II

[Pag. 129], lin. 18—Ilha, açafate de frutos, onde, se não encontrei o sepulcro ao pé da choupaninha, como desejava, sei que deixo bons amigos.

Estas palavras postas no ultimo Serão do casal, em que eu dava a S. Miguel a despedida, traziam a proposito de Amigos o seguinte em nota, que eu tomára republicar em milhões de exemplares:

Provadamente sei que os tenho. Descompassada sahiria a nota, se n’ella os houvesse de nomear com as devidas explicações; testemunho é esse, que fica reservado para outra parte, e mais accommodada conjunctura.

Duas memorias porém não posso eu deixar de antecipar já aqui, por conterem exemplo moral, sempre raro, e hoje rarissimo.

O sr. Joaquim José de Oliveira, natural da villa da Figueira, em Portugal, negociante ha annos estabelecido n’esta cidade, pessoa que eu não conhecia, e que nem o meu nome ouvira nunca, dois dias após, o meu desembarque teve a bondade de me mandar offerecer, com grandes instancias para que acceitasse, uma linda vivenda sua, no sitio da Fontinha, de que desejava me servisse todo o tempo que permanecesse n’esta Ilha; accrescentando que, pois me achava em terra alheia, e para o diante, ou já então, poderia carecer de alguma coisa, com muito gosto punha a sua bolsa á minha disposição, rogando-me que nos apuros a preferisse a qualquer outra. Não lhe acceitei as casas; ficou magoado. Veio occasião de me ser indispensavel um emprestimo, por se me haver aqui represado o pagamento da minha pensão, achei-o promptissimo; excedendo quasi sempre a cifra das suas remessas á das minhas requisições.

Se não sou já hoje seu devedor pecuniario, folgo de confessar diante do mundo, que em affecto e admiração o haverei sempre por meu crédor.

Ainda agora, havendo sabido da minha resolução de passar á America, mandou offerecer-me, para me transportar com toda a minha familia, o brigue que traz n’essa carreira. Ha homens, a quem se gosta de ser obrigado; o sr. Oliveira é um d’esses poucos.

Do segundo exemplo, só me é licito dizer, que em nada cede a este primeiro em galhardia. É um homem extraordinario, que, depois de me haver estendido mão de verdadeiro amigo, em mais de um lance apertado e terrivel, me obrigou, por minha palavra, a lhe não descobrir o nome. É uma gratidão, que, por não a poder desabafar, me queima por dentro de dia e de noite. Nas minhas memorias posthumas me vingarei; pois só me obriguei ao silencio durante a vida.

Estes dois factos são brilhantes; mas se os meus leitores vissem as contraposições escuras que os fazem resahir!...

Aquelles, a quem esta nota, por nimio pessoal, fôr tediosa, lembrem-se de que era esta por ventura a ultima occasião, que eu tinha, para consignar actos, que illustram e edificam, e que eu, sob pena de infamia, não podia deixar occultos.

Além d’isso, como a desfortuna (que não o talento) me tem feito mais conhecido do que seria rasão, e alguns biographos por esse mundo me teem feito a desmerecida honra de me historiar a vida, quiz deixar-lhes assim, com que intercalarem n’ella a pagina mais util e bella de quantas até agora me lá teem posto.

O povo mais feliz, diz Montesquieu, é aquelle cuja historia enfastia; grande verdade, que se pode applicar aos individuos. Os infortunios e trabalhos são os que mais captivam as attenções. A minha historia completa seria já hoje mais interessante que a do pobre Camões. Resta aguardar-lhe o fim. Segue-se o quinto e ultimo acto do meu drama.