NOTAS DE RODAPÉ:
[14] Na Secretaria do Reino deve existir a magnifica relação, que d’isso dirigiu ao Governo o sr. D. Pedro da Costa de Sousa de Macedo, então Governador Civil do Districto. N’esse papel pedia o mesmo snr. que o autorisasse o Throno a deduzir do cofre central uma pequena quantia para premios industriaes, além dos que elle do seu bolsinho particular tencionava offerecer para a seguinte Exposição.
Castilho.
FIM DO PRIMEIRO VOLUME
NOTAS
Retrato de Castilho
Ha coincidencias notaveis; é conveniente não as desaproveitar; parecem arabescos na sobrehumana calligraphia da Providencia.
O retrato com que se adorna este volume, é reproducção em photogravura, pelo talentoso artista o sr. Thomaz Bordallo Pinheiro, de um pequenino esboceto pintado por seu excellente pae, o notavel sr. Manuel Maria Bordallo Pinheiro. ¿Quem diria ao pintor, que, cincoenta e quatro annos andados, um filho, ainda então por nascer, havia de reproduzir a sua obra?
O esboceto foi pintado do natural, na casa onde o artista habitava, rua da Fé, palacete á direita subindo, em alguma visita que lhe fez Castilho na demora de quasi tres mezes que passou em Lisboa (27 de Fevereiro a 15 de Maio de 1849), achando-se então de residencia na Ilha de S. Miguel. Appareceu no espolio do eximio artista, e foi offerecido a um filho de Castilho.
Vê-se que estava apenas em principio; mas é, ainda assim, documento precioso, já pela semelhança, que ia bem encaminhada, já pela intenção affectuosa que motivou tal trabalho.
O velho Bordallo Pinheiro foi muito admirador e amigo do Poeta, e este ufanava-se de lhe retribuir eguaes sentimentos.
[Pag. 12], lin. 3 e seg. Polemicas.
Houve, com effeito, folicularios mal ensinados, que pretenderam inculcar ser Castilho um revolucionario perigoso, uma especie de demagógo subvertedor de usos antigos e arraigadas crenças; isso deu aso a guerras crueis, cuja memoria não desejamos evocar aqui, mas que muito amarguraram o sincero Poeta. Quem ler com attenção este livro, verá quanto eram infundadas taes accusações. O livro é innovador, e não desordeiro; amante, e nunca hostil. Lamenta o que vê, deseja o bem, e procura remedio aos males que nos affligem. Interpretar as utopias theoricas pelo lado demolidor, é não as entender.
[Pag. 27], lin. 7 e 12. Gessner.
São tristissimas as vicissitudes da reputação dos poetas. Ha nomes, que, depois de encherem o mundo, esquecem miseravelmente á propria phalange dos homens de Lettras.
Salomão Gessner, que no seu tempo foi um luminar, tanto pela belleza da forma dos seus livros, como pela sua moral, de poucos Allemães é hoje lido e conhecido a fundo. Castilho, que desde a meninice o leu, o tratou, o venerou, e até alguns dos seus idyllios traduziu, e imitou outro, conservou sempre ao virtuoso cantor suisso um verdadeiro culto.
Para os que hoje entre nós ignoram quem foi Gessner, duas palavras biographicas:
Nasceu em Zurich em 1730. Homem bom, quanto se pode ser, benefico, optimo marido, optimo cidadão começou por typographo; o trato intimo com as lettras elevou-o ao conhecimento das Lettras; graças á sua applicação e perseverança, tornou-se Gessner um verdadeiro filho dilecto do Publico: já pela graça e singeleza dos seus idyllios, já pela moral pura e santa que todos elles respiram. Em toda a parte onde appareceu recebeu provas de apreço, até das testas coroadas. Falleceu em Zurich a 2 de Março de 1787.
A celebre Madame de Genlis conta da seguinte maneira uma sua visita ao poeta suisso:
«Tinha-me Gessner convidado para o ir ver á sua casa de campo; e eu estava curiosissima de conhecer a mulher com quem elle casára por amor, e que o soube inspirar. Imaginava-a uma especie de pastorinha encantadora, e phantasiava a habitação de Gessner como uma choupana elegante, circumdada de vergeis e flores; ali, segundo eu pensava, só se bebia leite, e se pisavam pétalas de rosas Chego, atravesso um resumido quintal, cheio de cenoiras e couves; isto, confesso, começou a perturbar seu tanto os meus devaneios bucolicos e idyllicos. Entrei na sala, e ¿que vejo? No meio de uma fumaceira densa de tabaco, avisto Gessner a fumar cachimbo, e a beber cerveja; ao lado d’elle sentava-se a mulher, com a sua grande touca, e a fazer meia. O acolhimento de ambos, a doce união d’aquellas almas, o seu affecto para com os filhinhos, a singeleza de tal quadro, tudo isso me pintou ao vivo os singelos costumes pastoris que o poeta costumava cantar. Assisti pois a um idyllio, presenceei a edade de oiro, não em poesia brilhante, mas sob o seu aspecto vulgar e desataviado.»
[Pag. 27], lin. 8 e 12. Klopstock.
Klopstock (Pedro Gottlieb) autor do poema epico Messiada, nasceu em Quedlinburg(?) a 2 de Julho de 1724. Cursou as melhores escolas superiores da Allemanha, concluindo na Universidade de Leyde o curso theologico. Desposou uma notavel e talentosa mulher, Meta Moller, fallecida em 1758. Foi muito protegido por el-Rei Frederico V, de Dinamarca. Os merecimentos d’este poeta como linguista e estylista são muito apreciados dos entendedores. Castilho elogiava com enthusiasmo a Messiada. Este denominado Pindaro da Allemanha falleceu a 13 de Março de 1803.
[Pag. 29], lin. 28 Zimmermann.
Allude Castilho ao celebre livro Da Solidão, por Zimmermann; obra de pensador, evangelho para solitarios, consolação para tristes; livro bom e optimo, que é lastima se não reproduza entre nós em traducção. Castilho prezava muito esta obra, lia-a, relia-a, e fazia-a estudar aos filhos.
[Pag. 36], lin. 34 e seguintes até ao meio da pag. 37.
Esse admiravel periodo que principia: N’uma palavra: um observador attento, é de eloquencia rara. Diz um critico entendedor o seguinte: Este trecho só um cego o podia escrever; ha ahi uma observação muda, uma attenção intelligente, que só o sexto sentido que possuem os cegos de talento sabia expressar. Percebe-se a contenção do ouvido do corpo, e ainda mais a do ouvido da alma. É uma esplendida manifestação de forma e de pensamento; é a linguagem do silencio das noites; é a intuição das trevas.
[Pag. 47], lin. 14. Diario do Governo
Refere-se Castilho ao Diario como propagandista nato de sans doutrinas. É preciso notar que até certo prazo a folha official teve entre nós uma feição litteraria, e não se limitava a simples registo impresso da chancellaria governamental. Era superintendida por um redactor, persona grata ao Ministerio reinante, sujeito illustrado e habil; publicava noticias estrangeiras, artigos de litteratura, polemicas serias, etc. Por isso o nosso poeta dizia que o Diario devia e podia entrar na propaganda de theorias civilisadoras, mais e melhor que outras folhas.
[Pag. 63], lin. 4, Ayres de Sá.
Ayres de Sá Nogueira, irmão do celebre Bernardo de Sá, Visconde de Sá da Bandeira, e depois Marquez, e de outros não menos prestadios cidadãos, figurou em Portugal como um dos maiores fautores da Agricultura e das industrias nacionaes. Como Vereador, como Deputado, como particular, empenhou-se toda a vida nos progressos publicos. Foi uma geração notavel esta familia de homens bons, valentes, dedicados, honestos, impetuosos para o bem. Castilho, amigo particular de todos elles, apreciava-os no muito que valiam.
[Pag. 91], O Clero e as mulheres.
Se jamais houve doutrina bem orthodoxa, e philosophica, e social, é esta sobre o provimento dos Bispados e das Parochias, que eu expuz e provei, mais pelo gosto de expôr e provar verdades, do que por me persuadir que por ellas se havia de fazer obra. Em tal campo suppunha eu impossivel achar adversarios; esquecia-me dos guerrilheiros.
Um periodico de S. Miguel chamado O Cartista, pôz-me ... supponho que por impio. Um periodico de Lisboa (cuido que se chamava aquillo A União) disse ao publico, sêcca e esparvoadamente, em ar de quem lhe denunciava uma coisa medonha, que eu viera a S. Miguel pôr-me á frente de valentões, para pugnarmos pela eleição popular dos Bispos. Claro está que não respondi, nem pessoa alguma respondeu, á União de Lisboa, nem ao Cartista de S. Miguel.
No Clero, consta-me que não faltaram contra mim murmurações; todavia, não chegaram á suppuração da Imprensa. Com essas devia eu contar, e contava. Se não houvesse clerigos indoutos e ruins, para honrarem com o seu odio a minha proposta, tambem esta, por falta de materia prima, teria deixado de existir.
Pelo que respeita á emancipação politica das mulheres, não só nenhum homem me fez ecco, se não que todas quantas senhoras ouviram o alvitre, fizeram côro contra elle. Esta sua opposição, parecendo provar muito e muito em desabono da minha these, provou muitissimo a favor d’ella; recusam o seu quinhão de liberdade, porque a não apreciam; e não a apreciam, porque ainda a não provaram. O que muito sensatamente se pode portanto jurar contra a innovação, é que veio antes do seu tempo proprio, mil annos; quando menos, bons quinhentos.
Não importa. O que é chymera, algum dia será realidade, como infinitas realidades de hoje algum dia hão-de ser chymeras.
O tempo é um grande Homero, que inventa de continuo; e o Mundo um poema de metamorphoses. O que ás vezes faz com que os poetas terrestres pareçam doidos a quem os ouve, é que no meio dos primeiros cantos antecipam a leitura de algumas estancias pertencentes a cantos ulteriores.
[Pag. 125], lin. 20. Assis Rodrigues
Refere-se Castilho ao bom e perito artista Francisco de Assis Rodrigues, Professor e por fim Director da Academia Real das Bellas Artes de Lisboa. Foi discipulo de seu pae, o esculptor Faustino José Rodrigues, amigo e alumno do grande Joaquim Machado de Castro. As relações entre Castilho e Assis Rodrigues começaram na infancia, e conservaram-se sempre cordeaes. Em 1836 o estatuario fez o busto do Poeta.
[Pag. 138], lin. 16. Os Fastos de Ovidio.
Projectou Castilho, segundo se vê, dedicar a sua traducção dos Fastos a José do Canto; mas como entre esta data e a publicação da dita versão elle lhe dedicou outras composições, não realisou o que tencionava em 1849.