EPISTOLA
(Fragmento achado entre os manuscritos de Castilho)
A minha primavera emfim renasce.
Té n'este horror selvatico dos montes
roupas traja nupciaes a Natureza.
O ceo azul, o ar morno, as aguas puras,
tudo nos diz «amor»; dizem-n-o as aves
chalreando ao florir das alvoradas;
bala o rebanho alegre; armento o muge;
na folha nova zéphiro o cicia;
a camponeza em meio de mil flores,
que lh'o exhalam balsamico, o suspira,
e ao viçoso tapiz, á sombra vasta
macia e tentadora lança os olhos.
Em quanto o rouxinol, Orpheu plumoso,
enleva a fonte e as arvores nocturnas,
cantando amor, da lua ao raio incerto,
lições que mais de um ente ao longe estuda
(e pratica talvez); em sons de lyra,
solitario eu tambem, lições de affectos
de cá te envio ao centro da cidade.
N'esse ruidoso vórtice de povo,
de vãos praseres, de negocios futeis,
a geral rotação te arrasta ás cegas;
é dever da amisade erguer-te aos olhos
luz, salvadora luz. Náufrago entre ondas
pode não ver a táboa ás vezes perto;
pode a praia ignorar, e tel a em face.
Táboa amor te lançou da praia firme;
ledo e fausto Hymeneu te está chamando.
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