosas, e só outras
Em não mostrar-lhe a ella um ar festivo.
Dizei-lhe como os Deozes vos crearão
Para amores de zefiros, recreio
De borboletas e olhos, e formosas
Copeiras do formoso mel doirado:
Dizei-lhe que tão bella e curta vida
Não se deve encurtar, que as deshumanas
Tem máo fim, que apezar de passageiras,
Ninfas sois, e o Destino ha de vingar-vos:
Que se tornar sacrílega a colher-vos,
Vossos fragrantes ultimos suspiros
Seráõ de queixa aos ceos, e antes de tempo
As rosas no seu rôsto hão de murchar-se.”
Como eu isto dizia, entrou Glicera:
Murchas trazia as rosas de seu rôsto,
Não rio, nem colheo nada, e suspiráva.
Penada de a assim ver, beijei-a, e disse:
“Se alguma d’estas flores te contenta,
Eu mesma a vou cortar.”—“Não (me responde)
Ja não quero mais flores, Mopso ingrato
As que ultimas lhe dei deo-as a outrem:
Como as flores me engeita hei de engeita-lo.”
Ao que eu logo acudi—“Vês tu, Glicera,
Fallei verdade ou não? nascem as flores
Só para as nossas mãis, e para os Deozes,
Da-lhas tu, e verás se hão de engeitar-tas.”
MENALCA.
Basta meus filhos, basta; não ha sombras
Tão gratas no verão, cheiro de flores
Tão suave, ou tão ledo canto de aves,
Que me recrêem como os vossos versos.
Vinde, vinde, abracemo-nos, ó filhos:
Dei-vos eu a doutrina; engenho os Fados;
Mas os Deozes virtude: alcatifais-me
De bem viçosa esp’rança o meu declivio:
Dais-me o que nem pedir ouzava aos Deozes.
Antevejo a florir-me a sepultura ...
DAFNE.
Entremos na cabana: aquella nuvem
Quer encobrir a lua; ergueo-se o vento,
Não tarda muito algum ligeiro orvalho.
NOTA
AO IDILLIO.
Na muita rama que ao Idillio decotei para esta segunda edição, ninguem, por mais que a cate, poderá achar fruto, nem sequer uma triste flôr, se a não he o passo que para aqui traslado, da falla de Alexis pag. 96 na primeira edição; ácerca do qual e de tudo o mais quanto supprimi ou accrescentei, releva reclamar pela maior indulgencia dos leitores. Não ma negará quem ja alguma vez houver experimentado como de todas as couzas, que parecendo tenues, são agras e laboriosas, a mais agra, laboriosa, e não sei se diga impossivel, he poetar e metrificar as fallas da infancia: caminho he esse que estreitissimo corre por entre precipicios, sendo maravilha que ahi os maiores engenhos se tenhão, e sigão sem caír ou para a direita ou para a esquerda. O primeiro e melhor juiz do homem candido he a sua consciencia: a minha me diz que os trez filhos de Menalca nem sempre, antes poucas vezes, fallão como conviria: de sobejo são poetas para meninos e rusticos; e tanto, que se não fôra a resalva, que logo do comêço lhes vai lançada, de serem filhos de improvizador, e por elle doutrinados no canto, não haveria perdão que de ridiculos os salvasse.
Segue-se o excerpto, com todos seus defeitos e aleijões de nascença:
O MENINO ALEXIS.
Ver-me no bosque de prazer me enchia;
Quando Amintas, chamando-me da gruta,
Aonde estão de musgo revestidas
As imagens das Náiades da fonte,
Assim me disse, dando-me uma rosa:
—“Eu te darei uma pequena ovelha,
Toda branca, na testa só malhada,
Se fores ter com Egle, e lhe entregares
A rosa, que te dou, se lhe disseres
“Egle, Amintas por ti morre de amores.”
Beija-a depois na face, e continúa;
“Egle, este beijo é do extremoso Amintas.”
¿Não a vês la ao longe entre os salgueiros,
Apascentando as candidas novilhas?
Corre; e não tardes a buscar a ovelha.”—
Eu fui correndo a ella, dei-lhe a rosa,
Beijei-lhe a face, e disse-lhe: “Este beijo,
Egle, este beijo é do extremoso Amintas.”
Nada me respondeo, sorrio-se, e as faces
Como a rosa encarnadas lhe ficárão.
Abraçando-a depois, lhe disse alegre,
“Egle, Amintas por ti morre de amores.”
Rio-se outra vez, e dando-me na face,
“Oh como tu és máo! vai-te, me-disse,
Não posso ... não, não quero acreditar-te.”
Nada lhe respondi, voltei á gruta,
Onde o Pastor contente e alvoraçado
Me deo sem custo uma pequena ovelha
Toda branca, na testa só malhada.
¡Como a minha ovelhinha é bella, e mansa!
Andei com ella todo o dia ao pasto
Pela relva do bosque, etc.
A
Festa de Maio
POEMETTO EM DOIS CANTOS.
Se nos trez Poemettos precedentes pude fazer muito mais do promettido no Prologo, n’este último fica a minha palavra empenhada. Pouquissimos de seus defeitos mais palpaveis cheguei a apagar, e esses quasi só de linguagem. Receoso de me vir a faltar o tempo ou o animo, se desde a primeira pagina do Livro me começasse a esmerar seguidamente, fôra minha primeira occupação ir por todo elle despontando, á ventura e sem ordem, o que me apparecia pessimo, justamente como no Prologo deixára promettido. Conheci logo que este trabalho era insufficiente: entrei no outro mais miudo e ordenado; refundi a cito a Epistola, o Dia da Primavera, os Cantos de Abril, nenhuma das quaes Obras cheguei com tudo a lustrar. A Festa de Maio, por ser a derradeira, quasi ficou, e até nova edição (se algum dia se fizer) ficará, como era. O maior bem que lhe pude fazer, foi abri-la em dois Cantos, para que o leitor achasse marco onde descançar em tão enfadonha e comprida estrada.
DEDICATORIA
ÁS SENHORAS DA LAPA DOS ESTEIOS.
SENHORAS,
A segunda tarde, que passámos em Festa na vossa Lapa, não tem jamais de nos esquecer. O vosso gracioso e cortez descer a ouvir-nos, as carícias com que amimastes o nosso Maiozinho, dando-lhe entre vós assento, detendo-o nos regaços, beijando-o, ¿como he que nos não havião de cativar, a nós, que o cingíramos de suas galas, o sentáramos em throno, pôsto que menos para apetecer, e o levantáramos por Divindade em nossos Cantos? Finalmente aquelle vosso generoso trocar de nome á Lapa, querendo que por nosso respeito se ficasse chamando dos Poetas, em tamanhos obrigações nos pozerão, que as Musas nos acodiráõ para um dia vos provarmos que nós, Sacerdotes seus, não somos ingratos. A minha, de mais atrevida que he, me envia adeante, a tributar-vos este Poema, que pois o approvastes, ja não he de vós indigno. He prezente de uma Deoza do Parnaso, não podem as trez Graças rejeita-lo.
HISTORIA
da
Festa de Maio.
Pelas trez horas da tarde do primeiro dia de Maio de 1822 ja nós, a Sociedade dos poetas Amigos da Primavera, nos achávamos á sombra das arvores, pelo Encanamento do Mondego, esperando anciosamente o batel, que nos havia de tornar á Lapa dos Esteios, para celebrarmos a Festa de Maio: de tantos que lá fôramos no Dia da Primavera, só faltava Anfrizo, em cuja vez recebêramos Antíono, mancebo mui dado a bons estudos, versado na lingua e poesia allemã, e autor ja então de Anacreonticas e Idillios de muito preço.
O suspirado batel acudio cedo á nossa ancia: todo toldado, alcatifado e cingido com mui curiosas invenções de verdes e flores, vinha parecendo o naviozinho do Primeiro Navegante. Abica, saltâmos-lhe dentro todos juntos; larga, vogâmos contentes e cantando. Quem bem quizesse pintar com a penna affétos do coração, não achára bastante um volume para historiar esta só tarde. Dezejára eu muito convidar cortezmente meus leitores a nos acompanharem, tomando seu quinhão em nosso folgar; mas não o posso, e ainda mal, que o de maior valia fica-lo-hão perdendo. Hiamos todos tão unidos em vontade, conformes em gôsto, feriados de cuidados, crentes na ventura, chêos e cercados de poesia, e namorados da natureza, que os todos só parecião um, um só moço, transportado em bemaventurança.
Ora cantando, ora encarecendo, quasi adorando as varias gentilezas que a perto e a longe, e por toda a parte se presentavão e renovavão de contínuo, aportámos apoz uma hora, na formosa Lapa dos Esteios. Erguemo-nos, vozeâmos, voão do barco para o ceo foguetes que todo o ar estrugem, e para a margem os hinos de uma orchestra que comnosco hia. Diz a musica muito com todos os affétos da alma, mas do contentamento, onde o ha, faz alvorôço, que muitas vezes prorompe em lagrimas. D’esta maneira triunfal saltámos para o cáes, voámos ao alto da Lapa. Conhecia-nos o sítio pelos mesmos, desconheciamo-lo nós por melhorado: obrados erão sobre a natureza milagres de Maio. Ja as arvores alardeavão ás virações montes de folhagem, que pelo ar se embalavão ao sol; era agora o rio ainda mais puro, os ares mais temperados e benignos. ¿Quereis haver alguma idea da habitação das almas felizes? quereis pintar os lugares onde as Ninfas, os Faunos e Pan apparecião aos pastores innocentes na idade de oiro? entrai a Lapa dos Esteios pelos graciosos dias de Maio. He a Primavera nos princípios uma linda menina; mas não sabe firmar o passo, balbucia, tudo teme, não se decide em nada, suas graças ja se annuncião claramente mas ainda se não desenvolverão; em Maio he moça toda viçosa de mocidade, a quem ledos cortejão Amores e Prazeres, cujo sorrir endoidece o pensamento, e vai entender com os corações. Tinha a Natureza dado a segunda mão e ultima ao lugar; mas a Arte quizera entrar com ella á competencia, sem comtudo lhe desacatar a primazia: tudo estava varrido e puro e concertado de um sem numero de vasos de muitas, e finissimas flores.
No alto assentámos o altar do Deozinho Maio: todo elle era verdura; duas colunas, artificiosamente fabricadas de flores, e rematadas em umas maçanêtas de igual marmore, se alevantavão dos dois cantos da frente, e communicando-se no cimo por um semicirculo, que na materia e primor não desdizia do resto, ajudavão a formar um genero de portico bem vistoso e engraçado; os lados, fundo e abobada do recinto erão de ramos verdes de todas as qualidades, bem entrelaçados e bordados de frescas e vermelhas rosas; no meio estava um assento pequeno, á feição de poial rústico, tecido de lustrosas heras, onde se via recostado o Maio em acto mui gentil, e com um geito todo seu. Era um Menino de cinco annos, louro como o sol, e alvo como a neve, cabellos crespos e annelados, caídos por um e outro hombro: de roupagem, não tinha outra de seu que um aventalinho, que debaixo dos peitos lhe descia aos joelhos; o qual, assim como os listões que de cima dos hombros lho vinhão tomar encruzando-se por deante e pelas costas, estava recamado de cedro e buxo, com sua orla mui accesa de flores de romeira, cravos, e rosas: calçava cothurnos de seda escarlate; na cabeça ostentava corôa de verdura, e do braço esquerdo como que acenava ás vontades com um cabazinho, farto dos frutos do seu tempo; e tudo por modo tal, que a bôca se não sabia determinar se o diria nu ou vestido, nem a fantasia dos poetas se o quereria simples Menino, ou verdadeira Divindade.
Mandámos por dois dos nossos vizitar e convidar para a Festa as amaveis Senhoras, cuja he a Lapa, as quaes na quinta que por cima fica tem seu perpétuo domicilio. Não tardarão: recebemo-las como convinha, nós com a festa dos nossos musicos, e com muitos seus abraços as Senhoras, que abaladas dos annuncios de tão bôa tarde, nos tinhão feito a honra de acudir ao sítio. Ja era crescido o auditorio, e muito para contentar e accender engenhos: fomo-nos uns a outros seguindo com os poemas que levavamos, os quaes em fórma de rito religioso, se recitavão em pé deante do altar, fazendo a nossa orchestra uma harmoniosa ráia de poema a poema, que para tudo as tardes de Maio deixão tempo. Poz-se-lhe remate com os vinhos e saudes d’uma saborosa merenda, como á primeira tarde da Primavera se havia feito. Passou-se o serão parte pelas salas, outra parte pelo jardim das nossas hospedeiras.
A noite era uma das mais bellas de tal mez: a lua brilhantissima despedia até os horisontes um clarão quasi diurno, não se enxergando nuvem por todo o descampado do seu céo; refletia-se, e desenrolava sua alcatifa de movediça prata ao longo d’esse Mondego tão digno de seus amores; o ar era tão manso e quêdo, que as luzes, curiosamente distribuidas por entre os vasos de flores, nem de leve estremecião; suave era de ver sair por toda a parte d’entre planta e planta uns reflexos verdejantes mui amigos dos olhos, muito mais da fantasia de poetas.
Prazeres que o coração estriou por uma noite assim enfeitiçada, não são para se poderem pintar. Pouco tardou que a sociedade, como acontece, se não soltasse e dispartisse em ranchos pequenos: a musica errante e fóra dos olhos, umas vezes folgando, suspirando outras, e outras como quem sismava algumas amorosas mágoas, hia-se ja pelos arvoredos da quinta, ja ribeiras do rio acima e abaixo, tão grata, que ainda não sei couza que mais quizesse. Muitos e muitas baillavão arcadicamente sob a abobada do céo, em quanto nós outros, os que das Musas só fôramos fadados para versos, os estudavamos e repetiamos á porfia. Algumas semelhantes horas devia ter passado o primeiro que escreveo Elisios.
Era a noite crescida para muito alem do meio, quando nos despedimos; e la foi caír na eternidade um dia, que ainda agora me persegue saudoso, e apoz o qual nenhum outro veio semelhante.
A
Festa de Maio.
Poemetto
CANTO I.
Eia, amigos, ao campo! ha ja trez horas,
Que os Tindáreos Irmãos no aéreo espaço
Vírão do meio dia o rôsto ardente:
Eia, amigos, ao campo! as horas vôão,
E o Maio alegre ás féstas nos convida:
Os Zéfiros ligeiros, embalando
Do parreiral a trémula folhagem,
Ao rio, ao barco estão chamando a turba.
¿O Deos Menino, o gracioso Maio
Não vamos celebrar na fresca Lapa?
Pois que se tarda? os Numes não consentem
No culto seu ministros preguiçosos.
Chamai á pressa as pastorís Camenas,
Tomai as flautas, coroai as frontes
Co’as grinaldas, que em premio vos cingírão
Da Primavera no primeira tarde.
Como! o tempo ... (ai da flor da mocidade!)
O tempo as destruio! de graças tantas
Que existe pois? um pó. Jazem desfeitas,
Sem perfume, sem côr as lindas flores,
E as verdes folhas se enrolárão murchas!
Ah! corramos; o pezo, que as esmaga,
Róla tambem sôbre a existencia nossa:
Nossas grinaldas nos festins vivêrão,
Morrêrão no prazer; e nós, como ellas,
Devemos esperar, brincando, a morte.
Cedo nos hombros do nervoso Atlante
O eixo voluvel em perpétuo giro
Ha de erguer ante o Sol novas esferas:
O Touro ja fugio: Castor, e Pollux
Succedêrão-lhe agora: hão de apoz elles
Os astros scintillar, que nos conduzão
Da estiva calma os importunos tempos.
Então fenecem pelo campo as flores,
Tépidas correm na planicie as fontes,
Calão-se as aves nos cavados troncos,
E fallece a frescura ás proprias noites.
Vamos, emquanto as flores não perecem,
Emquanto soprão lisongeiras auras,
Emquanto um doce frio as ondas levão,
Emquanto as aves pelos ares cantão,
E as claras noites co’a frescura aprazem;
Vamos correndo: de vergonha córe
Quem último chegar do rio á margem.
¡Graças aos ceos, que a suspirada arêa
Ja pizâmos emfim! mas pelas faces
Abrazado suor me está caindo.
Inda o barco não chega: eia, sentai-vos.
D’esta aura carinhosa ao fresco sôpro
Quanto he doce voltar o rosto ardente,
E ora uma face, ora outra offerecer-lhe!
Ella as beija brincando, e espalha em ondas
Os escuros anneis, que lhas roubavão.
Verde canavial, salve trez vezes!
Co’as boliçosas, arqueadas folhas
Nos escondes a rir de Febo aos olhos.
Ninfa adorada pelo Deos da Arcadia,
(Deos dos pastores, inventor da flauta)
Sacrilego furor não nos incita:
Não te offendas se agora as nossas dextras
De tuas canas adornadas vires:
Sua altiveza airosa nos agrada,
Vates somos, os trémulos seus cumes
Ondulando, os lascivos seus abraços
A cada viração que vai fugindo,
Tudo isso nos namora, e diz poesia.
Não te offendas ó Ninfa, ei-las colhidas!
Gravai com ellas n’esta arêa os nomes
Das vossas bellas, imprimi-lhe um beijo,
E partamos, que o barco ahi fere a margem.
Bem: eu lancei da Primavera o nome
Em caratéres taes, que ao longe possa
Lê-los o pescador no fim da tarde.
Eis-nos emfim nas transparentes ondas!
Agora cumpre diligencia, esfôrço,
Para vencer as fugitivas aguas.
Ferva o trabalho, as varas não descancem;
No fundo leito redobrai os golpes,
E suavisai com musica a fadiga.
Eu deitado na pôpa, eu dicto os versos;
Cantai, e o echo em baixa voz aprenda.
Ouvi Ninfas do placido Mondego,
Ouvi com ledo rôsto as preces nossas.
Saí correndo das limosas grutas:
Occultas no cristal do patrio rio,
Vós podeis impellir co’as mãos de neve,
E fazer que o batel, qual aguia, vôe.
Bellas Filhas do lúcido Mondego,
Vamos passar a tarde á grata sombra,
Das lindas Graças na famosa Lapa.
Ali, se acaso não me illude o estro,
Vós, Ninfas, vós com ellas muitas vezes
As noites do luar passais em danças:
Sôbre um tronco musgoso Amor sentado,
Para acertar as rápidas choréas
Com saudosa flauta a Noite acorda,
E Venus compassiva lhe desata
Dos olhos entretanto a escura venda.
Mil Amorinhos sem farpões, sem facho,
(Nem onde vós estais carecem d’elles)
Vôão aqui e ali por entre os ramos.
Ouvi Ninfas do placido Mondego,
Ouvi com ledo rôsto as preces nossas.
Dai-nos breve chegar, sereis cantadas;
E iremos outro dia erguer altares
De cada vosso chôpo á sombra amiga,
Pondo-lhe em roda uma vistosa grade
D’aureas canas com murtas revestidas:
Em vossas ondas lançaremos rosas,
E puro leite, e saboroso vinho.
Porque tardais, ó Náiades esquivas?
Turba innocente de mancebos rindo
Bem merece o favor dos sacros Numes.
Nós não vamos em lenhos alterosos,
Roçando as nuvens com soberbas velas,
C’o ferro a lampejar nas bravas dextras,
Levar da guerra a furia aos outros povos,
Lançar em fogo os bosques, e as cidades,
Para voltar aos mares tormentosos
Co’um pouco do metal, que gera os crimes:
Nós vamos procurar vizinha praia
Para rir, e beber de Maio em honra;
Vamos c’roar-nos de verdura, e lirios,
Cantar ao som da flauta a Natureza,
Dançar no meio de innocentes gostos,
E longe dos mortaes, viver ditosos,
Poucas horas sequer, na paz dos campos.
Ouvi, Ninfas do placido Mondego,
Ouvi com ledo rôsto as preces nossas.
Terra, terra: éstas árvores das margens,
Que ora nos vão passando sôbre as frontes,
Convidão a colher sua folhagem:
Saltai, colhei os mais viçosos ramos,
Teça-se um tôldo, que nos roube á calma.
Ávante! adeos, ó Driades, ficai-vos
Em doce paz; o orvalho vos fecunde;
Ache vossa raiz no estio as aguas
Tão abundantes, como as tendes hoje.
Nós vamos celebrar o mez das flores,
Quando voltarmos vos daremos graças.
Ávante! não cesseis, alegres nautas!
Cantai: eu voas ensino um canto novo.
Das Filhas de Nereo a mais formosa
Foi Galatéa candida, e rosada.
Por seus olhos azues morreo de inveja
Aglaia, irmã de Amor; a curta boca
Ciumes acendeo no peito d’Egle,
Bem que da boca d’Egle um doce beijo
O scetro pagaria ao rei dos Numes;
E Eufrosina, entre os Deozes celebrada
Pelos aureos anneis da longa trança,
De Galatéa a trança cobiçava.
E o seio! o seio túrgido e nevado,
Mais nevado que a espuma em que se tornão
Na frente de um cachopo as crespas vagas,
O seio era melhor que o teu, ó Cípria!
Treze vezes floríra a primavera,
Depois que aura vital gozava a Ninfa,
E ja no mar, no ceo, no mundo inteiro
Das bellas todas triunfava a bella,
E ais e louvores a seguião sempre.
Nereo, chamando-a á funda gruta um-dia,
Assentou-a nos trémulos joelhos,
Ao hombro lhe lançou paterna dextra,
E beijando-a lhe diz.—“Assaz he tempo,
“Filha, de rematar da infancia os brincos.
“Tu conheces teu rôsto, ¿e não conheces
“Que he preciso fugir á turba insana,
“Que te rodêa, que te chama bella?
“Crê tu nas cãs de um pai, de um pai no afféto;
“Quanto mais suas fallas te agradarem,
“E mais seus modos lisongeiros vires,
“Mais pérfidos serão. Cabe a meus annos
“Dar prudente conselho á tenra idade;
“Perdoa-me, acautello-te a innocencia.
“De meus delfias o lúbrico rebanho,
“Desde hoje apascentar he teu cuidado:
“Não convem á belleza ociosa vida.”—
Disse, e poz-lhe na mão, como a pastora,
Cajado de coral com ponta d’oiro;
Entregou-lhe a rebanho, e conduzindo-a
De seus mares a um placido retivo,
—“Fica, pastora, aqui, lhe-disse o Velho,
“Vir-te-hei vêr muita vez.”—Rio-se, e deixou-a.
Alguns dias ali viveo contente
Com seu rebanho a equorea pegureira.
Ora entre as moutas dos coraes ramosos
O levava a pascer os brandos limos,
Ora ao marinho cão deixando-o entregue,
Hia colher das perolas as conchas.
Uma tarde de Maio, quando aos braços
De Thetis vio que o sol hia descendo,
Ouzou sair do fundo, e foi sentar-se
A gozar do espétaculo dos bosques
Na alegre entrada de uma verde gruta.
Nas ondas por acaso então nadava
Acis gentil de encantadores olhos:
Vio-o, e visto, calou seu canto alegre;
Sólta um suspiro, e se perturba, e córa.
Do paternal preceito inda lembrada,
Quer na gruta esconder-se até que parta
Das ondas o mancebo: eis se arrepende,
Ja não quer occultar-se, e quer que a veja.
D’entre o verde do mar o níveo corpo,
Que os olhos cega, e o coração cativa,
As proporções, a ligeireza, a graça,
Com que agora se occulta, agora assoma,
E em modos mil as posições varía,
Tudo, tudo a detem. De quando em quando,
Sem conhecer que o faz, se lhe aproxima;
As tranças, que trazia ao vento sôltas,
Sem saber o porque, reparte e lança
Sôbre os hombros de neve, e cobre o seio:
Consulta no mar lizo a propria imagem;
Quer mais bella tornar-se, e mais não póde.
Cançado de banhar-se o Moço emtanto
Vinha a praia ganhando: ella assustada
Corre á gruta; ali cora, ali desmaia,
Quando o mancebo, quando o pai lhe lembra.
O bello nadador não tarda muito,
Entra na gruta, onde largára as vestes ...
Amigos, vós parais como esquecidos?
Deixais que o lenho na corrente desça?
Ah! voltai ao trabalho; e por castigo
Não ouvirèis do alegre canto o resto.
Novo me inspira agora esse murmúrio,
Com que a Fonte das lagrimas se lança
Da serpeada varzea ao rio aberto.
Junto á fresca matriz d’este ribeiro,
Onde gozou em seculo remoto
O mais ditoso par de amor os mimos,
Meu estro agora placido voltêa
Por entre os cedros, e os feraes ciprestes;
E ora ao lago pacífico se arroja,
Ora da fonte nos penedos pouza.
Comvosco não existe o vosso amigo;
Gira fóra d’aqui no sítio umbroso,
La conversa co’a Musa, aprende, e canta
Gratas histórias dos passados tempos.
Uma noite de Maio Inez formosa,
Ao pallido clarão da argentea lua,
Com seu Pedro fiel aqui vagava.
De seu candido amor primeiro fruto,
Lindo, qual dos Amores o mais lindo,
Um tenro filho, que a fallar começa,
Co’a pequenina mão á mãi seguro,
A passos desiguaes a acompanhava.
No dextro braço do gentil consorte
O alvo braço despido entrelaçando,
Languidamente a bella se apoiava.
Traja da côr da neve, ornão-lhe as tranças
Rúbidas rosas que reveste o musgo:
Sob um véo raro e sôlto arfão dois peitos,
Que estrema, que matiza, e que perfuma
A flor, que he d’entre mil só digna d’elles,
O amor perfeito em fresco ramalhete.
Pelo silencio, e paz da noite amiga,
Nos extasis de amor arrebatados,
Ebrios ambos do nectar da ternura,
Vagueando em seu ermo, respiravão
Todo quanto prazer nas almas cabe.
—“Inez, dizia Pedro, olha estes cedros,
“Que doce murmurando agita o vento!
“Olha as aguas do tanque, onde tão clara
“Se está dos Ceos a Lua retratando!
“Ouve o rumor das ondas transparentes,
“Que vem brotando da cavada penha!
“Cara Inez ... ah! calemo-nos; escuta
“O amante rouxinol como gorgeia!
“Não o sentes mui proximo? quem sabe!
“Talvez que em teu jardim celébre agora
“Ao lado de uma esposa os seus prazeres:
“Se assim he, refinai perfume, ó flores,
“E vós levai-lho, zefiros da noite,
“No instante em que Himeneo tem de ajuntal-los.
“Ó minha Inez, não ser inda possivel
“Confiarmos á luz nossa ventura,
“E eu dizer, sou de Inez!...”—N’isto o mancebo,
Apertando a seu peito o braço d’ella,
De beijos lhe inundava a mão mimosa.
Em silencio e cuidosa a linda Castro
Parava contemplando os ceos, o esposo,
E unindo a regia dextra ao seio oppresso,
Dava a resposta n’um fiel suspiro.
—“Oh! (dizia depois) que Deos contrário
“Ao terno amor, á candída innocencia,
“Poz peito, ó doce encanto, a separar-nos?
“Quão melhor fôra haver nascido em choças!
“La, tendo por imperio um só rebanho,
“Lãs por purpura, e flores por diadema,
“Pedro fôra pastor e Inez pastora.
“Teu solio quantas lagrimas nos custa!
“Mas se fosse teu solio um manso outeiro,
“Docel um parreiral firme em colunas
“Das que dão fruto e flor, saude, e agrados,
“Não cortíra em meus sonhos o remorso,
“Teu coração ninguem mo disputára,
“Não se encobríra o meu amor ...”—“Oh cessa,
“Cessa (Pedro lhe diz interrompendo-a):
“De que servem, querida, essas lembranças!
“Se te adoro, que temes? se me adoras,
“Que posso eu mais querer! Virtudes tantas,
“Raros dons quaes os ceos em ti resumem,
“Não são para jazer na escuridade;
“Dos reis, de teus avós te poem no estrada,
“Para luzires nos corrutos dias,
“Como astro de bondade entre os humanos.
“Gozemos do prazer. Olha esta noite
“Como he formosa, minha Inez; não tornes,
“Eu to peço por mim, por ti, por esse
“Fruto do nosso amor que te he tão caro,
“Não tornes a acordar taes pensamentos.
“Queres tu, minha amada, á curta noite
“Dar emprego melhor, mais proprio d’ella?
“O assento ao pé da fonte nos convida,
“Vem-me outra vez cantar os magos versos,
“Onde quasi exprimiste o enlevo d’ambos,
“Quando a primeira vez nos vimos juntos
“Tambem de noite, e n’este sítio mesmo.”
Disse, e Inez imprimindo-lhe nos labios
Co’a meiga curta boca um longo beijo,
—“Vamos, responde, apraz-me esse meu canto,
“E agradar-te, inda mais; partamos logo.”—
Diz, e ja leva ao collo o seu filhinho.
Forceja o pai furtar-lhe o doce pezo,
Ella a ninguem o cede:—“O meu menino
“He meu, lhe diz; quando eu tiver meninas,
“Dar-tas-hei, desde ja chama-lhe tuas;
“Pertence o filho á mãi, e ao pai a filha.”—
Sorrindo com ternura o ledo Amante,
—“Ser-me-ha dado, lhe diz, que de teu filho
“Ao menos colha uns beijos que me deve,
“Ou hei de só com os teus ficar contente”?—
—“Se tos deve meu filho, eu vou pagar-tos”
Inez responde, e lhe pagou mil beijos.
Chegados são aos bancos do rochedo.
—“Ja do sol o calor morreo na pedra;
“Para assento, he mister ser estufada.
“Não rias, o brocado hão de ser ramos;
“Para a pastora Inez, nenhum mais proprio”—
Voa ao proximo cedro, os ramos corta,
Alastra-os sobre o marmore, e reclina
O infantinho, que pósta a loira fronte
No maternal joelho, eis adormece.
Absorto no painel delicioso,
Não podendo parar nem desviar-se,
Como homem, que formosa feiticeira
Prende e agita n’um círculo encantado,
Vaga o Principe á luz voluptuosa
De lua por entre arvores. Desponta
No ermo silencio o canto namorado!
O suave da voz, o doce estilo,
A musica tocante, a frase meiga
Alhêão-no de si, todo elle he fogo:
Não conhece onde está, quem he não sabe:
No cahos do prazer, em que se abisma,
Só vê brilhar Inez, Inez só ouve;
E qual se nunca em braços a apertára,
E virgem melindrosa o ceo benigno
Lha houvéra ali chovido aquella noite,
Arde e delira em sofregos dezejos.
Já não sabe conter-se, o fim do canto
Já não póde esperar; “Ó minha, exclama,
“Ó minha ...” e sem findar, pois não encontra
Nome que exprima o que lhe ferve na alma,
Voa a abraça-la sem poder fallar-lhe;
A voz com loucos beijos lhe interrompe,
Quer dos labios sorver-lhe os sons divinos;
Mas ella rindo, e a boca desviando,
Que a deixe terminar lhe pede a custo.
—“Sim, acaba (responde), Inez, acaba”—
E emtanto hia beijando o collo, o seio.
Depois, como ante Nume, ajoelhando,
Suspenso a contemplava espaço longo;
E depois no regaço o rôsto acceso
Lhe punha, como em ninho de delicias,
E no certo esperar crescia o fogo.
Só vós caladas arvores no emtanto
A canção namorada ouvindo estaveis
Da mui ditosa Inez! Como expirava
A derradeira nota, estremecendo
Acorda o moço, alvoraçado surge,
E tomando á cantora a mão submissa,
—“Vamos, lhe diz, a lua vai descendo,
“O tácito poente a chama ao sono:
“Oh quão leve entre nós foge esta noite!
“As auras pela relva estão dormindo,
“Pendem com sono as arvores seus cumes,
“Do largo tanque as aguas nem se encrespão.
“O rouxinol que ha pouco gorgeava ...
“Ja tambem se calou: sabes a causa?”—
—“Talvez lhe empeça a voz, responde a bella,
“Teimoso furto de continuos beijos.”—
—“Não, não, responde o amante, agora occulto
“Co’a docil companheira em quente abrigo,
“Aperta o rouxinol de amor os laços.
“E nós Inez? ah toma o teu menino,
“Talvez não tarde a aurora, ao leito vamos,
“E do fresco da noite ali zombemos.”
Emfim chegámos! c’o ligeiro impulso
Bate a proa no cáes, o lenho treme,
Tremem com elle de seu tôldo as folhas.
Salve ameno lugar, que as Graças pizão!
Glória ao sacro arvoredo, que diffunde
Sôbre a calma do vate a sombra fria!
Glória ás auras, que prêzas n’este sítio,
Das Dríades por mão aos troncos d’ellas,
Agitão com susurro a massa enorme
Da folhagem suspensa! honra aos que brincão
Puros raios do sol sôbre o terreno,
Mal que um favonio lhes descobre a entrada!
Eterno amor ás aves, que em seus ramos
A vinda nossa a gorgear celebrão!
Paz ao dezerto, onde comnosco as Musas,
Esquecidas de Pimpla, se contentão
De encher de alegres canticos os ares!
Á festa, á festa! Reuni-vos todos,
Vinde colhêr as fugitivas horas:
Como vaga que passa, ou flôr que murcha,
Para mais não voltar, se escoa o tempo.
Á festa, amigos! Oh! n’esta eminencia
Eis ja pronto um altar! ei-lo cingido
Com largas fitas de pintadas flores!
Ante elle o rosmaninho, a murta, as rosas
Té não curta distancia o chão tapizão;
Heras, e lirios candidos o toldão:
De heras e lirios adornai as frontes.
Ajoelhai: lá sobe a Divindade!
Silencio! paz!... Retumbe pelos echos,
Sem mistura de voz, o som das flautas.
No coração, no espirito me chovem
D’estro divino eléctricas centelhas.
Ja me sinto mudado em branco cisne!
Cercai-me: eu vou cantar; calam-se os ventos!
Voa invisivel das Hemonias serras,
Tu que no Xantho as aureas tranças lavas:
E se he tua, qual Roma suppozera,
Ésta a melhor porção da florea quadra,
Do cantor de teu mez protege a audacia.
D’entre os filhos da immensa eternidade,
D’entre esses doze Irmãos, que repartido
Tem por sua influencia o anho inteiro,
Maio foi sempre o mais gentil de todos:
Qual dos cachos o Deos, e o Deos das setas,
Goza brincando eterna mocidade.
As Graças infantis, e a Formosura
O creárão nos ceos com o proprio leite.
Mal que o mundo surgio do horrendo cáhos,
Veio formar-lhe os seus primeiros dias,
E Maio foi da terra a fresca aurora.
Em mimos escondendo a magestade,
He Maio o pai, e o rei da Natureza:
Qual em soberbo paço, anda nos bosques;
Ou, qual em solio, nos outeiros verdes
Se assenta, ao lado da risonha Flora.
Compõe-lhe o seu cortejo Auras, Favonios,
Que das plumas azues fragrancia espargem
Furtada ha pouco ás pudibundas rosas.
Em seu reinado insolita doçura
Exhala o canto dos volateis bandos,
E canoro parece o bosque inteiro.
Em seu reinado os prados florecentes
Só curão de ostentar perfume e cores:
E a Ninfa ás vezes longas horas fica
A meditar na escolha dos ornatos.
Co’a folhagem densissima susurra
O bosque annoso a celebrar-te, ó Maio;
Susurra a celebrar-te o rio, a fonte.
Com serena alegria o sol derrama
Vasto oceano de luz no aereo espaço.
A pompa da manhã, da tarde o brilho
Tem não visto matiz d’oiro e de rosas,
E côr de fogo sôbre um ceo de leite.
Toda patente a abobada de estrellas,
Toda brilhante a prateada lua,
Te dão, como as do Elisio, alegres noites,
De importuno calor desafrontadas,
Chêias de encanto, da saudade amigas,
Gratas a um tempo ao coração, e ao estro.
Aqui, e ali os rouxinoes se escutão
Longas horas c’os echos porfiando.
Gira, vaguêa pelas fracas trevas
Dos pirilampos o lustroso bando:
Resoa em cada aldêa alguma frauta,
E emtôrno d’ella as camponezas danção:
Bala no aprisco impaciente o gado
As poucas horas, que á manhã precedem.
Como he doce o teu mez, benigno Maio!
Alegra-se o viandante ao ver nos campos
Do verde trigo as trémulas searas
Iguaes a um vasto lago, onde os favonios,
Nascidos inda ha pouco entre as florestas,
Aprendem a encrespar as verdes aguas.
Aqui a par de um campo, onde começa
O milho a despontar, desprega aos ares
Com vaidosa soberba altas bandeiras
De outros milhos o exército infinito.
Ostentando riqueza alem menêão,
Entre a argentea folhagem pendurados
Cachos de flor, os olivaes fecundos.
Os pomares de frutos se carregão,
Que ja sem medo aos furacões, e ás chuvas,
Com áncia a côr, e a madureza esperão.
As aves da manhã, quando revôão
Com longo canto pela immensa altura,
Se aprazem de os olhar; e ás vezes descem,
E vem pouzar nos encurvados ramos,
O futuro sustento ali festejão:
Tal de annos onze uma pequena virgem
De adoradores mil se vê cercada;
Bem que á sua belleza inda lhe faltem
Terno expressivo olhar, globos de neve,
Voluptuoso dezejo entre suspiros,
Buscado enfeite, graciosas fallas,
Rodêão-na comtudo, adivinhando
Pelo botáõ fechado a flor aberta.
Mas, ó Maio, o teu mez não brilha esteril!
La se ergue o laranjal c’os frutos d’oiro;
Doces limões, e saborosas limas,
D’entre a larga folhagem descobrindo
A amarellada tez e o forte aroma,
Prendem sentidos convidando ao furto;
Ri-se entre as mais a alegre cerejeira,
Que ainda que no gôsto a muitas cede,
Mais que todas seduz co’as vivas bagas;
A ginjeira com ella aposta encantos,
Mas apenas gostada, a palma he sua;
Iguaes a um coração em côr, em fórma
Os suaves morangos ja maduros,
Contentes da humildade, estão dormindo
No fresco seio da materna planta:
D’ali, se vem um zefiro acorda-los,
Olhão em roda as pampinosas vinhas;
E vendo como os pequeninos cachos,
Que a fronte cingem do celeste Bromio,
E um dia gratos brilharáõ nas mezas
Mudados no licor, que gera os risos,
Do nativo terreno apenas se erguem,
Zombando riem da vaidosa audacia,
Com que somem no ceo pomposo cume
Árvores tantas menos uteis que elles.
Por toda a parte as desveladas hortas
C’o verde alegre das crescidas plantas
O suor do colono estão pagando;
Seu terreno sulcado está coberto
De immensas produções, que vão nas mesas
Ser preciso sustento, ou grato mimo,
E ora entrar na choupana, ora nos Paços.
Em teus dias, ó Maio, as vélas sólta
Sem medo o nauta pelo vasto oceano,
E olhando puro o ceo, de leite as ondas,
A cujas furias escapou nadando,
Sobre a pôpa da náo regendo o leme,
Pensa na esposa, nos filhinhos pensa;
Prometteu-lhes voltar; nem ja receia,
Maio, fiado em ti, ser-lhes perjuro:
Sobre a cana do leme encosta os braços,
E ou sólta em grande voz grosseiros versos,
Ou costumada musica assobia
Olhando a estrada de alvejante espuma,
Que d’um e d’outro lado á prôa foge.
Brinca nas aguas, e ou se esconde, ou salta
De vagos peixes prateada turba;
Na verde superficie as Ninfas danção,
Da tarda noite nas caladas horas,
Das estrellas á doce claridade.
Mas eu quero soltar mais altos vôos,
Trazer ao mundo incognitas verdades.
Em teus dias, ó Maio, os Páfios bosques
Vírão nascer os trêfegos Amores!
N’um valle opaco, onde buscando o fresco
Costumavas dormir entre mil flores,
La teve a Deoza o seu fecundo parto.
Apenas sobre a attonita verdura
Cípria depunha um pequenino alado,
Logo o via nos ceos voar, sumir-se:
Tal dos Amores o soberbo genio!
Quando cançados de brincar nos ares,
Um passatempo á terna Mãi pedião,
Tu lhes foste ensinar pelas florestas
A formar arcos de flexiveis ramos,
E despedir, sem nunca errar, seus golpes.
Tu lhes mostraste os rezinosos troncos,
De que havião formar brilhantes fachos.
Tu mesmo entre elles companheiro e mestre,
Pelos campos as flores procuravas,
Com que doces prizões tecer devião.
Tudo em teus dias no universo adora;
O sexo, a idade, as condições não livrão.
Entre o rebanho, que amoroso bala,
Amoroso pastor canta ou suspira;
Ternas gorgêão no arvoredo as aves;
Ragem ardendo de dezejo as feras;
Suspiros ouço ás arvores, e aos ventos;
Abrem o seio as virgemzinhas flores,
E Venus as fecunda, e mãis se tornão.
Em cada gruta, em cada bosque ás Ninfas
Uma emboscada os Sátiros aprestão.
Em bellezas mortaes embevecido,
Canta em rustica voz novos amores
C’roado de pinheiro o Deos da Arcadia,
E ante a Ninfa gentil mudada em canas
Pelas canas da flauta os sons varía
Com ar alegre, que perjuro o torna.
Sensivel para o Sol se volta Clície;
O Sol na terra outras bellezas busca,
E outras acha, que o peito lhe cativão,
E fazem que mais tarde a Thetis desça.
Entre os astros as Pléiades luzentes
Com saudade seus thalamos recordão:
Junto d’ellas o Touro inda parece
Mugir lembrado da formosa Europa.
Mais placida refulge a Cípria estrella;
Dissereis que saudosa indaga os sitios,
Onde comtigo, venturoso Adonis,
Passava as noites do formoso Maio:
E quando foge, a Aurora se envergonha,
E cora por voltar tão cedo ao mundo;
Pois quem ha que não saiba os seus segredos?
Quem de Céfalo a história não repete?
Em cada tronco um dísticho de amores,
Ou dois nomes se lem, como enlaçados.
Uma sombra, uma só não ha nos campos,
Onde Amor não recorde, ou não prepare,
Ou não veja presente uma vitoria.
Foi, Maio, foi teu mez que ao Rei das sombras
Fez que deixasse o sempiterno cáhos,
Para roubar a encantadora esquiva,
Do flóreo campo de Enna ornato, e Deoza.
Foi, Maio, foi teu mez que ouviu primeiro
Diana a suspirar, arrepender-se
De ser das virgens tutelar Deidade.
Graças ao teu poder, e ao teu influxo!
És tu que a rir convidas gracioso
Minerva um pouco a abandonar seus livros[13].
Quem póde resistir-te? emfim te cede,
Toma-te pela mão, para que a leves
A divagar em teus vistosos campos;
O ar de meditação troca em agrados,
E vê contente abandonar-lhe a côrte
De seus alunos juvenil caterva,
Que alvoraçada aos patrios lares vôa.
Sim, Maio, eu voarei aos patrios lares!
Mas cuidas que jamais distancia ou tempo
D’este dia a memoria hão de apagar-me?
Não: onde quer que os fados me conduzão
Sempre te hei de cantar, sempre c’roado
De teus altares me verás ministro:
Mas d’esta sociedade, e d’estes brincos,
Em quanto a noite se adornar de estrellas,
Nunca a lembrança volverei sem mágoa.
De generoso vinho enchei-me o copo,
Que de mírtea grinalda ornado quero.
Imitai-me tambem. Por este, ó Maio,
Suavissimo licor, pai da alegria,
Por este, digo, cuja taça empunho,
Juro ante o ceo, de teu altar em frente,
Que um anno só não deixará meu estro
De exaltar tua glória, e a minha amada,
A Deoza tua mãi, a Primavera.
Reformai-me outra vez a funda taça.
Em honra a vós, formosas moradoras
D’este ameno lugar, esta se esgote.
Aguardai, cabe agora o sacrificio;
Vou-me a buscar a vítima, que a trouxe
Occulta e prêza do batel na pôpa.
Eis-me, abri-me caminho! eu volto ás aras:
Para a santa ablução trazei-me um vaso.
Silencio! fallo ao Deos!—“Sejão-te acceitos
A vida, e leve espirito do prezo
Que vem n’esta gaiola, o qual eu vate
Por todos nós agora te dedico,
E dedicado entrego ás livres Parcas.
Digna he de ti formoso ave formosa
Como esta; pintasilgo ativo em canto,
Garrido em côres, no brincar esperto,
Mestre em tirar do cristalino poço
Com o balde de avelã sua bebida:
Outro melhor nunca girou nos bosques.
D’esta estação n’um dos primeiros dias,
Segundo o meu costume antes da aurora
Saí a espairecer nos campos verdes,
Ouvir das aves os primeiros cantos,
E aquecer-me sentado sobre a relva
Ao primeiro calor do sol nascente.
Banhei o rôsto n’um remanso puro,
Colhi as flores inda ha pouco abertas;
E co’a mente serena, e possuido
Do amor do campo, e dos campestres gostos,
Voltei de novo ao lar. Junto á janella
Por onde largo sol ja vinha entrando,
Fui sentar-me a pascer em vãs delicias.
Eu sonhava acordado! ah nos meus sonhos
Não via mais que bosques e pastores,
Rebanhos, fontes, rusticas choupanas!
Dono me cria d’um torrão pequeno
Mas pingue, de uma choça pequenina
Mas alva, entre nogueiras, rodeada
De alvos cordeiros nédeos e alvas pombas.
Eis que afoitando um vôo, esta avezinha
Me entra por casa; ao seu gorgeio acórdo,
Pois junto a mim pouzava gorgeando.
Ouves, Maio, este som, com que parece
Approvar adejando o que te conto?
Ouves? repara bem: tal modulava
Quando amoroso a vizitar-me veio.
Ganhando confiança a pouco e pouco,
Saltou-me para o hombro, e de improvizo
Prêzo se vio na minha mão fechado.
Quiz debater-se, emvão; piou, carpio-se,
O bom coraçãozinho lhe batia.
Beijei-o, puz-lhe mesa; o sem ventura
Nada acceitava, anciando só fugir-me.
“Conheces-me bem mal, pobre innocente,
Lhe digo; essa gaiola he teu palacio
Não carcere, eu teu servo e não tirano.
Servo e palacio um dia de experiencia
Talvez tos faça amar: se não, prometto
Abrir-te a porta e libertar-te os vôos.”
Á janella da minha a estancia d’elle
Penduro; os aureos grãos e a clara linfa,
Cama fôfa entre ramos florecentes,
Vista de campo e céo por toda a parte,
Mas livres um de açôr, outro do tiros,
Manso, mansinho ás grades o affizerão:
Comeo, bebeo, cantou. “Pois que tu cantas,
Vatezinho silvestre, em nossa casa,
Juntos e amigos ficaremos sempre.
Tu serás de meus dias a harmonia,
Eu tua providencia; a fonte e a messe
Te viráõ procurar, dar-te-hei florestas
La dentro em teus penates de cortiça,
E porque logres tudo, uma consorte
Virgem, bella, fagueira, e cujos filhos
Seráõ só teus, e como tu formosos.”
Desde então ledo vive, e tanto aos mimos
Se acostumou domesticos, e tanto
A amizade entendeo, que lhe abro a grade
Fronteira aos ceos da aurora, aos bosques amplos,
E nem bosques nem ceos lhe dizem—foge.—
Da liberdade que lhe acena á porta
Se despede cantando, e empoleirado,
Reizinho em casa sua, a mim e a ella
Nos compara, e lhe diz: “Aquelle humano
Deos foi que para mim creou taes ocios!”
“He esta, ó Maio, a vítima que trago
Ao sacrificio teu! perco um amigo!”
Com esta mimosissima grinalda
De sensitiva lhe circundo o collo,
Para sinal da dor que me comprime.
Vamos, venha o punhal, que eu limpo o pranto.
Ó ceos!... quanto me custa! He sacrilegio
Qualquer demora mais: ânimo agora,
Saudoso coração!... Venceste, ó Maio!
Venceste! consumou-se o sacrificio!
O fio prêzo ao pé cortei de um golpe,
Lancei-o ao ar; voou; nem ja o ouvimos.
Foi rever seus antigos companheiros,
Sua amada, seu bosque, e o seu alvergue.
Oh! como será doce emtôrno ao sócio
Que julgárão perdido, apinhoada
Papear parabens a alada tribu!
Oh tu lhes dize então do amigo o nome,
Que vezes te beijei de madrugada
Por me acordares co’o suave canto,
Para trocar o leito pelo grato
Passeio da manhã, d’onde trazia
Pera a tua gaiola hastes de flores.
Ouvirá leda a esposa a leda historia,
E a contará depois aos tenros filhos.
Talvez que em meu passeio inda algum dia,
A festejar-me, emtôrno a mim se junte
Chêa de gratidão toda a familia,
Tu meu amigo, a tua esposa, e prole.
Dispersai-vos, bebei, cantai, amigos,
Ride, e dançai, porque invejoso o tempo,
Co’as cãs na fronte, e o coração gelado,
As horas do prazer furta aos mancebos.
Mas ai de nós, que o perfido voando
Ja nos fugio co’a encantadora tarde!
Desçamos ao batel: adeos ó Lapa,
Adeos, fica-te em paz; e cedo espera
Ver de novo juntar-se á sombra tua
Da Natureza os candidos Amigos.
Deixai as varas, gracejemos antes,
Não cumpre trabalhar, para fugirmos
De um bosque sacro a Maio, e sacro ás Musas.
FIM DO CANTO PRIMEIRO.
A
Festa de Maio.
Poemetto
CANTO II.
D’essa garrafa de cristal doirado
Duas taças me enchei. Venha a primeira:
Esta se esgote da amizade em honra.
Ó divino licor! se o puro nectar,
Que Hebes formosa a Jove ministrava,
Comtigo competir podesse ao menos,
Jove lhe perdoára o seu descuido,
Nem dos bosques Ideos arrebatado
Ganimedes gentil voára aos Numes.
Dai-me, dai-me a segunda. Em honra agora
Do celeste prazer, que nos encende,
Este liquido fogo ao peito envio.
Graças ás mãos, que á terra afortunada
Derão em hora boa éstas videiras!
Graças a Baccho, ao protétor, que tanto
Desvelo lhes prestou! Graças á turba
De alegres raparigas, que levárão
Os cachos ao lagar em largos cestos!
A vós mancebos rusticos e alegres,
Que aos pés calcastes as cheirosas uvas!
E a ti, lenho feliz, em cujo seio
Os sagrados toneis se transportárão
Desde os campos de Chipre aos campos nossos!
Do celeste perfume ébrias as Ninfas
Te acompanhárão na veloz carreira;
Continuamente as velas te enfunárão
Com halito propício os frescos ventos,
Que lá brincavão pelas ferteis vinhas,
Faceis criando, e colorindo as uvas:
E o mesmo Baccho (eu não vos minto, amigos:
Ah! dai-me a taça, os labios se me seccão);
Baccho em pessoa, o vencedor das Indias,
Invisivel na pôpa revirava
O leme dirétor co’a mão divina.
Dai-me á pressa outro copo: outro: mais cinco:
Mais um que eu vote a Febo, e nove ás Musas.
Sinto o meu coração desfeito em gôsto!
Ah! por piedade rodeai-me todos;
Quando entre amigos bebo, um só não basta
Para me encher atropelados copos.
A cada qual de vós uma saude
Quero fazer; mais uma a cada Ninfa;
Aos Numes todos, que na terra habitão,
Aos Numes todos, que dos ceos nos olhão,
A todos que no Elisio nos esperão;
Farei uma saude a cada vaga,
Que desde a Herminea Serra[14] aos mares corre,
Álua, a cada estrella, a quanto existe.
Do mais vivo prazer me volvo em braços!
Rio, e respiro magicas delicias!
Gelos, que em serras coroais as fontes,
D’onde as urnas as Náiades inclinão
Para mandar-nos de tão longe as aguas,
Derretei-vos em subitas correntes:
Brami de roda dos Hermineos lagos,
Ventos da tempestade; as átras nuvens
Reuní, condensai: retumbe ao longe
O ronco do trovão pelas florestas,
E o monte enorme em seus abismos trema.
Todo em chuveiros se desate o polo:
E cedo (oh! praza aos ceos!) e cedo o rio
Vença o leito, e com impeto revolva
Tropel ruidoso de espumosas vagas.
Sem poder contrastar-lhe a furia immensa,
Perto da margem sem poder ganha-la,
No escuro turbilhão de rôjo iremos.
Quando a aurora assomar, ja muito longe
Nos verá pelo Atlantico engolfados.
Do enfeitado batel voltando a prôa
Contra as vagas austraes, candidas velas
Presentaremos ao ligeiro Boreas.
Em dia bonançoso, e mar de rosas
Iremos sem temor, chêos de assombro,
Gozando entre as equoreas Divindades
Scenas de Maio no ceruleo campo.
Cedo veremos verdejando e rindo
O alto Cabo surgir na extrema ponta
Da Lusitana terra: erguendo aos astros
A nautica celeuma, alvoraçados.
Poremos no occidente o vago leme
Para afrontarmos as Titóneas plagas.
Entre o Barbaro solo, e o solo Hispano
Passaremos cantando o Estreito, aonde
As Colunas ergueo famoso Alcides.
Pelos ventos Hesperios ajudados,
Movendo assombro ás cérulas Nereidas,
Cortaremos, voando, em curtos dias,
Mediterraneo, tua longa estrada.
Nossos astros serão por entre as ondas
O astro de Venus luminoso, e claro,
Ariadne, a esposa do contente Bromio,
E os Tindáreos Irmãos, cuja concordia,
Cuja amizade nos será de exemplo.
Eolo prenderá com mil cadêas
Euro o nosso contrario: as verdes ondas,
Ouvindo de Tritão troar o buzio,
Sem furia, sem fragor do barco emtôrno,
Chêas por cima de alvejante espuma,
Saltaráõ quaes no prado os cordeirinhos.
Que, meus amigos! receais procellas?
Procellas contra nós! Assáz os Numes
Nas almas sabem ler; nós demandâmos
Chipre, votada aos candidos prazeres:
Do vinho a Deoza, a Deoza dos amores,
Os Numes da amizade, eis nossos astros;
Que havemos de temer? Não, não me importa
Que o ar, que o pégo em furias se revolva:
Por entre a serração, por entre a morte,
Voaremos a rir de Chipre aos campos,
Quaes na barca da Estige um dia iremos
Dos lagos avernaes ao grato Elisio.
Não ha que recear. Dai-me outro copo;
Outro bebei, e ouvi-me. Amigos fados
Da Ilha encantadora ao melhor sítio
Nos hão de conduzir: ja cuido vê-la!
Um cáes em meia lua, um cáes não grande,
Ja nos hospeda na conchosa arêa:
Unidas penhas de elegante aspéto
O anfitheatro deleitoso fórmão:
Todas se vestem de verdura, e flores,
Todas tem fria gruta, ou doce fonte.
D’estas fontes, que emtôrno enchem os ares
De um desigual, suavissimo murmúrio,
Umas descem chovendo entre os penedos,
Outras em larga enchente se arremeção,
Sem o musgo occultar, de rocha em rocha,
Té que ás bacias espumosas saltão.
Aqui um mirto, alem uma roseira
Coroa a entrada das pequenas grutas,
Ou lhes fórma seu tôldo, ou quasi as cobre.
Por toda a parte melindrosos ninhos
Se ouvem piar; por toda a parte adejão
Co’o sustento no bico as ternas aves.
D’esta folhagem se levanta o melro,
E vai pouzar na proxima folhagem:
Queixa-se n’uma gruta Filomela
Quando Progne sentida eleva o canto.
Prezos aos troncos Zéfiros murmurão;
Auras, dos valles proximos correndo,
Das invisiveis azas nos derramão
Almos efluvios de cheirosas flores.
Vede assentos, que a mão da Natureza
Nos rochedos abrio, que a mão do Tempo
Cobrio, amaciou com verde estofo;
Aqui se tem as Ninfas assentado
Pelas tardes de Maio muitas vezes,
Para gozar os brincos dos Amores,
Que ora lutão na arêa, ora apostando,
Se arrojão de mergulho aos verdes mares,
E apparecem depois nadando e rindo.
Vamos: por esta parte o cáes nos deixa
Na Ilha penetrar: commoda entrada
Nos off’rece este portico de murtas.
Deozes! que vamos vêr! Salve cem vezes,
Bosque sombrio, magestoso, immenso!
Do desmedido Atlante a espadoa enorme
Não, não he quem sustem o eterno Olimpo,
És tu, sagrado bosque; a vista humana
Chegar não póde a teus soberbos cumes!
Serras, diluvios de ondeantes folhas
Sôbre colunas mil, que o raio assustão,
Se agitão sôbre nós. Longe, ó profanos!
Vates, erremos pelas frescas trevas!
Alem, se não me engano, o sol penetra.
Corramos. Oh prazer! oh maravilha!
Eis um retiro aos Numes consagrado,
Incognito aos mortaes, de encantos fertil!
Tu que vizitas cada dia o mundo,
Ó Sol, ¿que outro lugar no mundo encontras,
Onde com mais prazer teus raios lances?
Vede este prado, cujo fundo escondem
De Hibleas flores animadas nuvens:
Olhai sem guardador pingues rebanhos
Livres saltando nos outeiros verdes:
Vêde encostas de pampanos cobertas;
Fontes á sombra de arvores sagradas;
Jardins fechados de cheirosos muros
De altos lilazes, de azareiro e cedro;
Tanques no meio, onde em repuxo aos ares
Voão do bico de marmoreos cisnes
Argenteas linfas, que no ar se cruzão,
Mil arcos, mil abobadas formando,
E em fresca chuva vem mover os lagos!
Que ditoso paiz! não sei que sinto
No meio agora d’estes sons campestres,
Respirando balsamicos vapores,
Em sacra habitação, entre os amigos,
Longe dos homens, da innocencia ao lado!
Abraçemo-nos. Sim: desde hoje unidos,
Seremos d’este sítio os habitantes.
D’esse ribeiro na fecunda varzea,
Ali, onde hospedagem graciosa
Presta ás aves do ceo pequena selva;
Ali, onde estendidos pela grama
Junto ás novilhas candidas, repouzão,
Co’a cornígera fronte entre as papoulas,
Mansos touros, que o jugo inda não vírão,
Ali se vos apraz, se apraz aos Deozes,
Vamos pois construir nossas moradas.
Do Genio do lugar primeiro em honra
Cumpre fazer as libações, e os votos;
Venerar, depois d’isto, a turba agreste
Das Ninfas do paiz; e culto, e nome
Dar ás fontes, aos campos, e ás collinas
D’estas gentis, incognitas paragens.
Vede faias aqui, pinheiros, chôpos;
Abatei-os, tecei nossas cabanas.
Formemos uma aldêa: a cada alvergue
Juntemos um jardim, que ao fundo banhem
Do claro rio as fugitivas aguas.
Não falte o culto ás sacras Divindades.
Á obra, á obra! o templo se levante
Nobre, proprio de nós, digno dos Deozes,
Com paredes de cedro á luz vedadas.
Deixamos á vaidade altas colunas,
Cúpulas d’oiro, abobadas suspensas
Em meia altura da extensão dos ares;
De trémula parreira um této basta.
Ponde no tôpo o altar da Natureza,
De nossa adoração primeiro objéto:
Firmada sôbre um globo, como o nosso,
Uma estatua gentil figure a Deoza,
Virgem, bella, risonha, affavel, nua,
Guardando-lhe o pudor sendal ligeiro:
Colar de flores lhe atavie o collo,
C’roa de frutos lhe circunde a fronte,
Diversos ramos as madeixas ornem:
Tenha n’uma das mãos celeste chama;
Penda da outra, e por seguro fio,
O Genio do prazer, que as azas bata
Para voar-lhe ao cobiçado seio:
Cerquem-lhe o pedestal em turba immensa
Homens, feras, volateis, nadadores,
E quanto emfim por seu influxo existe:
Vejão-se á volta os poderosos Genios,
Que a seu sabor os elementos movem,
Salamandras, Ondins, Silfos, e Gnomos.
D’esta ara ao lado se verão pendentes
As flautas nossas, pois lhe são votadas.
Sôbre outro altar a Deoza de Cithéra,
Não de marfim, nem marmore talhada,
Mas de alva cera das abelhas nossas,
Feita por nossas mãos encante a vista.
Quero-a nua de todo: ao seio amime
Entre os braços de neve o filho alado;
E co’a ternura languida nos olhos,
Como para o beijar lhe estenda os labios,
Curta tornando, como a d’elle, a boca.
As trez Irmãs de Amor pequenas, bellas,
Como invejando do menino a sorte,
Forcejem por trepar da Mãi ao collo,
Emquanto o Irmão travêsso a rir pretende
Co’as delicadas mãos lança-las fôra.
Duas turbas de Amores apinhados
Se ergão d’aqui d’ali: tenhão por terra
Os arcos, e os farpões; na dextra empunhem
Fachos, que hão de brilhar nos festos dias,
Por nossas mãos com sacro lume accesos.
Defronte d’esta, na parede opposta,
Outro brilhe votado á Primavera.
Ali se mostre a Deoza, cuja veste
Um manto seja de tecidas flores;
De flores o toucado; a planta nua
Sôbre floreo torráõ firmada alveje:
Durma a seus pés o aurígero carneiro;
O Maio, filho seu, tenha em seus braços,
Igual em perfeições á Mãi formosa,
Alado como os Zéfiros e Amores,
Que os Amores, que os Zéfiros mais lindo.
Tenha na dextra um ramo florecente,
Onde pouzem pintadas borboletas:
No esquerdo braço um cabazinho grave,
C’os doces frutos, que em seu mez se colhem,
E a rir pareça á Deoza appresenta-los;
Mas a Deoza, estendendo a mão de neve,
Como que busque o grávido cestinho
Tirar de sôbre o seio, onde elle o punha.
De Favonios um bando se reparta
Aos dois lados do altar, em cujas dextras
Ponhamos bem fingidas cornucopias
Chêas d’agua, onde flores se conservam.
Atrio cercado de sombrios louros
Haja na frente do sagrado alcaçar.
Por trez frondosos porticos se passe
Do templo ao atrio: emtôrno d’elle avultem,
Dos loureiros á sombra, as Deozas nove,
E o Nume protétor do equorea Delos.
Um de nós cada mez será por sorte
Da sacra estancia o sacerdote, e o guarda.
Ficaráõ a seu cargo os festos dias,
Dos altares o culto, os hinos sacros,
E a protéção dos ninhos melindrosos,
Que as aves formaráõ do této em volta;
Para que nunca violados sejão,
Santa hospitalidade, os teus direitos.
Da nossa aldêa ás proximas campinas
Daremos de cultura uteis desvelos.
Vertumno, e Ceres, e Pomona, e Flora
Hão de favonear trabalhos nossos,
E em sustento pagar nossas fadigas.
Ricas hortas, dulcissimos pomares,
Doiradas messes, pampinosas vinhas
O celleiro commum nos terão chêo.
Da ociosidade vã não será filha
Nossa innocente e solida riqueza.
Algum de nós ao trato dos rebanhos
Seus cuidados dará: que importa o mundo?
Vida de nossos pais! vida dos campos!
Quem te nomeia humilde, e vergonhosa?
Vive o pastor no seio da innocencia;
No meio da pobreza he rico, e folga.
Emquanto os grandes entre escravos gemem,
Canta o pastor entre o rebanho, ou dorme,
Fiado em seu amigo, em seu rafeiro:
Nem ao menos que ha leis sabe nos campos.
São seus dias cadêas de prazeres,
E seus prazeres innocencia todos.
Não cala seu amor, canta-o nos bosques
Em alta voz, ou goza-lhe as delicias.
Ao transmontar do sol volta a seus lares;
Conta á porta o rebanho, e junto ao fogo
Vai co’a cêa frugal entre os amigos
Restaurar o vigor para o trabalho.
Repouza em paz sobre o macio feno
Emquanto alguma luz no ceo não raia:
Não ha cuidado, que lhe rompa o sono;
Se acaso sonha, os sonhos não lhe pezão,
Pintão passados bens, ou bens futuros,
E volta ao mesmo quando nasce a aurora.
Vergonhosa ésta vida! ó desgraçados,
Corai no meio das grandezas vossas:
Se o pastor conhecesse o vosso estado,
Nem de olhar-vos sequer nem se dignava.
No regaço feliz da natureza,
Ao lado da ventura, os dias nossos
Serão a imagem dos doirados dias.
Como os primeiros pais da especie humana,
Viveremos frugaes entre a abundancia,
Ricos sem pompa, sem vaidade sabios,
Socegados sem leis, sem armas fortes.
Hão de mil vezes os campestres Numes,
E o sacro Povo, morador do Olimpo,
Compràzer-se de olhar a nossa aldêa.
Ao romper da manhã, ser-lhes-ha doce
Ver-nos todos sair dos proprios lares
Co’a alegria na face: uns diligentes
C’os instrumentos rusticos nas dextras,
Ou seguindo seus bois, tornar-se aos campos;
Outros guiando para os ferteis pastos
Longa tropa lanígera balante.
Ser-lhes-ha doce o ver como trabalhão
Todos no bem commum, sem que se escutem
Do meu e teu os nomes perigosos.
Quando o gallo doméstico no aldêa
Soltar ao meiodia o canto agodo,
Correremos á mesa: unidos todos
De um bosque á sombra nos calmosos tempos
E junto ao fogo quando reine o frio,
Não veremos deante a rica prata
Com vivo resplendor cegando os olhos;
Nem dourados cristaes, nem porcelanas,
Cuja louca ambição furiosa arrasta
Tantos loucos mortaes, dignos de pranto,
D’entre os braços dos seus aos torvos mares,
E em fragil pinho, que rodêa a morte,
De longinquo paiz os leva aos portos.
De facil construção vermelho barro
Fará nossa baixella; e cavos troncos
Fundos, polidos, de jasmins c’roados,
Servir-nos hão de o rúbido falerno.
De nossas hortas vegetaes gostosos,
Os teus dons, ó Pomona, e os teus, ó Ceres,
O mel puro e doirado, e o branco leite
Bastão assaz da Natureza aos filhos.
E que? algum de nós contra o que vive
Ouzaria vibrar da morte a fouce!
O touro soffredor, cuja fereza
Para servir-nos se abateo ao jugo,
O touro, o nosso amigo, e o nosso escravo,
Que sem ter parte alguma em nossos gostos
Tomava parte nas fadigas nossas;
Que armado pelas mãos da Natureza
Podia, se quizesse, oppôr-se aos fracos,
Que a paz, que a liberdade ouzão roubar-lhe,
Depois de longo, aviltador serviço
Deve ... (oh pejo! oh furor! oh sacrilegio!)
Caír ás mãos do barbaro assassino,
Para quem só viveo! por quem mil vezes
Coberto de suor, chêo de espuma,
Co’a fronte baixa, sem mugir ao menos,
Queimado pelo sol, até soffria
Duro, ferreo aguilhão se fraquejava!
Qual ouzaria ensanguentar a dextra
Na mansa ovelha, da innocencia imagem;
Que incapaz de offender, nunca rebelde
Aos brados do pastor, seu proprio leite
Entre seus filhos e elle repartia,
E até para cobri-lo as lãs lhe dava!
Lindos filhos do ar, ternos cantores,
Que innocentes voais pelas florestas,
Nos prazeres, no Amor gastando a vida,
Filhos do ceo, modelos, que adorâmos,
Não temais habitar nos campos nossos.
Se o açor, se o falcão por estes sítios
Passar alguma vez, vinde, eu vos peço,
Vinde-vos esconder em nossos lares,
De vossa timidez sacra guarida:
Se nos virdes passar nos sitios, onde
Entre os ramos, á sombra vos agrada
Divertir gorgeando a terna esposa,
Que muda, e carinhosa esconde, e aquece
Entre as azas seus filhos pipilando,
Se nos virdes passar ... oh! por piedade
Não fujais, prosegui vossas cantigas;
Sois como nós da Natureza filhos;
A Mãi commum vos deo a liberdade,
Sustenta-vos, bem como nos sustenta:
Sois fracos, tanta basta; e nós não somos
Nem tiranos, nem perfidos, nem baixos
Para abusar da fôrça: he jus terrivel!
Se para vos matar compete ao homem,
Para o homem matar compete ao tigre.
Não: vivei entre nós, como entre amigos:
Somos todos irmãos: arcos, e setas,
Redes, e visco, passatempos torpes,
Não usa quem adora a Natureza:
Serião entre nós nefandos crimes.
Se um dia á caça algum de nós (os Deozes
Affastem para longe o agouro horrendo),
Se um dia á caça algum de nós corresse;
Coberto de suor, de sede extinto
Praza aos ceos que discorra os duros campos;
Curve-o das armas o terrivel pezo;
Não ache onde empregar da morte as furias;
Seus proprios cães os membros lhe lacerem
Té que as entranhas vis ao sol descubrão,
E rôto arqueje o coração perverso:
Semivivo, rugindo, ardendo em raiva,
Entre penedos se revolva, e espume,
C’os olhos ja sem luz, chêos da morte,
Pallido o rosto, ensanguentada a coma;
Té que, mugindo em subita voragem,
Se rasgue a terra ao detestavel pezo,
E ao fundo o arroje dos sulfureos lagos.
E se o malvado consummar seu crime,
Se as mãos tingir no sangue do innocente,
O rio onde correr para banha-las
As ondas atropelle, e volte á fonte,
Fique attonito o monstro, e o leito sêcco;
E quando sôbre o fogo os miseraveis
Membros pozer, que o sangue inda gotejão,
Que inda tem no tremor de vida um resto,
Chêas de horror e de piedade as chamas,
Deixando intáto o funebre cadaver,
Com medonho estampido abandonando
N’um momento seu lar, se ergão aos ares
Para chover no algoz, torna-lo em cinzas.
Mas vá longe de nós o quadro infame!
Somos frugaes, e simplices; e basta
Olhar-nos para ver nossa virtude.
Sim: que a lavrada seda, o oiro, as telas,
E dos insanos cortezãos a pompa
Não nos ha de cubrir. No inverno algente,
Contra os rigores da estação nublosa
Usaremos da lã que nos revista,
Sem que do artista a dextra insultadora
Lhe desfigure a côr, lhe mude o aspéto:
Se no outono reinar do inverno o frio
Voltaremos á lã: na primavera
Basta o candido linho: emfim no estio,
(Deixe-me em paz, ou seus ouvidos serre
Quem no corruto coração fomenta
De prejuizos vãos caterva impura!)
No estio, amigos meus, com vosco fallo,
Seremos todos nus: rião-se embora
Os perversos, que ao vício costumados,
Até na natureza encontrão vício.
Sim, andaremos nus; nus se mostrárão
Os pais, e as mãis do mundo em tempos d’oiro,
Nos vaguêão da America nos bosques
Da Natureza não corrutos filhos,
Nem os tinge o rubor, a côr do pejo,
Que o pejo nasce se a innocencia morre:
A Innocencia, a Verdade, as Graças bellas
Pintão-se nuas: nuas pelos bosques
Errão as Ninfas: d’entre as ondas nua
Venus saío de encantos rodeada:
Seu Filho, qual nasceo, se mostra ainda:
E todos nós, dizei, como nascemos?
Quando, depois de trabalhosas dores,
Nos cingem nossas mãis aos ternos peitos,
Tecidas vestes sobre nós encontrão?
Não: se o tempo o exigir cubra-se o corpo;
Se o tempo o não requer, porque insensatos,
Vãos, inuteis incommodos buscâmos?
Prazeres me pédis, dou-vos prazeres:
A musica suave, a dança, os versos,
Dos bons ditos o sal, carreiras, lutas,
Tecer grinaldas de campestres flores,
Fresco, e murmúrio de favonios, e aguas,
Os ternos sons de aligeros cantores,
Da natureza o estudo, as graças d’ella,
As formosas manhãs, as bellas tardes.
Iremos navegar pelo ribeiro
N’este mesmo batel; a branca lua
Deante nos irá para guiar-nos:
Os ventos dormiráõ pelos outeiros:
De um, d’outro lado as arvores ao longo
Das socegadas margens, docemente
Se ouviráõ susurar de quando em quando:
O astro da noite ledo e scintillante
Se verá na corrente em longa estrada:
Echos repetiráõ nossas cantigas:
D’entre um canavial a Filomela
Se ouvirá gorgeando convidar-nos:
Com mil olhos de luz o ceo da noite
De ver nossa alegria ha de alegrar-se.
Algum campestre Fauno, que aturdindo
Com voz immensa a silenciosa margem,
Seus amores contar da fonte ás Ninfas,
O canto estrugidor alguns momentos
Suspenderá, de assombro arrebatado.
Se tivermos calor volta-se a proa
Sobre uma ilhota de vermelha arêa,
E encalhando o batel salta-se ás ondas:
N’uma noite encalmada um banho fresco
Nos consola, e refaz: ali se julga
Acima estar da natureza o homem;
Vive em novo elemento, em cujo seio
Revestido se crê de essencia nova.
Ao brando frio os membros pouco a pouco
Se conformão, se affazem, se contentão;
Dissipa-se o tremor, e a voz anciada
Um momento depois se resserena.
Todo o vivo prazer então começa:
Ora apraz o nadar contra a corrente,
Ora girar nas aguas escondido,
Ou c’os olhos na lua ir descançado
Em parte occulto, em parte descoberto,
De costas, ao som d’agua, escorregando.
De quando em quando um toma pé no fundo,
Assemelhando o busto de uma estatua
De marmore polido, que se eleva
Fronteira á lua, e solitaria brilha;
Os companheiros de redor o cercão,
E com muito clamor sobre elle atirão
Co’as plantas, e co’as mãos ondas sobre ondas.
Elle grita, elle ri, jura, e promette
De os punir, de vingar-se; então se arroja
Ás ondas outra vez, e os segue, e os urge,
Chove sobre elles desmedidas vagas.
C’o festival combate o rio ferve,
Perturba-se a corrente, os echos bradão
Oh como he doce um banho entre mancebos!
Um ri contando uma engraçada história,
Outro grita, outro canta, e todos folgão.
No fundo desigual talvez se encontre
Dormindo alguma Náiade entre as conchas.
Sois mortaes? e que importa? humano he Páris,
He Páris um pastor, goza entretanto
Ternos abraços de immortal Enone,
Que deixa por goza-lo a propria fonte,
E vem sentar-se entre um rebanho humilde;
E ai de vós, se das Ninfas não moverdes
Os puros corações para a ternura!
Mulheres não as ha nos campos nossos,
E vazia de amor a vida he nada.
Redobrai a attenção, pois devo agora
Fallar em baixa voz, porque receio
Que as formosas Mondágides me escutem.
O mesmo coração, dezejos, gostos,
Que tem nossas mortaes no peito occultos,
Tem as Ninfas tambem: de exemplos quantos
Se não póde cingir ésta verdade!
Sobre as aras de Amor todas off’recem:
Os ais do adorador nenhuma offendem,
Comprazem-se de ouvir que as chamão bellas,
E a gloria prezão de enxugar o pranto,
O pranto que ellas sós nos arrancárão.
Se nos ouvem crueis, se esquivas fogem,
He porque insana lei de atroz costume
Lhes ordena o fugir, lhes insinua
Que he delito em seu sexo a natureza:
Mas contra a natureza em vão combatem
De cega educação fataes abúsos!
A mãi universal ou cedo ou tarde
Vence, triunfa, e no triunfo leva
O sexo encantador ja maniatado.
Todas oppõe sabida resistencia,
Mas cumpre não ceder: por nós combatem
Seu mesmo coração e a natureza,
Que auxilio inefficaz jamais nos farão.
¿E não sabeis que emquanto desdenhosas
De nossos ais parecem offendidas,
Quaes se as mordesse venenosa serpe,
Tremem, recêão que ao temor cedamos,
E frouxa timidez nos furte as armas?
Inda que ostentem ríspida esquivança,
Agrada-lhes a guerra, e occultos votos
Fazem a Amor para ficar vencidas.
Implorar-lhes perdão he ultraja-las;
Contra ellas ser audaz he ser-lhes caro,
He dar-lhes bens, poupando-lhe a vergonha.
Mas a regra primeira, a grande, o tudo
Entre as regras de amor, he o artificio.
He vasta a gradação de sentimentos
Da innocencia á ternura. Em cume altivo
De alta montanha, cujo aspéto assombra,
Tem seu templo a Ternura, onde cercada
Das Graças, dos Prazeres, dos Amores,
Encanta os corações benigna Venus:
He forçoso galgar toda a montanha,
Subir de rocha em rocha, e p’rigo em p’rigo
Para se entrar no deleitoso alcaçar.
Quem pretender poupar um passo ao menos,
Quem saltar pretender, perde o ja ganho,
Para mais não surgir baquêa em terra.
Amor azas não tem, como se pinta;
A curtos passos, devagar só anda.
Começaremos offertando ás Ninfas
Sôbre altares campestres, levantados
Das arvores á sombra, ao pé das fontes,
Ou nas grutas do fresco, ou sôbre outeiros,
Festões, grinaldas, passarinhos, frutos,
E capellas de búzios e de conchas,
Mais brilhantes, mais bellas do que o Iris.
Formaremos cantigas, em que aos echos
Dos campos entre a lida repitamos
As perfeições, os méritos, os nomes
Das Napéas, das Dríades formosas,
Hamadríades, Náiades, e quantas
Filhas da Natureza a terra habitão,
Para formar com dextra occulta e sábia
Do rústico o prazer, do vate o encanto.
Isto, e a nossa virtude, e a vida nossa
Laboriosa, honrada, alegre, e quasi
Igual á vida dos campestres Deozes,
Disporáõ para nós seu terno peito.
Talvez qué pouco a pouco minorado
O custo susto de encontrar humanos,
Não fujão de mostrar-se a seus cantores.
Se eu descançar junto de um cedro antigo,
Ou de uma faia, ou reclinar a fronte
Sôbre a raiz em parte descoberta
De uma oliveira, ou castanheiro antigo,
Darei graças á Dríade, que habita
No tronco bemfeitor, que me faz sombra;
E d’elle a amavel Dríade saindo
Virá sentar-se ao lado meu na relva.
Depois que pouco e pouco transformado
Se houver em confiança o pejo, o susto,
Mudaremos de estilo: em nossos versos,
E só, e de contínuo a formosura
Em fogo nos porá do estro as azas.
Hão de sorrir-se e comprazer-se, e muitas
Suspenderáõ em seu caminho os passos.
He lei sem excéção; domina em todas
A sêde, a gloria de chamar-se bellas.
Mas bellas tão somente heis de chama-las,
Sem falar-lhes de amar: depois de affeitas
A ouvir a narração de seus encantos,
Dizei-lhes que por certo as rochas mesmas,
Os troncos, e o cristal das frias aguas
Ardem cativos de bellezas tantas;
Que o sol com mais prazer detem seus olhos
Nos campos d’ellas, só por ver seus rostos.
Se virdes que um sorriso gracioso
Vos recompensa o canto, audacia, amigos!
Avante um passo, e n’este passo cumpre
O segredo buscar. Desde esse instante
Não lhes falleis deante das mais Ninfas;
Buscai até que os socios vos não oução.
Suppõe tu, caro Antíeno, encontrar-te
(Esta supposição perdoe Alcippe)
N’um bosque solitario, onde vaguêa
Quem te faz delirar em novo incendio.
Se ella está pensativa, “Oh venturoso
O objéto, lhe dirás, em que se occupa
Tua imaginação, formosa Ninfa!
Se eu o fosse!... ai de mim! porque revolve
Loucas esp’ranças, se chorar só devo?”
Se a vires sôbre o espelho do cascata
Com brancas rosas concertando as tranças,
Qual sôbre o teu ribeiro o faz Alcippe,
“Feliz rainha das mimosas flores,
Feliz rosa, dirás, inda que perdes
Ao pé das graças d’ella as graças tuas!”
Se pozer sôbre o seio as melindrosas
Roxas flores de amor, dirás: “Que inveja!
Por ser vós um momento eu dera a vida!”
Mas isto em meia voz, para que julgue
Que não he por te ouvir que assim fallaste.
Não se irritou? prosegue, e de mais perto,
“Permitte-me, (dirás com ar ingenuo,
Chêo de timidez) permitte, ó Ninfa,
Que eu te torne mais bella, e te componha
Essas flores, que um pouco se desmandão.”
Se ella o permitte, a occasião não percas:
Se ella hesita e se cala, não recusa;
Compõe-lhe o ornato no formoso seio,
E sorrindo, lhe dize: “Alguem no mundo
Existe que não ame as proprias obras?
E’sta obra, que findei, me agrada tanto!...”
N’isto beija-lhe o seio, e deixa as flores.
D’aqui avante o mar he ja tranquillo,
Propício o vento, e mui vizinho o porto:
Ja de piloto o lenho não carece;
Quanto offerece amor tudo he ja vosso.
Ja vejo sôbre os ceos dos nossos campos
Todo o dia brincando em roseo coche
Pelas pombas tirada a amavel Cípria:
Coroado de louro, ei-la contente
Entre palmas, que sombra lhe derramão!
Ei-la por toda a parte sacodindo
Do misterioso cinto encantos, gostos,
Delicias, tudo emfim que obriga a Jove
Mudado em branco cisne, ou chuva d’oiro,
A trocar pela terra o sacro Olimpo!
Desde então mais ditosa he nossa aldêa,
Mais risonhos seus bellos arrabaldes:
Ha misterios de amor em qualquer gruta,
Em qualquer solidão brincão prazeres.
Eis os frutos de amor, que desabrochão!
Ja os vejo das bellas entre os braços,
Qual pequeno botáõ nascido apenas
Da rosa ja perfeita ao lado brilha.
Ei-las co’o proprio leite a sustenta-los;
Taes como descreveo nos magos versos
Francilia; Musa de meu patrio rio,
A doce amiga sustentando o filho,
Igual a Venus com Amor nos braços.
Eu as vejo, depois de afagos ternos,
Soltar de si os cintos azulados,
Em dois troncos prender as pontas ambas,
Abri-los, deitar dentro entre mil flores,
Depois de o ter beijado, o tenro infante,
Para ser dos favonios embalado.
Eu as vejo nos troncos encostar-se
Co’as mãos na face, e os olhos no innocente,
Juntando aos sons das aves em seu ninho
Ternos cantos, que os filhos adormeção.
Ja co’a turba infantil recresce a aldêa:
Succedem ao silencio alegres brincos,
Gostosos passatempos se preparão,
De nossos bens o número se aumenta.
Vai crescendo em razão, crescendo em fôrça
Ésta prole feliz, que os Cíprios valles
Como os Amores, como as Graças, honra.
Creados longe do tropel das côrtes,
Puros no coração, que ninguem busca
Semear de illusões, de prejuizos,
Educados na paz, sem ver tiranos,
Sem ouvir discorrer pedantes sabios,
Té das Sciencias ignorando os nomes,
Terão destinos, que excedendo os nossos,
Não hajão que invejar os puros dias,
Que cegamente se nomêão d’oiro.
D’oiro! ai d’elles se o oiro então se visse!
Mais nocivo que o ferro, a bemfazeja
Terra o sumio nas maternaes entranhas,
Sôbre leitos de pallido veneno.
Quando o Genio do mal o trouxe ao dia,
Chêas de assombro, de tropel correndo,
Fugírão co’a Justiça almas Virtudes;
E pelas fundas minas, que o guardavão,
Surgio do patrio inferno a perseguir-nos
Chusma de Vicios, e raivosas Furias,
Que os Vicios inspirando, os Vicios punem.
Se alguma vez os descendentes nossos,
Quando a terra pacificos romperem,
Encontraram com oiro, um grito soltem;
A aldêa se reuna ardendo em raiva,
Qual se dos bosques férvido saisse,
Igual ao raio, o bruto d’Erimantho;
E o pallido fulgor da massa infesta
Vão longe sepultar nos verdes mares.
“Monstro contrário a nós, sê devorado
Pelo monstro do mar, que em furia vences”
Dirão todos em chusma; e socegados
Tornaráõ a lavrar seus ferteis campos.
Que idea pelo espirito me adeja
Chêa de luz, de encantos rodeada!
Ja vejo pelos ares scintillando
Os fachos de Himeneo. Ja pelas ruas
Vestidos de alvo linho, e coroados
De fresca mangerona os moços correm,
“Ó Himeneo! Vem Himeneo!” gritando.
“Ó Himeneo! Vem Himeneo!” respondem
Os campos d’echo em echo; e pelas casas,
Chêas de gôsto, e de esperança as virgens
“Vem Himeneo, ó Himeneo!” repetem.
As ruas de verdura estão juncadas,
Listões de flores coroando as portas
Enchem os ares de composto cheiro:
E os meninos, que as causas não percebem
Do confuso prazer, vão transportados
Correndo em chusmas, e batendo as palmas,
Gritando, “Ó Himeneo!” La desce, e pouza
O Nume sôbre o altar da Cípria Deoza!
O venturoso par la vai sobindo
Por entre a multidão, que attenta o mede.
La chega ao sítio destinado aos votos.
Sacerdotes não ha: da aldêa os velhos
Os cercão de redor. La se abraçárão!...
He curto o voto seu. “Juro adorar-te
Emquanto o doce amor tiver no peito.”
Unindo o seio ao seio, e face á face,
Depois se beijaráõ por largo tempo;
E o Nume da alliança, o carinhoso
Filho de Urania os cingirá dos mirtos,
Que de Venus, e Amor as frontes ornão.
Depois algum de nós se erga c’roado,
Para fallar d’ésta maneira ao povo.
“Nasceo Amor para encantar os homens,
Não para ser dos corações tirano.
Menino ama o brincar, e quer ser livre.
Cura o tempo as feridas que elle fórma:
Depois de alto clarão, que cega os olhos,
Seu facho, pouco e pouco enfraquecendo,
Vem por fim a apagar-se: a Natureza,
Nada produz que não succumba á morte.
Os animaes, as flores, os arbustos
Tem curta duração: vai manso, e manso
O tempo destruindo altas montanhas,
Gasta-se o escolho c’o bater das ondas;
Succede a lua ao sol, á noite o dia,
Uma estação perece, outra renasce:
Tudo he mortal na terra, e mais que tudo
As humanas paixões insulta a morte:
Succede ao riso o pranto; á dor prazeres;
Ao odio amor; ao terno amor a raiva.
Eu vi moraes affétos n’um só dia
Nascer e terminar, qual nasce e murcha
N’um só dia de abril a rubra rosa.
Ditoso par! amai-vos extremosos
Emquanto a natureza vos consinta,
E oxalá que o consinta em largos annos!
E oxalá que de vós o que entre os mortos
Primeiro descançar, sinta regadas
Pelos olhos do sócio as mudas cinzas.
Feliz quem n’um só fogo arde constante;
Feliz, mas raro como os negros cisnes!
E ha loucos, e ha perversos, que ante as aras
Jurem guardar uma constancia eterna?
Cegos, que a natureza desconhecem,
Ou zombão d’ella escarnecendo os votos.
Jurão-se amar sem fim, e ou tarde ou cedo,
Sem fim, e sem remorsos se detestão!
Jurão-se amar sem fim! Mal que resoa
Debaixo das abobadas o voto,
Calcando o arco aos pés com ar maligno
O pobre Amor retira-se chorando
D’ésta afronta cruel; pois sua glória,
Seu prazer, e seu timbre he ser voluvel.
Crepitando em faiscas derradeiras
Se apaga o facho, que debalde agita,
E emtôrno espalha venenoso fumo,
Fumo, que obriga a lágrimas eternas.
Entre pios e agouros desgraçados,
Ao leito nupcial os acompanha
Entre alegre e assustada a meiga Venus.
Co’as serpes do cabello desgrenhadas,
Mas inda sem silvar, detraz os segue
Impaciente a rabida Discordia.
De flores se coroa a lauta mesa,
Voão-lhe em roda as graças, e o falerno,
E riso, e confusão de encantos chêa.
Mas ah! cedo os pezares, e os suspiros,
A desesperação, e as vãs querellas,
E a desordem, e as lágrimas rodêão
Os lares do prazer; a scena infausta
Não rara vez negro punhal termina,
A viuvez, o luto envolve o leito!
Mas vós, ditoso par, vós, cujos labios
Não proferírão temerario voto,
Folgai, vivei, nos braços da ternura,
Melindrosa ternura, que não morre
Se lhe não lanção vergonhoso jugo.
Para amar-vos fieis por largo tempo
Sede amaveis, ou sede virtuosos
Porque a doce virtude he sempre amavel.
Se o fogo se acabar, voltai ao templo,
A prender novo objéto em novos laços.”
Ouvindo este discurso o povo inteiro
O applaude em baixa voz, e á Mãi das Graças
Se canta o hino, que remata a festa.
O resto d’este dia he dado aos jogos,
Gasta-se a noite á roda das fogueiras
Em musicas e em danças variadas.
Engano-me, ou queixosa a Natureza
Escuto suspirar? não, não me engano!
Ella suspira, e pede-nos vingança
D’outra injustiça, que lhe faz o mundo.
Ouvi, e concordai: sabeis que muito
Em número nos vence o amavel sexo.
Se a Mãi universal não gera um ente,
Que não consagre a amor; e a lei sagrada,
Que obriga a propagar a propria especie,
He lei universal, que abrange a todos,
¿Com que jus, por que horrenda tirania
Privadas d’Himeneo suspirão tantas?
Não: cada esposo esposas enumere,
Té que uma só sem thalamo não fique;
Todas d’est’arte viveráõ contentes;
A honra de ser mãi pertence a todas:
Cresce a aldêa, não brada a Natureza;
Infamadas não são as que procurão
Os prazeres de amar, de ser amadas:
Não se ouvirá que um barbaro veneno
Dera a mãi a seu filho inda no ventre;
Ou que um férreo punhal, ou laço infame
Logo ao nascer lhe terminára os dias:
Nem Venus corará vendo offertar-se
De ternura venal corsutos mimos.
Quão bellos correráõ nossos momentos,
Longo, e tão longe dos polidos povos!
Quasi Numes na vida encantadora,
Até na duração quasi seremos
Rivaes do povo habitador do Elisio.
O fio d’oiro da existencia nossa
Inteiro volveráõ no fuso as Parcas.
Com pé tardío a inevitavel Deoza,
Que o Mundo despovoa, e bebe o pranto,
E acompanha a saudade entre os ciprestes,
Sem terror, e sem fouce, e até sorrindo,
Sem que a precedão seus fataes ministros,
Nos levará de manso e a curtos passos,
Coroados do cãs para o sepulcro.
Mas, amigos, quem sabe! as Cíprias Ninfas,
Se o fado o não tolher, talvez nos mostrem
A verde planta, que ao cerúleo reino
Deo mais um Nume, transformando a Glauco.
Semideozes então, nos tornaremos
De nossa aldêa os sacros protétores!
Mas não: a lei da morte he lei terrivel,
Que rara vez os Numes quebrantárão.
He forçoso morrer!... Longe os temores!
He forçoso morrer, morra-se embora.
Não faltaráõ dulcissimos transportes,
Prazeres e ternura ao lance extremo!
Sôbre o funereo leito o moribundo,
Ja sem côr, ja sem fôrça, e quasi extinta
Em seus olhos a luz, e a voz nos labios,
Erguendo a fraca dextra acena, e chama
Cadaum junto a si; vai despedir-se
Para o sono sem fim! Sôbre as heranças
Que ha de recommendar se não tem nada?
Nada excéto a virtude, e os instrumentos
Com que a terra lavrou. Sua cabana
Vai ter outro senhor; as flores suas
Implorão no jardim desde este instante
D’outro cultor a próvida tutella:
D’outro, sim; cuja mão todos os dias
Irá de madrugada aos sacros manes,
Pendurar sôbre o tumulo orvalhado
Uma grinalda de orvalhadas flores.
Elle abre inda uma vez seus frouxos olhos,
Onde começa a derramar-se a noite,
E de seus labios tremulos, por onde
Ja põe a occulta morte a mão gelada,
Sólta chêo de afféto a voz, que expira,
E seus amigos, e seus filhos chama:
Os seus amigos mudamente o cercão,
E não mostrar-lhe as lágrimas procurão:
Áluz da tibia alampada contemplão
Quanto a hora fatal ja se aproxima.
E seus pobres filhinhos entretanto
N’um canto da cabana estão sentados;
Dos amigos no gesto, e nas maneiras
Ler seu destino impacientes buscão,
E attonitos, e tristes nem se atrevem
A fallar, a fazer qualquer pergunta,
Porque os não lancem d’este sítio fóra:
Mas olhão-se entre si co’um ar tão meigo,
Lastimoso, innocente, que podéra
Desfazer de piedade a propria morte,
Se o fado não contasse os nossos dias.
Seu Pai, que os adorou, quer inda vê-los,
Lançar-lhes a sagrada, última benção,
Ver seu pranto, gozar dos seus afagos,
Quer chama-los. A voz faltou de todo!
E deixando caír de lado o rôsto,
Soltou da vida o derradeiro arranco.
Ao profundo silencio altos clamores
Succedem n’um momento; e o pranto, e os gritos
Por toda a parte na cabana sôão.
Os meninos confusos se levantão,
Ouvem a nova, attentão no cadaver:
Ouriçado o cabello, o sangue frio,
Pallido o rosto, e vacillante o passo,
Fogem para o jardim, por onde os segue
A imagem de seu Pai, no susto envolta.
Qual o vírão ha pouco, o tem comsigo!
Dos parreiraes as sombras os perturbão,
Vem nos troncos das árvores fantasmas.
Vão buscar o luar do rio á borda;
Mas lembrão-se que ali todas as noites
Passeavão com elle: ésta lembrança
Os torna a perseguir; e em tudo encontrão
De um Pai tão caro o aspéto, que os assusta,
Pela aldêa se espalha a infausta nova,
E parece que a morte em cada casa
Arvorára um trofeo! Domina em todos
A dor, que se desfaz em pranto e gritos!
Dir-se-hia que furioso, insuperavel,
Hia de této em této um vasto incendio.
Depois que um pouco em lúgubres transportes
A dor se evaporou, por toda a parte
Sôão louvores do chorado amigo.
Cadaum lhe encarece uma virtude,
E de cada virtude exemplos contão.
O Justo dorme em paz: mas entretanto
Ninguem dorme na aldêa. Ouvio-se o gallo
Cantar, quando expirou da noite em meio:
Torna o gallo a cantar na madrugada;
E em contínua vigilia discorrêrão
As longas horas, que á manhã precedem!
Torna o gallo a cantar na madrugada,
A aurora quer nascer; enchem-se os ares
De uma luz, que ao luar excede um pouco.
Do ninho suspendido em nossos tétos
A andorinha ja sáe; vôa cantando
Defronte agora das janellas nossas
Para nos saudar, pois entra o dia.
Ja dos ceos pelos flúidos espaços
Circula a cotovía, que não cança
No longo canto, ou desmedido vôo:
Ja o rumor das arvores e fontes,
Que da noite na paz costuma ouvir-se,
Vai fugindo com as trémulas estrellas;
Torna a alegria ao mundo, e ao campo as cores:
Mas a alegria d’entre nós he longe,
Os campos todos para nós tem luto.
Ja se ouvem resoar da aldêa as portas;
Ja sáe, ja se reune o povo inteiro.
O ar de meditação domina em todos,
Todos trazem de pranto rociadas
As recentes grinaldas, que tecêrão.
Em plantas aromaticas envolto,
Do alvergue, ha pouco seu, la vem saindo
O deplorado amigo: ao caro pêzo
Submettem quatro os hombros vigorosos.
Bençãos, bençãos ao Justo, em cujo aspéto
Por entre a pallidez inda ressumbrão
Mansa innocencia, affétos generosos!
A lenta marcha á turba consternada
Rompem com baixo tom sonoras flautas,
Que de triste alverôço o peito agitão.
Apôz ellas, o funebre cadaver
Dos Anciãos vai precedendo á chusma.
Estes, fronte inclinada, olhos em terra,
Vão suspirando, e a vista lacrimosa
Lanção de quando em quando ao doce amigo,
Que os precedeo na regiáõ da morte.
Em seguida, modestos se confundem
Os mancebos, de teixo coroados,
Co’as bellas raparigas, que parecem
Mais formosas co’a languida tristeza:
Elles cantão em côro aos longos echos
O como a quanto existe abrange a morte;
Ellas em tom mais doce a voz levantão,
Para mostrar como a existencia curta
De prazeres doirar-se ao menos deve.
Vão depois os meninos innocentes
De ambos os sexos em confuso bando:
Levão em suas mãos para o sepulcro
Pequenas oblações; pomos, e flores,
Taças de leite e mel, de vinho e d’agua
Tomada em fonte viva antes da aurora,
E de barro thuribulos não grandes.
Ja se chega ao lugar sagrado á morte:
He um valle sombrio, onde se abração
Mil arvores diversas, onde habitão
Meigas filhas do ceo, canoras aves:
Reveste fresca relva a terra fria,
Pallido musgo os carcomidos troncos.
Aqui frescos favonios adejando
Pelas folhudas grimpas, docemente
Só se ouvem suspirar: aqui mais terna
Derrama a aurora o pranto matutino;
Mais terna geme e rôla; e mais delirios
Na alma gera o luar por estes campos.
He fechado o lugar de mil rochedos,
Por onde algumas fontes se derivão
Com tacito rumor, que inspira os sonos:
Pelas profundas, tenebrosas grutas,
E sôbre os agudissimos rochedos
Crê-se ver e escutar sagrados manes,
Em frouxa voz, que as auras assemelha,
Cantando os gostos da passada vida.
La não geme a coruja, ou pia o mocho:
Reina em vez do terror branda saudade,
Terna melancolia, encanto, enlêvo
Dos corações, das almas bem nascidas.
Que estrondo he este pelo chão de morte?
São as férreas enchadas, que se alternão
Para formar do eterno sono o leito.
Agora cresce a dor na despedida.
La chega, la se arroja, la se esconde
Da Mãi universal no seio um filho!
“Paz ao homem de bem!” dizem de roda
Os velhos, e retirão-se chorando.
“Leve te seja a terra!” os moços gritão,
E partem derramando-lhe folhagem.
Chega a turba infantil, seus dons off’rece,
E vai juntar-se á multidão, que torna
Aos trabalhos de novo á sua aldêa.
Mas ah! qual d’entre nós terá primeiro,
Caros amigos, de fechar seus dias?
Quaes choraráõ no tumulo silvestre!
Talvez eu vos preceda, e vá saudoso
Ver na Tenárea porta o Cão trifauce,
Na Estige nebulosa a barca horrenda,
E do Elisio paiz os gratos campos,
La onde os vates do universo inteiro,
Ja Numes, em republica se unírão.
Mas não pensemos n’isto: he Maio agora
Que devemos cantar: nós o jurámos.
Recomponde na fronte as vossas c’roas;
Ergamo-nos, enchei de vinho as taças;
E ante o Ceo, ante a Lua, que nos ouve,
Entre os Favonios, e as formosas Ninfas,
Que escondidas nas ondas nos rodêão,
Saudemos novamente o alegre Maio,
Jurando que desde hoje em nossas liras
Ha de escutar cada anno os seus louvores.
Ó Maio, eu fallo; escuta-me. “Por este
Licor de Bassareo, que me arrebata;
Pelos Filhos gentís da branca Leda,
Que pela mão a nós te conduzírão;
Por tuas flores, com que estou soberbo;
Por tuas fontes, zéfiros e bosques;
Por teu ceo graciosa; e por ti mesmo;
E pela tua amiga, a minha Musa,
Juro de consagrar emquanto viva,
Todo o teu mez ao teu louvor, e ás festas.”
FIM DA FESTA DE MAIO.
NOTAS
á
Festa de Maio.
CANTO I.
[Pag. 204.] verso 4.º
Das Filhas de Nereo a mais formosa
Foi Galatéa candida e rosada.
Como das bagatelas que forçadamente tenho semeado por alguns d’esses Jornaes, que he o mesmo que escrever em folhas e atira-las ao ar, algumas haja que não mereção de todo perder-se, estas me pareceo i-las recolhendo a meus livros, por qualquer modo que fossem achando cabida, para não ser como a Sibilla de Cumas, que em uma vez se lhe desmandando com os ventos as folhas que tinha escritas, ja para sempre tirava d’ellas o sentido: neo ponere in ordine curat. Por isso traslado do Num. 3 do Jornal dos Amigos das Letras, todo o seguinte Artigo[15].
Antonii Feliciani de Castilho,
GALATEA: CARMEN.
Advertencia Preliminar
O fragmento latino que se vos offerece, sob o titulo de Galatea, he huma tentativa e nada mais: e quem mo quisesse haver a ostentação, não só mostrára quam pouco me conhece, mas ainda com atrocissima injúria me aggravaria. Discorridos são hoje mais de dez annos, depois que, desejoso de refrescar lembranças de conhecido com as Romanas Musas companheiras e alegria de minha infancia, me dei ao passatempo de metrificar em latim, ja os pensamentos que primeiros me occorrião, ja algum episodio de minhas proprias obrinhas; sendo assim, que esta fabula de Galatea a trasladei do Poema da Festa de Maio, no meu livro da Primavera. Sei bem que não ha hoje, e especialmente por cá, leitores para o latim, sendo a final chegado o prazo de, com razão e sem o mínimo escrupulo, se poder chamar tal lingua morta e enterrada: sei mais que, inda mal, não respondem estes meus versos ao que eu anciára que elles fossem, e nem valem mais que uma boa parte dos ahi impressos na custosa Coléção de Poetas do nosso Padre Reis; e com tudo, a despeito d’estas duas tão fortes razões, e tão valentes para me deverem dissuadir, convim em que tão pobre couza se désse á estampa. Será, segundo muitas vezes se escreve em Prologos, para incitar engenhos a fazerem melhor? não. Pois será, como tambem em Prologos se usa de escrever, para que os Aristarchos me ensinem o que, o como, e o por onde devo corrigir e melhorar? menos; que não sei eu de um só que se hoje occupe com semelhantes vaidades. Como por tanto me livrarei da desmerecida taxa de presunçoso? confessando, como tambem em Prologos se costuma, mas d’esta vez com verdade, que o faço por obedecer a dezejos de pessoa, com quem muito me importa estar em tudo bem.
GALATEA
Carmen, ex Lusitano Latine redditum.
Assiduis, juvenes, proscindite flumina remis,
Dum vacat et picto lœtos juvat ire phaselo;
Intereaque meo vestrum fallente laborem
Carmine, Romanas percurram pollice chordas.
Nereidas inter quondam pulcherrima Nymphas
Nympha fuit Galatea maris: cui lilia mixtis
Ore rosis, flavæque comæ, roseique labelli,
Cæruleoque oculi placido fulgore micantes,
Et sinus albenti in scopulis albentior unda,
Qualem nec Paphiis habuit quæ regnat in arvis.
Tertia postdecimam vernantia tempora brumam
Floruerant, postquam vitali vescitur aura
Nympha; nec in terris, aut cœlo, aut æquore toto
Est quæ formosis ausit contendere formis.
Multi illam juvenes, multi petiere deorum,
Undique blanditiis et laudibus insidiantes,
Nulli illi juvenes, nulli placuere deorum.
Hanc pater undisono sub gurgite in antra vocavit,
Amplexumque dedit, tremulisque sedere coegit
In genibus, tales fundens post oscula voces:
“Filia, tempus adest pueriles linquere ludos.
“Non te pulchra latet, qua subjicis omnia, forma;
“Tene latet quantis fugiendi viribus, instant
“Qui toties, laudesque ferunt, gressusque sequuntur?
“Crede patris canis et amori crede paterno;
“Quò plus obsequiis, quò plus sermone placebunt
“(Parce seni juvenem patri non grata monenti)
“Hóc magis incautæ protendent retia formæ.
“Filia, tempus adest pueriles linquere ludos:
“Sit tibi cura meos posthac delphinas in undis
“Pascere, perque salum deformes ducere phocas;
“Non bene pigra tuis ignavia convenit annis.”
Dixit: et e patrio discerpta coralia ponto,
Cuspide inaurata, pastoria munera, virgam
Tradidit, atque pecus natæ commisit habendum.
Est virides inter, Nereus quibus imperat, undas
Valle locus tuta, nec divo pervius ulli,
“Hic maneas, dixit, te sæpe deinde revisam.”
Arrisit, natamque pater sine teste reliquit.
Haud semel ignifero radiarant lumine currus,
Phæbe tui, dum lœta pecus Galatea marinum,
Gurgitis inter opes, viridanti paverat alga.
Interdum æquoreis linquens armenta molossis
Ibat, et in calathos modo tinctas murice conchas,
Et modo lucentes baccas contenta legebat.
Ver erat, et pictos zephyris mulcentibus agros,
Mense renidebat tellus lætissima Majo;
Aureus in liquidæ Sol brachia Thetidos ibat.
Deserere ima maris, solum conscendere littus
Ausa fuit virgo, non sic reditura sub undas.
Summa petens scopuli viridi sub rupe recessit,
Unde fretum, terrasque lubens circumspicit omnes.
Hic sedet, et pascens animos novitate locorum,
Miratur, facilesque oculos fert omnia circum.
Ut mediis vidit formosum fluctibus Acin
Æquora jactatis tranantem cana lacertis,
Versibus abstinuit, versus nam forte canebat;
Erubuit, turbata silet, suspiria ducit;
Nunc subeunt jussus, subeunt hortamina patris;
Jam cupiat tutis fugiendo immergier undis,
Nec potis est cupiens, et littore perdita inhæret:
Nunc libet et tacito cautæ latuisse sub antro,
Donec arenoso mutarit littore fluctus
Discedensque puer securam liquerit oram;
Pænitet inde fugæ, sistit, mavultque videri.
Corpora, cæruleas inter candentia lymphas,
Quam numeris perfecta suis! quam fortia pulsis
Devectantur aquis! quam multa est gratia nanti!
Quam bene suffuso sua membra liquore teguntur,
Quam bene disperso nudantur eburnea ponto!
Cuncta tenent oculos, in cunctis Nympha moratur.
Interdum propius sensim vestigia ponit,
Nec propiora tamen fieri vestigia sentit.
Queisque prins sparsis volitaverat aura capillis,
Nescia cur fingat, vel collo dividat apte,
Dividit illa tamen, studioque indulget inani.
Hinc littus petit, ac vultus speculatur in unda,
Et quanquam ipsa sibi pulcherruma tota videtur,
Pulchrior exoptat fieri, frustraque laborat.
Interea juvenis, jam fessus nasse, redibat,
Et prope jam fulvas manibus tangebat arenas:
Illa fugit, trepidatque, et rupe reconditur ima.
Hic latet, et votis contraria vota rependens,
Nunc patris hortatus, et nunc reminiscitur Acin,
Et rubet, et pallet, nec vultibus hæret in isdem.
Haud mora: nudus adest, antrumque Simethius intrat
Acis, ut abjectas repetat sub tegmine vestes.
Quid remi cecidere, quid ó cessatis amici?
Nonne retro refugisse ratem, dumque ora tenetis,
Aversam in portus sentitis abire relictos?
Instaurate opus, ac totis incumbite remis:
Quó pœnas detis, dictis nihil amplius addam.
CANTO II.
[Pag. 237.] versos 15 e 16.
E que? algum de nós contra o que vive
A questão, se sim ou não se ha de o homem alimentar de substancias animaes, tem sido muitas vezes, e com oppostas sentenças, debatida por filosofos, poetas, naturalistas e medicos. A affirmação e a negação achárão para argumentos ja uso e consenso de povos em todos os tempos, ja razões intrinsecas tiradas de nossa propria conveniencia. He assunto que requeria larga escritura, e em que a qualquer seria facil dissertar eruditamente. Voar-lhe-hei pelas summidades.
Aquella vaga tradição, que em toda a parte permanece, de uma primitiva idade do mundo innocente e felicissima, entre as couzas de que reza, aponta sempre o não se comer de animal algum, senão só de frutas, hervas, leite e mel. De outro modo se não podião sustentar, conforme parece pelo ancianíssimo Genesis, os moradores do Paraizo, não só homens, porem todos os viventes. Quadrava o preceito e toava o uso pelo menos á humana natureza, que ainda agora, se a bem espreitarmos na infancia, ou antes de alterada por contrarios habitos, se afflige e revolve com o aspéto do sangue e morte. Verdade he, que depois da queda de nossos primeiros pais, nem o Testamento velho nem o novo, tornão a prohibir as carnes; mas toques da mesma nativa compaixão para com os animaes não lhes faltão, dos quaes pelo menos se deduz por bom discurso, que se os tivermos de comer, ainda ahi nos devemos haver com a possivel mansidão, poupando cruezas escuzadas, como são, e se costuma, atormenta-los na agonia por lhes refinar o sabor, caçar, montear e pescar por passatempo e pelo mero gôsto de malfazer. Lê-se nos Proverbios, segundo as versão dos Setenta: Justus miseretur animas jumentorum suorum; viscera autem impiorum crudelia.—O que justo fôr ha de se apiedar da condição dos seus brutos; mas as entranhas dos impios não se apiedão da nenhuma couza.—No Exodo: Non coques hædum in lacte matris suæ.—Não cozas o cabrito no leite de sua mãi.—He dito para ser ruminado, pelo mimoso do afféto que recende. No Deuteronomio: Si ambulans per viam, in arbore vel in terra nidum avis inveneris, et matrem pullis vel ovis desuper incubantem, non tenebis eam cum filiis sed abire palicris, ut bene sit tibi, et longo vivas tempore.—Se o acaso te deparar no caminho, quer em arvore quer no chão, um ninho de ave, e a mãi estiver a agazalhar os filhos ou os ovos, não a tomes com os filhos, senão que em boa hora a deixes ir, para que boa estrêa te venha, e vivas largos annos.—
Entre os Santos Padres, que são os depositarios e dispenseiros do espirito christão, alguma couza se podéra citar que autorizasse este genero de piedade. Sabida he a de que usou S. Anselmo, uma vez para com uma lebre, outra para com um passarinho. Tertulliano se maravilha de que entre christãos, os haja que se accommodem a ser carniceiros: nescio an dolendum an erubescendumn sit;—não sei, diz elle, se mais he para se haver lástima, se vergonha. S. João Chrisosthomo escreva, que se não podia ser santo sem uma estremada suavidade de affétos, e muita vehemencia de bem querer, não só aos nossos, mas ainda aos estranhos, em tanta maneira que até aos brutos animaes abranja essa mansidão. (Homil. 29. na Epist. ad Rom.) E dizia bem, que nas vidas de não poucos santos resplandecem as provas. S. Francisco de Assiz resgatava os cordeiros que hião para o córte, pagava e soltava as redadas dos peixes e os viveiros das aves. Mas não apontemos mais, por não enjoar filosofos, digo filosofos de nossa terra, dos que nos assoalhão filosofia de torna viagem, porque os lá de fóra ja deixarão muito para traz a impiedade.
Não he porem necessario ser christão, senão que basta ser homem, para repartir com os brutos do thesouro da charidade, de que muitos d’elles usão a seu modo, não só para com os seus, mas para comnosco. Sendo assim que onde os não maltratão, são elles de indole muito mais benigna: em Inglaterra, segundo se diz, nem ha cão que ladre, nem besta que escoucinhe: em não sei que ilha dezerta, acharão os primeiros descobridores, em aportando, (segundo encontrei na Escolha de Viagens por John Adams) serem tão cortezes as aves de que toda era chêa, que não fogião dos novos hospedes, antes os festejavão e se deixavão pôr a mão; semelhantemente ao que da ilha das Garças aponta João de Barros Dec. 1 Liv. 1 Cap. 7, aonde “como não erão traquejadas de gente (as garças e outras aves), ás mãos tomarão (os marinheiros de Nuno Tristão) tanta quantidade d’ellas, que ficou por refresco ao navio.” Dos leões he corrente entre os naturalistas não perseguirem, mas esquivarem-se dos perseguidores, embrenhando-se cada vez mais pelos seus sertões adentro, sendo alias mui leves de domesticar, e folgando de acompanhar, como rafeiros innocentes, a trôco de qualquer esmola de pão, por largo espaço de leguas. Muitas são em toda a parte, mormente em Africa, as serpentes, que namoradas do bom gazalhado, trocão seus matos pelas pouzadas humanas, e n’ellas se hão como boas comadres da familia. O cavallo do Arabe he o contubernal e primeiro amigo de seu dono: um bom Arabe na morte do seu cavallo deveria de se expressar pouco mais ou menos como Millevoye o suppoem na Elegia. Muitos prezos tem logrado domesticar aranhas e ratos, até o ponto de, no meio das asperezas de um segredo, se poderem esquecer por muitas horas do seu desamparo, crueldades e injustiças humanas. No páteo da rezidencia parochial de S. Mamede da Castanheira do Vouga, todos os dias a horas certas viamos acudir ao almoço e cêa que ás nossas pombas desparriamos, todos os passarinhos da vizinhança, que ja traziamos tão correntes, que nos vinhão comer aos pés, por saberem (porque os brutinhos sabem muito mais do que nós outros cuidâmos) que n’aquella cazinha da solidão moravão amigos seus, e nunca terem ouvido tiro, nem enxergado rede no pequeno arredor do templo e passaes solitarios.[16] Se a tudo isto e a muitos outros exemplos se lançar conta, alguma verdade se achará no affirmarem poetas, que no discaír da idade de oiro, ao mesmo tempo que se os homens corromperão degenerando em crueis, se forão as feras tornando bravias e desabridas.
Em todos os tempos, e até por fóra e mui longe d’esta religião charidosa, houve quem bem entendesse como entes nossos conterraneos n’este orbe, irmãos nossos em viver, sentir, padecer e acabar, com sangue e coração como nós, com amor, prazeres e filhos como nós, bebendo como nós no immenso vaso do pai commum o mesmo ar, a mesma luz, as mesmas aguas, e comendo comnosco á mesma mesa do universal banquete, poderião quando muito servir-nos de pasto; mas fóra d’ahi, qualquer injúria que se lhes accrescentasse, seria hortorosa profanação e violação da natureza. Plutarcho e Quintiliano referem, que os Athenienses castigarão severamente algumas sevicias commettidas contra animaes. O Alcorão espalhou por todos os povos, que largamente senhorea, muita d’esta benignidade: raro Mahometano deixará de matar a fome ao cão de seu inimigo. Na China passa esta beneficencia muito adeante. Que no-lo diga em seu estilo chão o nosso Fernão Mendes, ou talvez o Jesuita que em seu nome, e por um modo tão rijo de crer, compilou tantas e tão preciosas noticias do Oriente, mui desacreditadas em tempo, ja hoje em parte mui abonadas de verdadeiras. Padre ou marinheiro, diz assim: (falla de uma feira que no rio de Batampina, em caminho de Nanquim para Pequim, se faz com mais da duas mil ruas de barcaças, nas quaes ha para vender tudo a que no mundo se pode pôr nome.) “Ha tambem outras embarcações em que os homens trazem grande soma de gayolas com passarinhos viuos e tangendo com instrumentos musicos dizem em voz alta á gente que os ouve, que libertem aquelles cativos que são criaturas de Deos, a que muita gente acede a lhes dar esmola com que resgata daquelles cativos os que cada um quer e os lança logo a avoar, e toda a gente dando hũa grande grita lhe diz, pichau pitanel catão vocaxi, que quer dizer, dize lá a Deos como cá o servimos. Ha outros homens que noutras embarcações trazem grandes panellas cheyas de agoa, em que trazem muitos peixinhos viuos que tomão nos rios nũas redes de malha muyto miudas, tambem pela mesma maneira vem bradando que libertem aquelles cativos por seruiço de Deos que são innocentes que nunca peccarão, a que tambem a gente dando sua esmola, comprão daquelles peixinhos os que querem e os tornão logo a lançar no rio, dizendo, vayte embora, e lá dize de mym este bem que te fiz por seruiço de Deos. E estas embarcações em que estas cousas se trazem a vender não se hão de contar por menos soma que de cento e duzentas para cima.”
Na India são n’esta virtude extremosissimos. Alguns viajantes tanto encarecem a couza, que chegão a affirmar haverem por lá, ainda no seculo passado, hospitaes para as mais asquerosas sevandijas, como piolhos, pulgas e persovejos.
Pôsto que tudo quanto até aqui tenho trazido, possa parecer uma diversão do principal propozito, não o he, por quanto d’estes misericordiosos affétos he que se tem em parte derivado a abstinencia de carnes, observada por muitas pessoas, communidades, seitas e povos: em parte digo, porque em outros diversos fundamentos tem tambem estribado, como veremos.
E pois que a ultima que tocámos foi a India, a ella tornemos, levando por explorador e lingua, não algum estrangeiro, de que outros se contentão mais, mas um patricio nosso, dos varios que para tal officio se podérão tomar: he Duarte Barbosa, e diz:
“Ha neste regno (de Guzarate) outra sorte de Gentios, que chamaom Bramanes, estes nom comem carne, nem pescado, nem nenhũa cousa que mora, nem mataom, nem menos querem uer matar, por asy lho defender sua idolatria; e guardaom isto em tamanho estremo que he cousa espantosa, porque muytas uezes acontece leuarem-lhe hos Mouros bichos, e pasarinhos uiuos, e fazerem que hos querem matar perante eles, e estes Bramanes lhos compraom e resgataom, dando-lhe por eles muyto mais do que ualem, por lhe saluarem has uidas, e soltalos. Se tambem El Rey, ou ho gouernador da tera, tem algũu homem, porculpas que cometese, julgado ha morte; ajuntamse eles, e compramno ha justiça, se lho quer uender, pera que nom mora; e tambem algũus Mouros pedintes, quando querem auer esmola destes, tomaom muy grandes pedras, e daom com elas emsima dos ombros e barigas, como que se querem matar perante eles, e porque ho nom façaom, lhe daom muytas esmolas, e que se uaom em pas; outros trazem faquas, e daom-se cõelas cutiladas pelos braços e pernas, e pera se nom matarem lhes daom muytas esmolas; outros lhe uem has portas ha querer lhe degolar ratos e cobras, ha hos quaes eles daom muyto dinheiro por ho nom fazerem, e desta maneira saom dos Mouros muy apreciados: estes Bramanes se achaom no caminho algũu golpe de formiguas, aredam-se buscando por honde pasem sem bas pisarem. E em suas casas de dia çeaom; de dia nem de noyte acendem candea, per caso de algũs mosquitos nom irem morer no lume da candea; e se todauia tem grande necesidade de acenderem de noyte, tem hũa alenterna de papel ou de pano agomado, pera cousa nenhũa uiua poder ir morer dentro no fogo; se estes criaom muytos piolhos, nom hos mataom, e quando hos muyto aqueixaom mandaom chamar hũs homeins que antre eles uiuem, que tambem saom gentios, e eles hos haom por de santa uida, e saom come irmytães, uiuendo em muyta abstinença por reuerencia dos seus Deoses; estes hos cataom, e quantos piolhos lhe tiraom poemnos em suas cabeças, e hos criaom com suas carnes, em que dizem fazerem muy grande seruiço ha seu Idolo, e asy guardaom hũus e outros com muyta temperança ha ley de nom matarem: estes Gentios saom muy delicados e temperados em seu comer; seus manjares saom leites, manteiga, açuquar, e aros, e muytas conseruas de diuersas maneiras; seruem-se muyto de cousas de fruyta e ortaliça, e deruas de campo pera seus manjares; honde quer que uiuem tem muytas ortas e pomares.”
Na Historia de Mysore, lê-se que em Bengala, quando a violencia da fome a devastou em 1774, consumindo-lhe obra de trez milhões d’almas, forão em muito grande numero os Indios que antes quizerão deixar-se morrer á mingoa, do que acabar comsigo comer carne de animaes.
Frequente e antigo he na India este antojo, e tão notorio, que não ha porque afogar o discurso com mais exemplos. Bem podia proceder isso em parte da vegetavel abundancia e espantosa cultura d’aquellas terras, e de alguma especial compleição do clima, ou natureza ou costumes dos moradores, ou algumas outras circunstancias, segundo as quaes os corpos se dessem melhor com os pastos leves e frugaes: viria depois a religião consagrar por dogmas seus os conselhos da higiene, como com vinho, toucinho e abluções aconteceo em muito oriente á conta da lepra: para melhor incutir o preceito, cerca-lo-hia de fabulas amigas da imaginação do vulgo, como a encarnação dos Deozes em corpos de brutos, e a transmigração das almas humanas por differentes sortes de viventes até parar na vacca; materias estas de que as historias e perigrinações fazem larga menção. Dos Indios podérão tomar por mão a crença os Egipcios, os quaes, sendo moradores de solo não menos liberal, devião tambem perdoar grandemente aos animaes, em quem reverenciavão suas Divindades, ou santuarios ambulantes que d’ellas forão: e confirma-me na suspeita a conveniencia, que ja de alguem deverá ter sido notada, do boi Apis do Egito com a vacca ainda hoje sagrada dos Indios. Do Egito provavelmente trouxe Pithagoras para a Italia, em tempos de Numa ou Servio Tullio, a sua metempsícosa com a defensão do uso das carnes. Não pegou a invenção, se não foi em alguns escolares fanaticos de tamanho mestre; e nem filosofos pelo tempo adeante a sustentarão, nem poetas se valerão d’ella, afóra Ovidio nas metamorfoses, e só como narrador; e mais não deixava de ser fecunda e bem assombrada crença para poesias. Não pegou, porque não vinha propria á indole do solo ou ao temperamento dos Italos, ou, o que he mais certo, porque encontrava os antiquissimos usos de umas gentes, que primeiro tinhão sido pastoras e depois guerreiras.
Na Ilha da Palma, acharão os nossos, quando descobrião, conquistavão e amansavão aquelle archipelago, (senhorio traspassado depois em Castella, mas padrão glorioso do nosso Infante D. Henrique) serem mantimento dos moradores hervas, leite e mel.—Com este particular exemplo me acóde a memoria, mas alguns outros semelhantes de outras ilhas me parece ter achado pelas historias, de que me não ficou nem fiz a lembrança preciza.
Com a propagação da fé christã renasceo religiosa a abstinencia na Europa, por motivo não de brandura, mas de mortificação. Apparecerão Ordens numerosas de religiosos, primeiro só de homens, logo tambem de mulheres, que renunciando todos os carnaes deleites para melhor apurarem os do espirito, tomando o exemplo dos primitivos eremitas que se abastavão com as hervas, raizes, frutas silvestres, e aguas dos montes, não só cortarão pelas demazias na quantidade do sustento, não só o estreitarão com regra de jejuns, mas em varios de seus institutos o expurgarão de todo animal terrestre ou volatil, não consentindo, quando muito, senão em algum marisco secco e fraco, para regalo das festas. E he para notar como ainda os mais rígidos observantes logravão saude inteira e robusta, e chegavão ao ultimo fio da velhice: mens sana in corpore sano.
Annos ha que me recordo de ter achado em uma Gazeta de Lisboa, estar-se creando em Manchester uma seita, que por filosofica defendia tomar qualquer sustento animal. Era noticia de Gazeta, não affirmarei que tivesse pé, e se o teve, não sei em que parou.
Ja que estamos com Inglezes, fallemos de Franklin. Este homem, a quem a probidade e o juizo fizerão filosofo e liberal, e não a devassidão e o estouvamento, tendo lido, di-lo elle, o livro em que Tryon recommenda a dieta vegetal, determinou-se em a observar. Pô-lo por obra, e limitando-se em arroz e batatas, e ás vezes ainda em menos, como passas, bolaxa ou pão, com uma gota de agua, não só forrou do seu salario (era ainda então compositor de imprensa) com que poder comprar livros, mas do seu tempo acerescentou para estudos o que as refeições e digestões lhe podérão consumir: fez progressos proporcionados á clareza de ideas e fortaleza de percepção, que são o fruto da temperança no comer e beber. Seguio constante por algum tempo, não pouco, até que chega á ilha de Block, assiste a uma pesca, revolvem-se-lhe nas entranhas as maximas do seu Tryon, dá por genero de assassinio aquelle matar viventes, que nem tinhão feito nem erão capazes de fazer o mínimo mal. Poem-se os mortos ao lume, recende o guizado; o filosofo no seu tempo gostára apaixonadamente de peixe; entra pelo nariz a tentação, estremece a filosofia, e em boa hora lhe acode com uma bulla de composição, lembrando-lhe como ao abrir e limpar d’aquelles peixes, lhes víra dentro do buxo outros peixinhos mais pequenos. “Pois que he isto, diz elle entre si, se vós uns a outros vos comeis, porque não hei de eu tambem comer-vos a vós?” N’essa hora e com esta palavra se lhe quebrou o fadario; o que muito bem prova, acrescenta o bom homem, sermos nós animaes racionaes, sabendo, como sabemos, achar pretextos plausiveis para quanto nos póde dar gôsto.
Outro autor muito afamado de nossos dias, Raynal, era igualmente sobrio. A Senhora Marqueza d’Alorna, que muitas vezes o teve a jantar, me contou, que nunca o víra comer mais que algumas poucas hervas e fruta, nem beber senão agua. Era, observava ella, como um conviva das Ninfas, custando a crer como com aquellas refeições de idillio se podessem sustentar tantos nervos d’alma e de pensamento.
Se depois de autores de livros se póde citar quem não sabe ler, em Grada, lugarejo da Bairrada, vivia um moço que eu conheci, o qual nunca provára vacca. Perguntado a causa, não era religião, nem filosofia, nem tedio natural, mas effeito de um vehementissimo e entranhado amor que tinha aos bois, com quem se creára, com quem vivia, lavrava, e dormia paredes meias. Rústico era, e sem o cuidar discorria e fallava como o Sabio de Cheronea, quando dizia, que por tudo quanto o mundo tinha, não venderia nunca o boi que em seu serviço envelhecêra.
Afóra os monges, filosofos e amigos dos bois, ha ainda uma grande quantia de homens, puro comedores de vegetaes em quasi todo o anno: são os moradores das serras e aldêas pobres, a quem a estreiteza de sua fortuna mal dá licença para chegarem á carne por entrudo e paschoa, e poucas mais vezes e só escassissimamente, ao pescado, vizita mui rara em terras mesquinhas do sertão. De choupanas sei eu, e quasi de inteiros lugares, pelas abas da Serra do Caramulo, onde oito annos vivi, que de pouco mais se sustentão que do pão de centeio e milho, batatas e alguns legumes: e estes asperissimos banquetes, em que até pelo demais fallece o agro vinho verde de seus montes, trazem-os comtudo mais rijos e sãos no trabalho, do que as grandes ucharias aos mimosos das cidades.
Acabarei estes exemplos com o que melhor conheço, que he o meu. Quando eu compuz estes versos da Festa de Maio, era como ja no Ante-Prologo disse, todo Gessnérico: trazia a alma toda a nadar no coração empapado com os mais brandos affétos do mundo, como rosa a boiar em vaso de leite: amava as plantas e tratava com ellas como com entes sensitivos; todos os entes sensitivos amava-os como amigos e companheiros: tinha fantasia pronta, que muito ajuda em todo o genero de bem querer; esta me revelava de contínuo e me ataviava de suas fabulas e côres a particular vida e cheíssimo mundo de cada inséto; e porque esse seu mundo e vida dizia tanto com o meu, e o commum de seus substanciaes interesses com o commum dos substanciaes interesses dos homens, acontecia que imaginando-me ora grilo, ora passaro, ora borboleta, tinha aprendido uma perfeita, e se dizè-lo posso, egoista charidade para com todos elles. Ouvi debater a questão do uso das carnes: as razões affirmativas podião ter mais fôrça, mas as negativas dizião com o meu gôsto; he meia persuasão; caírão-me tão bem, que logo me dei, se não por convencido, por persuadido: e como persuadido e convencido escrevi os versos, que por isso aos indifferentes se de contrária sentença, devem parecer, como em verdade são, sobejos, exagerados e declamatorios.
Era o escrito fruto de minha opinião; mas esta, como accontece, se roborou por elle, e até tal ponto se confirmou, que do que até alí não passára de poetica theoria, instituí fazer prática minha em toda a vida, renunciando qualquer genero de alimento animal. Por duas vias se fazia de mal o tenta-lo, ja porque em couza tão excetuada do geral não deixarias de caír estranhezas e zombarias, ja porque tanta sobriedade entre quem a não usava, era genero de martirio continuamente renovado. Mas contra estes dois contrastes prevalecião outros dois argumentos: primeiro, minha consciencia, que repugnava banquetes de sangue: segundo, o presuposto em que estava, de que as faculdades da alma se havião de adelgaçar e crescer onde o corpo fosse favorecido da parcimonia. Metti-me Pithagorico aos vinte e trez d’Agosto do anno de 1822, tendo sido gastos os mezes, que desde a feitura do poema decorrerão até esse, em acabar de me resolver e aparelhar para tão grande façanha; e permaneci na observancia do voto até vinte e trez d’Agosto do seguinte anno. Acabei o noviciado, e em lugar de professar, despedi-me. Tive minhas razões; e ainda que pouco se me havia de dar agora do que se podesse dizer ácerca de um indivíduo, que n’esse tempo tinha o nome que eu hoje tenho, e do qual, segundo as theorias dos medicos, não conservo hoje uma só particula, sendo eu um, vivo e junto; elle outro, morto e disperso por todo esse mundo: todavia, porque ainda temos commum um leve som, que he o nome, quero lançar pontualmente na balança do juizo dos meus leitores os seus porques; e bons ou máos, forão estes.—Primeiro: que a abstinencia de uma só pessoa não poupava uma unica existencia de animal. Segundo: que era presunção ridicula o desquitar-se um sujeito, por alguns argumentos, de uma opinião e uso quasi universal, sendo assim que todos os homens, guerreando-se entre si por crenças religiosas, por sisthemas filosoficos, por principios de política e sciencias, por modas e gostos, todos se conformavão no comer das carnes. Terceiro: que realmente era obstinação o desconhecer como a natureza nos não aparelhára só para comer e digerir vegetaes. Quarto: estar-nos ella dando nos proprios animaes, que uns de outros se sustentão, uma prova de ser menos escrupulosa do que Pithagoras e a poesia. Quinto: que ella propria os multiplica á proporção do que uns a outros devem tragar. Sexto: que se ella faz com que cada passada, cada pedra que movemos, cada gota de agua que engolimos, cada fruto ou folha que aproveitamos, cada sôpro que inspiramos ou expiramos, cada movimento emfim que fazemos, ainda dos mais indispensaveis para a vida, a destrua a milhões e milhões de entes conhecidos, e a numero talvez ainda maior de desconhecidos, não ha porque nos tenha a grande peccado, o aumentar-mos por nosso bem a lista com mais algumas unidades. Setimo: que o adelgaçamento e crescimento de minhas faculdades intelletuaes que eu esperára d’aquella mais leve nutrição, não só se não tinha verificado, mas antes o contrário succedêra, pôsto que de diversas causas podésse pender o successo: e por muito tempo me ficou o costume de, quando via versos fracos e desengraçados, dizer: Devião estes de ser compostos por quem não comia senão hervas. Outavo, ultimo, e não leve motivo: que ainda que pouco dado ás delicias da gula, o cheiro e presença de melhores iguarias do que as minhas, de dia em dia me tentava mais, e quando succedia achar-me entre gente alegre e em mesa de festa, as ondas de tentação, que eu forcejava dissimular o melhor que podia, crescião e redobravão com os motejos dos circunstantes, que bem poderião ter sal, mas não que adubasse as minhas insôssas hervas.
De todos os varios antecedentes deduzo, que sem embargo das objeções, autoridades e exemplos, o uso das carnes se ha de ter por licito, e por dithirambico o que lá fica no texto: mas que fóra do caso de necessidade ou clara utilidade, e alem do ponto em que essa necessidade ou utilidade pararem, toda a sevicia contra viventes he immoral, injusta, insensata, e digna de muito grande castigo.
E tanto isto assim he, que, porque todo o carniceiro de officio contrahe na alma e nos modos alguma couza de cruento e de tigre, em muitas partes se tem por infame. Em Portugal, nenhum mechanico honrado e de conta acceitaria um tal para sogro ou genro, ainda com grosso cabedal de renda; nem de boca plebea pode saír mais afrontosa injúria que o nome de magarefe. Em Inglaterra não os admittem jurados em causa crime. Na principal ilha das Canarias encontrárão seus descobridores, que os naturaes, com viverem á lei de sua rudeza silvestre, “havião por couza mui torpe esfolar alguem gado, e n’este mister de magarefes lhes servião os cativos que tomavão; e quando lhe estes falecião, buscavão homens dos mais baixos do povo para este officio, os quaes vivião apartados da outra gente e não os communicavão em aquelle mister” (Barr. Dec. 1. L. 1. C. 12.)—Bem hajão os inglezes, que formão sociedades para proteger animaes, e abençoado seja o inglez Deputado Martin, que para lhes fazer bem, se arrosta com os escarneos dos praguentos. Bem hajão os allemães, que em seus campos não perdoão multa municipal aos que, no levar rezes pelos caminhos, as atravessão deante de si na albardadura, ou tolhidamente as apinhoão dentro em carros. E bem haja a nossa Camara, quando conseguir desterrar o escandalo do afrontoso trato que nossos carreiros dão a seus bois, como ja desterrou a atroz e immoral matança dos porcos perante os olhos do povo.
Quero rematar com uma reflexão, que ja acima podéra ter cabido, mas que por dezejar da-la por conselho, e pô-la onde melhor se recommendasse, muito de industria deixei para o fecho. Vai o dito a pais e educadores, a quem toca. Nada importa mais, do que affazer cedo os meninos a uma grande suavidade de costumes: assim foi creado o bom Montaigne. Se os eu tivesse, parece-me que tambem assim os crearia, e bem bons frutos lhes havia de colher na minha velhice. Primeiro que tudo, parece-me que me conformaria com Rousseau em os não alimentar desde o leite senão com vegetaes, por entender como elle, serem estes mais accommodados a suas naturezas, e mais proprios para fisicamente os suavizar e humanar. Mas não quero agora averiguar isto que pertence a medicos; outro he o meu alvo. Não consentíra jamais que presenceassem espetaculos de atrocidades ou injustiça; e quando a minha má estrella lhos presentasse, procuraria afea-los com boas razões, mais de affétos e lagrimas que de raciocinios. As urbanas corridas de touros e as aldeanas festas de alanceamento de pombos, frangos e patos, como couzas antiquissimas e nacional feição, as respeito; mas não levára la os meus tenrinhos, que são mui branda cera para qualquer bom ou máo cunho. Se de alguem lhes fosse insinuada a correntissima abusão de nossos provincianos, de que em casa que devasta ou maltrata os ninhos do seu beirado, tudo vai para traz e de fôrça se ha de aguardar por enterramento, calára-me, porque acho razão a Fontenelle em dizer, que se na mão tivesse fechadas todas as verdades do mundo, Deos o defendesse de a abrir.
Magnànima menzogna, or quando è il vero
Si bello, che si possa a te preporre?
Dar-lhes-hia, da Historia natural poetizada, tanta luz, quanta bastasse para levarem grande interesse nos fados de cada individuozinho que respira: um raio de tal luz póde bastar para pôr fim a muita dureza que provenha de cegueira. Conheci e tratei com um parocho de fóra da terra, que desgostoso de que uma sua fregueza, rapariga nova, não pozesse reparo em maltratar animaes, a chamou brandamente, explicou-lhe como tudo que era nascido devia ter algum entendimento, capacidade para dores e prazeres, parentes, amigos e affeições. Com isto só a fez outra, e tão outra desde essa hora, que onde depois se lhe fazia de mister dar morte a uma pomba ou gallinha, ainda que em seu páteo não forão creadas, ja o coração se lhe confrangia, tremião-lhe os pulsos, e chegada á execução, não corria mais sangue da ferida, que mal acertava, do que lagrimas de seus olhos.—De mim mesmo me parece agora, que se escrevi os versos a que me refiro, e em commenta-los me alargo tanto, e uma e outra couza de tão boa mente, de tudo deve ter sido raiz a creação, em tudo excellente e n’esta parte bem empregada, que meu pai se esmerou em dar a todos seus filhos.
Outra couza fizera eu principalmente; era commetter-lhes o trato e tutela de alguns animaes caseiros, a quem podessem chamar seus. N’este exercicio aprenderião a ser observadores, vigilantes, serviçaes; tomarião com o gôsto da propriedade o amor do trabalho, havendo-se ja por algum modo como pais de familias; costumar-se-hião a acautelar, previnir e amar; tomarião para toda a vida o geito de amparar fracos e desvalidos, e de não ver um qualquer indivíduo, sem logo compor na imaginação a historia completa do seu viver, do seu padecer, do seu precizar.
Da efficacia de tal methodo, e tão simples, e tão formoso, tenho eu uma muito amavel prova de minhas portas a dentro. Uma mulher, toda boa, toda extremosa, tomou unicamente a peito o vingar-me da natureza; cerca-me de contínuo, como um anjo, de amor e de luz; empresta-me olhos para eu ver o mundo e as obras dos seculos; tira deante dos meus passos todos os espinhos no caminho da vida; inventa-me um encantamento novo para cada minuto; diz-me e faz-me entender como a verdadeira felicidade se não compoem de grandes pedaços, mas sim de atomozinhos que de longe se não podem perceber; repete-me e persuade-me que nasci para as Musas e para o amor, e não para a política, nem para os odios, serve-me, vela-me e defende-me como a filho, ama-me como a esposo, zela o meu nome como o de irmão; lançou a sua vida na minha vida, o seu pensamento no meu pensamento; existe pelo meu amor, morreria se lhe elle faltasse. Quem lhe ensinou tão generosa, tão nova benevolencia? quem lhe deo tantos segredos de fazer feliz? as suas aves e pombas, a sua amiga, e alguns livros, unica sociedade da cella, onde desde seus annos verdes a Providencia ma estava guardando e aperfeiçoando[17].
[Pag. 243.] verso 18 e seguintes
O mesmo coração, dezejos, gostos,
Que tem nossas mortaes no peito occultos,
Tem as Ninfas tambem &c.
Por estes versos começa uma torrente caudal de couzas vãs e doidas ácerca das mulheres, e relações dos dois sexos, que ora mais, ora menos turva, se vai alongando até pag. 254. A pezar de se devolver por leito de quasi proza, e por entre margens para meu gôsto mal assombradas, bom seria que por ellas nos podéramos ir detendo a pescar, e a examinar algumas das couzas mais graúdas que vão na chêa: serião questões apraziveis de ociosa filosofia, mas prometti no prologo despreza-las; perdoar-lhes-hemos, deixa-las ir seu caminho. Passem a seu salvo as regras de namorar á antiga; a arte não de amar mas de enredar e colher, como o são quantas com titulo de amar se tem escrito; a poligamia, menos de Mahometano do que de Tupinamba; o divorcio e ulteriores nupcias dos divorciados e divorciadas; a botecuda nudez dos sexos &c. La se avenhão como poderem todas essas puerilidades com seus inimigos, que se de minha Musa nascêrão, muito ha que eu e ella as desherdámos. O meu ponto agora he assentar boas pazes para sempre com as damas. Todas minhas Obras, não só esta, Cartas de Echo, Amor e Melancolia, Noite do Castello, Ciumes do Bardo, me devem ter perante ellas representado cavalleiro descortez de desleal poesia. Tempo he de mudar de cores, abjurar o erro, e para merecer o perdão, que ellas de puro boas concedem antes de pedido, romper lanças em favor de sua fama, não só contra inimigos, se os podem ter, mas contra mim proprio, pelas ter aggravado. He uma Nota estreita arena para tão singular duello: mas embora, que para outro dia e campo desafiado fica o eu mancebo desatinado e altivo d’outro tempo por mim grave, reflexivo e respeitoso; o eu versejador por mim pensador; o eu academico e solteiro por mim cazado e recolhido: emfim por mim conhecedor do terreno do combate o eu ignorante d’elle, a cuja face ja n’esta hora arremésso a luva, e lhe digo “Mentiste, e mercê de Deos e de minha Dama, provar-to-hei.” Mas pois que he forçado ficar para outro dia a pendencia, aqui não farei mais do que um pouco ensaiar-me para ella, campeando soltamente e esgremindo nos ares.
Nenhuma couza tem sido mais experimentada no mundo e mais vezes definida que o amor, nenhuma ha tão mal e imperfeitamente comprehendida como o amor. Fallo do amor dos homens, unico de que os homens podem fallar: o das mulheres he ainda mais incomprehensivel, e certamente muito mais espantoso, quando verdadeiro. O que pretende dar regras de amar, como alguns outros fizerão antes de mim, e como eu proprio supponho que pretendi, assemelha-se ao astronomo, que tendo endoidecido á força de ter velado as noites a observar os astros, presumisse, riscando órbitas com o lapis, constrangê-los a segui-las: as esferas e os affétos saem do nada ao sôpro de Deos, resplandecem com a sua luz propria e misteriosa, vão-se ora afastando ora aproximando de seus centros pelo caminho que sua natureza lhes ordena, eclipsão-se na hora prescrita, desappareceráõ quando Deos fôr servido; sem que em tudo isso haja querer, escolha, presciencia, ou conhecimento de nossa parte. Amamos uma mulher, e certa mulher; porque temos de a amar; porque he necessidade sua e nossa que a amemos; amamo-la pelo modo que a natureza quer e não outro, não he uma acção mas uma paixão: se a premião o premio he gratuito, se a punem he injusto o castigo, porque não recáem sôbre um effeito de eleição. Ama-se uma mulher, repito, sem o procurar, sem o cuidar, sem arbitrio, a despeito da razão, da vontade e dos votos, como á rosa, como á lua, como á harmonia, como aos sabores dos frutos deliciosos. Para ellas se vai como os rios dos montes para os valles, como a chamma para o ceo, como a pedra do ar para a terra, como o menino para os peitos da ama, como o coração para o prazer. N’estas occasioẽs todo em nós he extraordinario, e se o posso dizer, sobre-natural: sentimo-nos fôrças que não possuiamos para querer, seguir, abraçar e reter: o pensamento se torna infinito, porque o objéto que procurâmos, como uma metade nossa que nos foge, nos apparece infinito. Por dentro d’aquellas graças fisicas, de que os sentidos se namorão, imagina-se um mundo estranho e illimitado de perfeições, de que se namora a alma: ahi se dezeja tudo quanto he capaz de embellezar a vida; o dezejo he logo esperança, a esperança certeza, a certeza delirio, e novamente dezejos; e quem porá limites a dezejos, a delirios, a esperanças? O abrangimento do infinito da Divindade em um corpo humano não he misterio que o amor não saiba muito bem entender. He aqui o lugar de confessar que a este sobre-humano conceito, que da mulher amada se faz, mil vezes corresponde plenissima realidade.
Por mais que a natureza se aprimore em modelar, tornear, corar, amaciar, brunir, bafejar e endeozar o fisico da mulher, as suas graças, o seu merito, o seu ser de mulher não são esses dotes, sujeitos ao tempo e dependentes de um ar, assim como nas flores não são mel as pétalas vistosas e coradas, o cheiro suave e attrátivo, que o sol e o vento attenuão e desbaratão. Diz-se que as feiticeiras tem o seu encantamento em um novêlo; o novêlo do feitiço das mulheres está no seu coração e no seu espirito, que n’ellas he tambem coração. O coração da mulher não mora descançadamente reclinado no peito como o nosso, por toda sua alma esvoaça perdido de amor, gemendo de amor, como uma ave mãi e feliz por todos os ramos de um bosque de primavera: sente-se-lhe o frémito das azas, ouve-se-lhe a harmonia em tudo quanto diz, em tudo quanto cala, no que faz como no que deixa de fazer, no que pensa, recorda ou espera, nas lagrimas e no riso, no enfado e no contentamento, na vigilia e no sono. O coração lhe está á porta interior de cada sentido recebendo as impressões; para elle e por elle veẽm, para elle e por elle ouvem, para elle e por elle presencêão a natureza, communicão com ella e comnosco. Um sôpro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo delicioso deveo ser formada.
Este afféto, esta doçura, esta, quero eu dizê-lo, feminidade da mulher são de tão alta natureza, tão estremes de liga, tão independentes do fim mesmo para que a providencia a destinou, que me parece ainda despojada de sentidos, poderia amar vehementemente como os espiritos angelicos. Que será quando os sentidos confluem, para atear com sua materia inflammavel este fogo celeste? ¿quando a Vestal, afrontando todo o futuro, deixa apagar no altar da Deoza de sua infancia a luz virginal que velou por tantos dias e noites? ¿quando na turbação insólita d’estas trevas desconhecidas, se entregou toda e com todo seu futuro ao ente que a implorou como Divindade, e que ella sabe e sente em si tornará feliz por cima de todas as felicidades? ¿quando uma vez encetou prazeres, cujo maior encanto para ella se da-los recebendo-os, e não os receber sem ao mesmo tempo consummar mais de um doloroso sacrificio? Oh então he o amar do amar! o afféto, que ja em profundeza não podia crescer, cresce em superficie, e trasborda todo e para toda a parte, como um perfume abundante; então he que sem voz pronunciou o sempre; que sentio apertar-se-lhe nas entranhas a indissolubilidade do consorcio, porque o amor de fantasia se fez realidade, de dezejo destino, de suspiro occulto gloria; a tudo tem ja direito porque ja deo tudo, não póde dezejar ser de outrem porque a outrem não teria tanto que dar. E he esta a grande differença da mulher ao homem, e do amor ao amor: o d’ella tem um abono e côr de eternidade, o nosso um elemento e uma côr de tempo. Podéra ser emblema do nosso, uma náo alterosa e possante, surta em uma bahia aprazivel, mercadejando e folgando com a terra, empavezando ufania de flammulas e galhardetes, aferrada ao fundo do mar com uma unha de ferro, mas podendo de uma hora para outra arranca-la ou picar a amarra, desfraldar as velas que sempre estão prestes, e vogar atravez de todas as ondas, por cima de todos os abismos, a mercadejar e folgar no extremo opposto do mundo: emquanto a feminil affeição, como barquinha contente e desambiciosa, feita para os ocios de sua enseada, coroada a pôpa ora de flores abertas ora de esperançosos verdes, sem deitar nenhuma ancora, não foge nunca d’entre aquellas margens conhecidas; por entre ellas vai e vem avoejando de contínuo, levando e trazendo sempre commodos e alegrias, sem curar que de sua barra em fóra haja outros mares, n’esses mares outras bahias; delicia-se na sua, onde tudo a festeja e saúda por seu nome, onde se entende com todos os ventos, todos os refugios conhece para o dia da tempestade. O amor do homem, com os sentidos satisfeitos muita vez se satisfaz e adormece; como o frizão dos Jogos Olímpicos, que chegado apoz violenta carreira a tocar na meta, surdo até ás vozes da gloria que esporeou, se estirava para repouzar ou para morrer. O amor da mulher, satisfeitos os sentidos, se restaura, resurge mais puro e extremoso, mais vivaz e promettedor; semelhante ás plantas, quando desfallecidas nos afrontamentos do verão se dessedentão com a chuva de uma nuvem que passsou, e viçosas reverdecem para embalsamar os ares de seu valle. Uma de muitas razões que para esta differença podem concorrer, he que n’essa hora adquirio a mulher direitos, o homem contrahio obrigações; as obrigações pezão, os direitos agradão, as obrigações limitão e apoucão, os direitos accrescentão e engrandecem. Trocarão-se os papeis na scena, o seguidor esquiva-se, a perseguida segue. O amor do homem he só amor, o amor da mulher he amor e amizade: elle, porque pertence ao mundo, á gloria e a tantas outras paixões, só tem meio coração, meia vontade, meio tempo para dar á sua companheira; esta, separada do mundo pelo mesmo mundo e pela natureza, por isso mesmo mais raramente accessivel a outras paixões, dá ao seu amigo todo o coração, toda a vontade e toda a vida; dar-lhe-hia se podesse mais vida, e mais coração, mas não mais vontade: com elle, por elle, e para elle existe, na propria ausencia o tem presente; e quando cessa de abraça-lo, he para se gozar de o ter abraçado, e cuidar como logo o abraçará de novo, e volverá a ser d’elle amado, fazendo-o feliz.
Tal he o theor da natureza: tem excéções e numerosas. Corações ha de homens, que sem ser effeminados, não desdirião n’um peito feminino; e corações de mulheres, que talvez bem nascidos e bem fadados, mas torcidos depois pela educação, quebrados pela sociedade, corrutos pelos exemplos, merecem as satiras, demaziadamente geraes, com que os autores de sua degeneração todos os dias lhe poem ferrete: mas essas, mais infelizes do que culpadas, os desgraçados que as pintem e condenem, eu pinto a mulher amante, a mulher perfeita, a mulher mulher, a mulher como a concebi, como a conheço, como a adoro. Foi esta a que Deos fez e temperou de poesia e harmonia lá na origem do mundo, quando vio que não era bom que o homem vivesse só. Esta he a que depois de nos dar a vida, no-la suaviza e apura; no-la multiplica em entes novos; no-la adoça nos momentos derradeiros; nos ama ainda, quando ja não somos; dá seus beijos amorosos a uma pedra, porque do nosso nome lhe conserva uma letra; e consummando o seu destino de amar, felicitar, sacrificar-se, ajoelhada na terra, nos vizita no mundo das sombras; estreitando o seu commercio com os ceos que a esperão, para nós só os invoca, e depois de no-los ter dado em amostra no tempo á fôrça de amor, á fôrça de amor no-los grangêa na eternidade.
Custa a crer como um ente, que he metade da nossa especie, que das duas he a mais amavel metade, a mais carinhosa, em tantas couzas nosso igual para nos attraír, mas com tantas differenças de nós para se nos unir ainda mais, que se tem defeitos de nós os recebe, e nos dá em troca, sem o cuidar, tantas das virtudes que possuimos, custa, digo, a crer como um talento, a quem sua propria fraqueza devêra tornar inviolavel, pôde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuará a ser até ao fim dos seculos, alvo e emprego das críticas mais desabridas, e mais grosseiras calúnias. Divindade extraordinaria, a quem seus proprios ministros e sacrificadores insultão adorando-a, e que de cima de seu altar, fragil mas eterno, inalteravel em sua mansidão, derrama sôbre bons e máos a felicidade! Que a filosofia as injuriasse não espantára. La Bruyere foi cruel para com ellas, Larochefoucault furioso, nenhum d’elles justo, nem sequer francez: a filosofia não anda sem os filosofos, e todos sabem como os dados a esse triste officio, são pelo demais almas seccas e incapazes de avaliar branduras, entendimentos sem olhos de imaginação, unicos proprios para julgar da verdadeira belleza; homens emfim eremiticos, rusticos e ignorantes no meio da sociedade; e para remate de suspeição, ja alongados pelo inverno da vida: da-se á filosofia o que as mulheres ja não querem.
A poesia não tem sido menos descomedida: a poesia, que d’ellas e para ellas nasceo, cujas Divindades forão com razão pelos antigos fabuladas em fórma feminil, como as Graças, como os Genios de tudo quanto ha amavel na natureza, a poesia, a seu máo grado, lhes tem sido rebelde todas quantas vezes os poetas, por de sobejo amantes e zelosos, precizárão desabafar desgraças verdadeiras ou fantásticas: a lira acostumada a lhes entoar seraficamente não louvores senão hinos, resoou execrações, ás quaes respondêrão numerosos echos; porque onde o numero dos ingratos e indignos era grande, não podia o dos maltratados e queixosos ser pequeno: e d’ahi nascêrão essas civis guerras da literatura a favor e contra o sexo, guerras batalhadas nas salas e saráos, nos passeios em romagens, nas merendas das comadres e nas academias, desde o Japão até Portugal, desde os serões da arca diluviana até os nossos dias, em que o amor cedeo á política, e as questões das mulheres ás questões dos ministerios: Factus est repente de cœlo sonus, tamquam advenientis spiritus vehementer.... Ahi vinha ja querendo-se intrometter o meu demonio meridiano: ápage!
Para as grandes pelejas de que fallava, se despejárão todos os arsenaes da mística theologia, da methafísica, da historia sagrada e profana, das fabulas e anecdotas, da fisiologia e novellas. Ficou largamente juncado o campo de cadaveres em folio, em quarto, em outavo, em doze, em dezeseis, em trinta e dois, em sessenta e quatro; de pergaminho, de marroquim, de seda, de taboa, de papelão, de carneira, de papel: defuntos quasi todos sem amenta, e cujos nomes, se os houvesse de compilar, encherião maior livro do que este. Depois do derramamento de tantos rios de tinta, ainda pende a mesma questão; ainda até ao fim do mundo se tem de trazer para ella couzas que pareção novas; e as cinzas de Lucrecia, Dido, Phryne, Sapho, Aspasia, Arria, Cornelia, Osmia, Heloiza; Christina, Catharina, Maria Thereza; as cinzas das que habitárão cazaes, harens, palacios, mosteiros; as cinzas de Ninivitas, Gomorritas, Babilonicas, Espartanas, Atticas, Romanas, Africanas, Botecudas, Amazonas bellicosas, Indicas Bailladeiras, Viuvas Indostanicas, continuárão a ser revolvidas, pizadas e adoradas por modos sempre differentes, e quasi sempre cegamente, até á consummação dos seculos. A mulher fisica principia a ser conhecida, a mulher intellétual sê-lo-ha, a mulher moral he o infinito.
A mocidade, quadra da vida em que reinão os mais encontrados ventos, em obras a maior vassalla e tributária do sexo, he, fallando, escrevendo, e talvez pensando, a sua maior detrátora. Uma conversação de mancebos, embora amantes, não se detem senão em rebaixar o merito das mulheres: nascidos os disséreis das pedras de Deucalião e criados ás tetas das lobas. Qual pode ser a causa d’esta mais que montezinha ferocidade? Será inveja á superioridade modesta? será despeito de vencidos? não; essas vitorias, e ainda essas superioridades em virtudes, que não são as distintivas do nosso sexo, facilmente se perdoão. He a causa o mesmo natural instinto, que faz que os soldados em tempo de guerra, seroando entre as armas á fogueira ociosa do seu rancho, encareção as derrotas do inimigo, e lhe assaquem fraquezas que não tem, para a si proprios accrescentarem animos e determinação para as futuras pelejas.
Facil he carecer das loucuras da idade que ja não temos, ou que ainda não temos; blazona-se d’isso, mas não he virtude: carecer porem dos vicios proprios dos nossos annos seria virtude, mas tão rara he, que o despossui-la deve merecer vénia dos sizudos. Era eu em toda a fôrça de minha adolescencia, quando entre coetâneos e a seu contento, cantava em meus versos destinados os fracos e imperfeições de algumas mulheres, como fracos e imperfeições de todas ou da maior parte. Da falsidade que n’isso havia me corro, mas muito mais do pouco delicado tom do meu cantar, porque se me figura agora delito ainda muito mais grave, do que attribuir-lhes defeitos, o pintar-lhos inamavelmente: a graça he o seu primeiro mérito, injuria-las graciosamente ainda não he de todo injuria-las. De muita nuvem se desaffronta, e de mui grande carga respira um coração confessando suas culpas, mormente quando pelas confessar se torna a entrar absolto e regenerado na estima e benevolencia das dominadoras do mundo: quasi se folga, como me está succedendo, de ter tido a culpa, para merecer a vénia e saborear a reconciliação.
Transfuga dos arraiaes dos levantados, ás trincheiras d’ellas me recolho, não só com as armas com que as guerriei, para as defender, mas com uma bandeira para chamamento e reunião de outros. Ressuscitaria, se podesse, para o meu novo campo todos os bem nascidos espiritos das idades cavalleiras e cortezes, para procurarmos salvar da ultima ruina o feminil imperio, que de dia para dia vai sendo entrado, talado e engolido da Política; fero monstro em que tão mal assenta feminino! E se o conseguissemos, se os moços que deixárão os affétos pelos debates, as sociedades pelos clubs, os versos e cartas apaixonadas pelos jornaes frios e praguentos, quizessem volver a seu natural officio de amar, de agradar e divertir-se, ¡como se não amaciaria esta bruteza quasi, cínica de nosso tempo illuminado, em que se não sabe ler! A propria Liberdade lucraria, porque os seus nervos e verdadeiros espiritos vitaes não são outros senão as virtudes e as bondades: ¿e quem como as mulheres, nos poderia ainda attrair da praça onde se briga, odêa e persegue, para a casa onde se quer bem e se folga, para a cosa onde até á ultima velhice nos educâmos, para a casa onde de bondades e virtudes nos dão ellas a todos os momentos exemplos vivos e formosissimos? Tellus, et domus, et placens uxor! Oh se eu podesse mostrar este meu pensamento, como me está florejando na alma! dizer com palavras a mulher como a sei no meu coração!... mas feminina he a mão com que escrevo, ¿como dezenharia ella o seu retrato?
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FIM DA FESTA DE MAIO.
Se o fim de qualquer obra he a sua coroa, custará a achar obra tão mal coroada como esta Primavera. Dos quatro Poemas he a Festa de Maio o ínfimo, não contribuindo pouco para isso o seu estirado comprimento: e da Festa de Maio a ínfima parte he sem nenhuma dúvida a segunda e última. Boa e mui fertil era a idea primitiva, na qual, mas só na qual, mui casualmente me encontrára com o allemão Gerstenberg no dithirambo que traz titulo Chipre. Desenvolveo elle a sua, pôsto que em prosa, como poeta mui valente: derramei eu, e enfraqueci a minha em pobrissimos versos (era tempo que na maior parte dos dias compunha trezentos e mais) que bem podérão, sem detrimento de pensamentos, ser reduzidos ao terço do seu numero. Ja poderei parecer importuno com tanto repetir confissão das minhas faltas; mas antes isso, do que se diga que eu as córo ou tapo, ou com tantos annos ainda não caí em as conhecer cabalmente. Quem a este meu cortar pelas proprias roupas chamasse affétação, muito se enganára comigo: censuro-me, não para atalhar alhêas censuras; menos para provocar defezas aos que sempre folgão, quer em bem quer em mal, de encontrar as opiniões dos que escrevem; mas censuro-me e em todas minhas couzas marco seu preço, para que os agora principiantes lá ao deante se não queixem de mim, como eu podéra agora queixar-me de outros, com cujos livros me criei. Consciencia e Verdade, ainda em mesquinhas letras, devem de ser escrupulosamente servidas: tem uma e outra alguma couza de tão divinas, que por mais dolorosos sacrificios que de nós lhes façamos, no-los pagão com íntima satisfação. Certo he que fazendo o que eu faço, se corre perigo de vir a um grande dissabor, como he, depois de sinceramente confessados os defeitos, saírem os nescios na arte de criticar, e que nunca uma só linha escrevêrão, aproveitarem-se cobardemente de taes revelações, vozea-las como descobrimentos seus, e vingando-se de sua propria esterilidade, triunfar miseravelmente dos descuidos, sem nenhuma menção das boas partes. Ja isso por mim passou depois que dissertei ácerca da invenção da Noite do Castello. Onde tal se escreveo, quem o escreveo, e como o escreveo não o direi, que não quero em livros meus andar carreando dementes para a posteridade, se he que meus livros tem de la chegar, como cá chegárão alguns bem ruins dos tempos atraz. E a final, que valem semelhantes pregoẽs e taes pregoeiros, comparados com as suas duas maiores inimigas que são a verdade e a consciencia? podéra accrescentar a vergonha. Em meu conceito nada. Por tanto sigão elles por seu caminho, onde se afogão em lodo, e todos lhes cospem na face; e eu, que nem sequer os tenho em assaz de conta para os odiar, continue o dar documentos do unico merito de que me prézo, que he a candura. Para dar culto á Verdade e á Consciencia, não sacrificarei alhêas famas, que me não pertencem, mas pela minha rasgarei afoito: far-lhes-hei de meu sujeito intellétual, o que de seus corpos diz Fernão Mendes que fazião la em Tinagoogoo certos penitentes, que em procissões públicas se hião espedaçando ante os carros triunfaes dos seus idolos, e por fim se arremessavão por deante das rodas, para serem talhados e esmagados: a que toda a gente, como refere o bom perigrino, com uma grande grita dezia: pachiloo a furão; que quer dizer: a minha alma com a tua. E decendo logo de cima do carro um sacerdote ... se chegava áquelles bemaventurados ou malaventurados ... e ajuntando os pedaços e as cabeças ... os mostravão ao povo de cima do mais alto sobrado do carro onde hia o idolo, dezendo n’um tom muito sentido: “Rogai peccadores todos a Deos, que vos faça dignos de serdes santos como este que agora morreo em sacrificio de cheiro suave.”
FIM.