NOTAS DE RODAPÉ:
[13] Adiante se encontra a fala do sr. Mexia.
Castilho.
VI
Requerimento á Camara dos Senhores Deputados
Senhores:
Existe hoje nos confins dos estados Portuguezes uma Sociedade, talvez sem exemplo, que nasceu grande, possante, auspiciosa, e, em poucos mezes de existencia, apresenta já momentosos, copiosissimos, e incontestaveis resultados para a illustração e ventura do Publico. Esta Sociedade é a dos Amigos das lettras e artes em S. Miguel, cujos Estatutos já em 3 do corrente Abril foram confirmados por S. M. F.
Quando se vê, Senhores, o que uma tal organisação germinalmente contém de sciencia de moralidade, de prosperos fados para as gerações que teem de vir, e já mesmo para esta, é impossivel não a abençoar, desejando-lhe vida sem limite. Para o fim de a conseguir, ella pôz no remate dos seus Estatutos, como chave de abóbada, a declaração de que era immortal, como o sentimento de beneficencia que a produzira; e, para realisar esse nobre sonho de ambição humanitaria, determinou fundar para si, isto é: para suas escolas, bibliotheca, museu, representações scenicas, exposições, etc., uma formosa casa, e uma dotação sufficiente; com a expressa condição de que, se por algum imprevisto concurso de circumstancias, a sua benefica existencia cessasse de se manifestar, dotação e casa passariam ipso facto para o usufructo do Hospital de Ponta-Delgada, o qual, a todo o tempo que a mesma Sociedade recomeçasse os seus trabalhos, ficaria obrigado a fazer-lhe de tudo fiel e promptissima restituição; providencia esta, que mereceu a approvação de S. M. F., como sem duvida obterá tambem a vossa.
A Sociedade não se dissimula, Senhores, que uma casa e uma dotação assim, tanto não são empreza facil, que á primeira vista devem parecer um puro sonho de devaneadores philanthropicos. Entretanto não ha já hoje n’aquella Cidade e Ilha, quem não esteja convencido da mais que probabilidade da realisação certa de tal desiderandum, só pelo meio dos donativos, esmolas, e serviços gratuitos, tanto dos Socios, como de extranhos á Sociedade; ¡graças aos milagrosos frutos, que todos teem visto brotar da nossa Exposição da Industria michaelense, e das nossas incançaveis Escolas, de ler, de arithmetica e geometria applicada ás Artes, de Doutrina christan, de desenho de figura e paizagem, de francez, de inglez, de poetica e declamação, de musica, de hygiene, etc..
A perguiça, doença esporádica em toda a parte, mas ali peste geral e antiquissima, tem já singularmente diminuido com esta maravilhosa excitação dada a todas as coisas uteis pela Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes; o Hymno do trabalho canta-se já em toda a superficie da Ilha, e o seu amor vai-se filtrando do canto para as obras.
¿Como poderia pois a população deixar de contribuir gostosa com esmolas, que a final não são dadas senão a ella mesma e a seus filhos? Com esmolas de cobre se fundaram e dotaram conventos, como palacios de Monarchas, nos seculos de Fé. ¿N’esta edade de interesses materiaes, e de illustração, poderia o bom senso fazer menos em favor do nosso Instituto?
A Sociedade vem pois, Senhores, á vossa respeitavel presença supplicar lhe coadjuveis a projectada edificação do seu Solar de Lettras e Artes, cedendo á mesma Sociedade a pequena cêrca do extincto convento da Conceição d’aquella Cidade, hoje palacio do Governo Civil, com a adjacente área e ruinas da egreja de S. José.
A planta, que, junto com este requerimento se offerece á vossa consideração, bem claramente mostra não haver excesso no pedido, pois n’aquelle pouco terreno se teem de erigir salas, escolas, basar, officinas, e theatro, de que não ha um unico publico, n’uma Cidade de tanta importancia; devendo ficar ainda sufficiente espaço descoberto para exercicios gymnasticos, tão conducentes para a boa creação physica.
O informe que o Ex.ᵐᵒ Governador Civil do Districto de Ponta-Delgada dirigiu ao Governo sobre esta pretenção, deve necessariamente concordar com o exposto, e dar a conhecer, por outra parte, ser aquelle um terreno, que se acha ha annos devoluto. Nunca propriedade nacional haverá sido mais util, nem mais louvavelmente empregada, do que esta, que em menos de um anno, a datar da concessão, estará convertida em um manancial de instrucção, de moralidade, de affecto para com um Governo, que não perde occasião de felicitar os povos.
Lisboa 24 de Abril de 1849.
O Presidente da Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes em S. Miguel
A. F. de Castilho.
VII
Fala do Secretario da Camara Electiva o Snr. João de Sande e Magalhães Mexia Salema na sessão de 25 de Abril de 1849 fielmente trasladada do «Diario das Côrtes»
«Sr. Presidente
«Desci de proposito d’esse logar da meza, para não declinar a honra, que ha pouco recebi, de ser incumbido pelo sr. Antonio Feliciano de Castilho, de apresentar a esta Camara uma representação da Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes de S. Miguel, de que elle é dignissimo Presidente, em que se pede a concessão da cêrca do extincto convento da Conceição, para n’ella levantarem o edificio do seu solar de Lettras e Artes.
«Ha momentos, que recebi esta representação; de um rapido lançar de olhos sobre ella, conheci a importancia e urgencia do objecto. Além da natureza d’este, a Camara sabe avaliar a consideração, que merece uma corporação scientifica, pedindo auxilio dos Eleitos do Povo; e muito mais, tendo á sua testa um nome tão conhecido, não só na Litteratura portugueza, como tambem na Litteratura europêa.»
N. B—O requerimento foi mandado para a Commissão de Fazenda; de lá passados poucos dias, ao Ministerio da Fazenda, para informar; d’este ao Tribunal do Thesoiro, para o ouvir.
Em todas estas tres estações se deram ao requerente as mais agradaveis esperanças.
Eis ahi o que até hoje, que isto se imprime (24 de Novembro de 1849,) pode na materia historiar.
A. F. de C.
VIII
Excerpto da «Revista Universal Lisbonense» de 3 de Maio de 1849
Concessão do terreno para as escolas da Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes em S. Miguel
«O nosso promettido artigo acerca da mui patriotica Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes fica perfeitamente substituido pelo Memorial, que ao deante publicamos, feito pelo seu digno Presidente o snr. Castilho.
«A brevidade que este negocio requer é inquestionavel; é mistér não deixar esfriar a fé dos poucos mas honrados Portuguezes, que ainda teem animo para se interessarem pela verdadeira fortuna da Nação.
«¡Oxalá que tão repetidas instancias influam, não só nas Camaras Legislativas, mas tambem no Governo, para que se não perca o ensejo de completar um grande pensamento.»
MEMORIAL
Ill.ᵐᵒˢ Ex.ᵐᵒˢ Snrs.
Em nome e como Presidente da Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes em S. Miguel, tive a honra de vos dirigir um requerimento, para que o Governo fosse autorisado a metter a mesma Sociedade de posse de um pequeno chão nacional, para n’elle se edificarem, á nossa custa, casas para as nossas escolas, para as nossas sessões, museu, bibliotheca, basar industrial, theatro, etc.. Esse requerimento foi pela Camara remettido á sua respectiva Commissão.
O meu fim, n’este Memorial, Ill.ᵐᵒˢ e Ex.ᵐᵒˢ Snrs. é sollicitar para a decisão d’este negocio a maior urgencia.
A Sociedade nasceu, e tem produzido para o Publico beneficios consideraveis, sem concurso algum da força publica, por effeito unicamente da sua boa vontade e perseverança, como se prova pelo Relatorio impresso, que eu ajuntei ao mesmo requerimento.
Todavia, para que a nossa existencia continue, e o publico michaelense não seja privado dos frutos de instrucção, que já começa a colher, e mesmo para que o nosso exemplo de illustrado e desinteressado patriotismo possa vir a ser imitado n’este Reino, até hoje tão baldio para a civilisação intellectual, é indispensavel que depois de approvados, como já o estamos, pelo Governo, se nos faça a requerida concessão, prompta e incessantemente. O adiamento seria matar-nos a fé, e conseguintemente mallograr, do modo mais vergonhoso e barbaro, os bens que podêmos, queremos, e sabemos, produzir, como é demonstrado.
Eu faria offensa, tanto aos vossos entendimentos, como ao vosso amor patrio, se, mesmo hypotheticamente, admittisse aqui, para a combater, a objecção da pobreza. Querer vender, para obter algum conto de réis, que nos não pode salvar, um chão, que não vendido deve produzir muita illustração, fôra uma simonia horrorosa, e deploravel, uma torpeza, de que ninguem seria capaz, ¡quanto mais um Parlamento portuguez!
Outras considerações ha na petição a que alludo, e que vos foi presente, as quaes de certo vos decidirão a despachal-a, não só bem, mas immediatamente. Abstenho-me de as reproduzir, e mesmo de ajuntar outras muitas, não menos ponderosas, por não vos tomar superfluamente o tempo, que deveis a tantos outros importantissimos, ainda que não mais importantes, negocios do Estado.
Lisboa, 3 de Maio de 1849
A. F. De Castilho.
IX
Artigo do dia no «Diario do Governo» de 7 de Maio de 1849
«Lisboa, 6 de Maio.
«Um pensamento elevado, patriotico, e civilisador, dotou ha poucos tempos a Ilha de S. Miguel com uma das mais uteis e illustradas instituições, que se podem organisar em honra e beneficio da civilisação de qualquer povo. Essa instituição, intitulada Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes em S. Miguel, deu começo n’esta Ilha a uma era inteiramente nova para a vida moral e physica dos seus habitantes.
«Abrindo as suas portas a todas as classes, admittindo em seu seio todos os que amam e cultivam as Lettras e Artes, todos os que desejam vel-as prosperar, todos os que aspiram a iniciar-se nos seus mysterios, de repente se fez poderosa pela concorrencia de muitas intelligencias, e de muitos exforços encaminhados e excitados por uma alma energica e perseverante, que é toda enthusiasmo e devoção pelas Lettras, e que toda se abraza em verdadeiro e acrisolado amor da Patria.
«Dentro em pouco esta Associação, composta de alguns centenares de pessoas, desde a mais alta nobreza, até á mais humilde profissão, incluindo as principaes Auctoridades da Ilha, e tendo á sua frente o seu instituidor e incançavel procurador, o snr. Antonio Feliciano de Castilho, abriu ao Publico aulas, de leitura, de Doutrina christan, de arithmetica, de geometria applicada ás Artes, de desenho de figura e paizagem, de poetica e declamação, de hygiene, de francez para senhoras, de inglez para homens, de geographia, de encadernação, de agrimensura, de desenho topographico, de dança, de torno, e de pyrotechnia; e projecta abrir aulas de economia politica, de historia, de gymnastica, de natação, de calligraphia, e de musica.
«Algumas d’aquellas aulas, frequentadas por um numero consideravel de individuos, numero que excedeu toda a expectação, vão dando de si os melhores resultados.
«Fazendo nas suas salas uma Exposição da Industria michaelense, reuniu abundantissima copia de productos, tão variados, e muitos tão excellentes, que apresentaram um quadro bem esperançoso dos progressos industriaes d’aquella Ilha[14]; quadro que em breve ali se deverá repetir; accrescentado e melhorado sem duvida pelo poderoso estimulo e nobre emulação, que o primeiro deveria produzir no animo de todos os industriaes.
«D’est’arte, esta sabia Instituição vai fazendo convergir para um centro, para um fim de utilidade geral, as ideias e exforços dos moradores de S. Miguel; e, ao passo que attrai para esta obra de interesse publico, vai fazendo tolerantes os partidos; vai-lhes unindo os homens; vai adoçando os costumes, e moralisando o Povo pelas relações da intima convivencia, pelos apertados laços do interesse commum.
«Mas para que o pensamento d’esta Associação se possa desenvolver como o concebeu seu illustre autor, como o expressam os Estatutos da Sociedade, já approvados pelo Governo, como o desejam todos os Socios, e com elles todos os Michaelenses, é necessario um edificio, com a capacidade e construcção proprias para as diversas escolas, para as sessões, para uma bibliotheca, para um museu, para um theatro de declamação, para uma sala de concertos musicos, para as exposições, e para um basar de productos industriaes.
«Lembrou-se a Sociedade de o construir á sua custa, e para esse fim encarregou o seu Presidente, o snr. Antonio Feliciano de Castilho, de vir pedir ao Governo e ás Côrtes a pequena cerca do extincto convento da Conceição, e a adjacente área e ruinas da egreja de S. José, para ali se fundarem os estabelecimentos da Sociedade.
«O requerimento já foi presente á Camara electiva, e depois remettido á Commissão competente. Uma e outra, dando a este negocio a importancia e consideração que elle merece, esperamol-o com confiança, não só o hão-de resolver favoravelmente, mas com a brevidade que reclama um objecto de tamanho interesse publico.»
X
Carta ao redactor da «Verdade,» semanario michaelense
Snr. Redactor
Permitti, que eu tome na vossa folha um pequeno espaço para um acto de gratidão; dal-o á primeira de todas as virtudes não é perdel-o. Entendimento superior, vós comprehendeis que os interesses materiaes, e intellectuaes, que a vossa folha se encarregou de promover, não são os unicos de que depende a felicidade publica. Tanto, pelo menos, como esses, contribuem para ella o desempenho dos deveres moraes, e os affectos nobres.
Arrojou-me a adversidade (¡se por ventura o era!) para esta Ilha com tudo que eu mais amava. Cheio de boa fé, e com a minha illimitada benevolencia, mas sob os mais ruins auspicios, desembarquei n’ella; vinha precisado de amar, e não vi a quem; de trabalhar, e não achei em quê. A diante de mim tinha vindo a mentira preparar-me o ruim gazalhado.
Anoiteceu-se-me, de todo, o coração, e esmoreci; era mais um desencantamento, depois de tantos; era a ultima folha verde das minhas esperanças, a cahir. Onde cuidára que viria renascer entre irmãos, para uns a outros nos amarmos muito, dei com a peor das solidões, que tal é sempre a que se encontra entre homens, e que falam a nossa lingua.
Perdôe Deus a quem, sem nenhuma rasão para me querer mal, me calculou, urdiu, e teceu essa teia de dias perdidos e noites veladas. Por mim lhe quizera eu tambem perdoar; mas n’esses maleficios tão gratuitos havia um quinhão, e largo, para entes que eu amava mais que a mim proprio.
¡E, ainda por cima, se veio ao cabo a extranhar-me que eu não agradecesse o haver-se especulado com a nossa fome e ignomínia! e porque arranquei as azas do visco com que se me tinham querido prender, declararam-me guerra peor que de morte, que assim se pode qualificar a da calumnia. Emfim, perdôe-lhe Deus, já que em mim a natureza humana não pode tanto.
Mas n’um dia de festa para o coração, como este hoje o é para mim, devo dar de mão a todas essas coisas feias e desconsoladas, ou antes, hei-de agradecer a quem, por isso mesmo que então me fez curtir tamanhas penas d’alma, concorreu (ainda que sem o querer) para dar mais realce ás delicias que hoje desfruto. São os jejuns do coração os que fazem as Paschoas do amor.
Passados aquelles primeiros tempos, em que me parecia ter naufragado para aqui, como para uma praia ou erma ou inimiga, começaram de me alvorecer dias mais claros. As falsas ideias que de mim se tinham mandado a diante, foram-se desvanecendo. Conheceu-se, e reconheceu se, que eu não viera para a terra alheia para genero algum de malevolencia, quanto mais para a mais perigosa e peor de todas as guerras, a dos Guelphos e Gibellinos do seculo XIX; que, pelo contrario, toda a minha precisão era a Poesia e o Amor, corporificados no trabalho, que illustra e civilisa. Então os amigos começaram, a um e um, a apparecer-me; e (posso dizel-o, sem que m’o hajam a vaidade) tudo quanto por ahi havia de melhor em entendimento e vontade, e não era pouco, se me foi unindo em espirito e trato. Ressuscitei no meu cemiterio, e vi-o cidade. Na terra do desterro respirei a peito cheio ares de Patria. Tornei a achar no interior a alma, e n’ella a esperança, que murcha e não séca. Reaccendi a lampada da minha fé social; e tal e tanta encontrei, em torno de mim, a boa gente desejosa, como eu, das coisas do porvir, e da felicitação do mundo pelo trabalho, que, sem sabermos como, nos vimos de repente Sociedade poderosa, activa, descrente em impossiveis, e por isso mesmo capaz dos maiores milagres. Se tal Sociedade os tem feito, muito mundo o sabe já hoje. Se para o provar não bastassem as obras, os odios dos ruins o demonstrariam.
Quando, para sollicitar do Governo a approvação d’esta mesma Sociedade, e do Parlamento um pouco de chão em que ella deitasse raizes, me pareceu conveniente ir eu a Lisboa, e fui, não levei unicamente saudades de mulher e filhos; S. Miguel toda era já familia minha; todos aqui nos queriamos já muito, porque emfim, chegaramos a conhecer-nos de parte a parte, desfeitas as preoccupações e aleives, que, tambem de parte a parte, se haviam arteiramente disseminado.
Lá, nem o tráfego dos negocios, nem as multiplices occupações do espirito, nem o brilho de tamanha cidade, nem o affecto que expiram de si os sitios conhecidos da nossa puericia e adolescencia, nem os emboras e cortejos da Imprensa obsequiosa, nem mesmo os testemunhos tão solemnes de apreço, que á porfia me davam todos esses mancebos, esperanças e já ornamentos da Litteratura e Poesia nacional, nada me poude entibiar as saudades da minha Ilha, d’este benigno e pacifico torrão, em que eu fizera mais e melhor que nascer, pois renascêra n’elle.
Mais que nenhuma outra coisa, estes tres mezes de ausencia me descobriram quanto lhe eu queria.
¡Oh! se de mim dependesse o tão facil melhoramento dos seus destinos! A voz, e a penna, essas sim que as empreguei eu incessante em lhe advogar os interesses da fortuna e do credito; em quanto, por ventura ou por desgraça, filhos seus, deslembrados do solo com quem nascimento e uso os travaram em parentesco, empregavam a occultas todos os empenhos e valimentos para lhe empecer (e Deus sabe se em parte o não conseguiam), era eu, extranho e obscuro, quem, servindo á verdade e á justiça, lhe pagava, como podia, a minha divida de gratidão.
Ao regressar, os dias me pareciam não acabar nunca, e os sonhos das noites me vinham todos povoados de imnumeraveis e cordeaes abraços, de emboras, perguntas e respostas de bons amigos, de caricias domesticas, de escolas vicejantes, de salas de industria, da musica do trabalho, de toda a poesia das esperanças.
Se metade d’isso, que eu vim gosando embalado pelas ondas, por baixo da immensidade do Ceo, e não me afastando de uma Patria, senão para me aproximar a outra, se a metade d’esses sonhos se realisar, S. Miguel dentro em poucos annos será visitada de toda a parte com admiração e encantamento, que para tudo, mesmo para a realisação das mais altas utopias do bem, são a sua terra, os seus haveres, e as almas dos seus moradores.
Nem lisonjeio, snr. Redactor, nem cuido que o bem-querer me desvaire. As provas do futuro que antevejo, já todos as palpâmos no passado, e sobretudo no presente.
Apoz dez dias levados no ocio, a sós com a minha alma, n’estas suaves cogitações, imaginae, snr. Redactor, qual não seria o meu enlevo, quando, ao aportarmos aqui, pelo sol de uma formosa tarde, que é tambem esperança, me vi de repente cercado de saudações e festejos, entre os braços de tudo que mais amo, recebido em verdadeira ovação de amisade, conduzido pelo braço de minha esposa, entre os meus filhos e os meus consocios, ao som do Hymno da Industria, ao estrépito de foguetes, por baixo de flores, e atravez do nosso bom Povo apinhado pelas ruas, até dentro de minha casa!
Eis aqui, snr. Redactor, o que eu para desafogo de tantos affectos accumulados no peito, carecia de escrever.
¡Agradecer!?....¿Como hei-de eu agradecer o que apenas cabe em expressão?
A benevolencia de uma grande cidade, ¿como pode retribuil-a quem, por uma parte, só possue os bons desejos, e por outra, se sente confundido e aniquilado com a grandeza mesma do obsequio?
Sr. Redactor, se eu não tivesse já antes consagrado a esta generosa terra tudo quanto em mim ha de amor e querer, agora lh’o consagrára para todo sempre, e ficaria ainda empenhado.
Snr. Redactor, o dia 25 de Maio de 1849 foi o mais bello dos meus quarenta e nove annos. Egual ou superior a este, só poderá alvorecer para mim, quando eu a vir tão prospera quanto ella o merece, e o pode ser.
Vosso, etc.
Antonio Feliciano de Castilho
Ponta Delgada 25 de Maio
á meia noite.
N. B. Á precedente carta fizeram varias folhas de Portugal a honra de a reproduzirem, liberalisando por esta occasião ao autor testemunhos de benevolencia, que para toda a vida o empenharam em agradecimento.
¡É tão suave para um homem o sentir-se amado! ¡e amado por espiritos distinctos! ¡e amado, até ao ponto de lhe supporem mais de virtudes e meritos do que em realidade possue, e ha-de nunca possuir!
Ainda a risco de ser havido por vaidoso, o autor succumbe á tentação de apresentar aqui a seus leitores, isto é, a muitos outros amígos seus, uma das mais floridas e ricas mostras de tão parcial e enternecedora benevolencia; é o preambulo que á predita carta pôz O Pharol, folha verdadeiramente notavel por sua litteraria elegancia, pelo fogo e independencia de seus juizos, pela sua aspiração forte e constante para o Bello.
A proverbial severidade das criticas do Pharol faz ainda sobre-sahir para a gratidão o preço do que se vai ler. ¡Quantas feridas e penas d’alma se não suavisam e curam com o balsamo de expressões taes!
XI
Artigo extrahido do numero 10 do «Pharol» periodico de Lisboa
O Senhor Antonio Feliciano de Castilho e os Michaelenses
«Todos sabem que o sr. Castilho tem titulos valiosos á admiração e ao respeito da Patria, que elle tem sempre honrado e servido com a sua dedicação e com o seu genio. Vivos andam na memoria de todos, os nobres exforços que elle tentou, para rehabilitar as Lettras portuguezas, e trazer a formosa lingua nacional á competencia com os mais ricos, flexiveis, elegantes, e expressivos idiomas do mundo. Sabidos e decorados, se multiplicam, mais pela voz que pela imprensa os harmoniosos trechos do poeta mais sonoro, mais sabedor, mais correcto, se não o mais inspirado dos poetas nacionaes contemporaneos.
«Como os grandes genios, o sr. Castilho tem purificado a sua alma pelas amargas provações da adversidade. Como todos os grandes talentos, tem visto os invejosos e mesquinhos urdirem-lhe no silencio as insidias, com que a mediocridade se desforça do talento.
«A sua corôa de poeta não se tem afeminado com as complacencias de uma vida descuidosa e opulenta. Não é o poeta funccionario, com avultadas pensões para entoar cantos cortesãos e mentidos. Não é o poeta-agitador, fazendo servir as inspirações do estro á apotheóse dos corrilhos de facção. Não é o poeta-aristocrata, dedilhando a lyra por elegancia, e entoando os dithyrambos da indifferença e da sociedade. É o poeta-poeta; é o homem que canta, porque nasceu para cantar; que ama o Povo, porque o Povo é grande; que o não adula porque não espera d’elle recompensas faustosas. É o homem que respondeu ao ostracismo, com que lhe celebraram a reputação, indo contar aos Michaelenses, que o acolheram, não os queixumes amargos do ressentimento, mas as maravilhas da nova civilisação; que levantou ali um brado generoso de melhoramento physico e moral; que falou áquelle Povo dócil e industrioso a linguagem florida e eloquente da Poesia, para lhe apontar as novas sendas do Progresso; e que teve a gloria de crear mais prosélytos com os seus hymnos de paz, com as suas homilias ferventes, do que muitos estadistas com as suas portarias severamente formuladas, com os seus orçamentos capciosos e inextricaveis.
«Póde-se dizer que o snr. Castilho realisa em S. Miguel o mytho de Amphion, alevantando os muros de Tebas ao som mavioso e brando da sua lyra melodiosa.
«O sr. Castilho é o novo thaumaturgo do Progresso. Á sua voz a civilisação marcha impetuosa, e inaugura-se na humilde possessão de Portugal. A Industria exalta se, a Agricultura acorda. As Artes, em convivencia fraternal, auxiliam-se mutuamente. A Instrucção derrama-se gratuitamente pelas classes menos favorecidas da população. Os costumes como que se humanisam, deixadas as tristes controversias da lucta politica; e os habitantes da Ilha afortunada celebram com ineffavel júbilo e extremada sinceridade o poeta, que foge da metrópole para viver com elles, trabalhar pela commum prosperidade, illustral-os pela sua doutrina, e animal-os com o seu infatigavel exemplo.
«É para satisfazer á divida de reconhecimento que o snr. Castilho contrahiu para com os bondosos michaelenses, que, ao pisar de novo aquellas praias abençoadas, elle publicou a carta que abaixo transcrevemos, modelo de devoção civica, de affectuosa eloquencia, e de simpleza de coração.
¡«Quantos tribunos ephémeros, quantos dictadores ciosos, que se dizem alevantados pelo suffragio do Povo, folgariam de poder escrever estas linhas de congratulação, com a mão na consciencia, com o assentimento voluntario de uma população inteira, que repete n’um côro numeroso o refrão do bello Hymno da Industria michaelense:
Trabalhar, meus irmãos, que o trabalho,
é riqueza, é virtude, é vigor.
D’entre a orchestra da serra e do malho,
brotam vida, cidades, amor.