Conclusão

Hoje, 22 de Fevereiro de 1850 se acaba de imprimir este livro, assim como o meu estudo historico-poetico intitulado Camões. Um e outro como eu lá noto, e pela razão que lá dou, vão múi diminutos do que poderam ser.

A disposição de animo com que os termino, differe tanto da disposição de animo com que os encetei, como da manhan a noite.

N’um e n’outro suppliquei, de mãos postas e longamente, a Deus e aos homens, venturas para a minha terra; e não as tivera implorado assim, se não as reputasse mui possiveis. Agora, tantos desenganos me rebentaram a subitas debaixo dos pés, que já nem para ella peço nada, nem espero, nem mesmo sei se o desejo. Tapam-me a bocca com a esponja de fel e vinagre; e, só porque amei, alanceiam-me o peito ¡Fartar, phariseus, fartar!

Correndo por alto as paginas que atraz ficam, vejo verdades uteis confessadas com brio, delirios generosos, abnegação de personalidade, fanatismo de affecto para com o genero humano, rancor para com os especuladores da politica, aversão, desprezo, nojo, para com os mesquinhos, que apagariam o sol de Deus a seus irmãos, se o podessem. Nada mais, nada mais descortino por todas essas paginas.

Se alguma vez pareci desabrido, e por isso contradictorio comigo mesmo, relevem a um filho do pó um longe do que o Filho de Deus executou por sua mão sobre as espaldas dos profanadores do seu Templo. ¿E não é templo a felicidade publica, e de todos os templos o mais augusto?

Mais haviam de fazer do que revelar-m’o; haviam de m’o louvar, se bem conhecessem a villanagem, que ha perto de tres annos me anda estorvando, empecendo, perseguindo nas trevas com uivos e latidos...

A final, sempre alcançaram o que elles teem por victoria, pois a muitos, e a mim tambem, mataram a fé e a esperança... Por minha parte, receio ter emmudecido para sempre.

O meu testamento de Portuguez, de Homem, e de Christão, aqui o cérro.

Possam almas de bem, lá para o anno de 1900, acceitar-m’o a beneficio de inventario.