III
[Pag. 133], lin. 24.—A Natureza, com a necessidade do trabalho, para que se vivesse, creou a necessidade do repoiso para que se meditasse. A Religião, sobre cada seis dias de servir, impoz, como corôa, um de cantos, de preces, e de amor. O exercicio do animo e do corpo mutuamente se alliviam.
Os economistas em todos os seus calculos parecem transcurar o elemento alma. Os moralistas quasi que outro tanto fazem a respeito do elemento corpo. O artista crê na lyra, e ri dos algarismos. O financeiro jura pelos calculos, e escarnece dos deleites ideaes. No congresso de todos está a razão, e só parte d’ella em cada um.
Os individuos, que pensem, falem, e obrem, cada qual no sentido de sua vocação; d’essa discordia é que resulta a harmonia.
Os Governos porém, sob pena de degenerarem de agentes providenciaes em usurpadores, em assoladores, em antichristos politicos, não podem dispensar-se de promover simultanea e egualmente todas as forças dispartidas pela Natureza ao genero humano: a lavoira, como a poesia; a musica, como a mechanica; o commercio, como a oração; o theatro, como as escolas. «Não só de pão vive o homem»—tinha dito o Divino Philosopho Nazareno.
Este principio de toda a sociabilidade é para mim Evangelho desde muito.
Nos quatro annos que redigi a Revista Universa Lisbonense, não passou um dia, que não pugnasse em favor do espirito, do coração, e das commodidades corporaes; o mesmo credo tenho conservado nos escritos, e um pouco tambem nas obras, desde que desembarquei n’esta Ilha; e outro tanto póde ser que faria ainda, se para a Cafraria me arremeçasse a fortuna.
Este livro, e o outro meu livro do Camões, sommados e completando-se um pelo outro, explicam e documentam o que allego. No Camões, e nas vinte notas que o seguem, a religião da Poesia; na Felicidade pela Agricultura, a prosperidade do viver principalmente.