DUAS PALAVRAS DE INTRODUÇÃO

Fôra o inverno de 1821 para 22 dos mais desabridos e temerosos de que entre os vivos se faz memoria. Na Beira, onde me então achava, vião-se arrancados e espedaçados bosques, olivaes e pomares, sementeiras afogadas, pontes demolidas, e os rios sem margens. Dos 25 de Dezembro até os 9 de Janeiro, que me demorei em uma aldeinha, uma legua desviada de Coimbra, saboreando no trato cordeal de alguns amigos e parentes as férias, então mui festivas, de meus estudos, foi sempre tão atada e rigorosa a porfia das invernadas, que nos falseou quasi de todo a recreação mais apetecida dos que fartos da cidade, vão alguma hora ao campo desenfadar-se. De não passear nos vingavamos o melhor que o tempo e lugar no-lo consentião: práticas desaffrontadas de constrangimento, temperadas de bom sal, e muitas vezes substanciaes; a voltas d’ellas, leituras accommodadas ao mais dos gostos, poesia, e improvisos de charadas e adivinhações nos enchião as horas não contadas. As espaçosas noites e boa parte dos dias, se levavão n’estes e semelhantes passatempos, em de redor de uma farta fogueira, segundo he costume d’aquellas terras. Por alguma rara tarde, quando o sol descobria, e o ar um pouco mitigado nos consentia saír, nos hiamos, ora pelo jardim onde se explanava um soberbo lago, outr’ora pela orla mais assoalhada dos laranjaes, que mui corpulentos e viçosos, acenavão de seus ramos com frutos e flores, pondo a vista, o cheiro e o gôsto em doce competencia de delicias. Era ainda aquillo, ou ja era, umas lembranças, uns longes de primavera no coração do inverno, saíamos da prisão dos lares, aproveitavão-se com sofreguidão: talvez nenhum dia de perfeita primavera na longa cadêa d’elles me pareceo nunca melhor e mais ledo, do que estas pobres tardes sonegadas ao mez do Natal. A fantasia enganada do sol, toda se me desatava em poeticas flores, o que n’esses tempos só por maravilha me acontecia fóra da primavera, e luares do verão. Quando vinha a noite, acceita ao meu coração, (que sempre de si o conheci, não sei porque, amigo de com ella suspirar saudades), e ja todos ao conchego do nosso lume fiel nos tornavamos alvoraçados, comigo só me hia pouzar a um canto, colhendo, concertando e accrescentando com mui entranhado contentamento, quantas florinhas me havia brotado a fantasia. De saudades da primavera me parece ainda agora que nascião todas; o que certo sei, he que ahi, e n’um imaginar d’estes meus, me veio a lembrança e desejo de escrever á Primavera uma Epistola. Se n’isto abusei ou não da licença tão concedida a poetas, não o sei; sei que no ditar estes versos para se escreverem, e no conceber-lhes o assunto a passear ou a seroar, gozei prazeres que ja a crítica me não póde tirar. Se contra o bom juizo pequei, todo o meu pezar he não poder outra vez peccar pelo mesmo modo, nem outra vez namorar-me da Primavera: os annos que a trazem ás arvores no-la levão a nós, e ja la vão quinze, (quinze annos!) sôbre o tempo em que eu brincava com estas innocencias.

Lisboa: 9 de Dezembro de 1836.

EPISTOLA
Á PRIMAVERA.

Corre a Noite, jaz muda a natureza;

Os campos solitarios esmorecem;

Mal se ouve ao longe o estrondo da corrente:

De quando em quando a lua desmaiada

Mergulha em nuvens, surde, outra vez morre;

E das planicies a extensão geosa

Ora resae e alveja, ora se apaga.

N’esta cabana de grosseiros troncos,

Tecido vime e colmo, onde sereno,

Vento, e cuidados não coárão nunca,

N’esta onde habita perennal fogueira,

E onde he Penate o Genio da hospedagem,

Venho entre amigos deslembrar tristezas:

Do frio lá de fóra o ultimo resto

Ja o atirei á chama tragadora.

Em ti, Amores meus, em ti só fallo

Ó Primavera minha; em ti só cuido;

A ti quero escrever: inda ha bem pouco

Em meu passeio a flor das larangeiras,

E do sol que hia a pôr-se o extremo raio,

Cá me derão de ti saudades tristes.

Desde que ao scetro do raivoso Junho

Tu doce com teus Zéfiros fugiste,

Meu dia estendo em languidos suspiros.

A noite em vagos sonhos me afigura

Ver-te, cantar-te, desfrutar teus mimos:

Mal desponta a manhã, mal foge o sono,

Desespero-me, lido entre amarguras;

Peço aos bosques sem folha, aos ermos campos,

Aos rochedos de neve, ás turvas fontes,

Ao ceo toldado, aos ares tempestosos,

E a toda a natureza, a minha Amada.

“Primavera, onde estás?” do outeiro exclamo;

De valle em valle, de um cabêço em outro,

“Primavera, onde estás?” responde o echo:

No prado o guardador, no monte o Fauno,

Pelo arvoredo as Dríades á escuta,

“Primavera, onde estás?” depois exclamão.

Emquanto assim fiel, por ti ó Deosa

Me desentranho em ais, onde te escondes,

Perguiçosa gentil? onde vagueas

Bella inconstante que estes ais não ouves?

Algum Deos namorado, em plaga estranha,

Encheria de amor teus olhos livres?

Esquecer-te-hião, (Ceos!) promessas tantas?

Sim: que te importa o definhar de um vate?

Do vate que te amou, te adora ausente?

Tu folgas e elle gema; elle delire,

Tu a prados sorris vestindo prados,

Revês-te, amante nova, em novas flores:

Fontes ha tambem lá, que importão éstas?

De fonte ao claro espelho te engrinaldas;

E ufana de encantar sensiveis peitos,

Tambem, como entre nós, por lá dardejas

Fogo de amor aos entes insensiveis.

Volta, volta, ó cruel, aos campos nossos.

Qual paiz no universo, a não ser Pafos,

He mais digno de ti? ¿por onde achaste

Para o cortejo teu, Ninfas, pastoras,

Como éstas que entre a murta o ceo nos cria?

Amantes mais fieis? florestas, rios

Namorar-se, mais frescas, mais formosos?

Mais doces flautas quando amor entoão,

Aves mais doces quando amor gorgêão?

¿A tua Cintra, Elisio dos desejos,

Nobre jardim do Oceano, onde folgavas

Contemplar na alta noite em mista dança

Ninfas das ondas, Ninfas das florestas,

Assim te descaío? ja não proteges

Os córos virginaes que ali passêão

Sorrindo ao ver seu nome em bosque e bosque?

¿Por toda a parte as Graças que espairecem;

Do aligero esquadrão travêssos brincos,

Frechas doiradas em contínuo vôo

Aqui e ali aos peitos descuidados,

E se errão corações, ferindo os bosques,

Porque os bosques ali tambem suspirão,

Tudo pois te esqueceo? Volve, ó Querida;

Cede, não sejas dura, a amor, aos versos.

Desde que te ausentaste ahi pende a lira

Nos braços nus de um álamo sem folhas,

A minha lira ao vento abandonada!

A lira d’oiro, onde entoei teu Nome,

Onde a minha paixão soou mil vezes

Na linguagem dos ceos a teus ouvidos,

Ei-la sem honra; os ventos lhe roubárão

Dos antigos festões o escaço resto!

Ao passar com seu gado, e vendo-a muda,

Diz suspirando a turba dos pastores:

“E’sta a que dava alento ás nossas festas:

Mal haja quem a trouxe a tal desterro!”

Dríades ternas, que meu canto ouvião

Não talvez sem prazer, dizem passando:

“O vate emmudeceo longe da Amada!”

Mas apenas teus Silfos precursores,

C’roados de violetas assomarem

Na ethérea região de nossos climas;

Apenas este ceo pezado e turvo

Mandar á terra os ultimos chuveiros;

Apenas rebentando as novas folhas

Se remoçar esse álamo tristonho,

E entre a nova ramage, emtorno á lira,

Cançada de seguir-te andar pouzando

A rolinha estrangeira, e sócia tua,

Á lira despirei do inverno o musgo;

E n’ella, de aureas cordas melhorada,

Só de ti chêo, na presença tua,

Brotarei versos, como brotas flores.

Oh voa, acode a consolar Cibele,

Cibele a térrea mãi da especie humana,

Cibele, amores teus, qual tu Deidade!

Se ora a visses! ... do carro verdejante

Os rebeldes tufões a derrubarão:

Co’a trança descomposta, o manto em rios,

A altiva c’roa em parte destruida,

Nua jaz á vergonha, ao vento, á neve.

Seu tanto desamparo he mágoa aos filhos:

Mas para dar-lhe a mão, torna-la a Nume,

Poder, qual em ti ha, não ha nos homens:

Do fundo do teu lodo a ti só chama,

Ai, leve-te algum vento as queixas d’ella!

As torrentes sem freio divagando

Contra marmóreas pontes indignadas,

Investem, chocão, despedação, rojão

Ruinas em montoẽs aos fundos mares.

As Dríades, teu povo e tua gloria,

Tremem, oh dor! ao furioso assalto

D’Euros, e Notos, e Africos em guerra:

A seu brutal furor nenhuma escapa:

Crer-se-hia que as prisões da Eolia furna

Para sempre arrazára a mão de Jove.

Dríades nobres de arvores antigas,

Refugio outr’ora das calmosas séstas;

Dríades bellas de arvores vaidosas

Co’a idade juvenil, verdura e fôrças,

Tem a seus pés quaes vítimas caído.

Co’os negros frutos oliveira amiga

Baqueou; não lhe valeo celeste guarda;

E Minerva prantêa o estrago enorme:

Cáe o pinheiro amedrontando os valles,

E Pan, sentado nos troncados restos,

Triste espera por ti co’a flauta muda.

¿D’esta cabana a rustica fogueira

Sabes quem a sustenta? ah! corre, vôa:

Cedro, que eu te sagrei, caío por terra,

E onde brincou favonio estalão chamas.

Mui tarde chegarás se não-te apressas;

Do colono e pastor os ais te invocão,

A mesma natureza he morta quasi!

Que fragor, que trovão! piedade ó Numes!...

Este deu raio, e pérto.—Outro rebrama!...

O Olimpo sobre nós desaba em fogo!

Chlóe, e Amarilis trémulas, gritando,

Desfeita a rubra côr em côr da morte,

Enchem de seu terror esta cabana.

O’ innocentes, miseras pastoras,

Não griteis, não tremais; vereis em breve

Dissipado este horror nos longes ares;

Contra o crime orgulhoso os Deoses troão,

Não fere o raio a rusticos alvergues.

Não, não me engano, ouvís como se afasta?

Como la vai ja longe? o mais do estrondo

Ja he toada vã no vão dos bosques.

Chuva propícia em caudalosa enchente

Desce na escuridão; resoa o této

Com o crebro saltitar das frias gotas:

Sibila o vento na vizinha serra.

Chlóe a porta fechou: nós apertâmos

O cerco estreito em deredor do fogo.

Cantou o gallo esperto: he meia noite!

E eu vélo ainda, e velarei saudoso

As horas todas que á manhã precedem!

Horas, horas de paz no horror das trevas;

Horas de estro, misterio, omnipotencia

Ao que nasceo das Musas bafejado!

Sonhe a ambição com purpuras, e scetros;

Torpe avareza com os inuteis cofres;

A vingança, fatal a si e aos outros,

Cogite embora nas traições, no engano,

Nos agudos punhaes, no sangue em jorros;

Vulgar amante afine, esmere astucias,

Com que succumba a tímida innocencia,

E aos laços venha destramente armados:

Eu dando a amor o que se deve ao sono,

Em chama pura, porque he tua, ardendo,

Alégro com teu Nome a horrenda noite,

A saudade em saudades apascento,

E inda ausente, comtigo ausente fallo.

Como o perdido em temeroso escuro,

Que ao mais leve rumor trémulo pára,

Assacinos agoura em cada tronco,

Não ouza resfolgar, prosegue a medo,

Aqui lhe surde a silva, alem penedos,

E lhe abrem fauces mil os precepicios,

Só tem na aurora esp’rança, e mal que ao longe

Annuncios d’ella vê, canta e renasce;

Serei mais que feliz pois vas ser minha,

Mal te sonhar ao longe, ó Primavera.

Sim: eu te amo inda mais que a vide ao tronco,

Mais do que o touro em maio ama a novilha;

Quero-te mais que o Deos de amor ás trevas,

Mais do que Flora ao Zéfiro inconstante.

Eu suspiro por ti, como suspira

Murchada planta por sereno orvalho,

E ardente ceifador por fresca fonte:

Es-me tão cara como a bella esposa

A seu amante de chorar cançado,

Quando no dia d’hirneneo se abração:

Tão doce emfim como o primeiro beijo,

Que uma terna pastora, a medo e a furto,

Consente ao seu pastor levar-lhe aos labios.

Qual dos amores, que no mundo girão,

He mais grato que o meu? Este em delícias

Excede tanto aos mais, como tu vences,

Tu belleza do ceo, do mundo as bellas:

Eu amo e para amar não me recato,

Ao mundo inteiro meu ardor confesso,

Tenho rivaes e do ciume zombo,

Gozo-te, e nem pudor nem leis mo estorvão.

Inda me está lembrando (hora doirada!)

Quando longe do mundo, e a sós comtigo,

Pela primeira vez te disse “Eu te amo!”

Abria a Aurora o roxo mez das flores:

Juntas em córos no arvoredo as aves,

De ramo em ramo aos ranchos adejando,

Em nunca ouvidos sons a luz saudavão:

Inda do puro rio a opaca nevoa

Bem não era desfeita ao sol nascido;

Inda das folhas concavas pendião

Trémulas gotas de luzente orvalho,

Que depois leva o brincador Favonio;

Quando (ai memoria doce!) eu dei comtigo

Inda meia a dormir na fofa relva.

N’alguns louros de roda entretecida

Hera tenaz um toldo te formava:

O melro grave, o rouxinol cadente,

Para encantar-te os sonhos, diffundião

Entre uns rosaes a musica dos prados;

Enchia aroma puro os puros ares.

Ligeiras, bellas Sílfides, velando

Invisiveis teu placido retiro,

Impedião que um Fauno petulante

Ou rustico pastor pozessem olhos

Em teu corpo sem véo, cheio de encantos.

Alí me conduzio propicio acazo:

Não mo impedirão Sílfides zelosas,

A natureza inteira he franca ao vate.

Ridente sono, da innocencia imagem,

Cerrava ainda os olhos teus ao dia:

Todo brandura o juvenil semblante,

Até sem o saber, até dormindo,

Faria suspirar homens e feras.

Entre a face mimosa e a fria relva

Tinhas meio curvado o braço lindo:

Como ao desdem, na esquerda seguravas

A cornucopia, a não poder com flores:

Halito doce de fragancia amena

Sáe do seio, que túrgido se eleva;

Dos roseos labios, da pequena boca

Vem tão doce, vem tal, que um peito humano

Bafejado por elle, excede os numes,

E a alma, em vez de pensar, delicias volve.

Tal eras, tal fiquei ó Primavera!

Espertaste de todo; e toda risos,

E todos luz e amor os olhos verdes,

O que era ja sem termo accrescentaste,

Dobrou-se a graça ao mundo, o fogo aos peitos.

Um mar de deleitosas fantasias

Me soçobrou, confesso, e tempo largo

Jazi com o ledo mundo em braços da alma.

Depois tornando em mim, ví-te ja prestes

Para baixar do outeiro aos amplos valles:

Quão mais louçã, e em galas mais garrida!

¿Que muito, se a mais nova das trez Graças,

De tuas mil Oréades servida,

Pozera as proprias mãos ao vago enfeite?

Erão-te manto ondado, e roupas simples,

Quanto verde ha na terra, e flor nas plantas;

Mas triunfava a rosa! aos botões d’ella,

Nem ja todos botões, nem flores todos,

Fôra o tépido seio em throno dado,

E em vez de o embellezar, se ornavão d’elle:

Erão raios do Sol a c’roa tua!...

Parei de embevecido! e quem no mundo

Te vio jamais como te vio teu vate?

Em teu seio amoroso um Cupidinho,

Qual borboleta d’oiro, esvoaçava

De botões a botões, na escolha incerto.

Vio-me; e curto farpáõ, doirado, agudo,

Curto farpáõ que os olhos não percebem,

Me arrojou, me sumio dentro no peito.

Graças ao tiro do mimoso Alado!

Na profundez da f’rida, e gôstos d’ella,

Contente reconheço, adoro um Nome.

Amante, desde então, ditoso amante,

De dia a dia te encontrei mais terna.

Incenso, que antes dava a falsas Musas,

Off’reci-te, acceitaste, e foste a minha.

Abriste-me a Aganippe em cada arroio,

Cada monte foi Pindo, e Tempo os valles:

E tu em cada valle, em cada monte,

Ante a lua, ante o sol, me estavas sempre

Musa do coração, presente aos olhos.

De poetas foi sonho a voz das outras,

A tua graciosa ciciava,

De toda a parte vinha em tom macio,

Que filtra inspirações, e a amor contenta.

Se os de ambições miserrimos forçados

Que ás cidades dão vida, e a si a roubão,

Podessem vir um dia onde tu reinas!

Se a mente que as paixões lhes anuvião,

E olhos em que os cuidados, seus verdugos,

Atárão com trez nós perpétua venda,

Podessem ver-te a luz deliciosa,

O manso da alegria, os gostos puros!...

Deixando sem adeos tumulto e pompas,

Mais de um, mais de um, salvando a tempo os filhos,

Co’as pouzadas dos bons unirra a sua.

E a quem darás tu nunca o riso cheio,

Como o déras a este, que trocasse

Oiro a virtude, e marmores a flores?

¿Que ja sôlto de si e a si tornado,

Viesse pôr, para os livrar de queda

E adora-los em ocio, os seus penates

Á beira de uma límpida corrente,

Que de um bosque atravéz susurra e foge.

Víra os Genios da terra o anno inteiro

A lhe aprestar a mesa; aqui brotando a

No pomar curvo, ali na horta regada,

Lá no chão da seara, alem na vinha

Que o recôsto do outeiro alastra e enreda,

Mais longe nos cabeços verdejantes

Onde o gado em socego os leites cria.

Não lhe ameaçára o raio o této humilde:

As manhãs, d’entre as ramas espreitando

Pela aberta janella, o acordarião,

Por lhe alargar a vida: os passarinhos

Lhe dirão nas frescas alvoradas

“Bem vindo, alegre amigo, ás nossas casas!

Nós cantamos teu Deos, somos felizes,

Tu louva o nosso, e goza d’este mundo.”

Se algum cuidado a vespera deixasse,

Levar-lho-hia na vêa murmurante

A correntinha onde lavasse o rosto.

Vê zagalas fieis, vê perigrinas

De formosura e joias não compradas,

(Que uma da-lha a saude, outras o prado);

Com ellas espairece a fantasia,

E se inda o coração quer mais ventura,

Ama; ao ceo que ja tinha, um Deos lhe accresce!

Quanto via e pasmava em mortos quadros,

Onde astuto pincel prodigios obra,

Sombras vãs, cujo preço he rios d’oiro,

Tudo agora real, vivo, mais bello,

De mais subida mão pintura immensa,

De graça lhe cercára o lar e a vida.

Mas ah! porque me sólto em vãs ideas!

Embora o preço teu não saiba o mundo,

Primavera, eu te adoro e tu me afagas:

Caro co’a lira vezes mil teu nome,

E tu me infloras magamente a lira:

Em longo mútuo abraço almas trocâmos;

A minha he mansidão, frescor, perfume,

Toda a tua, poesia, amor, extremos.

Lanças-me em teu regaço, e quando a noite

A lira e cornucopia aos dois nos furta,

Das-me dormir co’a fronte no teu seio,

D’onde me vem coando uns sonhos leves,

Todos teus, todos candidos, na fórma

De flores, de aves, de amorinhos, de auras.

Assim, me queres teu até no sono!

E porque sombras más o não perturbem,

Mo ficas a velar á luz dos astros,

O semblante pacífico ao sereno,

Os olhos no ceo da alva, e o peito amores.

Mas tu ... porque não vens?—Não não me engano,

Inda agora os trovões rijo batalhão.

Talvez rola n’esta hora a tempestade

Pelo oceano de Atlante ondas sobre ondas;

Rugindo estoira o mar em crespas serras:

Possança de baixeis, esfôrço, industria

Não vale a contrastar-lhe a valentia;

De toda a parte a morte esvoaça, ruge

Na horrenda cerração com sons do averno;

O náufrago abraçado a sôlto lenho,

De toda a parte a vê, a ouve, a sorve;

Vai a abismos e a ceos repulso d’ambos,

E perde, antes da vida, a luz e a mente.

Sumio-se o ultimo audaz de sôbre as aguas!

De nuvens atro veo submerge a lua;

Não luz na escuridade alguma estrella;

He o luto do Homem forte! Ó Mar és livre!

Triunfaste, adormece.—Ah que de vezes

Taes scenas, tal horror, maior, mais negro,

Nos tem de si brotado a umbrosa quadra!

Ó tu contrária sua, o tu dos homens

Sempre invocada amiga, ethéreo Nume,

A quem ceo, terra e mar dão vassallagem,

Onde estás, que não vens com um leve assopro

Trazer serenidade aos elementos?

Se inda és a mesma, e súpplicas te movem,

Sobe ao carro da aurora, os ares fende,

E acode ao Luso clima, onde te invocão.

¿Lembra-te a gruta, a gruta onde Amarilis

De seu ja quasi esposo Umbrano, o astuto,

Acceitou, de sincera, a grave aposta?

Qual era, que o pastor lhe não podia

Dar n’uma tarde tantos beijos, tantos,

Como as folhas do plátano vizinho,

Sendo o premio da aposta inda outro beijo?

¿Aquella gruta, onde ambos consumirão

Um dia teu, a adivinhar a ponto

Todas as graças do primeiro filho;

E só no sexo os votos discordavão,

Porque Umbrano pintava outra Amarilis,

E Amarilis raivosa um novo Umbrano?

Pois n’essa, n’essa gruta os meus amigos

Para hospedar-te um grão festejo tração.

Pôr-se-ha do cedro á sombra altar gramíneo

Com seus flóreos listões, onde c’roados

Te libem vinho annoso e leite puro,

Concertando himnos teus com lira e flautas.

O lavrador da proxima campina,

A estirada cantiga aos bois tardios

Parando calará, para escutar-nos.

Então, então começa o tempo d’oiro,

Folgão no campo os naturaes prazeres,

E a rustica alegria apraz aos deoses.

Aqui, apoz as candidas ovelhas,

Vai trigueira, descalça pastorinha

Aos echos do arredor cantando amores;

Ali galhudo Sátiro se esconde

Para colher alguma Ninfa errante;

Alem com ledos sons retine o bosque,

O riso ferve, as flautas se misturão;

Mais longe, aos pés de mal fingida ingrata,

Se exhalão rogos apiedando as selvas.

Um favonio subtil encrespa as ágoas,

E enfada a Ninfa, que estudava uns geitos

De se enfadar com quem de amor lhe falle.

Priapo brincador gira saltando

Nos jardins, nos vergeis, e nos pomares,

Ramos bate, alvorota o plúmeo bando,

Que foge, mas de Amor não foge ás settas.

Amor e seus irmãos, com o facho em punho,

Lanção tacito fogo a quanto existe.

Junto da verde faia susurrando

Se ouve outra faia um não sei que, tão doce,

Que aos amantes apraz o seu murmúrio.

Do rebanho o marido entre o rebanho

Bala amoroso, e todas lhe respondem:

Pela novilha se enfurece o toiro,

Accomette o rival, goza o triunfo.

Côr de neve, innocentes cordeirinhos

Ja balão na verdura, ja recresce

Maravilhando a serra, a grei profusa

Das erradias cabras saltadoras:

A nova creação corre exultando;

Aquelle foge, os outros o perseguem,

Voltão, saltão, empinão-se, discorrem

Por toda a parte n’um momento o prado;

Cresce o leite, e o pastor a quem ja faltão

Cinchos para o queijar, tarros que o levem,

Lédo se enraiva com riquezas tantas.

Todo o arredor da aldea he movimento,

Contente lida, esp’rança, amenidade.

Porque se hão de calar da infancia os brincos?

A infancia he primavera, he mundozinho

Florente, de que nasce um grande mundo.

Menino á espreita e mudo entre as silveiras,

Apoz o som do grillo o vai buscando;

Outro os ramos envisca, as redes arma;

Prêzo de longo fio ao pé mimoso

Passarinho pelo ar chirla e revoa,

E crendo-se de novo o rei do espaço,

De inconstante creança um dedo o rege.

Um mais travêsso, ás árvores trepado,

Nos ramos se embalança, ou furta os ninhos;

Outro mais atrevido, emvão forceja

Por montar no carneiro, que se escapa,

Fazendo ao longe retinir os bosques

Co’ o crebro som da aguda campainha.

Tenra menina um malmequer desfolha,

E pelo amor da mãi á flor pergunta;

Em quanto seus irmãos vão na corrente

Pôr de cortiça um concavo barquinho.

Na luta, na carreira apostas fervem.

Oh! da infancia do mundo amaveis scenas!

Se inda as virtudes sôbre a terra existem,

Se inda existe o prazer, o socio d’ellas,

He no campo, no campo; e a quadra tua

Nos mostra, ó Primavera, este prodigio.

Mas da fogueira as chamas enfraquecem!

Ja os gallos das proximas cabanas

Vão começando a annunciar-me o dia:

Que som grato! que enlêvo estar sentindo

Por um sereno albor, estes vizinhos

Nuncios da aurora, a cuja voz respondem

Outros aqui e alem, com voz diversa!

Sim, o dia começa: a luz nascente

Pelas fendas do této está brilhando.

Eis-me só junto ao lar! quem sabe ha quanto

Se irião meus bons hospedes ao colmo:

Agora em doce paz lá estão dormindo.

Que breve noite! e he finda; ah toda he finda!

Da fresta, onde cheguei, contemplo os ares,

E claro vejo o ceo, de nuvens limpo:

Mal brilha no horizonte a estrella d’alva.

E os olhos meus (oh dor!) só descobrirem

Como por um véo denso a natureza!

Os montes que longissimo se alcanção

De vinhas e arvoredo entresachados,

O rio ao longe a fulgurar co’as ondas,

Os remotos cazaes da gente humilde

Pelas verdes campinas alvejando,

Não vê-los eu! não ver!... Mas que murmúrio

Sólta a folhagem do loureiro antigo,

Que defronte de mim remonta aos ares?

O Favonio acordou, que hontem de tarde,

Cançado de girar, adormecêra

Junto á cascata no pomar sombrio.

Vai subito partir: em curtas horas

Será comtigo, e te dirá meus versos.

Meus Amores, adeos! adeos meu Nume!

Da Epistola a resposta a vinda seja.

O DIA DA
PRIMAVERA
POEMETTO EM DOIS CANTOS

Em dois Cantos se divide agora este Poema, para commodo de quem lê. Entendi em apertar melhor que da primeira vez, este feixe de flores, se o he: algumas deitei fóra sem fazerem mingoa; as demais forão refrescadas, e se me não engano mais algum viço ganharão. Puz-lhe com tão boa vontade as mãos como na Epistola: pelo que, sem deixar de ser o mesmo, he outro; he o mesmo no essencial e intrinseco, todo outro no lustre e na toada.

DEDICATORIA
A MINHA MÃI.

Á maneira das arvores, que acordando do sono do inverno ao bafo omnipotente da primavera, como que ressuscitão com o riso e vida nos primeiros olhos e flores, o meu engenho começa a matizar-se das suas, com a tornada d’estes dias puros e deleitosos aos amigos do campo. As primicias, que d’ellas pude colher, forão para a grinalda que apresentei na Festa da Primavera celebrada com os meus amigos. Depois de a haver tirado do altar da Deosa que governa a mocidade do anno, a quem senão a ti, ó minha Mãi, devêra offerecer esta grinalda? sim: outrem qualquer a engeitára por de nenhum preço; de ti sei eu certo que lhe acharás uma graça especial, mais finas côres, e fragrancias mais suaves: emfim me atrevo esperar que póstos amorosamente os olhos na minha Obra, entenderás, sem o dizer, como eu sinto todo o amoroso da gratidão, ao cuidar em quem me deo alem do ser, a educação, e todos os mais carinhosos desvelos: alguns suspiros e lagrimas, para cúmulo da minha felicidade, serão talvez por ti, ó minha Mãi, espalhados na minha ausencia.

HISTORIA DA FESTA
DA
PRIMAVERA.

Remontando a vêa do Mondego até obra de um quarto de legua para cima da Cidade, encontra-se na margem do poente um gracioso retiro, selvatico sem aspereza, e como que enfeitado sem arte: dissereis que em hora de contentamento o fizera a Natureza, para algum dia hospedar no regalo d’aquellas suas sombras um ajuntamento de poetas seus. De Lapa dos Esteios pozerão nome ao sítio em dias remotos, segundo soa, os vinhateiros e pomareiros que de umas e outras varzeas do rio costumavão acudir ali por paos, com que estear suas parreiras e arvores derreadas com o pezo da fruta. Ainda permanece o nome, porem ja o arvoredo se não desbarata pelos vizinhos, e a Lapa, de tão solitaria e amena que he, parece a appetecida estancia do Genio da liberdade.

Entra-se por um breve cáes ornado de cinco alterosas arvores, das quaes uma torcendo-se toda para o rio, se debruça para saudar e cobrir com a sua sombra os bateis que chegão. No tôpo do cáes, e fronteira a quem desembarca, se alevanta um genero de muralha nativa de rochedo, rôto em muitos seios. Esta penedia, até aos nove ou dez palmos de altura, sóbe nua e só ornada de sua mesma aspereza; d’ahi para cima, como envergonhada de sua dura condição, se esconde toda com um frontal de heras, que ora resaem como cabeços pendurados, ora se recolhem para fantasiarem la por dentro suas grutazinhas e labirinthos, d’onde ás vezes se estão vendo saír por um cabo e por outro os passaros, que depois de beber e se banharem na vêa da agoa, se empoleirão pelos lamegueiros vizinhos, namorando e cantando a suavidade e fresquidão de suas habitações. Pelo lado direito d’esta aprazivel scena, sóbe uma cerrada espessura de bosque pequeno, onde os olhos se enleão na confusão de troncos e folhagem: pelo esquerdo abre-se para cima uma escada rustica mas commoda, de doze degraos. Tecem-lhe estendido toldo dois lamegueiros velhos, e outras arvores mais pequenas se abração por ali, travadas com mil voltas de hera. Dá esta subida em uma planura sôbre o comprido com seus assentos de ambas as bandas, isto he da terra e do rio, o qual por entre um basto arvoredo, que d’ahi por uma especie de promontorio, vai descendo até lhe metter os pés na corrente, se está vendo a furto transparecer: das primeiras cabeças d’este arvoredo cáe para os assentos uma boa a vedada sombra. O puro e perfumado dos ares, a vária presença da terra e aguas, o susurrar dos ramos abanados da viração, as melodiosas querellas das aves, em summa o natureza enfeitada só de suas mãos, e paz e descanço de deserto, são a fonte perenne dos encantamentos d’este sítio. Uma ladeira suave opposta á escada, e ainda mais sombreada, despede em outro cáes com seus degraos nativos de rocha até á agua. He este menos bem assombrado que o primeiro: não tem relva, nem arvore, nem verdura afóra ada muralha no tôpo, toda velada de musgos, matizados com seus tufos de fetos silvestres, congossas e um sem numero de outras plantas e ervas, sobresaindo a espaços alguns ramos solitarios de figueira brava: mas o que de interior graça lhe fallece, lho compensa a larga vista que para fóra desfruta.

Era chegado o primeiro dia de primavera. Tratado e assentado estava de ha muito entre mim e meus amigos, como iriamos passa-lo juntos, em uma romaria e festa poetica á honra d’aquella mais formosa parte do anno. Não faltavão á volta da Cidade muitos sitios accommodados ao intento, antes não creio que possa haver no mundo outra verdadeira Arcadia, que em tão pequeno espaço resuma tantos: mas d’entre todos coube á Lapa dos Esteios a palma da competencia. De doze se compunha o rancho, todos amigos, poetas e academicos.

Por volta de meio dia, pouco mais, nos ajuntámos com muita alegria e abraços, e todos com as nossos ramalhetes de primavera nas mãos, nos pozemos alvoraçadamente em caminho para o rio, onde ja o barco nos aguardava. O ar estava puro: contra o sol que ardia rijo, nos acudia com refrigerio um pouco vento, que ao mesmo tempo nos fazia mui boa feição para contrastar a corrente. Saltámos e partimos.—Em quanto alguns por um e outro bordo ajudavão o favor do ar com o trabalho de suas varas, repellindo o álveo, e fazendo-nos resvalar mais prestes á medida de nossos desejos, os demais amotinavão ao longe ambas as ribeiras com suas cantigas de amores, entoadas em chusma. A cada momento porem se quebrava por si o canto, para se contemplar e encarecer o muito que a natureza e o artificio podérão e soubérão crear para enlevo de olhos, por ambas aquellas dilatadas margens e campos: pradaria verde e florída, outeiros risonhos, cazaes branqueados, grangearia e recreação de quintas, pomares, hortas, jardins, e mil arbustos curvos por entre choupos e salgueiros até beijarem a agua, esse era o painel em que meus amigos se hião enlevando, e que a mim, que pelo longe que era posto, o não podia nem por nevoas enxergar, me desentranhou algum suspiro, dando-me a sentir no meio da geral alegria alguns momentos magoados, recostado na borda da embarcaçaõ.

Mil couzas pequenas, e por ventura vãs (mas quaes ha que sejão taes para gente moça em dia de júbilo?) matizarão toda esta viagem: taes como a grita que de subito alevantámos ao passar por baixo do arco grande da ponte, aonde as vozes, refletindo do massiço da cantaria, nos ressortião para os ouvidos com uma estranha soada, como que por aquella porta e esteiro estivessemos entrando um mar nunca d’antes descoberto; despedidas á Cidade que de nós se alongava, branca e assentada em seu monte, até que desapparecia, e ás margens que para nós arremettião correndo com seus estendaes, lavradores e rebanhos, para logo nos passarem alem, fugir-nos e perderem-se; a vista de um bando immenso de pombas, que levantando-se espavoridas com a nossa passagem, de um ilheo de arêa onde se estavão a beber e banhar-se, nos atravessarão pela proa e forão derramar-se todas queixosas pela ribanceira vizinha; o ceo a espelhar-se inteiro nas aguas ufanas de retratarem multiplicado o sol da primavera com toda sua magnificencia: semelhantes nadas produzião em somma um genero de felicidade a estes moços Anacreontes viajando, á qual, para de todo o ser, só faltava poder durar.

De instante para instante importunavamos os barqueiros, perguntando insoffridos quanto nos restava do caminho. Cuidava-se ver a Lapa dos Esteios em quantas soledades apraziveis nos apparecião ao longe. Emfim a apontárão com o dedo; levantão-se todos, todos com clamor unísono a saudão. Saltámos logo no primeiro cáes, deixando o nosso barco amarrado a uma arvorezinha, que se algum curioso vier visitar aquelle sitio, he a terceira da parte esquerda. Uns de outros derramados, nos fomos prestesmente por onde o acaso ou a fantasia nos levavão, correndo e devassando toda aquella solidão, que por algumas horas vinhamos povoar: e tornando-nos a ajuntar no alto, onde tão commodos assentos se nos deparavão. “Esta Lapa disse um, para estancia e habitação das Musas parece feita; por aqui as heras pendem de toda a parte!” Sobre o que, se procedeo logo á lição dos poemas que todos levavamos. Aqui usarão meus amigos para comigo de huma cortezia, de que por mais que fiz me não foi possivel defender-me, ordenando-me com seus rogos que os meus versos, para os quaes o ultimo lugar em tal companhia podéra ainda ser de muita honra, rompessem antes de outros aquelle acto. Estes, a que eu pozera o titulo que ainda tem O Dia da Primavera, ja primeiro que o sitio fosse escolhido se achavão feitos, rasão porque não ha que procurar n’elles a pintura d’elle. Concebêra eu um dia de Primavera levado pelos campos em contentamento com aquelles companheiros; tomei de minha livre imaginação o que me pareceo bastaria para o encher; e poetei-o sem me obrigar a nenhuma outra verdade.

Elmiro (que todos havião arcadicamente tomado para si nomes de pastores) assim como a leitura foi rematada, veio para mim com um listão de heras nas mãos, e mo lançou, a todo o poder que eu pude para me escusar, do hombro direito ao lado esquerdo.—Seguio-se Anfrizo, o qual em pé junto de mim, e com uma coroa em punho, recitou uma formosa Ode, toda floreada dos louvores que a amisade lhe figurava poderem-me bem assentar; e chegado que foi á ultima estrofe, me coroou abraçando-me. Tambem a esta honra me foi forçado ceder, com quanto claramente em mim sentisse o muito que vinha mal empregada: a amisade ordenava, o dia era seu, rendi-me. Era a grinalda de artificiosissimo lavor, mui fresca, e tecido de louros, heras e cópia de flores naturaes; guardei-a com ufania e como joia; quizera conserva-la para sempre, mas representava gloria, e minha, murchou, desfez se, largos annos ha que he pó, e pó disperso.

Dado que ja então fosse tal o meu triunfo, qual nem em sonhos de ambição o podéra antever, Josino, a cuja feiticeira Musa ja eu era, muito havia, devedor, inda o subio de ponto, lendo antes de um poema, pequeno em extensão mas grande e grandissimo em merecimento, um elogio a mim em tão delicados versos, que não posso menos de perdoar-lhe a lisonja.

Aulizo[5] leo um longo poema intitulado A Primavera, que todo respirava amor aos campos e á virtude, ataviado de mui mimosas galas poeticas, e de mui particular doçura e sabor para os ouvidos: nem se cuide que sangue ou amisade ou vãgloria me fazem fôrça para o dizer, que antes o dissimulára eu, se o ser irmão e amigo fossem partes para, quando a todos os mais vou distribuindo seu preço, lho sonegar a elle; e ainda assim talvez o não ousára, se tão boas testemunhas não valessem a confirma-lo.

Foi esta leitura interrompida de uns sons de flauta, que por cima das cabeças, e de mui perto nos vinhão: era o meu caro amigo, Horacio portuguez, José Fernandes de Oliveira Leitão de Gouvea, que alvoraçando-nos e alvoraçado, nos apparecia ao cimo da curta escada que da Lapa sobe para a Quinta das Canas, que lhe fica sobranceira. Forão tudo clamores de alegria, recebendo entre nós, poetas todos verdes, o nosso decano e patriarcha; cercámo-lo com abraços, das mãos lhe furtarão a flauta, foi levado de repente a todos os recantos do nosso Parnaso, contando-lhe todos á uma o que até ali se passára, que vezes se fallára n’elle, e se desconfiára de sua promettida vinda. Este homem amavel, jovial, incapaz de estudadas gravidades, dado e corrente com todos, bom sem merecimento de esfôrço, filosofo sem o cuidar, coração que ainda não saío nem ja agora sairá da infancia, homem só comsigo parecido, que a ninguem imitou nunca, nem de outrem será nunca imitado, e cuja vida, se alguem soubesse escrevê-la, sairia tão original e unica como elle mesmo, este digo, nascido para ser alma de qualquer ajuntamento moço e alegre, tomou para logo seu quinhão na Festa. Deu-se fim ao poema interrompido com a chegada do novo socio, que muitas outras vezes o tornou a interromper com applaudir e abraçar o poeta. Josino, que assim como o ouvia fôra entrançando uma coroa de hora da arvore mais chegada, mal que o ultimo verso expirou, se foi com ella, por entre as palmas de todos, premiar a fronte do cantor.

Elmiro, que de apoz se seguio, nos cativou as attenções com um poema de muita invenção e belleza, aonde outra vez a amizade me brindou com perfumes seus, para os não dizer da lizonja. Igualmente o coroámos; e outro tanto se foi fazendo aos demais, que recitarão poemas mais breves ou traduções.

Salicio[6] repetio uma mimosissima tradução livre de uma parte da Primavera de Thompson: Albano, uma tradução em lindas quadras do Idillio Primavera de Gessner: Francilio, uma tradução em proza de Utz, que leo de pé com o copo em punho, e rematou com um brinde: Franzino uma versão da Primavera de Cramer: cerrando-se finalmente este rico banquete poetico com mais de quatrocentos versos de um poema de meu irmão José Feliciano de Castilho, que pelo muito menino que ainda áquelle tempo era, não foi dos menos vitoriados.

Todos estavamos coroados, e o rancho se espalhou. “Ja la vai o sol abaixo; os seus raios apenas tocão ja os cumes dos outeiros d’alem: aproveitar o tempo!” bradarão alguns amigos da borda de uma eira que dominava a Lapa: e todos sentimos que a tarde nos hia insensivelmente escapando. Então ao som da flauta do nosso Horacio, começarão todos de dançar e saltar, e as aves incitadas da musica, levantarão mais alto os gorgeios da tarde. As folhas das heras, que por ali guarnecião todas as arvores, e algumas flores voavão ás mãos chêas como em chuva, de uns contra os outros. De quando em quando se alevantava alguma voz inculcando, porque o fossem todos ver, algum particular gracioso e ainda não observado d’aquelle sítio. Chamando Aulizo pelos outros, lhes fez notar do cáes mais arido, o como o rio d’ali visto, á conta de sua curvidade se afigurava lago cercado de collinas desiguaes, coroadas e semeadas de larangeiras, oliveiras e pinheiros, e cazaes alvejando, enxergando-se mais a longe, e por entre estes, outros outeiros, quasi a se desvanecer na distancia e sombra da tarde. Debuxava eu no animo toda aquella scena saudosa; saía-me o quadro maravilhoso, mas era por ventura verdadeiro? não o sei.

Uma merenda saborosa nos appareceo de repente e como por encanto: Elmiro fôra o magico providente. Toalhas brancas de neve estendidas no cáes do desembarque, forão povoadas de primorosos manjares, garrafas ja de dias, e copos coroados de verdura: uns rolos de arvores estendidos em quadro nos valerão de assentos: dois meninos gémeos, vestidinhos da branco, erão os Ganimedes do nosso banquete folgazão. Parte assentados, parte reclinados em diversas posturas, outros por entre estes girando com os copos e pratos na mão, boas descaídas, descuidos a tempo, apontadas graciosidades e risos do íntimo, brindes com o copo alto na direita, enviados a mui longes e mui diversas terras (que não havia um só que da sua não padecesse ausencia e se não finasse com saudades), outras saudes ora mais ora menos sumidas, a objetos nomeados umas vezes e outras não, mas mui bons de adivinhar pelos suspiros e geito do saudador, a voltas e proposito d’isso narrativas e contos para folgar, musicas alegres de flauta mil vezes começadas e outras tantas interrompidas, e outros muitos nadas com que a penna se não atreve, convinhão em aprazivel mistura para encantar a ultima hora da Festa da Primavera.

Posto era o sol, mas o ceo ainda não carregado de noite: havia-se de partir, faltava o animo para o fazer; instavão os barqueiros, crescião n’elles a rasão e o importunar, acabárão comnosco que nos rendessemos. Despedidos os amorosamente da Lapa ja áquella hora entranhada de escuridão temerosa; com os pés ja postos na beira da agua, nenhum queria ser primeiro que trocasse terra de tanta festa, por um barco que nos hía tornar para onde vida de proza e cuidados nos aguardava: senão quando, levantando o bom Gouvea a voz, com ella suave e chêa que se hía por aquellas margens alem, começa de cantar A minha Lilia morreo; improviso seu, chêo de uma branda tristeza, que aos cançados e não fartos de gozar costuma ser segundo gozo. Assim hia elle até n’isto imitando o seu Horacio, que nos poeticos festins que dava ao Genio da alegria, nunca se esquecia com seu quinhão de pensamento para a morte. Profundo era o silencio que de toda a parte cercava o nosso cantor; só se ouvia o murmurio baixinho da corrente.

Não havia quem nos apartasse: por derradeira vez nos tornámos ainda á Lapa, travou-se uma dança por despedida, e fez-se uma saude geral ao lugar e ás trez Graças que ali costumão a vir muitas vezes[7], até que emfim nos embarcámos, com as nossas coroas na cabeça. Foi aos barqueiros defendido usar de vara, antes se lhes encommendou que nos deixassem embora ir, tão mansa e perguiçosamente como á vêa mal desperta do rio parecesse, e ainda n’aquelle pouco descer das aguas houvéramos nós tido mão, se podessemos.

Pareceo bem, para atalhar a confusão de tantas vozes como as que ali fervião juntas, nomear á maneira do Rei do vinho nos festins dos antigos, um que nos governasse. Este foi Gouvea por acclamação unanime. Lembrou um que d’ahi ao deante nos ficassemos uns aos outros dando o tratamento de confiança, que a boa amizade consente e requer: approvou-se. “E quemquer que a esta lei desobedeça, haja-se por expulso da Sociedade dos Amigos da Primavera.” Approvou-se com alvoroço; levantarão-se todos abraçando-se, apertando-se entre si as mãos, e dando-se entre risos o tratamento novo tão amiudado para lhe quebrar a estranheza, que ninguem se entendia.—“Todos os Socios (gritou outro, e de novo se fez silencio) hão de conservar até que o tempo as destrua, estas suas coroas, se não monumentos de gloria, penhores certo que mais vale, de horas felizes:” approvou-se por lei o que ja todos levavão no coração bem votado. Suscitou-se depois que recitasse cada um segundo a ordem dos assentos, alguma sua poesia breve, e que mais lhe parecesse accommodada á occasião. Não faltárão aqui seus debates, lembrando uns como apoz tanto recitar, tinha a cantoria muito melhor cabida do que os versos nus, outros affirmando que a flauta melhor que nenhuma outra cousa diria com a hora, sítio, e calada grande do rio: até que um veio conciliar a diversidade dos pareceres, dizendo que umas couzas não tolhião as outras, antes podião ir todas a revezes tendo seu lugar: o que assim se cumprio.

A serenidade da noite junta com as saudades do dia, nos fez achar inefavel doçura nos sons da flauta, que parecião modulados pela melancolia, e se esvaíão ao longe nos ares. Se ás vezes o acaso nos levava mais para uma das margens, uns frouxos echos chêos de doçura a tristeza se comprazião de repetir a musica e as palmas com que a nós applaudiamos. Emquanto um só cantava em meia voz, e nós o ouviamos calados, a face na mão, e meio reclinados contra o rio, suave nos era escutar como as quasi insensiveis ondas, com som muito mais baixo nos vinhão beijar os lados do batel, d’onde, se fugião partindo, com um murmurinho saudoso.

Descemos em terra, e abraçando-nos repassados de igual amizade, e das mesmas lembranças, votámos logo ali nova Festa em honra do primeiro dia de Maio, a qual se veio a fazer, como ao deante o declarará o volume: e todo esse meio tempo de uma até á outra, foi tecido de doces memorias, fantasias poeticas, tenções e esperanças de prazer.

Assim se podia e sabia ainda então passar dias mansos, innocentes e bemaventurados!

Lisboa: 2 de Janeiro de 1837.

O DIA
DA
PRIMAVERA.

CANTO I.
A Manhã

Ei-la que chega a amante Primavera!

Logo ao romper do dia susurrando

Vós, Favonios azues, a annunciaveis.

Chega ... chegou! as aves a festejão

Desatinadas, doidas; ja com verdes

Braços lhe acena o bosque; estão-se os rios

A retrata-la; as fontes a murmurão;

Traz gala o monte; os valles se alcatifão;

Ri-lhe o ceo todo, a Natureza he d’ella!

Mais cedo ao leito do marido annoso

Hoje a Aurora fugio; tomou regaço

De orientaes aljofares mais rico,

Mais cópia em seio e mãos de ethéreas flores.

Aos umbraes inda escuros do horisonte

Quem a aguardava, quem? os meus Amores

Que encontro! que abraçar-se!... O Zefirinho

Que ja por entre nós passou trez vezes,

Trez vezes ao passar mo ha segredado:

Vio tudo, tudo ouvio, que era elle proprio

Um dos que pelo ar vinhão soprando

O matizado pavilhão de nuvens,

Em que ás terras baixava o Par celeste.

Rosto a rosto inclinado; as mãos unidas;

Mago riso um só riso em bocas duas;

Absortos em luz mutua os mutuos olhos;

Duas Gémeas do ceo, duas Virtudes

N’uma Virtude só, se afiguravão.

—“Ó minha Irmã (dizia a Primavera)

“Quem nos ha de estremar? tu es do dia

“A Primavera, eu sou do anno Aurora”—

—“Filha como eu do Sol (acode rindo

“A Aurora), ó doce Irmã, vérte-te o Fado,

“Não q eu to inveje, os bens de urna mais ampla:

“Deu-te folgar sem mim, deu-te a alegria

“Dos dias que eu só abro, e os tão gabados

“Prazeres que eu não vi, não verei nunca,

“Prazeres do sol pôsto, e de alvas noites.

“A mim lida perenne, a mim rigores

“De oppostas estações, reinar de instantes,

“Contínua fuga, e os odios dos ditosos,

“E as maldições de Amor comtigo affavel.

“Eis porque a meu pezar, já por costume,

“De olhos que espargem luz se orvalhão choros.

“Perdôa-mos teu jubilo mos sécca.

“Desce, eu parto, urge o Tempo, e ja me acena

“Co’a mão rugosa para novos climas.

“Fica-te em nossa amada Lusitania,

“Inda pouco ha tão triste. Observa os cumes

“Contra o nosso nascente; ahi vês á espera

“A turba toda dos campestres Deozes,

“Flora, Cibele, Dríades, Napéas,

“Hamadríades, Náiades, Silvano,

“A caçadora Cinthia, Amores, Graças,

“Os ledos Risos, a amorosa Venus;

“E Pan ha muito tempo em nova flauta,

“No verde cume do apartado monte,

“Lá onde canas trémulas susurrão,

“Para a tua chegada estuda um hino,

“A cujo estrondo os Sátiros voltêem.”—

Diz: olha para traz, vê o Sol, desmaia,

Beija a Amiga, e fugindo a entrega ao dia.

Desfez-se a névoa eis Sol! Joelho em terra,

Amigos meus; he o Sol da Primavera!

“Ó Sol das flores, Salve! Ó Sol de amantes,

“Salve! E trez vezes Salve! ó Sol dos vates!”

Vêde-o doirando do arvoredo os cumes;

Vêde nas aguas límpidas fervendo

De reflexos de luz áureo cardume.

Corramos n’um momento os campos todos!

Como esta luz do Ceo, que a toda a parte

Desce, rompe, insinua-se, alvoroça;

Como esta luz do Ceo, vates mancebos,

Devassemos a terra: uma só gruta

Não fique, um arvoredo, ou valle, ou fonte,

Por onde não mergulhe a vista, o estro.

Esta, que ora seguimos, tortuosa

Concava senda, ha pouco estreito rio

Co’as grossas chuvas da vizinha serra,

Parece de um jardim curiosa rua!

De um lado e d’outro os còmaros pendentes

Ja não são montes de crueis espinhos,

Montes são de verdura, e roxas flores,

Onde n’outra estação viráõ c’os cestos

Colher nevadas mãos negras amoras:

Recende o legacão, e a madresilva.

De madresilva ornemo-nos as frontes ...

Mas não: fique-se em paz a flor nevada;

Quer-se antes a violeta, eu sei outeiro

Onde ella mora, he flor da Primavera;

D’esta eu fiz elleição não quero d’outra,

Vós, se outra preferís, apanhai d’essa.

Por aqui vai a encosta desfarçada:

Como que ja de cór meus pés a sabem.

Ja vós de cá vereis, la quasi ao cimo,

Um ramalhete espesso de aveleiras,

E de dentro luzindo uma apparencia

De alvo lirio entre verde, um cazalinho;

Pois essa he a casa de Egle. E mais avante,

No alto; não voltêão solitarias

As pandas velas de veloz moinho?

Tambem ja la pouzei n’uma afrontada

Tarde do estio, e lhe dormi á sombra.

Tudo isto me conhece! Esta ladeira

De rusticos degráos, que ahi desce á dextra,

De perenne verdor acobertada,

Cáe na fonte da aldea. (Ahi vão por agua

Com seus vermelhos cantaros as moças.

Outras cá vem, com passo mais tardio,

Sobindo ja, com os potes á cabeça

Lustrosos, vacillando e sempre firmes)

Não presumis quanto he social a boa

Da fontinha aldeã! não ha formosa

Que ali se não detenha e não se enfeite;

Não ha pastor cortez, que ao fim da tarde,

Ja recolhido o gado, ali não desça

Para ajudar a encher; inda não houve

Na vizinhança amor, cantiga nova,

Ou fallado successo, que cem vezes

Do fundo de seu antro os não ouvisse

A Náiade anciã; nem bôda alguma,

Sem se enramar o portico musgoso.

Á esquerda, pela varzea anda rebanho;

Que ouvi balar, e ainda ouço a cantilena

De pegureira voz. Dizei-me á pressa,

Que scena off’rece a varzea? a relva molle

De alvas boninas trémulas brincada,

Onde o calor nascente o orvalho enxuga,

O sombrear das arvores dispersas,

Bellos não são de ver? he vasto o bando

Das ovelhas pacíficas? he linda

A guardadora sua? está sozinha

Em pé volvendo o fuso e olhando o pasto,

Ou com algum pastor sentada em ocio?

Traz disperso o cabello ou prezo em rosas?

Que donoso cantar! que peregrina

Poesia que esperdiça aquella moça

Com broncas solidões e ovelhas rudes!

Couza que assim namore a fantasia

Não quero que haja, não: virgem formosa

Sozinha sob o ceo; velando em brutos

A que era de velar como um thesouro;

A graça envolta em lãs, contente e rica;

E annos verdes, sem pena aqui florindo,

Longe de olhos e amor, jogos e esp’ranças!

Detende-vos: o aroma he de violetas.

Ei-las! irei tecendo a c’roa minha

Com estas, que escondidas, pudibundas,

Como a pastora, em paz desabrocharão,

O ar, como a pastora, em roda encantão.

Ja percebo o rugir das aveleiras;

Não vejo inda o cazal estancia d’Egle,

Mas perto, oh perto vem: todo esse rôlo

De espesso fumo que serpêa aos ares,

He da interna fogueira que amanhece,

Cuidadosa do almoço, aos moradores.

Entremos no pomar. Ja Primavera

Copiosa o bafejou, de agradecida

Ás pomareiras mãos que lho aprestárão.

Inda folhas não ha, mas tudo he flores!

Vede como ante o sol tremúla e brilha

O pecegueiro co’o vermelho ornato:

Vede alem da pereira a branca véste,

Da cerejeira, do abrunheiro a cópa:

Vede como uma vide em cada tronco

Tenaz se enlêa em tortuoso abraço;

Ja seus pequenos pampanos rebentão,

Verdejantes festões ja vão formando:

Do cheiroso morango a planta humilde

Aqui e ali no verde chão rasteja.

Arvores, plantas d’Egle, a nomeada

Em todo este arredor pelas delicias

Dos ricos frutos seus, não se numérão,

Nem sei louvor que lhes não ceda, e muito.

O porque sejão taes, fique em segredo

Quando vo-lo eu disser. — Aqui Vertumno

Veio uma tarde do passado outono,

Mudado em rouxinol, cantar nos ramos,

D’onde, mais bella que a gentil Pomona,

Egle andava colhendo a rica fruta.

Julgou ver sua Deoza o terno amante,

E tão doce cantou por entre os frutos,

Tão queixoso gemeo, gemeo tão meigo

Cercou-a tanto com chorosos pios,

Tantas vezes pouzou na mão de neve,

Na trança negra, no virgineo seio,

Que Egle o metteo no candido regaço,

O levou toda ufana ao lar paterno,

E em pintada gaiola inda hoje o guarda,

Que o Deos não quer fugir do cativeiro.

Quando a sente acordar pela alta noite,

Acalenta-a com languidos requebros:

Ao romper da manhã, quando no bosque

Ouve perto cantando as outras aves,

Logo a acorda com vividos gorgeios:

Mas quando a vê surgir, qual Venus da agua,

Sem mais vestido que a esparsida coma ...

Ahi he o pipillar, o esvoaçar-se,

O encrespar de plumage, o dar sem tino

Contra os duros varões co’ o peito brando:

Ahi o abrir do bico a pedir beijos,

E o revelar calado o amor e o nume.

Por isso he que ao pomar onde foi prezo

Fadou, quanta vos prende, infinda graça.

Como he puro este ceo do campo d’Egle!

Como he doce este Zéfiro que folga

Entre as arvores d’Egle! este he ditoso!

Ei-la que sáe de seu campestre alvergue.

Calados se podeis, entre estes verdes

Porque vos não descubra, olhai-a um pouco.

Quereis ver como a ponto lhe adivinho

Os passos, e o que faz, e os pensamentos?

Sim, Egle he sempre aquella, he sempre a mesma;

Arvore sem enxerto he sua vida,

Dá sempre a flor igual, iguaes os frutos.

Mas silencio, Vertumnos insoffridos,

Ja vo-la pinto, e me direis se eu érro.

Do braço nu e candido lhe pende

De louro milho o próvido cestinho.

Chama as pombas, lá vão pouzar no alpendre;

Á eira arroja os grãos, lá são na eira,

Arrulhão, comem sofregas, refogem;

Ahi vai novo punhado, ahi vem de novo.

Uma d’ellas, mais alva do que o leite,

Vai pouzar no cestinho ao lado d’Egle,

E mansa come na formosa dextra;

Furtão côres com o sol o collo, as azas.

Egle lhe chama filha; affirmarieis

Que o brutinho a entendeo, salta-lhe ao seio,

Espaneja-se: agora lhe promette

O pombo mais fiel para consorte,

E um ninho todo fôfo, e muito afago

Aos pequeninos seus; mas quer em paga

Um beijo, e um beijo pede: a face inclina,

O bico a vem libar; alonga os labios

Unidos em botão, corre o biquinho,

E ao centro do botão lhe leva o beijo.

Agora vem ao tanque, aos rubros peixes

Trazer segundo almoço: oh!—providencia

Não ha mais desvelada, ou mais formosa!

Mal que o choveo nas aguas transparentes,

Por entre os crebros circulos assoma

De vivos olhos purpurina turba,

Tragão-no, e fogem requebrando as caudas:

Ermo o lago outra vez ficou dormindo.

Que dizeis? volve a casa? em manhã d’estas

Egle volve ao cazal! tornará logo.

Mas vós não ficareis, que o não consinto;

Hoje he só Divindade a Primavera.

Emquanto a hora da Festa inda vem longe,

Irmos correndo á sôlta, irmos folgando

He o nosso dever, foi jura nossa.

¿Mas que risadas d’esta parte sôão

Entre os salgueiros, do regato á borda?

Rasgado o cinto, desgrenhada a trança,

Uma Ninfa gentil é quem sozinha,

Se ouve rir no pacífico arvoredo!

La vai na vêa d’agua bracejando,

E a soltar de afflição piedosos gritos

Um Sátiro infeliz! ja muito longe

A corrente lhe leva o odre e a flauta.

Agora á flôr das agoas apparece,

Some-se agora no lodoso fundo.

Em vez de o soccorrer, o apupão rindo

Da opposta varzea os rusticos pastores.

—“Dize, bom guardador das vaccas nedeas

“Que successo foi este?”—“Eu vo-lo conto.

“A Ninfa hia correndo, antes voando,

“Ao longo d’esta margem que verdeja,

“Quando eu dei fé; suava-lhe no alcance

“O mofino do Sátiro ... (Que vejo!

“Inda poude aferrar ... Más horas leve

“A agua que o não tragou! Pois ja não larga

“Os vimes que aferrou co’a mão pelluda.

“La trepa ... Vê-lo em cima! Oh como o bruto

“Se estira ao sol e arqueja!) Hia no alcance

“Da pobre Ninfa o Sátiro; umas silvas

“A prendêrão, travando-lhe do cinto.

“Carpia-se a coitada entre alaridos,

“Como passaro prezo; esta novilha

“Não muge com mais ancia em vendo os lobos.

“Bate as palmas o fero, e mais ligeiro

“Atropella a carreira, e vai clamando

—“Venci-te—Avida mão ja lhe lançava,

“Senão quando (tomado está dos vinhos)

“O pé caprino na orvalhada relva

“Resvala: vê-lo vai de tombo em tombo

“Medindo a ribanceira, e dá no rio!

“Logo ao caír, fugíra-lhe dos hombros

“O odre do vinho, e a flauta d’entre os dedos.

“Mal poude resfolgar—Ó flauta! ó odre!—

“Disse trez vezes, e esqueceo-lhe a Ninfa”—

—“Bem hajas, guardador das nedeas vaccas:

“Mais feliz sejas tu com teus amores,

“E menos apressada a que seguires.”

Socios, que mais ha ahi? Que vos demora

Em de redor de um choupo? Letras, versos

Entalhados no tronco! uma grinalda

A abraça-lo, outras mil por toda a cópa,

Que parece um rosal! na terra mirtos!

Lede-me esse letreiro: algum queixume

De infeliz namorado. Oh! ceos, he crivel?

LEI DE AMOR tem por titulo? se fosse

Da propria mão do Nume aqui gravada!

Amar, amar! viver d’amores!

Que o tempo off’rece e nunca espera;

Aos corações bem como ás flores

Não se renova a Primavera.

Oh Lei, porta de Elisio antes da morte!

Sim, sim, de Amor tu es; vós sois das Graças

Coroas que a ufanaes, a encheis de aroma.

Socios, ministros das Piérias Deozas,

Erguei mão não profana ás flores sacras,

Privilegio he do estro, ouzai colhê-las:

Levará cadaqual no peito a sua

Bem sobre o coração, tão perto d’elle

Que ouvindo-o palpitar lhe falle amores.

Pois he lei quero amar: sim. Porém onde

Onde estará da Primavera a Deoza?

Por toda a parte os seus vestigios nóto,

Mas não a posso achar. Ah! vós que rides,

A insólita paixão julgaes chimera.

Existe, existe a Virgem graciosa,

Dos Ceos a Filha occulta anda na terra:

Não são sem divindade estes prodigios.

Quem faz tão branda murmurar a fonte?

Quem abre a rosa na materna planta?

Quem dá cheiro á violeta, e côr ao lirio,

Ao ar fresco o regalo e verde aos campos?

Quem poesia de amor ensina ás aves?

Quem é que influe no coração dos homens

Tanto amor, tanta paz, doçura tanta?

Existe, existe a Virgem graciosa,

A minha doce Amante, a minha Amada,

Dos Ceos a Filha occulta anda na terra.

Sinaes de sua mão, pizadas suas,

Fragrancias que espirou, por toda a parte

Me envolvem, me arrebatão, me endoidecem;

Mas busco-a e não se mostra; exclamo, he surda!

O dia he fallador, he distraído,

Deidade virginal recêa o dia,

Casta, só quer talvez ás castas sombras

Revelar seu misterio, abrir seu peito.

Oh quem me dera que baixasse a noite!

Da noite no pacífico silencio

Côa pelo ar vazio o som mais leve:

Por isso a Filomela a quiz por sua,

E o mocho lhe confia as longas queixas:

Quem me ja déra que baixasse a noite!

Irei clamar do cume dos outeiros

“Ó Primavera, ó minha Primavera!”

E depois que trez vezes repetirem,

Ao longe os echos meu tristonho grito,

Attento escutarei se me responde.

Se nada ouvir, prostrando-me, e cobrindo

De igneos beijos a terra (os igneos beijos

Tem valor de conjurio entre amadores)

Com maior devoção, dobrada fôrça,

Clamarei “Primavera, ó Primavera!”

E os campos todos correrei bradando.

Na solitaria gruta alguma Ninfa

Ha de acordar, e á parte do oriente

Lançar a vista, procurando a aurora:

A aurora não virá, e eu longo tempo

Andarei pelas trevas suspirando.

Se trez vezes o sol descer ás ondas,

Sem que possa encontrar a minha Amada,

E sem que algum mortal dê novas d’ella,

Apagarei no peito o incendio inutil,

Pensando que era ingrata, ou que por sonhos

Somente a víra em extases do estro.

Mas viver sem amar, sem ser amado?

Vida entre gelos equivale á morte,

No pasto ao coração mantem-se a vida;

Sois brandas affeições, a essencia d’ella.

Confessar-me da Lei que abrange a todos,

O primeiro infrátor? Ó Chlóe, ó bella,

Serás tu d’entre mil, o preferido

Emprego aos versos meus e aos meus excessos.

Ja tens da Primavera o genio, as graças,

Sua fama terás, terás seus hinos.

Quando com teu rebanho para o rio

O bosque ao fim da tarde atravessares,

De longe me verás na flórea margem

Sobre um penedo a celebrar teu nome.

Quando o quente redil ao gado abrires

No frescor da manhã, dir-te-ha meu rosto

Que entre as da tua porta arvores caras

Não fui amanhecer, mas toda a noite

De amor andei cercando o teu descanço,

Sentindo-te o respiro, ou crendo ouvi-lo.

Quando na sésta, á sombra da oliveira

Tiveres descuidosa adormecido,

Em sons de flauta escutarás por sonhos

O cantar novo que te mais recreie.

Mas vede como leve escapa o tempo!

Ja alto e rijo o sol encurta as sombras.

Largo se ha divagado! Hora purpúrea,

A mais social, mais folgazã das horas,

Chamando está por nós co’a mesa agreste.

Onde a iremos tomar? n’algum tugurio

De solitaria Baucis? nem de feno

Pobres tétos consente o sacro Dia.

Ali temos o outeiro alcatifado,

Rico montáõ de flores! Que mui frescos

Pela assomada os louros se entrelação!

Mas sobre tudo que aprazivel gruta!

Por fóra he de hera um tufo luzidio,

Dentro um fôrro de musgo. Alvitre novo

Ó Socios escutai. Esta collina

Desde hoje para nós fique Parnaso.

Eis a gruta de Cirrha, onde costuma

Febo sonhar magníficas imagens!

Esses louros são delle! Aquella fonte

(Ceos nada falta!) he fonte de Castalia!

No remanso diáfano boiando

Niveos ganços as azas empavezão;

Fingi-lhes doce a voz, chamai-lhes cisnes:

Lindas pastoras nossas Musas sejão.

Respiremos o estro! Ó lá de Cirrha

Virações, acudi-nos contra a calma:

E vós louros selvaticos, ó louros,

Velai com vossa abobada frondente

Os vates e o banquete, o rir e os versos.

A primeira saude a Bacho e Ceres,

A Palles e Pomona, ora presentes

Do banquete á rural simplicidade.

Para dias iguaes, plantar-lhes voto

Cá bem no viso do sagrado outeiro,

Densa cabana de perpetua folha:

Para aqui, de canceiras feriados,

Viremos amiude abrir os peitos

Ao bachico folguedo, a Amor e aos cantos,

Co’a alegria assombrar, e co’a amizade

Do loureiral as Dríades vizinhas.

Na venturosa paz d’este retiro,

Não virá perturbar nossa humildade

Com seus trovões, com seus coriscos horridos

Turba sublime de soturnos vates.

Alçando o collo, enfaticos praguejem

Contra os tirannos, contra os monstros barbaros;

Pintem de rôjo os prepotentes déspotas,

Fulminem os perversos aristócratas,

E fujão por estudo á natureza.

Não lhes invejo, não, a bronsea tuba,

Que despede trovões e rasga ouvidos.

De nosso humilde genio estou contente:

Nada mais temos que uma agreste flauta;

Com ella muda, ás vezes longas horas,

Da natureza os quadros estudâmos.

Socios dos rouxinoes, só diffundimos

Depois de meditar, nossos gorgeios;

Em quanto o mocho a luz aborrecendo,

Nos amenos vergeis nunca discorre;

Dorme o formoso dia em cava furna,

E sólta pela noite horrendos guinchos,

Pouzado junto ao ceo, mas entre horrores.

Elmiro, ó tu que, tanto como odêo,

Odêas as sonoras bagatelas,

E ris, como eu, dos estrondosos nadas;

Nunca te afastes da florída róta,

Por onde a Natureza o Genio chama.

Da madrugada nos mimosos sonhos,

Costumas ver de murtas coroada,

A amavel Sombra do risonho Géssner.

Oh! quando aos campos teus um dia voltes,

Á sombra do teu cedro será doce

Ouvir-te prantear perdida amante!

Entre as folhas cheirosas susurrando,

Qual favonio indeciso, os Manes d’ella,

Mansa tristeza ao coração te enviem.

Emquanto no escarceo da grão Cidade

Eu misero, eu saudoso andar lutando,

La no fertil torrão verás contente

Por ceos de teu jardim nascer a aurora:

Regarás pela fresca as flores tuas

Junto da terna Mãi, que este só gôsto

Na morte conservou do esposo amado;

Triste e formosa qual viuva rôla.

Outras vezes as pombas que sustentas,

Terno irás vizitar co’as Irmãs bellas,

Qual entre as Graças passeára Adonis

Nos arvoredos da ociosa Chipre.

Elmiro, ¿e alguma vez tambem meus versos

Serão do teu retiro um passatempo?

Quando eu tos enviar, vós reunidos

Junto do fogo nos serões do inverno,

Contentes os lereis; e tu, girando

Co’a vaga idea nos passados tempos,

Dirás a suspirar “He meu amigo”.

FIM DO CANTO PRIMEIRO.

O DIA
DA
PRIMAVERA.

CANTO II.
A Tarde.

Ja dos louros as grimpas se embalanção:

Surgir, surgir da relva sonolenta!

Ja fresca viração consola os ares:

Que zoada que vai por toda a selva!

Estrépito de rio impetuoso

Na calada da noite a crê mil vezes

O viandante perdido. Hora da Festa,

Bem te ouvimos anciosa estar chamando.

¡Da Primavera á Festa, á gruta, ó Socios,

De Amarilis e Umbrano á vasta gruta!

Ja agora o bom de Anfrizo ha de ter pronto

De sua déstra mão o altar gramíneo,

Arqueado em docel do cedro a cópa,

E do cedro no pé com flórea tarja

Da nossa Primavera aberto o nome,

Se he que amor lhe não fez gravar Dorinda;

Dorinda, cujos magicos encantos

Na lira do amador gerão milagres;

Cujos olhos, tão negros como a noite,

São como a noite ao Deos de amor tão caros.

Sim, vamos — Vedes vós o pequenino

Que la vem amontado em verde cana?

Quão guapo agita as redeas côr de rosa,

E açouta co’a varinha a brava fera!

Ouvis-lhe a doce voz que por mim chama?

—“Salve, menino! e adeos, que hoje não posso.

“Outro dia virei, toda uma tarde,

“Trabalhar nas flautinhas, que arremedem

“Cantar de rouxinol soprando-as n’agua.

“Amanhã me procura aqui no outeiro,

“Verás, verás que historias te não conto.”—

Partio: como galopa afervorado!

Ja vai conta-lo á mãi. Este menino

He da aldea a doudice, e os meus amores.

He dote de seus annos a innocencia,

Como do botãozinho he dote a graça:

Mas aqui ha melhor, he botãozinho

Ja fragrante, he virtude antes do sizo.

N’aquella sésta do abafado agosto,

Quando fostes nadar, eu passeava

Sozinho a espairecer pela frescura;

Eis para mim correndo este menino,

Vergonhoso me diz:—“Queres atar-me

“Este cordel nas pontas do meu arco,

“Bem seguro, bem forte, que não quebre?”—

—“Sim, amavel menino (eu lhe respondo)

“Sim quero atar-to bem seguro e forte”—

E emquanto lho fazia, assim lhe disse:

—“Vais caçar borboletas? ou mordeo-te

“Alguma abelha, e queres castiga-la?”—

—“Não, não: vou dar em minha mãi um tiro”—

—“Um tiro em tua mãi!”—“Sim n’outro dia

“Deo-me tanto nas mãos, que me ficarão

“A doer, tão vermelhas como as rosas”—

—“E porque assim te deo, que te ficassem

“As mãozinhas vermelhas como as rosas?”—

—“Eu tinha (acudio elle) um melro novo:

“Era meu, apanhou-o a minha rede.

“Sempre estava a cantar; era tão lindo!

“E quando assobiava? os outros melros

“Punhão-se la do bosque a responder-lhe,

“Queria tanto á nossa Mirtilinha!

“(A nossa Mirtilinha he a mais pequena

“Das minhas trez irmãs): e ella tratava-o,

“Quando eu hia á seara ás cegarregas.

“No outro dia esqueceo nos a gaiola

“Ao sol toda a manhã: quando fui vê-lo,

“Não se podia ter, abria o bico

“E não tomava nada. Um pequenito

“Me disse que era calma: agarro n’elle,

“Vou-me ao tanque, e mergulho-o cinco vezes.

“Ficou muito peór: punha-o direito,

“E elle sempre a caír, fechava os olhos,

“E estremecia todo. Aquietou-se:

“Cuidei eu que dormia e disse, Dorme,

“Veio um velho, abanou-o, e disse, He morto.

“Fui com elle na mão chorando, e em gritos, ta,

“Procurar minha mãi. Ficou pasmada

“Quando o vio, e eu lhe disse—Ahi está, não can-

“Nem ja faz festa á nossa Mirtilinha—

“Poz-se a ralhar por isto, e castigou me”—

“Cruel menino (lhe volvi severo),

“Cruel menino, e em tua mãi pretendes

“Ir com setas vingar-te?”—“Oh! não (me torna),

“Não lhe hei de fazer mal. Se tu soubesses

“O que uma seta faz!...”—“Não te percebo,

“E pois que faz? explica-te, saibamos”—

—“Na cabana de Silvio (me responde)

“Ha um cópo de páo todo pintado,

“Que elle ja prometteo que me daria

“Se eu lhe levasse a fita, com que ás vezes

“A minha irmã Glicera ata os cabellos.

“Por fóra do tal cópo está com um arco,

“Para atirar a uma pastora linda,

“Um menino como eu, com os olhos negros

“Voltados para mim, e sempre a rir-se.

“Anda nuzinho ao frio, e tem nos hombros

“Azas, que lhe não ganha a borboleta.

“Silvio disse-me o nome que lhe davão,

“Porem ... ja me esqueceo: tambem me disse

“Que elle costuma á gente descuidada

“Atirar muita vez d’aquellas setas.

“Eu cuidava que as setas matarião,

“Tinhão-mo dito um dia os caçadores,

“Mas Silvio me jurou que não matavão,

“E contou-mo sem rir; Silvio não mente.

“Aquellas setas vem, entrão no peito

“Sem ferida nem sangue, e até sem dores.

“Se obrigão a chorar e a ficar triste,

“Como ás vezes succede ao meu bom Silvio,

“Em toda esta tristeza ha tanto gôsto,

“Que he mais doce gemer, que estar alegre.

“Eu d’isto nada entendo, porem Silvio

“Me disse que algum tempo o entenderia.

“Lembra-me agora! o tal menino d’azas (certo

“Chama-se Amor; não he verdade?”—“He

(Lhe respondo, apertando-o nos meus braços),

“Chama-se Amor, e he como tu formoso.”—

—“E seus tiros não fazem que fiquemos

“Tão amigos de alguem, como o cordeiro

“Que anda a brincar com seu irmão no prado?”—

—“Sim he verdade”—“Então venha o meu arco,

“Ja tenho em casa muitas setas prontas,

“Vou ferir minha mãi.”—“Louco! o teu arco

“Como o d’elle não he (lhe brado rindo):

“Lança-te ao collo seu, perdão lhe pede,

“Beija-a, conta-lhe tudo, e eu te prometto

“Por cada beijo teu, mil beijos d’ella”—

Não me ouvio mais, correo: e de caminho

Colheo para offertar-lhe algumas flores.

Mas eis-no; ja no suspirado sitio!

Essa a gruta: este o cedro annoso e immenso,

Condigno pavilhão do altar votivo.

Inda as c’roas vos faltão, ela ó Socios,

Rompei demoras, ide ás flores, ide,

E volvei logo a dar princípio á Festa.

Só fiquei: se eu podesse aqui no prado

Por meus olhos tambem colher algumas!

(Que as violetas que hei posto andão ja murchas.)

—“Ó pastorinha de formoso gado,

“Se podes, nem te peza alguns momentos

“Perder comigo, apanha-me violetas,

“Ensinar-te-hei por prémio outros cantares.

“Teu rafeiro no emtanto o gado vele.”

Partio, deixando ao lado meu, na relva

O cordeiro que tinha em seu regaço,

Tão alvo, tão pequeno como um lirio.

Pobre innocente! nos meus dedos busca

Da mãi, que ao longe bala, a doce têta!

Se comer ja soubesse, eu lhe daria

D’estas papoulas, d’esta fina grama.

Que silencio! mal ouço uma fontinha;

Serena viração de quando em quando;

O crepitar miudo dos raminhos,

Que a leve cabra arranca do espinheiro;

A voz d’um lavrador aos bois tardios;

E o cançado gemer de um carro ao longe.

Cá volve a minha Flora! estou c’roado:

“Graças ó doce e rustica Belleza!

Sempre emtorno de ti rebentem flores

Que o teu rebanho cobiçoso pasça;

Nunca te falte pelo estio a sombra:

E amor te volte em fruto as esperanças,

Se esperanças de amor no peito nutres.

Vês tu aquelle altar? foi obra nossa,

Foi por nós consagrado á Primavera,

E vamos festeja-la. Altar sem Nume

Faz menos devoção; se tu quizesses,

Bem o podias ser. Anda, mimosa

E amavel pastorinha; enflora á pressa

A trança, o collo, o seio, e no regaço

Lança flores quaesquer, qualquer verdura:

Oh! da-me este prazer. Do cedro ao tronco

Vai-te encostar do modo que te digo,

Co’a mão na face, e com o sorrir nos labios[8].

Direi aos socios meus, quando voltarem:

“Invoquei tanto e tanto os meus Amores

(Nome he que á Deoza dou, não tenhas susto

“Nem me furtos a mão) e he tão benigna,

“Tão docil, tão cortez a Primavera,

“Que saío do seu bosque, e apraz-lhe ouvir-nos.”

Folgaremos de os ver caír no engano,

Ajoelhar-se á fingida Primavera,

E mais de coração cantar-lhe os hinos.

De que te ris, singela rapariga?

Porque foges de mim? Se não consentes,

Cedo iremos buscar-te nos teus montes,

Chamar-te Deoza, em dôbro envergonhar-te.”

Que he isto! ja volveis? mostrai-me as c’roas.

Como escolheste bem, terno Josino,

Meigo no coração, na voz mavioso!

Goivos com mirtos para ti cazaste,

Com o suave condiz a suavidade.

Se nos campos do ceo, reino do Genio,

Eu podesse colher miudos astros,

Dos versos onde alçaste ao ceo meu nome

C’roa de ethérea luz seria prémio.

Dou-te o que posso, gravarei teu nome

Em bosque, onde Hamadríades o leão:

Decoraráõ com o verso os teus louvores,

E alguma em si dirá: “Quem me ora désse

Em minhas solidões este Josino,

Por ver se he no cantar, qual dizem, meigo.”

Vejamos meu Irmão[9] a tua escolha.

Eis-te como eu cingido de violetas;

Ah quanto são iguaes os gostos nossos!

Abraça-me cantor da natureza,

Um a outro, um pelo outro aqui juremos

Juntar sempre em busca-la a industria nossa.

Abraça-me outra vez: nossa amizade,

Nossa terna amizade, e nosso estudo

Aperte mais e mais do sangue os laços.

Se jamais fado atroz nos separasse ...

Longe do pensamento esse impossivel!

Duas vidas irmãs que medrão juntas

Tem uma só raiz; dão flor, dão fruto

Nas mesmas estações, e ás horas mesmas.

Quer benção mande o ceo, quer sôpro de ira,

Um só bem, um só mal abrange as duas,

Emquanto uma existir persiste a sócia.

Vai para o nosso altar, um só momento

Me prende, o meu lugar tu la conserva

Entre ti e o das Musas ja mimoso

Nosso irmão, que no berço achou a flauta:

Menino, a quem cingistes de alvas rosas,

Como elle emblemas da innocencia breve.

Elmiro, o teu diadema he bello e simples;

Mirto e teixo pregões de amor e mágoa.

Não são menos de ver, nem menos proprias

As vossas, bom Franzino, alegre Albano.

Do amor perfeito as flores melindrosas

Tecem, Franzino, a tua, e tem por joia

Uma saudade a tremular na fronte.

De teus suspiros o ditoso emprego

Longe está, bem o sei, mas não suspires:

Tua amada fiel na ausencia chora,

Sua imaginação durante o dia

Voa a buscar-te aos campos do Mondego;

Dos campos do Mondego aos braços d’ella

Sua imaginação te leva em sonhos.

Albano, a ti o amor foi mais propício:

Vês amiude os olhos que te inflammão

E o sorrir facil que te muda em louco.

Não muito abertas, incendidas rosas

Cercando as tuas fontes, me afigurão

A imagem ver de envergonhados beijos.

Vem meu Anfrizo: a tua d’entre todas

He por certo a mais funebre grinalda;

Um ramo de cipreste e alguns suspiros.

Ah tua mãi tão cedo abandonar-te!

Orfão triste, perdoa ao vate amigo,

Que em chaga inda tão fresca a mão te ha pôsto.

Se para ella ha balsamo no mundo,

Só Amor sabe d’elle, e mãos de neve

Tem para to applicar virtude innata.

Sim, Dorinda gentil como que busca

Esse ermo de tua alma encher de affetos,

E no vão do teu peito insinuar-se.

Mas a saudade maternal he muito;

Todo o mundo, a amizade, e até Dorinda

Só poderáõ na angustia confortar-te.

Teu mal sustido chôro eis recomeça!

Só a dor te contenta, á dor sirvamos:

Narrar-te quero a historia do cipreste,

Que dos ramos feraes partio comtigo.

Prêzo das graças da opulenta Silvia

Titiro guardador de pobre armento,

Com seus ais estes montes abalava.

A bella desdenhosa, muitas vezes

Quando o sentia a modular ternura

Ao som da flauta n’um sombrio valle,

Torcia, por não ve-lo, o seu caminho.

Ah se o visse, estendido entre o rebanho,

O pranto a borbulhar nos fitos olhos,

E ao som da flauta, em baixa voz unidos

De quando em quando um ai, e o nome d’ella!

Rigores virginaes, desdens de rica

A amor, á compaixão talvez cedessem,

E ficasse mais bella, a ser piedosa.

Por só consolação de seus desgostos,

Co’a pèga que ja foi da ingrata Silvia

Folgava repetir de Silvia o nome.

Nunca a avezinha ao misero deixava,

Que assim a havião prêza os novos mimos.

Só ás vezes aos lares revoando

Da formosa cruel, de la trazia

Furtada alguma prenda ao pobre dono;

Sem querer lhe atiçava o fogo inutil.

Era triste, mas doce, ouvir de noite

Pelos bosques bradar “Ó Silvia, ó Silvia”

O terno amante; e acompanha-lo a pêga,

Ja pouzada em seu hombro, ou ja gritando

La de cima de um tronco “Ó Silvia, ó Silvia!”

Longos tempos assim pelas florestas

Vagar se ouvirão solitarios ambos;

Té que o loquaz brutinho de cançado

Veio um dia caír entre as mãos d’elle,

Bateo as azas, terminou seus dias.

Á fiel companheira ultimas honras

Deo como poude Titiro: sagrou-lhe

Um pequenino tumulo de barro,

E um ciprestinho de anno, que por novo

Inda estudava o geito de ser triste.

Aos Numes implorou que o não crescessem:

Mas pouco e pouco o tronco foi subindo,

E com elle de Titiro a saudade.

Bem póde ser que o tumulo não visses,

Que ervas espessas de redor o afogão

Ah desde que o pastor tambem jaz morto,

Morto ás mãos da saudade, e em terra alhêa!

Tempo he da Festa. Á Festa!—Ahi estão as flautas

Ja silvando rebate ás alegrias!

Travai dança, alta dança ruidosa,

Quaes em seu monte os Sátiros a saltão!

Venhão de apoz os hinos: logo Bacho

Nos acuda co’as taças, menineiro

No aspéto e no palrar, no resto annoso,

De cãs a reluzir por entre as parras.

Ser-lhe-ha boa salva o retinir dos cópos

E os das saudes misturados gritos.

Do altar meu canto agora ascenda ao Nume!

Vem ó Dona das Graças e Flores,

Volve á terra teu mago calor;

Aos que fogem de amor gera amores,

Nos que a amores se dão cria amor.

Tu és Venus, a Grecia delira

Crendo-a Filha do túrbido mar,

Tu és Venus e Musa da lira,

Cumpre á lira teu Nume exaltar.

Tu és Dríade, e Náiade, e Flora,

Mocidade e Saude e Prazer,

Com mil nomes o mundo te adora,

Mil poderes compoem teu poder.

Do Ceo puro és a noiva córada,

És só d’elle como elle he só teu;

Rica em trajos, de aromas banhada

A seus beijos te off’rece Himeneo.

Feliz extase, abraço jocundo

Do consorcio completa as prizões,

Primavera, em teu seio fecundo

Ja pullullão mais trez estações.

Á voz tua amorosa e macia,

A teu mago e perpetuo sorrir

Tudo cede, e te adora á porfia,

Como te ha de o mortal resistir?

Léda brinca a feliz meninice,

Léda a ninfa em seus dons se revê,

Lédo o velho desruga a velhice,

Tudo he lédo, e não sabe o porque.

Onde assomas o mato florece,

Desatina a avezinha a cantar,

Côr d’esp’ranças a terra amanhece,

Arde o peixe nas brenhas do mar.

Perde as iras a rábida fera,

E se estranha de ter coração.

Primavera, que és tu Primavera?

Vida, fôrça, virtude, união.

Desde que abre ao carneiro doirado

Hora alegre o celeste redil,

E das sombras e gelo espalhado

Despe as terras Favonio subtíl;

Despe a mente por ti bafejada

Suas neves e escuro invernal,

Ressuscita de flores toucada,

Enche a lira, nem sôa mortal.

Pois tu és quem me acorda e me inflamma,

A ti, Deoza, os meus versos serão.

Mas debalde o meu estro te chama,

Os meus olhos jamais te verão!

Amigos, baixo he o Sol, findem-se os hinos:

Ponde silencio aos copos falladores;

Assaz he tempo. O dia era dos campos,

Ás aguas toca a noite; a noite grave,

Recolhida, saudosa, ama pascer-se

No murmurinho de deserto rio:

Tambem o coração tem dia e noite,

E precisa dos bens desenfadar-se.

Largo dista a corrente; o passo aperte

Quem sabe quanto he grato á luz de estrellas

Ouvir palrar as Náias a deshoras.

Vamos tomando o gôsto aos fins da tarde;

E emquanto mais ligeiro o bom Josino

Corre a aprestar a barca, entreteremos

O caminhar, colhendo rosmaninho

Para o colchão nóturno. ¡Que delicias,

Ir-se acamado em flores aboiando

Á luz modesta da nascente lua!

Ama o rio os cantares de saudade;

Cantares de saudade atiraremos

Até ao mar pelas sombrias margens.

Logo que o não rogado, amigo sono,

De papoulas toucado perguiçosas,

Lá nos for procurar, e manso e manso

Forem caindo os sons e pensamentos,

Iremos amarrar na margem muda

A qualquer tronco a barca flutuante:

Lançaremos por cima o branco toldo,

Bastante abrigo do nóturno orvalho:

E estendidos macio, e conversando

Em voz baixa, embalados cederemos

Ao começado sono os restos da alma.

Quando alta noite algum de nós acorde

A um leve crepitar do linho undaute,

Cuidará que uma Náiade surgíra

Fóra da agua a cabeça curiosa,

E inclina o seio ao bôrdo; e nos espreitas

Assim como alvoreça, a luz da aurora,

E vós, madrugadoras andorinhas,

Para o campo acordado heis de acordar-nos.

Correremos as candidas cortinas,

E veremos de subito, encantados,

Sobre nós a verdura estar pendente,

Do pranto da manhã ja rociada.

Não tarda o Sol momentos em sumir-se;

No mais vivo escarlate ensopa os campos,

Tinge a folhage, os rostos nos accende,

Por montes e olivaes dos ceos oppostos

Começa a desdobrar seu manto a noite.

Busca o rustico azilo o boi tardio;

Por toda a parte os gados vão passando.

Sustenhamos o halito, escutemos

Esta distante musica toada

Que assim transporta os animos em gôstos:

He toda feminil, toda feitiços,

Vem toda ao coração; oh se a conheço!

Pastoras são, que ao longe no arvoredo,

Vão para a aldea recolhendo em chusma

O tropel dos rebanhos misturados.

Cantão, porque he sazão de primavera,

E peito de mulher, como avezinha,

Desfaz-se em canto e amor em vendo flores:

Cantão, porque de um dia assim formoso

Serão formoso as toma, e o fuso leve

Que andou por solidões um dia inteiro,

Vai girar no conchego da fogueira;

E cantão, porque flautas de pastores

Que vão na companhia, as desafião.

Mas tantos sons confunde-os a distancia,

Figura-se uma voz de tantas vozes;

Como que uma só boca a manda aos ares,

Exprime um só afféto, um só deseja.

Oh Natureza! oh Tarde! oh Primavera!...

Lagrimas de prazer vertem meus olhos!

Somos em bosques de propícias Fadas?

Ou vaguêo ja Sombra, e vós comigo,

Na semi-vida e semi-luz do Elisio?

Ja tudo se esvaío, tudo he silencio:

Por campo e campo ao largo impera a Noite.

Erguida a lua nova o horror lhe troca

Em saudosa tristeza, e o mocho alerta

La do alto a ajuda com o piar carpido:

Ja ouço o estrepitar das frescas aguas.

Vem barquinha da noite, perguiçosa,

Vem, toma o rosmaninho, e a nós recebe,

Oh que ameno he pousar passada a lida,

Em meio de aguas tantas, rodeado

De amigos bons, e triste, não de proprias

Tristezas, sim das mansas do Universo!

Ouvi, amigos meus, os meus dezejos,

Quaes mos ora no seio estão brotando

A hora, o sítio, a lua, aquelles pios;

Relevai que ao folgar vos furte instantes.

Seios Deozes minhas supplicas ouvissem,

Um torrão fertil, rústica vivenda,

Houvérão de abrigar-me a vida pura:

La minhas ambições se fartarião

De nobre, de quieta obscuridade.

Mas pois que de outra sorte aprouve aos Deozes,

E o fio, não de lã grosseira e nívea,

Me torcem, mas de ferro as trez do Averno,

Guardai vós na memoria o meu dezejo.

Depois que entre os abraços delirantes

De todos os que amei, findar meus dias,

Sepultai-me n’um valle ignoto e fertil[10].

Para marcar da sepultura o sítio,

Sôbre o cadaver, que vos foi tão caro,

Mangeronas plantai, cuja verdura

Em roda fechem variados lirios.

Na raiz funda de soberba olaia

Pouze a minha cabeça, e o tronco amigo

Sobre mim curve a cópa florecente.

Mil piteiras unidas, ostentando

Na hastea vaidosa as flores amarellas,

Em quadrado não grande me defendão

Das incursões das cabras roedoras.

Em meu tronco se escreva este epitafio:

Foi poeta amador da Natureza:

D’entre as sombras ancioso a procurava,

Qual terno amante a bella fugitiva.

Sôbre isto pendurai sonora flauta,

Que se revolva á discrição do vento.

Não cerque os ossos meus, não mos ensombre

Nem teixo nem cipreste; arvores quatro

Quizéra só no meu jardim de morte.

N’um canto a larangeira graciosa,

Que mescla util e doce, a flor e o fruto:

N’outro a figueira sob as amplas folhas

Modesta occulte seus nectareos mimos:

Defronte um pecegueiro em frutos mostre

Que amavel he pudor, quando enche faces

De penugem subtil inda cobertas:

No ultimo canto ... (a escolha me confunde)

Plantai no ultimo canto uma ginjeira,

He a arvore da infancia, até na altura;

D’esta por sua mão colhe um menino

A mui ridente baga, e ri de ufano.

Alguns tempos depois que a fria terra

Meus restos encerrar, á minha olaia

Vós, meus amigos, vós dareis meu nome,

Pois de mim se nutrio, e eu serei n’ella.

Dos guerreiros nos tumulos afiem

Faminta espada os barbaros guerreiros:

No sepulchro do sabio o sabio estude;

E dos reis nos marmoreos monumentos

Vá sonhar a ambição, grandeza e pompas:

Vós soltos de freneticas loucuras

Aqui vireis mil vezes vizitar-me,

Na amizade pensar que nos uníra,

E unir-nos deverá transposto o Lethes.

Porque me interrompeis com taes suspiros?

Ah! deixai-me acabar. Quando sentados

Emtorno a mim na flórida alcatifa,

Guardardes meditando alto silencio,

Se d’entre as mangeronas que me cobrem,

Saír acaso a borboleta errante,

¿Não vereis n’ella o espirito do amigo

Que vem gozar do sol a claridade?

Quando o suave rouxinol de noite

Da minha olaia gorgear nos ramos,

Não pensareis, de santo horror tranzidos,

Que feito rouxinol, meus cantos sólto?

Sim pensareis, e erguendo-se inspirado

Algum lhe ha de bradar “Ó meu Amigo!”

Responderáõ “Ó meu Amigo” os bosques;

E vós direis que o meu fantasma errante

Da argentea lua á muda claridade,

Á conhecida voz d’alem responde,

E em tudo encontrareis a imagem minha.

Se inda então meus costumes vos lembrarem,

Se vos lembrar meu coração piedoso,

Velai que em meu retiro as bellas aves

De caçador cruel cantem seguras:

Amor, o leve Amor, com arco d’oiro,

Só elle e mais ninguem, logre atirar-lhes;

Careço de amorosa melodia

Que me poetize o sono derrabeiro:

Morto que nada tem preciza d’estas

Pobres delicias rusticas, se folga

Que a namorada moça, o terno amante

Juntos ou sós, a vizitá-lo acudão.

Então ao som de languidos suspiros,

De alegres cantos, de amorosos versos,

De ternas queixas, de perdões suaves,

Muitas vezes contente a minha Sombra;

Formando ao pôr do sol vermelha nuvem,

Girará n’estes ares, revolvendo

Da passada existencia almas lembranças.

FIM DO POEMETTO

NOTAS
AO
POEMETTO ANTECEDENTE.

[Pag. 109.] verso 10.

Com seus trovões, com seus coriscos horridos.

Trazia este verso na primeira edição a seguinte Nota—Eis àhi os primeiros esdruxolos que fiz em minha vida, e espero que sejão os ultimos, ainda que por isso que fique excluido da communhão de certa Seita moderna.—Supprimi-a, e no declarar o porque, vou dar não equivoca prova da minha candura. Prezar-se um escritor de mais amigo da verdade que de Platão e de Aristoteles, alguma couza he; mostrar porem que mais do que a si proprio a ama, certo que não he vulgar o exemplo, e esse tenho eu dado, e não raro, ja fallando ja escrevendo limpa e rasgadamente o que de minhas Obras me parece. He um bom propozito que eu fiz em meu interior, e espero não quebrantar nunca, não só porque de si he honesto e nobre, senão que por este meio, o qual não custa mais do que algum suspiro á nossa vaidade que sempre se torce e confrange de ser mostrada nua, me estremarei da manada dos charlatães literarios, de quem nem o estomago me consente fallar. E porque chegue por direito caminho á questão dos esdruxolos, recordarei com vénia e boa paz dos leitores, o que ja no Prologo da terceira Edição das minhas Cartas de Echo deixei tocado; com a differença, que d’esta vez o farei mais explicitamente.

No tempo em que eu cursava meus estudos na Universidade de Coimbra, florecia ella com muitos e bons engenhos de mancebos dados ás Bellas-letras. E porque ainda então se não tinhão accendido os desastradissimos odios das parcialidades políticas, a Hobbesiana propensão de guerrear se exercia nas letras. Duas seitas de escrever se contavão; a cada uma das quaes não faltavão admiradores, apostolos e evangelistas, assim como por isso mesmo inimigos, escarnecedores e parodiadores. Os Livros em que uma juramentava os seus adeptos, erão Gessner e Bocage; Filinto era o Alcorão da outra. Gessner quanto ás couzas e affétos, e Bocage quanto ao térso e lustroso de estilo e metro, erão os idolos de uma; os da outra erão, quanto a couzas e affétos Filinto, quanto a estilo e metro Filinto, e Filinto quanto a tudo em que Filinto podesse bem ou mal ser imitado. Tinha cada uma d’ellas suas vantagens e seus descontos, como agora claramente diviso, quando as considero com animo livro e desassombrado de preoccupações. Não fallarei aqui de Gessner, porque ja no Prologo o fiz; confrontarei somente, e de corrida, Elmano e Filinto.

A ambos dotára natureza de talentos, bem que entre si diversissimos, assaz fortes todavia que podessem cunhar á sua feição a poesia do seus tempos. Elmano, que talvez em seu genero nos ficará sendo unico, de fôrça devia deslumbrar e encantar pelo caudal inexhaurivel, brilhante e estrepitoso de sua vêa, que eu appellidarei, e ria quem rir, um Niagara de talento: e assim como, os que pasmão deante d’essa grande catarata de puro embevecidos em sua cópia e magnificencia, não tem olhos para notar o esteril do seu curso, o assolador do seu ímpeto, e os penedos que rója envoltos e desfarçados com suas aguas, assim os que presentes assistirão ao poetar de Bocage, ou da tradição o receberão, fascinados com os seus estrondos, espumas e iris, mal se podem lembrar de lhe desejar afféto, sizo, e exatidão, que muitas vezes lhe fallecem.

Cinco couzas, pelo menos, para o bom poeta se requerem: faculdade inventivafaculdade sensitivasciencialinguae ouvido; e ainda com estas cinco outra, que talvez resultará rempre de sua união, e sem a qual todas as mais seráõ baldadas; fallo d’aquelle discernimento pronto, que a muitos erradamente pafeceo instinto, e a que se costuma dar nome de gôsto. Em raros sujeitos concorrem tantos predicados; por isso só de longe a longe apparecem os maximos poetas, e ja se dão por grandes aquelles a quem menos faltou d’estes requisitos. —

Faculdade inventiva ou não a tinha, ou apenas a tinha Manoel Maria; a sua queda para tradutor bastaria para indicio, se de indicios te carecesse aonde claras reluzem as provas: um Fado, um Jove, Eternidade, Natureza, Sóes e Caos são o index rerum notabilium da maior parte de seus escritos; e tanto abunda n’estes bordões sustedores e disfarçadores de sua fraqueza, como Ferreira (e quem descobrirá os meus?) na cançada repetição do esprito, Jorge de Montemayor na de hermoso e hermosura, Pina e Mello na de alento e impulso, Alfeno Cynthio na de santo (epítheto, que por mais não ter onde o pegue, até o poem, se bem me lembro, como arrebique na cara de suas pastoras e namoradas): com a differença que os particulares bordões d’estes poetas, e ainda outros de outros muitos, não são em suas Obras senão meras circunstancias e accidentes, e os de Bocage menos são estribilhos do que fundo o substancia de inteiros e repetidos periodos.

De faculdade sensitiva talvez o houvesse menos escaçamente dotado a natureza, mas outras qualidades que lhe ella mesma deo em maior auge, taes como volubilidade de fantasia, aspereza de condição, espirito sobranceiro e satírico, e coração, como elle mesmo confessa.

Mais propenso ao furor do que á ternura, lhe entibiarão os affétos benignos, de que sé a longes distancias lhe sáe, como a descuido, algum reflexo. A estes máos e naturaes elementos accrescêrão desvarios da fortuna ou do acaso, bem valentes para de todo lhe seccarem a fonte das branduras. Vida mal preparada de educação, nua dos amoraveis habitos domesticos, desalumiada de doutrina e estudo, aturdida de applausos contínuos e encarecidos, amargurada amiude de pobreza, vagabunda entre amigos não amados e por terras não suas, vida, porque tudo diga, corrida á ventura e sem norte conhecido, desenfreada de todas as leis, sôlta por todos os vicios, cínica por timbre, e por indole silvestre e bravia, como podia ser que lhe não tisnasse no germen os affétos maviosos? Isso foi, e isso conhece quem bem attento o ler e meditar. Mas em desconto, as paixões fortes como o ciume, a colera, a vingança, sente-as e pinta-as vigoroso, assim como todos os objétos grandiosos, remontados, encarecidos, ou terriveis. Não vos debuxará um mendigo, avergado de annos, estendido n’umas palhas esquecidas, junto do cão seu ultimo companheiro, e orando no desamparo da noute, por quem, sem o convidar para a sua fogueira do inverno, lhe deo fóra da porta meia fatia de pão; nem ainda as carícias de uma mãi a seu filho: mas dir-vos-ha, rico e altisono, os impetos de uma tempestade, a sanha de uma batalha, as iras de uma madrasta, ou as furias de um infeliz que pragueja sua má ventura.

Os affétos e a invenção póde a sciencia por álgum modo suppri-los, opulentando-nos com os affétos e invenção de melhores autores, uma vez que por nós tenhamos a arte de bem escolher, bem digerir, e bem converter esses literarios alimentos em substancia nossa, em nosso proprio ser: ainda mui boa estrella he essa, e não poucos dos afamados desde Virgilio até ós nossos dias, só á sciencia, e a essa arte de a aproveitar, haverão devido a melhor parte do seu credito. He o saber, princípio e fonte de bem escrever, dizia o Mestre dos poetas; e dizia o dos oradores, que uns e outros era mister entenderem de tudo. E se ja isso foi nos tempos antigos conselho e quasi preceito, preceito absoluto se tornou, e necessidade, para quem escreve n’estes tempos, em que a luz se derramou mais ampla, em que as sciencias, cançadas de viver sobre si, se congregarão como boas irmãs em uma só familia, juntarão os seus patrimonios em commum, e cada uma ajudando a todas as outras, vem a por todas ellas receber um infinito accrescimo em seu peculio. Limitadissima era a instrução de Bocage: o latim e o francez, na primeira de cujas linguas mormente era primoroso sabedor, segundo referem, podérão ter-lha dado copiosissima: mas nem a viveza de seu animo, os prazeres e os divertimentos que em seu cerrado círculo o trazião como enfeitiçado, lhe permittião estudos, nem são elles facil couza para pobres e viciosos, nem o que era saudado por divino, como quer que desatasse na voz o acceso turbilhão de suas ideas, carecia de ir excavar em livros o suado cabedal, com que outros negocêão veneração.

Quanto á linguagem, não será pêjo dizer, que a usava limpa e sã, não se podendo taxar a sua de mendiga e remendada, como a ja muitos de seus contemporaneos vinha acontecendo, nem encarecer de rica e ambiciosa: pouco tinha lido do portuguez, mas esse pouco com aproveitamento: só d’isso ajudado, e do latim la se foi remindo e esteando a sua Musa sem emprestimos do francez; e este carecer de vicios ja então era grande virtude. Para lhe darem, como a texto, cabimento em nosso Diccionario[11], não vejo eu razão sufficiente, assim como a não ha para o desprezo e esquecimento, em que os havidos por puritanos o deixárão cair. Uma couza he porem verdade irrefragavel, e he, que em nenhum escritor, antigo nem moderno, apparece a lingua portugueza mais senhoril e polida, mais igual e ao meio entre o usual e o sublime, entre a penuria e a prodigalidade.

Somos chegados á harmonia, o mais eminente merito de Bocage, e no qual nem antecessor teve, nem ainda até hoje successor. De todas as partes que em Bocage concorrião para poeta, nenhuma havia tão delicada, e em que tanto se houvesse a natureza esmerado como o ouvido. A verdadeira musica dos nossos metros, particularmente do hendecassíllabo, não só a desempenhou e ensinou elle, senão que a inventou; e com felicidade tão rara, que não cuido se possa a pontar hespanhol, e nem por ventura italiano que o iguale, e mais he o italiano pela abundancia de suas brandas e variadas vogaes, pelo moderado e macio de suas consoantes, pelas licenças e elasticidade de seus vocabulos, muito mais pronto e domavel para todo o uso métrico do que o portuguez. Poucos estafárão tanto os consoantes como Bocage (e ainda ahi he grande o seu louvor, que não he dado rimar mais primorosamente); mas a ninguem erão os consoantes mais escuzados: são esses para o verso uns arrebiques e sinaes com que os mal assombrados se disfarção, para poderem apparecer, mas de que os graciosos e bellos não carecem, nem os devem consentir, por não parecerem menos do que são. Porque não ouzarei eu dizer, que mais são os seus versos poeticos, do que era poeta elle proprio? Como simples cantilena agradão, agradão ainda quando por vãos os engeita o juizo e o coração por frios: um estrangeiro que ignorante d’esta lingua os ouvisse bem e devidamente ler, recrear-se-hia como com a toada de um bem tangido instrumento. Grande excellencia por certo he esta, á qual principalmente deveo levar traz si suspensos e encantados os animos, e por onde logrou ser, sem o cuidar, fundador de uma escola, que se me não engano, ainda de todo não passou. Toda a gloria de engenho he oiro em que nunca faltão fezes: o produzir pela mágica de sua versificação uma seita de versificadores, por honroso se podéra haver, se aos discipulos podesse ter transmittido, juntamente com as normas, o talento, a fôrça, a graça e o gôsto com que as produzia e aperfeiçoava: porem quiz algum Genio máo, para lhe humilhar a vaidade e descontar a vitoria, que a maior parte de seus sectarios menos lhe tomassem a melodia do que os escarcéos, as empollas, os trocadilhos, as apóstrofes, as redundancias, e os versos que ja se hoje chamão de dobrar,

Seu mais doce penhor, seu bem mais doce.—

Vio n’ella os risos, vio as graças n’ella.—

Um Deos não he perjuro, um Deos não mente.

Que não paga de um Deos, de um Ceo não paga,

Ouzaste pregoar mais Ceos, mais Deozes.—

versos, que parcamente lançados, como nas Obras de Virgilio, tem graça; semeados a frouxo são affeites e desdoiros do estilo.

Do seu gôsto ja me julgo dispensado de fallar, porque me parece que o que d’isso podéra dizer por si mesmo está nascendo do que fica dito. Concluamos: o que de Bocage digo em geral, com suas exceções se ha de entender, porque por uma parte muitas paginas ha suas, mormente em algumas traduções do francez, onde parece lhe esqueceo pôr o tal verniz de dicção e sons que para si inventára, e de que a ninguem deixou a verdadeira receita: e por outra parte tambem, obras ternos suas, mormente sonetos e traduções latinas, cabaes e redondissimamente perfeitas.—Passemo-nos já a tomar iguaes contas a Filinto.

Muito mais melindroso he este processo, até porque ja o querer tomar-lhas será para seus apaniguados um crime de leso Apollo, e primeira cabeça. Valha-me porem a declaração que faço, de que em tudo quanto disser, não seguirei outras partes que as de minha razão, declarando previamente que muito pouco dou eu mesmo por ella; mais são consultas que faço que sentenças que profiro, e antes exercicios de imparcialidade do que acintei de inimigo: de ninguem o sou, quanto mais de poetas, de perseguidos, de velhos, de mortos. Foi tempo em que eu, obscuro poetastre do Mondego, ria e vazava epigrammas contra o tradutor dos Martyres: hoje se me afigure muito mais valioso. He elle o mesmo, mudei eu; Deos sabe quantas vezes mudarei ainda com os annos: do mudar não he nossa a culpa; nossa he porem, e feíssima a de persistir no erro conhecido; se a republica literaria tivesse inquisidores, por heresia e contumacia que não havião relaxar ao braço secular. Ha por ahi muito homem do meu officio que possa dizer de si outro tanto? Mas deixemos esses que estão vivos, e vamo-nos a Filinto.

Se he ou não creador, ja vi ser renhida questão entre ociosos: para mim tenho que semelhante titulo mal lhe pode caber. O frequente verter ha pouco disse eu que denunciava esterilidade; e podéra accrescentar uma sentença ainda mais desabrida, que ha muito encontrei, cuido que nas Lições literarias do Doutor inglez Blair, e que muito me caío; a saber, que o costume de traduzir, bem que olhado pela rama pareça dever ser frutífero, sempre ao cabo vem a desgastar-nos a faculdade inventiva. Compara-lo hei com o linho, que apezar de tão precizo no mundo e de tão agradavel aos lavradores depois de colhido, por isto só desgosta a muitos d’elles, que a terra onde se criou fica magra, e como elles dizem queimada para outras novidades. Muito mais de metade dos tomos de Filinto trazem no titulo os nomes de autores estranhos, devendo-se ainda lançar a este rol por boa restituição, bastantes Obras, que talvez por descuido, imprimio sem nenhuma menção de serem, como erão, vertidas. As imitações são no merito e inconvenientes meias traduções, e as do nosso poeta são numerosissimas, disfarçadas umas, outras manhosamente dissimuladas. No resto que he de sua lavra, apenas se nos depara couza que abone talento original e produtivo a: são os chamados lugares communs de poesia filosofica, que ja por safados custão a passar, e as tão esfalfadas visões e apparecimentos de Apollos, de Musas, de Amores, de Pégasos, e de outros mil defuntos, a quem o tempo ja comeo o balsamo, e que todavia são ainda a unica povoação de quasi todos seus poemas, tanto jocosos como sérios. Algumas vezes me vem desconfianças de que n’aquelle passo da Sátira do Bilhar, em que o nosso Tolentino parece rir de certas Odes, contra Filinto hia tirada a seta de sua crítica:

Co’as verdes mãos o serpeado Tejo

Alça o trilingue, mádido tridente;

Mas que Górgona filtra? eu vejo, eu vejo ...

Em dizendo isto he Ode certamente.

Em affétos porem sobreleva a Bocage, e não abunda. A espaços lhe vislumbrão assomos d’aquella sismadora melancolia, que mais ou menos respira em todos os bons poetas. As amarguras e saudades, que em tão larga vida e desterro lhe não faltárão, alguma, e não rara vez, lhe soprárão versos amoraveis, e deliciosos de tristeza. He este de todos os dotes de poeta o mais caramente comprado; sendo assim que Deos sabe quantas vezes em applaudir um verso que nos toca, batemos por ventura palmas a calados infortunios de quem no-lo escreveo. Não nos assuntos ditos sentimentaes se conhece tanto o verdadeiro sentimento, como nos de indole mais fria e izenta; porque, se n’estes ultimos apparece inesperada uma palavra maviosa, n’uma flor de festa uma nôdoa de lagrima a descuido, ahi vem o infallivel documento de ternura e suavidade: e d’estas sombras de lagrimas, d’estas palavras, maviosas achamo-las em Filinto.

Na sciencia he que elle mais notoriamente leva a palma ao seu contendor. Que muito? com o dôbro de vida, com precizáõ de estudar para se divertir das mágoas e ganhar pão, com o ar e tráfico de Paris onde todos inspirão e expirão letras, e com tão espaçosa velhice, pingue quadra em que as paixões quietando nos deixão todo o silencio, remanso e curiosidade necessarios para o estudo! Tornarão-se-lhe familiares os classicos portuguezes e latinos, de uns e outros dos quaes talvez Bocage não tivesse acabado dois ou trez volumes; familiares os classicos francezes, hespanhoes e italianos, e ainda as versões dos inglezes e allemães. Á roda d’elle chovião de dia a dia, e de hora a hora, os frutos novos de todos os ramos das Sciencias, de que he impossivel a quem por lá vive não provar, até sem querer, e ao cabo não se nutrir e fortificar. Entretanto repararia eu, se o ousasse, que para quem logrou concurso de tão favoraveis circunstancias, como as que a sua má estrella lhe deparou, não saío Filinto o que se podéra esperar de noticioso e culto; e ou desaproveitou o maná que ás mãos do espirito lhe chovia, ou se o tomou lhe não luzio. Á primeira d’estas duas conjéturas me inclino, porque segundo o que de seu natural alcanço por suas Obras, parece-me que na lição das estranhas mais se hia á caça de vocabulos e frases curiosas, insolentes e atrevidas, do que de doutrinas e filosofia. A sua era meã e usual: cançados louvores á Liberdade, á Amisade e á sã Virtude, ao estudo, ao descanço e ao deleite, alguns arremeços de encontro aos Bonzos e Naires, eis ahi sondado até ao lastro o seu poço de saber moral: alguma historia não rara antiga e moderna, eis todo o seu saber positivo; e todo o seu saber natural, alguns dos principios geraes e diarios das Sciencias fisicas. E certo, que se mais avultados fossem estes seus cabedaes, e vêa mais fecunda lhe consentisse anciar mais altas couzas do que palavras e frases, não se deixára ficar tanto atraz no meio de um seculo novo e alado de poesia; não se contentára o seu estro abstémio com a agua do Parnaso até á ultima hora da vida; e não nos deixára seus volumes pejados quasi só de fabula, como armarios de muzeu antiquario, onde se não vai procurar qual he o mundo em que vivemos, mas deduzir de troncados e desluzidos fragmentos, o que em tal ou tal parte da terra houve lá n’outros tempos, com os quaes e com a qual só pouco ou nada temos. Diz um Escritor insigne[12], que a poesia assim como ontr’ora viveo de fabula, revive hoje e se apascenta de verdade. Melhor dissera que de verdade viveo em todos os tempos a nobre poesia, pois que o que para nós se descubrio fabula, era nos dias em que appareceo e florio, verdade de factos, ou capa allegórica de verdades, mui crida e sincera.—Resumamos; Filinto soube mais que Bocage, menos do que podéra, e diverso do que devêra saber.

A linguagem, de que pela ordem se me segue fallar, mais requeria n’este caso um tratado, do que uma nota de fugida. Algum dia o tentarei, quando me achar mais de assento e sobre mão do que agora, que as justas raias d’este escrito me estão tolhendo. He a linguagem e elocução a principal feição caraterística de Francisco Manoel, como de Manoel Maria o he a harmoniosa elegancia.

A torrente das hipérboles e conceitos hia arrazando e engolindo todo o nosso Parnaso, quando para lhe pôr a ella diques, e a elle salva-lo, e repovoa-lo de natureza, appareceo a Arcadia. Detençosa e ardua se representava a obra, como aquella em que a razão nua tinha de lutar com a imaginação delirante. Para anteparar ímpetos de vêa tão engrossada com as contínuas nascentes e tão copiosas de Italia, Hespanha e Portugal, ja tão senhora do leito e dominadora das margens, era mister que braços fortes lhe levantassem muralhas solidas de grossa e pezada cantaria. Virão os Arcades como lhes estavão á mão as obras, não todas primorosas, mas quasi todas massiças dos nossos quinhentistas e dos romanos classieos: erão accommodadas ao intento, dizião com seu gôsto e costume; valerão-se d’ellas, accrescentarão-lhes as suas proprias, levantarão o muro; bramio, quebrou e escoou-se a inundação. Raro he o bem, que só porque o he, não traga outros comsigo: dos trabalhos, que havião tido por fim acabar com os nojos e puerilidades do falso engenho, nasceo um conhecimento mais profundo da linguagem, mais extremoso amor á sua pureza, e o comêço do encarniçado e ainda não findo pleito, entre a puridade e o gallicismo. Verdade he que n’este segundo campo se não guerreou com tão favoravel marte como no primeiro, porque se as maravilhas da Fenix Renascida passárão, os gallicismos fôrão em successivo crescimento, sendo ja hoje tão caudaes e trasbordados, que princípio a desconfiar não haverá remedio senão rendermo-nos, encruzar os braços, e deicharmo-nos ir ao fundo: tanto estou convencido de que nem a propria razão he poderosa contra o espirito de um povo: e a final de contas, Deos sabe, até n’isto, o que he razão!

Era Filinto, por sua amizade e commercio íntimo com os sujeitos de maior credito na Arcadia, e por motivos de sua propria conveniencia, homem que de necessidade devia entrar na pendencia, e sustenta-la até á ultima: n’isso assentou, e o cumprio mui pontualmente. Entendeu desde todo o princípio, como aquelle a quem não fallecia bom juizo, em se prover das armas seguras e bem temperadas, sem que lhe não conviria arriscar-se no combate: e se as defensivas que vestio lhe podessem ter saído tão impenetraveis ás setas do ridiculo como as offensivas que meneou erão fortes e penetrantes, guapissimo Cavalleiro houvéra apparecido, e invencivel. Do antigo portuguez e do latim instituio concertar toda sua armadura: com diurna e nóturna mão versou pois os monumentos de ambas estas linguas; e quanto do portuguez ja feito se podia enthezourar, ou se lhe podia accrescentar por derivação, por composição, por analogia, por translação, ou por qualquer outra licença poetica, sem embargo de desenvolta e extrema, tudo ouzou com ardimento verdadeiramente admiravel. Fez estranheza a novidade, offenderão-se os mimosos com o escabroso e difficil de tal estilo, arripiarão-se os pusillanimes com o arrôjo, os ignorantes e priguiçosos com a immensa fadiga que bem vião seria necessaria para entender, não só imitar e seguir, quem tão por fóra caminhava das veredas batidas e vulgares. Todos estes, e com elles os invejosos, saírão em campo, combaterão, e apuparão, e quanto mais apupavão e combatião, mais recrescia em Filinto o acintoso proposito de se não descer do começado, antes encarecê-lo sempre até o ultimo ponto. Outra causa havia que para isto lhe fazia fôrça, e era conhecer como sem estes bordados, recamos e relêvos de frase, o cabedal de suas galas poeticas appareceria, qual em realidade era, grosso, commum e de mui baixa valia. Mas quer o movesse esta causa bem perdoavel, quer fosse generosidade com que se offerecia aos motejos, e desapreço de muitos, com o só intuito de restaurar, e avantajado, o edificio do idioma portuguez, sempre fica certo que n’este particular mereceo mui bem de sua patria, e a deixou muito mais medrada do que a achára. Oxalá que dois ou trez mais, dotados de igual credito, pozessem como elle peito á empreza; e muito embora demaziassem como elle: cunhassem a flux tudo quanto dão as minas portugueza e romana; ainda muito oiro puro de dicção viria enriquecer-nos, e facilitar-nos o tracto; pôsto que tambem como elle lá cunhassem á mistura oiro enfezado, não de lei, nem de receber: o juizo público estremaria umas de outras moedas, e as engeitadas a ninguem farião mal, se não fosse ao credito de seu autor. Assim crescêra cabedal, que ainda mingoa para as obras do engenho patrio. Nossa lingua, qual por ora a temos, e até restituindo-lhe todos seus fóros caídos, todas suas joias enterradas, não supre as hodiernas precizões do espirito. Quando a esfera do saber, sentir e pensar se está de hora para hora dilatando no mundo, do qual nós outros (ainda que o não pareçâmos) somos tambem parte, forçado hé que a esféra da expressão ao mesmo compasso se dilate, e engrandeça. Repôr ao idioma quanto ja teve será louvavel consciencia, porem não bastará, se apoz isso se lhe não dér com mão liberal, mas prudente, quanta substancia nova elle possa receber e commutar, para que na apostada carreira que os entendimentos das nações agora levão para o infinito desconhecido, o da nossa, por fraco e sem azas, se não deixe ficar atraz.

Uma reflexão quero eu aqui fazer, mais que a taxem de digressão; não será nova para os que escrevem, mas servirá para que os que lem se abstenhão mais de acoimar pobrezas em nossos poetas. Ja das palavras se averiguou serem ellas fio e arrimo de que a mente se vale para melhor ir seguindo por suas ideas sem queda nem tropêço. Pois se as palavras, que não passão de reflexos e retratos do pensamento, tem virtude para o fecundar, menos ainda se duvidará precizar a imaginação poetica de uma abundante linguagem, para se manifestar por obras, assim como o pintor de finas e variadas tintas para seus paineis, e o musico de instrumento pronto e copiosamente registado, para enlevar os animos. O poeta francez, porque tem uma lingua que á fôrça de bem cultivada por muitos e differentes engenhos, se accommoda préstes e serviçal aos pensamentos mais subtis e novos, e aos affétos mais delicados e passageiros, d’ella se ajuda para inventar, e com ella exprime completamente o que inventou. Não assim nós, que em pertendendo alçar-nos por cima das communs ideas do nosso paiz, nos achâmos, sem o cuidar, pensando em francez; e se isso, que bem ou mal nos apparece na alma, tentâmos passa-lo para o papel, suâmos, bramimos, aqui nos faltão de todo as expressões, ali só tibias nos acodem, outras mal determinadas e mal entendidas, outras estiradas em perífrases. Dai-me o proprio Lamartine nascido nas margens do Tejo, e pedi-lhe uma só Meditação, uma só epocha de Jocelyn; grande será o acêrto se as conceber, quasi impossivel que as escreva. Ponderou Condillac mui avizadamente, que a razão porque apparecião em certo povo e tempo maior numero de varões abalisados em letras, era o ponto de crescimento e sufficiencia abastada a que chegou n’esse tempo a lingua d’esse povo. Melhor será que o deixemos por sua boca doutrinar-nos, que bom missionario he em couzas d’estas.

“Acontece com as linguas (diz elle) o mesmo que com os algarismos dos geómetras: quanto mais perfeitas são, mais vistas novas nos offerecem, e mais nos dilatão o espirito. Os bons acertos de Newton de antemão havião sido preparados pela escolha dos sinaes que antes d’elle se fizera, e pelos methodos de calculo ja imaginados. Se mais cedo nascesse, podéra ter sido homem grande para o seu seculo, mas não fôra agora maravilha d’este nosso. Outro tanto vai pelos demais generos. A boa fortuna dos engenhos mais bem aparelhados inteiramente depende dos progressos da lingua no seculo em que vivem, porque os vocabulos correspondem aos algarismos dos geómetras, e o modo de empregar os vocabulos corresponde aos methodos do calculo. Por tanto, em uma lingua aonde ha penuria de palavras ou de construções bem azadas, ha os mesmos obstaculos em que a geometria topava antes do invento da algebra. O idioma francez foi por largo discurso de tempo tão pouco ageitado aos progressos do espirito, que se imaginarmos Corneille em cada um dos seculos ascendentes da monarchia franceza, quanto mais ao remontar nos fôrmos afastando do em que viveo, tanto mais, e gradualmente, irá mingoando o seu engenho, e chegar-se-hia por ultimo a um Corneille que nenhuma prova poderia dar de talento.”

Voltemos a Filinto. Não decedirei se houve ou não bom fundamento para o allegarem por autor e texto, como o fizerão na quarta edição do Diccionario de Moraes: nem ouzaria eu pôr mão no fogo pela infallibilidade de sua pureza, porque (mas a medo e sommisso vai o dito, que por dito e não sentença merece vénia) aqui ou acolá se me figura enxergar por suas paginas algumas nódoas d’aquella mesma côr a que nunca perdoou odio. Mas se as ha, são manchas, no passo que o geral de sua escritura he recheado de muitas preciosidades para quem poz peito a bem escrever esta lingua. Por toda a parte lhe estão pullullando lusitanismos em vocabulos, frases, collocação, inversões, geito e feição de períodos, que se houver gôsto em quem lê para os joeirar e limpar de alguma mistura chôcha ou sédiça, farão muito bom sustento para poetas e prozadores. Se houver gôsto, puz eu, e muito que o puz de indústria, porque, os que d’elle carecerem, lição tal só os fará mais ridiculos; os que ainda o não houverem formado, e se metterem por esses onze e mais volumes sem bom e constante Mentor, não sei se em linguagem e em poesia viráõ nunca a dar fruto que bem saiba e se abençoe.

Em summa, Francisco Manoel do Nascimento foi um martyr da religião de nossa lingua: para lhe lançar mais gloria cerceou a sua propria: com o excessivo das joias com que a arreou, deixou-a affétada, e menos matrona grave do que bailarina de corda; sim habilidosa e leve, mas dengosa e presumida: mostrou-lhe o como e por onde devia subir á perfeição, a que por outros, porem tarde e mui tarde, será levada: foi, porque tudo diga, um destemperado despertador, que nos poz a pé para o dia das letras.—Quero repetir, fez serviço talvez maior que nenhum dos classicos, mas he de todos o menos para seguir ás cegas. Bem haja elle que tocou a alvorada para nos acordar, mas mal haja quem quizer ficar com trombeta tão rouca e dissonante a tocar alvoradas todo o dia: ja estamos acordados, cabe agora aproveitar o tempo, como gente de juizo.

Se da lingua passâmos em Filinto á harmonia métrica, damos maior salto que o de Léucade, e como cumprindo igual oraculo, ou nos afogamos em um mar bravo, ou de lá surdimos curados de todo o amor a tal poeta. Em nenhuma das quatro ou cinco partes do globo, e em nenhuma era se metrificou jamais lão dura, desleixada e insolentemente. Se alguma vez se esquece com dois ou trez versos bons, logo se vinga com duas ou trez duzias, que se os reduzissem a linhas iguaes, não serião mais nem menos que desaceiada proza. E ainda he para agradecer quando só lhe falta melodia, porque algumas vezes nos dispara versos, em que as pauzas vem todas desconjuntadas, e outros, em que sobejão síllabas, por mais que a maço as procuremos entalar e embeber umas por outras.—A sua rima he por via de regra desnatural a pobre: os seus sonetos e toda sua lírica de consoantes, enxabimentos ou arripíos. Bem se alcança como erão arrufos de maltratado, as injurias que em muitas partes vomitou contra a rima, e não como as de Boileau, vozes só de um juizo rigoroso, que de dentro das letras as media. Nos defeitos de versificador fez de idade para idade successivos enotados progressos, sendo assim que ou por desleixo, ou por certa petulancia, em que engenhos grandes muitas vezes cáem, tomando por timbre o escarnecer do Publico, quanto mais hia usando do officio, tanto mais desprimoroso se foi mostrando, até ganhar tão duro callo na consciencia, que nem a deliciosa harmonia dos versos de Racine lhe podia ja ao cabo inspirar, um só verso toleravel de tradução.

Do muito que só deixo apontado se deduz a idea que para mim tenho do seu gôsto; melhor será do que só deixa-la deduzir, declara-la. Parece-me pois ser o seu gôsto pouco e máo; e n’isto estribo o parecer: 1.º que para suas Obras originaes costumava de escolher fracos sujeitos—2.º que as pejava de taes invenções que ja em tempo de Romanos o não erão—3.º que por vida se repete, e por costume redunda—4.º que na ordem desordenadissima em que seus escritos pôz, anda o peor tão travado com o melhor, e as puerilidades vergonhosas com as Odes que lhe lucrárão nome, que sem que o lustre do bom disfarce o máo, o esqualor e nojo d’este deturpa e estraga aquelle—5.º que se para traduzir elegeo ás vezes bons originaes, taes como o Oberon e os Martyres, outras os escolheo desenganadamente incapazes, taes como a triste historia em verso da Guerra Púnica: outras vezes, escolhendo originaes optimos, nem antevio, nem pelo discurso do trabalho conheceo, nem sequer sentio depois de findo (porque talvez se o sentisse nos houvéra poupado a ler a versão), que havia n’essas Obras exclusivos e essencialidades, quer da lingua em que estavão feitas, quer do engenho que as fizera; haja vista ás tão graciosas e admiraveis fabulas de Lafontaine, que em Filinto parecem tanto as mesmas, como a estampa de Bertoldo se podéra julgar retrato do Apollo de Belveder. etc. etc. etc. etc.

Taes são hoje para mim Filinto e Bocage: mui outros dos que ja me parecêrão, e talvez dos que me hão de parecer quando novos livros, novas couzas, e o rodear dos annos me houverem feito sou ordinario e incontrastavel officio. N’aquellas eras pois, que ja eras antigas se me representão aquelles meus tempos, caía todo com o meu Gessner em braços, para a parte de Bocage, mancebo e lustrozo; e se me figurava que se lograsse trava-los, fundi-los em um, faria obra de se me agradecer. Os partidarios de Filinto, que não sei porque, trazião guerra declarada com Bocage, vierão saindo de seus montes escarpados, empeçados e tenebrosos, para dar váias e tirar remêssos de epigrammas ao nosso bando: cerrámo-nos com a bandeira, démos sobre elles com iguaes armas, foi batalha campal, rôta e sem misericordia: não houve mórtos nem cativos, poucos transfugas, feridos muitos. Recolhidos nas trincheiras, cantámos uns e outros, como he costume, o Te deum da vitoria; dobrámos a altura aos vallos, e profundez aos fossos que nos estremavão; jurámos não acceitar nunca pazes, quanto menos commette-las, nem consentir em alguma couza que ás dos inimigos se parecesse. Eu que fôra dos mal feridos e ainda palpava as costuras, como havia de faltar a nenhum ponto da conjuração? Muitos d’elles merecerião tratados, mas porque não fazem para o fim d’esta Nota, venho aos esdruxolos, e só libarei a materia.

Da natureza, como quer que seja, nos vem sempre o gôsto; mas sendo que a moda, que muitas vezes se gera de um acaso, introduz o uso, e este chega a mudar ou alterar a natureza, vem a ser o gôsto em muitos casos enleada materia e muito esquiva para questão, abonando-se talvez por ahi o proverbio, que sobre gôstos prohibe disputar. Dir-me-hão, que nada tem a natureza com os métros, que só a moda a seu talante os cria e os acaba: he e não he verdade; mas tambem isso deixaremos de parte, por pedir digressão larga e mui sobida filosofia. Em breve, parece-me que a fantasia ou o acaso inventa os métros, a moda os espalha e rege, a nossa natureza se lhes affaz, mas deve quanto podér afeiçoa-los e conchega-los comsigo. Das dez, onze ou doze síllabas de que pode constar o nosso verso heroico, quiz a moda que o numero de onze fosse em Portugal, Hespanha e Italia o usual e corrente; moda que estribou no ser d’estas linguas, em que a quantia de vozes graves excede á das agudas e dactílicas. Costumou-se o ouvido com a igualdade da queda, criou uma certa natureza, e todas as vezes que inopinadamente o obrigão a outra queda maior ou menor, como que se espanta e sobresalta: porei exemplo nos que sobem ou descem ás escuras e ja pelo tino uma escada; se lhes falta no subir um degráo com que ainda contavão, o pé que no ar pôz firmeza cáe em falso, e comsigo leva todo o corpo estremecido; se lhes sobeja um no descer, o pé que ja se dava por assente, não desce mas atropella e traspoem. Por tanto, regra geral, o verso grave, que he o da moda e tambem o da nossa natureza, he o de que nos deveremos servir: como porem entre as couzas sujeitas á poesia, se nos deparem algumas, cuja indole póde ser esse mesmo estremeçáõ, ou atropellamento, razão será que em taes casos bem averiguados e por via de excéção, acudamos á idea com o verso que melhor lhe condiz: os exemplos são faceis de colher nos autores, não gastaremos com elles papel. Ora para se consentir n’esta excéção, não deixa de haver outro motivo de algum momento, e verdadeiramente he elle o mesmo em que a regra geral se fundou; porque as estranhezas, que por desagradaveis persuadírão á regra, por uteis nos conformão com a excéção, sendo que tem virtude para nos espertarem, quando o embalar da monotonia nos vai adormecendo. Não por outra causa, vierão os melhores metrificadores latinos em variar, ainda que rarissima vez, os seus hexámetros perfeitos com o espondaico ou com um monosíllabo final: ambos nos abalão; os primeiros em certo modo como os esdruxolos, os segundos como os agudos; e abalando-nos a propozito, por exemplo para sentirmos a queda do animal no famoso procumbit humi bos, deixão-nos afiados para proseguir com attenção, e melhor tomar o gôsto ao caminho, que outra vez continúa lizo e macio, passado o tropêço.

Assentámos o princípio, vejamos se o uso lhe tem sido conforme. A Italia, attenta a prontidão, e musica de sua lingua, devêra ser d’estes trez povos do sul o mais aprimorado em toda a qualidade de metrificação, e todavia he o contrario no hendecasíllabo sôlto, podendo dizer por si o que o seu Ovidio poz na boca de Narciso, que a sua riqueza a fez pobre: os seus poetas, ainda os modernissimos, sôbre não curarem dos sons que recheão o verso, e quantas vezes nem das pauzas, sôbre estirarem desmesuradamente os seus períodos, consentindo que os versos se travem e encadêem de contínuo, misturão sem nenhum motivo de effeito, os versos agudos e esdrúxolos com os graves, segundo o acaso lhos vai deparando. He o mesmo que succede a quem possue terra de sobejo fertil e facil: ella que supra por si ás primeiras precizões; trabalhe-se o necessario para que não falte, o resto, que bastaria para a fazer paraizo, dê-se á priguiça. Os francezes, que tão menos poetica lingua tinhão, obrigados por essa mesma pobreza a cultiva-la, esmerados e incançaveis, ¡quanto a não levão ja por arte, adeante do que por natureza podéra ser a italiana! são n’uma parte os paúes de Hollanda a produzir; na outra, terras pingues e dobradas de Otaiti a regalar com pão e frutos espontaneos aos semi-nus e ociosos naturaes. D’este versejar de italianos, me dizia uma vez José Agostinho de Macedo, que a maior parte de taes poesias lhe dava a lembrar as récuas de mulos de almocreve, que enfiados e prezos uns a outros, ao som dos chocalhos enfadosos, la se vão, ora tropeçando ora erguendo-se, continuando o caminho, e sempre chegão com a carga onde tem de ir. Quando assim fallo, quero que se entenda que me não refiro a todos sem excéção, mas só ao geral d’aquelles poetas. Bem pode ser que os haja agora primorosissimos que eu não conheça, e dos conheçidos alguns ha com quem não serei tão severo taes como Monti na tradução da Illiada, Fóscolo se me não engana a lembrança que d’elle me ficou, Alexandre Manzoni, e Felice Romani.

Em Portugal, pois que a lingua era tambem préstes e serviçal, e os que n’ella poeta vão se comprazião de se irem sempre na pista dos Toscanos, sente-se nos poetas antigos o mesmo desmazelo. La andão com os versos graves os esdruxolos inuteis, ainda que não frequentes e os agudos aos cardumes. Camões, que de todos elles foi por ventura o de mais delicado ouvido, rimando hendecasíllabos, até na epopea não duvidou em os pôr, quando acaso lhe apparecião, e sem nenhuma intenção ou fito poetico; o que a Vasco Mauzinho de Quebedo seu inferior em poesia, mas superior, se he lícito dizê-lo, em metrificar, por tal arte desagradou, que em todo o poema de Affonso Africano nunca interpolou com elles versos graves, e d’isso faz alarde em seu prologo.

N’esta incerteza correo a couza até os nossos tempos, em que dois homens de fôrça, dois athletas da poesia, representando cada um uma das encontradas opiniões, devião ter perante os olhos publicos um calado e rijo certame, para decisão ultima da contenda. Foi Bocage o mancebo, cavalleiro da metrificação liza e uniforme; o velho Filinto da mista e libérrima. Todo o empenho de Bocage era a harmonia constante, todos os seus versos forão graves, e de compasso batido. Nascimento queria por cima de todas as outras couzas dar todas suas ideas, boas ou más, graudas ou miudas, mui bem pintadas e repintadas, que ainda quando insignificantes, não deixassem de ferir na vista. Servia Bocage ao metro como a senhor: Nascimento, como de escravo se servia d’elle, trazia-o rôto, contrafeito, demudado, e por todas as ilhargas estalando com o pezo da carga. Se he lícito comparar estes dois poetas com outros dois romanos, de muito mais subidos quilates, digo, que são na metrificação hendecasíllaba, o que nos dístichos elegíacos eróticos forão Ovidio e Propercio. O dísticho de Ovidio he sempre torneado por medida, nada lhe falta nem sóbra, reluz de polido, e algumas vezes pouco péza: nos de Propercio ha sempre mais succo de couzas (bastante espremeo d’elles Ovidio para seu remedio); mas o hexámetro sáe amiude desalinhado, o pentámetro dissonante da sua usual toada, acabando não em dissíllabo, como para bem o requer o geito de tal metro, mas em trissílabos e quadrissíllabos á moda de Catullo; partem-se menos apuradamente os hemistíchios, embebe-se e embrulha-se em demazia o pentámetro no hexámetro, e, o que mais rijo he, o hexámetro de um dísticho no pentámetro do anterior; o que não tira ser Propercio, em meu conceito, um poeta de mui alta valia (e não sei se diga que o unico amante apaixonado dos antigos, com licença dos grammaticos e dos priguiçosos que o engeitão por escuro), e Ovidio um dos mais bem assombrados engenhos do mundo.

Do que levo ponderado, se he exáto como cuido que he, segue-se que nem Bocage, nem Filinto erão para modellos absolutos, e que tão desacordado andava quem não consentia em verso que grave não fosse, como quem esdruxolava por vida e fóra d’aquelles casos em que o esdruxolar traz em si mesmo a desculpa e o louvor. Entendi que ja por acinte o fazião, e por acinte contra acinte escrevi essa Nota da primeira edição, que atraz deixo trasladada. Fôra o voto pueril, conheci-o assim como o sangue alvoraçado da batalha me esfriou, mas tão sobre maneira se oppunha a vergonha a uma retratação, que permaneci até hoje sem um esdruxolo em tantos versos soltos como tenho impresso, e tantos mais que ainda não saírão á luz. Quantas vezes, compondo a Noite do Castello e o Bardo, não senti tentações e ímpetos de romper e acabar por uma vez com uma prizão imaginária, que a olhos vistos me estava tolhendo mui bons effeitos poeticos; e comtudo confrangia-me, esquivava-me, escrupuleava, e não podia acabar comigo que me resolvesse, podendo dizer como aquelle rei de França La se vai tudo, menos a honra. Os passos d’esses poemas em que tal me acontecia, por si se estão indo agora denunciando, póstos os dactílicos imitativos nos lugares, que abaixo do final se podem reputar pelos mais autorizados e distintos do verso, que são o ponto do hemistíchio ou pauza do meio verso, e o comêço do seguinte, quando fica bem cortado e estremado. — D’este livro ao deante me dou por desobrigado do voto; e eis aqui, me parece, o como lã para os outros me hei de haver: nunca porer só por pôr ou por me forrar trabalho, verso dactílico; nunca o engeitarei quando a fôrça, graça ou qualquer outra vantagem da poesia o requererem. Bem quizera dizer outro tanto dos agudos, mas ahi ainda o meu antojo he forte; sei que a razão não está menos por elles, e não ouzo segui-la: veremos o que o tempo, grande causador de mudanças, poderá trazer comsigo.

NOTA
de Augusto Frederico de Castilho.

[Pag. 118.] verso 6.

Vejamos, meu Irmão, a tua escolha. &c.

Quando um autor, para publicar os seus pensamentos se entrega á nossa boa fé o lealdade, os nossos olhos e mãos para logo mudão de dono, ficão seus; tem de vigiar e selar o depósito confiado, para que nada se lhe accrescente nem cercêe: qualquer palavra, qualquer vírgula de mais ou de menos, por muito que as pareção estar pedindo este ou aquelle passo do texto, são mais que violação de testamento, porque ideas são propriedade mais real e sagrada do que bens da fortuna. Assim he, mas cumpre que não seja assim na presente occasião: faltarei ao direito do autor e á minha obrigação de secretario, para cumprir com outra mais santa lei, a do amor fraterno, alliviando aqui, e em mais de uma maneira, o meu coração, ás escondidas do mesmo autor, para quem serão grande novidade estas linhas, quando de alguem (que não de mim) as chegar a ouvir ler.

Direi em primeiro lugar, que na Festa da Primavera, cujas honras forão na maior parte a meu Irmão, os versos a que esta Nota vai lançada tanto abalo fizerão em mim, que pela primeira vez os lia, que eu me vi necessitado a interrompê-los coberto de lagrimas e afogado em soluços, para me ir lançar no seio d’elle, protestando-lhe assim, com um silencio que eu não tive palavras para romper, que os seus dezejos de vivermos para sempre unidos, ja em mim erão necessidade, e que o pensamento de separação se me representava tão atroz e impossivel como a elle. Eu o vi profundamente commovido entre os meus braços, e foi esta a primeira vez em que nos-fizemos uma declaração tão expressa e amor, nós que semelhantes aos Dois amigos de Gessner, sempre tinhamos vivido e contávamos com viver um para o outro, sem ainda uma só vez nos havermos dado o nome de amigos. O meu voto, ufano-me de o dizer, tem sido santamente cumprido: ja la vão quinze annos, e eis-me aqui ao lado d’elle, eis-me tão inseparavel como tinha sido desde menino até áquella hora! que digo? ainda mais, porque para reparar a perda horrivel que elle acaba de experimentar; eu carecia de ter agora em mim, em vez de um, dois ou mais corações para lhe offerecer.

Agora cumpre-me preencher o principal fim d’esta Nota, transcrevendo para aqui alguns versos parallelos a estes, de um meu Poemetto, que com o titulo de Primavera recitei n’aquelle mesmo Dia. Os elogios que o leitor vai achar, não mos inspirou só a amizade fraternal, mas a convicção em que ainda hoje estou, e hoje muito mais, do subido mérito do elogiado. Aqui era o lugar de desmentir um grande numero, talvez a maior parte das sentenças, que sôbre a valia d’estes poemas a sua modestia (em tudo excessiva) lhe dictou no Ante-Prologo, e principalmente no Prologo d’este Livro: mas não cuido que a minha licença possa chegar tanto adeante: calar-me-hei, bastando-me agora ter desabafado, por algum modo, nos versos que se vão ler.

E tu, meu caro Irmão, tu me arrabatas,

Quando magico attráes aos sons da lira,

As Musas da Danubio á foz do Tejo.

Oh dize-me onde has visto a Natureza,

Virgem tão bella para ti sorrindo?

La na idade infantil, quando teus olhos

Inda na luz formosos se espraiavão,

¿Veio ella mesma perfumar-te o berço,

Tingir-te em rósea côr dos ceos o espaço,

Encher-te o ar de ignotas harmonias,

De affétos orvalhar-te o brando seio,

E com magas visões doirar teus sonhos?

Sim veio; e quaes na mente que as afaga

As maternas feições impressas ficão,

Taes seu olhar, e voz, e graça, e tudo

Te vivem, te reluzem pela mente,

Doirão-te a escuridão, compõem-te um mundo,

Em silencio te admiro ha longo tempo;

E até (que fui tão louco) ouzei co’as tuas

Minhas fôrças medir, tentar-te a gloria.

Não somos nós irmãos, me disse eu mesmo?

Não corremos iguaes no longo estudo?

Pois ha de a lira d’elle ousar prodigios,

Sem que, para a imitar, desperte a minha?

Mas que vale o dezejo, o sangue, o estudo!

Tu sabes remontar-te aos ceos n’um vôo:

Eu tento, eu me debato, ergo-me, cáio,

No inglorio chão cançado me adormeço:

Será pois d’elle só a eternidade.

Só d’elle? a sua gloria aos dois nos basta;

Qual nossos corações amor vincula,

Tal has de unir, ó fama, os nomes d’ambos.

Com todo o eterno sôpro enchendo a tuba,

“Este o maior, dirás dos lusos vates!”

Dirás depois mais baixo: “Este com os olhos

“Leo e estudou do Irmão, do terno amigo.”

OS
CANTOS DE ABRIL
IDILLIO.

O mais deslavado e insôsso Poemetto na primeira edição, erão Os Cantos de Abril. Só a invenção fôra boa; na execução e estilo revia um tão contínuo desprimor, que me foi necessario demolir e reedificar. Por tanto, com o mesmo titulo he obra diversa, muito melhor, mas não perfeita, porque ja para a emenda da emenda não chegou a paciencia.

DEDICATORIA
A MEU PAI.

He a educação o maior prezente que de homem se pode haver. Vós, meu Pai, fizestes mais do que educar-me: superior a uma preoccupação tão geral quão perniciosa, vistes nascer o meu engenho poetico e não o destruistes, viste-lo crescer e não o contrastastes, senão que antes lhe déstes amparo, bafo e desvelos. Eis aqui por tanto um reconhecimento da minha gratidão.

Oxalá possão estes versos, que me afouto a vos offerecer, agradar-vos tanto, como os Cantos de Abril, no silencio da noite e debaixo do parreiral da cabana, agradárão ao bom Menalca.