A ROMARIA

Lá vem Maio rosado. Já floreja
nas planicies, verdeja pelos montes;
é o mez de Amor, é o mez de Philoméla.
Aureo amanhece o dia suspirado
da romaria annual; léguas em roda
já tudo é festa, esp'rança, e regosijo.
As povoações, desertas. Por estradas,
por torcidos atalhos, por oiteiros,
correm de toda a parte ornados bandos.
Lá retrôa nos eccos aturdidos
a matinal girandola ruidosa;
acorda ao longe a torre com repiques;
um povo de cem povos misturado
enche a vozeada selva, a acceza ermida,
e de ondeado matiz cobre o terreno.
Arfa ao sol, no alto mastro volteando,
triumphante bandeira alvi-cerúlea.
Vai e vem, ora chega, ora se allonga,
não está em nenhum sitio, e assoma em todos,
a alma da festa, a gloria do Gallego,
a aguda gaita túmida e franjada,
que ao rufado tambor sócia, repete
a moda velha e alegre, amor dos campos.

Em vidrado alguidar reluzem n'agua
os doirados tremóços, que afadigam
com compradores a afrontada tia.
As navalhas e anéis, o apito, o espelho,
se assoalham mais além; na alva toalha,
alva e folhuda, estão chamando o exul.
Em cima de seus carros triumphantes
os laureados tonéis, reis da alegria,
dão n'um fogo perenne a vida a tudo.
Aqui se ouve o descante ao desafio,
que a viola ora segue, ora acompanha.
Ali se apinham para ver as danças,
que a discorde rabecca entorta ás vezes.
Lá, se entorna o licor em puros vidros;
ao pé se adoça a fresca limonada.
Aqui se comprimentam; além chamam;
um se perde, outro se acha, outro convida.
Este corre; esta pára a ataviar-se,
por mostrar o cordão e o lenço novo.
Estirados na relva os velhos palram;
grita o rapaz. O amante, recostado
ao páu, por onde um braço lhe serpeia,
faz longa côrte á tímida futura,
que em resposta de amor lhe dá tremóços.
N'isto vôa o foguete, e atrôa as nuvens.
Lá sai a procissão; lá foram todos.
¡Ah! depois do jantar comido ás sombras,
cada um levará, volvendo a casa,
gratas lembranças para o anno inteiro.

VIII

O DOMINGO GORDO DOS MONTANHEZES
OU
A MATTA DE S. SEBASTIÃO

Versos na plantação de uns carvalhos junto á egreja de S. Mamede
da Castanheira do Vouga pelos rapazes solteiros da freguezia
no Domingo do Carnaval de 183...

I

N'este dia, em que o povo tumultuando
nos casaes, nas aldeias, nas cidades,
troca a enxada, o tear, o livro, a agulha,
por copos, danças, máscaras, e risos
nas saturnaes christans; quando se espraia,
desde o seio de Roma aos fins da terra,
de um praser contagioso alta vertigem;
¿por que retreme ao golpe das enxadas
sob os meus pés a solitaria encosta?

*

¡Saude a vós, a vós louvor. Bemvindos,
montanhezes, fieis aos priscos usos!
O cântaro do estylo ahi está coroado,
risonho e prestes a inundar os copos;
o prémio á vista vos redobre as forças.

*

Rasgae co'o duro ferro a terra dura;
de vossos paes a matta veneranda
em torno de seu santo antigo dono
se accrescente por vós. Plantae, que é tempo,
no chão, sagrado de suor devoto,
ó presente annual, que o Ceo prospére.

*

Onde quer que elle jaz, abençoemos
as cinzas do homem bom, lá d'essas eras
que a pia usança introduziu primeiro.
¡Quanto a sua virtude era risonha!
—«Cada solteiro plantará n'este ermo
mais uma arvoresinha de anno em anno,
que lá em cima encontrará seu premio.»
¡Oh! estes rogos, sim, este pedido,
doce e desint'ressado, uncção respira;
manda mais do que as Leis; morrer não deve.

*

Produz, produz a miudo, ó Natureza,
por teu bem, por bem nosso, homens como esse.
Haja quem diga ao joven par, que ás aras
sobe apenas amante, e desce esposo:
—«Hoje, que são já fruto esp'ranças de hontem,
entrae sorrindo pelo chão da vida;
plantae, plantae um'arvore que o lembre.»

*

Quando a cabana festival se enrama,
se enflora a meza, e os aldeãos visinhos

veem festejar na casa um filho novo,
a mão paterna, de praser tremendo,
orne de um novo tronco o prédio avito.

*

¿Depois de suspirada e curta ausencia
volve um irmão das terras estrangeiras?
¿Convalesce um parente? ¿Em bem se acaba
suado, volumoso, eterno pleito,
que empobreceu o avô, o filho, e o neto?
¿Fizestes o adversario amigo vosso?
¿Sorriu-vos a ventura? ¿É farto o anno?
A sêrdes Reis, alçáreis monumentos;
¿que vale um monumento? O homem dos campos
melhores pode erguer a menos custo:
plante sobre o caminho arvores férteis.
Por elle o passageiro ardendo em calma
ache a sombra hospedeira que o recreie.
Por elle o pobre, que seu pão mendiga
de casal em casal, de monte em monte,
que não vê ceo, nem lar onde se aqueça,
nem feno onde descance, e em todo o mundo
só tem por património a caridade,
ache a fruta a pender em curvos ramos,
a acenar-lhe, a off'recer-se-lhe, a sorrir-lhe.
Assim, do bem de um só germinariam
mil bens communs; e do praser de um homem
o publico praser, publicas bençãos.

II

Se tendes de nascer, nascei mui breve,
sensiveis corações a quem Deus guarda,
a gloria de influir eguaes costumes.

Desde já nossas lagrimas de affecto
correm por vós; ao seio do futuro
nós vos lançamos desde cá louvores.

III

Sentemo-nos, em quanto os vossos filhos
aqui se embebem na tarefa honrosa,
sentemo-nos á sombra, a vós bem grata,
do carvalhal que as vossas mãos plantaram,
homens das cans, antigas testemunhas
dos tempos que não são.

*

Vós, deputados

das mortas gerações aos vivos de hoje
como pregões propheticos; thesoiro
de saudades, de dor, de experiencia;
bons velhos, á vossa alma taciturna
aprazem mais que a festa os pensamentos.

*

Falae: ¿d'onde vos nasce essa tristeza
profunda a um tempo e vaga, amarga e doce?
¿Será de enfeitiçada sympathia
que nos attrai á terra, ao chão da vida,
chão sempre cubiçado e sempre ingrato?

*

O coração, zeloso da existencia,
compara os dias seus do tronco aos dias,
e a conta desegual o opprime e o fecha.
¡Annos a nós, e seculos aos bosques!...
Planta o pae, mas a sombra hospéda os filhos;

netos, que não verá, gosarão d'ella;
e indiff'rentes incógnitos vindoiros
rirão contentes ao folhudo abrigo.

*

Mas, velhos, mui ditoso o que em seu predio
dispõe arvore fértil de esperanças,
que irá legada aos filhos de seus filhos.
Prophecias de amor lhe expande o seio,
sorri, e ama o que é seu, na esp'rança ao menos.
Mas feliz egualmente o que em seu predio
possue vaidoso um tronco hereditario.

*

Na réga, e ao vir da flor, e ao dar do fruto,
¿como ha-de não pensar em seus maiores?
Um lh'o plantou, os outros lh'o trataram;
¿Como ha-de recusar-lhe uma saudade,
um suspiro, um suffragio, um elogio?
A gratidão medita á mesma sombra
onde já meditára o amor paterno.
Esta arvore mortal é o santo marco,
em que se juntam, se entrelaçam, crescem,
dos idos o interesse e o dos vindoiros;
nó de affeição, que os seculos reune.

*

¿Vedes vós essa mãe, que ha tantos annos
chora um filho alem-mar, em longes terras?
Mostrae-lhe um passageiro a dar á vella
para o porto feliz; ¡com que ternura
lhe não dará, chorando, um longo abraço,
que leve, que lh'o entregue, ao seu querido,

e todo o amor de mãe lhe exprima n'elle!...
¡E com quanto alvoroço o desterrado
não cingirá o amavel mensageiro!...
Eis o emblema da arvore, cruzando
viva e lembrada o Oceano das edades,
mensageira de int'resse aos paes e aos filhos.

IV

¿Qual de vós, repoisando n'esta cama
de folhas mortas, qual de vós, no meio
d'esses troncos musgosos, seculares,
não viaja com o espirito espraiado
por esse mundo antigo e antigos homens?
Sim, vossa alma se apraz, phantasiando
de lhe restituir quanto houve d'elles:
uma vida, uma choça, herdade e patria.
Deslembram cans; rugosas faces riem;
reviveis n'um minuto annos de infancia
sob a affeição de um pae, de um pae nos lares;
sem cuidados, sem prole, e sem temores,
entrais folgando o limiar da vida.
¡Podesse n'este ponto o pensamento,
como ave em ramo flórido e viscoso,
deter-se a recordar, ficar pregado!
¿Vós suspirais?!... desfaz-se-vos o sonho,
e a extincta geração recai nas campas.

*

¿Mas quê? ¿d'esses antigos plantadores
nada mais resta além de uns troncos mudos
n'este universo movediço e instavel?
¿nem uma só lembrança, um dito, um nome?
Tudo passou sem mínimo vestigio,
como os sons leves de um descante ao longe.
................................................................

V

Bons aldeões, estas sombras regaladas
vos falam nos avós; porém comigo,
comigo, extranho, e novo em meio d'ellas,
conversam no aureo tempo a que assistiram;
recordam-me as edades do Universo,
e os varios povos, e os paizes varios,
contemporaneos do nascente mundo.

*

Intonsas, invioladas, venerandas,
outras selvas, como esta que nos fecha,
fecharam do homem a primeira origem.
Sob as verdes abóbadas immensas
as velhas tradições nol-os descrevem
pobres e alegres, nús e satisfeitos,
saboreando em ocio a glande e a fonte,
dormindo sobre a folha, e sem pedirem
outra casa, outro templo, outra cidade.

*

A pouco e pouco o numero crescia,
minguando a pouco e pouco a singeleza.
Infecta o vicio á terra; os ceos se mudam;
a um Maio eterno as estações succedem;
o ar se gela e accende, alaga e silva;
já bravejam leões, já bramam tigres;
o homem se acoita ao seio das cavernas.

*

Vós, troncos, até ali seus companheiros,
acudís a servil-o; ¡e em quantos modos!

lá, crepitais em rútila fogueira;
aqui, das feras prohibís a entrada;
dais uma clava ao caçador valente;
na serviçal cortiça um berço aos filhos;
leitos a amor, assentos á velhice,
aos enxames um lar, um copo ás festas.

*

Das precisões ao grito, o engenho acorda;
lá surgem povoações, curraes, tugúrios,
e uma capella ás rusticas deidades.
Lá rompe o novo arado a terra dura;
lá geme, a transportar enormes pezos,
o carro, e sulca atónitos caminhos.
O genio excita o genio; o exemplo, o exemplo;
a rudeza se pule; as artes crescem;
a especie racional das mais triumpha.

*

As gerações do ceo, do mar, da terra,
tudo é já seu; os campos lhe obedecem;
faltava o Oceano; affoita quilha o rasga.

*

Então foi, que estas arvores, tão uteis
no patrio continente, abriram vôo
sobre o liquido abysmo a novos climas.

*

¿E em que parte do globo, arvore excelsa,
te podes presentar, que não recordes
uma façanha, um culto, um grão successo?

*

¿Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta
que foste invicta clava em mão de Alcides;
vê-te, suspira, bate o chão raivando
de achar-se escravo, e de não ter-lhe as forças.
¿Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta
do arvoredo Dodónio as mil respostas,
o passado e o porvir patente a todos,
e o livro do destino aberto ao mundo.

*

¿Na Ausónia? Mas Cybelle amou teus ramos;
Roma os sagrou a Jove; e, fulminada,
eras tremendo agoiro a todo o Imperio.
¿Em Roma? ¿E a c'rôa civica?

*

¿Nos campos?

¿E Phílémon, o justo, o caro aos deuses?

*

¿Nas Gallias? em seus barbaros oiteiros
tu, só, eras o altar, o deus, e o templo.

*

¿Na Caledonia, em Morven, junto aos lagos,
sobre os cumes, á beira das torrentes?
Lá tu viste Tremnor, Fingal, e os bravos,
reunidos na vespera do sangue
em nocturno festim que allumiavas,
quando na harpa dos bardos reviviam
os feitos dos heroes do antigo tempo.

*

¡Salve, eleito Israel! Eis-nos em campos
de Sichem. Vejo os principes e os velhos,
os juizes, as tribus, apinhar-se
em torno ao tabernáculo de Sila.
Por cima d'este mar ondeado e vivo
reina de praia em praia alto silencio.
Sublime como o cedro do deserto,
se levanta Josué, braço do Eterno,
em nome do Senhor, que o manda e inspira;
os favores do Ceo recorda ao povo;
renasce a Fé; os idolos se arrazam;
—«¡Gloria ao Deus de Israel!—vozeia a turba—
¡ao Deus dos nossos paes, dos nossos netos!
—Erga-se um monumento,—exclama o chefe—
que, se infieis um dia os esquecerdes,
vos envergonhe, e acorde os votos de hoje.»
E a monumento põe no logar santo
enorme pedra á sombra de um carvalho,
que abrigava co'a copa o santuário.[7]
Despede o Povo, e em paz contente expira;
em paz, que já não vê perjúrios novos.

*

Escrava de Madian a plebe expia,
na miseria e no opprobrio, os males torpes
que fez ante o Senhor. Mas inda existe
um justo, a quem Deus fie o libertal-a:
é Gedeão, é o Josué segundo.[8]
Este, em quanto seu pae lança aos caminhos
medroso olhar á espera do inimigo

para fugir com elle, ajunta á pressa
o trigo que limpou.

Vê de repente

um Anjo, que debaixo do carvalho
se assenta, e lhe repete a lei do Eterno.
Esse mesmo carvalho é testemunha
da belleza do alado mensageiro,
da voz de salvação mandada ao Povo,
e do holocausto acceito e posto em cinzas,
e do altar, a quem Paz foi dada em nome.

*

E este, que tão frondoso opáca os valles,
¿por que o rodeia um bando taciturno
dos fortes de Galaad? as suas armas
jazem quebradas; sua dor vai funda;
dos olhos tristes para o ceo voltados
pelo rosto amarello lhes escorre
grosso pranto, que alaga as f'ridas frescas.
Choram Saul, e a régia descendencia,
que mortos no combate aqui descançam.
Para o Monarcha agigantado e invicto
nenhuma estátua se erguerá na campa.
Sua columna e funebre palacio
preparou-lh'os com tempo a Natureza:
o tronco, rei da selva, o está cobrindo.

*

¡Mas quanto é mais tocante o que se eleva
nas faldas solitarias da montanha!
Ali Débora jaz; ali Rebecca
chora na morte a que a nutriu na infancia,
ama no coração, mãe nos extremos,
de seus primeiros e ultimos segredos

confidente fiel no lar paterno,
querida socia na feliz viagem,
e no lar conjugal seu doce allivio.
¿Arvore a tanto affecto consagrada
na affectuosa Biblia irá sem nome?
o carvalho das lagrimas lhe chamam.

VI

¡Que uso tão doce aos corações piedosos!
Reverdecei, costumes do bom tempo,
quando o Rei, o pastor, o chefe, a virgem,
tinham sob um ceo livre a sepultura.
A Morte, menos barbara do que hoje,
com avarenta mão não ferrolhava
sob um tecto pezado, entre altos muros,
as prezas, cá de fóra em vão pedidas.
Não era um templo um cárcere de mortos.
Dormiam mollemente em terra franca,
em jardins frescos, em copadas selvas.
Esta esp'rança adoçava um pouco o amargo
do ultimo trago aos labios moribundos.
Este bem, tão pequeno em mal tão grande,
¡quanto valor não tinha aos que ficavam!
O irmão, o pae, o filho, o amigo, o esposo,
podiam livremente, a toda a hora,
ir regar de seu pranto amadas cinzas,
fartar saudades, inflammar lembranças,
delirar doce a noite, e o dia inteiro,
e de praser a um peito onde palpitam
superstições de amor ou de amisade,
dizer:

«Este tapiz relvoso o cobre;

esta ave lhe gorgeia; esta aura sôlta
o refresca; esta lua apraz-lhe aos manes;
a primavera m'o visita, e espalha

tambem por cima d'elle o seu regaço;
esta violeta é sua, hei-de colhel-a;
d'est'arvore a raiz sente-lhe a fronte,
nutre-se do seu pó, vive por elle,
é elle mesmo em parte; arvore amiga,
recebe o nome caro, hoje sem dono,
toma os abraços que não posso dar-lhe.»

*

Sim, sim, convém um bosque ás sepulturas.
A arvore, Deus a fez como passagem
do mundo que respira ao mundo inerte;
commum co'os animaes, commum co'a terra,
vive e não sente; habita e ignora o mundo,
sympathisa co'a morte e co'a existencia,
é grata ás cinzas, á saude é grata.

*

¡Que férreos somos nós, que a um como vago
atiramos sem dó perdidos, mixtos,
o detestado, o amigo, o estranho, e o nosso!
Se alguem da voraz Sylla aos sorvedoiros
arrojasse o que os seculos pouparam,
bronzes, escritos, marmores romanos,
ou, derrotando porticos, columnas,
theatros, colliseus, palacios, templos,
em serra inutil amontoasse as pedras,
¿quem não vertêra em lagrimas o sangue?
¡E ante a nossa affeição teem menos pezo
que as ruinas de Roma as que são nossas?!...
¡Dá-se tanto aos ditosos, aos contentes,
espectaculos, jogos, aureas festas,
jardins, parques!... ¡e aos miseros que gemem,
e aos peitos melancólicos, viuvos,

ha-de negar se um canto onde pranteiem!?...
¿De tanto mundo que pertence aos vivos
nada dareis aos seus antigos donos?
¡nem um torrão perdido, e uns troncos nullos?!...

*

¿Quando virá um dia, em que estes bosques,
semeados de tumulos não altos,
de lugubres saudades se povôem?
Então, a propria Morte, hoje tão sêcca,
terá sua grinalda; a dor, seu gosto;
e visitas o pó, e cultos o ermo.

*

Pelas noites mui placidas do estio,
ao duvidoso alvor da lua incerta,
bello será, sentado n'este sitio,
ver vir, d'aqui, d'ali, frouxos, dispersos,
o do casal, o morador na aldeia,
entrar chorando, e procurar seus mortos.
Aqui duas irmans resam de joelhos
sobre o seio materno sepultado.
Aqui o velho attento as contas passa
pelos dedos convulsos, e se encosta,
sem o saber, na fallecida esposa.
O filho aos pés da mãe co'os mais soluça
o Padre-Nosso apenas aprendido.
Deitado ao lado do submerso amigo,
o amigo devaneia antigos annos.
Por toda a parte, as lagrimas e affectos,
memorias doces, orações e esp'ranças.

*

¿E a quem não conviria egual retiro?
N'elle a tristeza encontraria um pasto;

a sciencia, reflexões; o vicio, escolhos;
a leviandade, assento; a desventura,
consolação; o amor, silencio e pranto.
Ensaiára-se o infante para a vida;
o velho, para a morte; o moralista
viria achar uncção para a verdade;
o orador, persuasões, ternura, encantos.

*

Ó filhos da montanha, ¡oh! libertae-vos
de um preconceito vão; é toda a terra
a terra do Senhor; afora o vicio,
debaixo d'este ceo nada é profano.
A benção do Pastor consagraria
vosso asylo feliz; e a Cruz em meio
todo de um santo influxo enchêra o bosque.

VII

Mas, em quanto esses dias vos não raiam,
bons velhos, vigiae que, de anno em anno,
aos juvenis futuros plantadores,
em vez de se afrouxar, se inflamme o zelo.
Cresça com seu favor por estas serras
a geração dos vegetaes gigantes.
Com todos vós conversam todos elles
sem cobrir campas; guardam-vos saudades,
são parentes de todas as aldeias,
e o brasão da montanha é o vosso parque.
Sobre tudo influi que a vossa raça
trema ao só nome do brutal machado
que ouse violar a veneranda herança.
O que só Deus medrou, só Deus derribe.

*

Crêde-me (eu já vi outras) vossa terra
é descrida, enteada á Natureza.
Cumpre a vós adoçar-lhe o aspecto agreste,
amiudar-lhe no oceano ermo dos ares
estas ilhas, virentes, graciosas,
que espalhem primavera pelos montes,
que attráiam as volantes caravanas
do rouxinol, da rôla, e da andorinha.

VIII

Lá em baixo a casa humilde que branqeja,
entre os alegres plátanos e o templo,
quasi que pasma, e se entristece e encolhe,
de ver em torno a solidão tão vasta.
Como que está pedindo... ao menos bosques;
não tem outros jardins, outros passeios,
que offereça a seu dono, o Pastor vosso.
Preparae desde já para o futuro
sombras novas aos novos successores,
e refrigério estivo ás cans do velho.
Casae co'o vosso int'resse o int'resse alheio.
Mil vezes sua voz reconhecida
rogará paz ditosa aos vossos netos,
quando, serena a mente, e sôlta a vista
lá fôrem divagar, ora embebidos
nos psalmos, nos poeticos arrojos,
ora admirando o Autor e o Nó dos mundos,
no largo azul dos ceos, no alto dos troncos
e no zumbir e no voar do insecto.

*

¡Surgi! ¡surgi! Lá jazem as enxadas.

Velhos, surgi! La voltam triumphantes,

findo o novo trabalho, os vossos filhos.

Agora espumem copos, sôem risos,
exulte a dança, alonguem-se os cantores.
Conquistastes o inculto á Natureza:
forçástel-a a sorrir, a ornar-se em festas.
Toda a vasta planicie, hontem tão erma,
¡que povoada vai já! ¡como promette
lembrar ao vosso gado, ás vossas filhas!

UM VELHO

Sim, dará sombra e vai povoado o valle:
mas fosse eu rico, e lhe dobrára encantos.

SEGUNDO VELHO

¿E como, irmão?

O PRIMEIRO

No alto d'este oiteiro,

d'onde se avista o mar, o ceo, a terra,
poria uma capella, e um San-Mamede
co'o rosto de um menino, e o rir de um Anjo;
nas mãos o cajadito, o alforge ao lado,
e o seu rafeiro ao pé todo soberbo
co'a colleira escarlate, e todo amigo
a lamber o seu Santo. É bom que os altos
se c'rôem de capellas, que levantem
o pensamento aos Ceos, no campo espalhem
devoção e piedade, e aos peregrinos
ensinem o caminho e a vista alegrem.

UM PASTOR

Sim, co'o santo pastor de guarda aos bosques,
¿que haviam de temer, nem cães nem gado?

Nos degraus da capella, á sombra inquieta,
longas séstas sonháramos de amores.

TERCEIRO VELHO

Já lá vão o bom tempo e os bons costumes;
foi-se a abundancia e os corações piedosos.
Esses fundavam templos, como o nosso,
n'um árido deserto; e hoje.... se estala
no campanario um sino, em ocio eterno
fica mudo a pender dos braços podres.

IX

Bem, bem. Mal que a fortuna me sorria,
serei eu quem consagre o vosso oiteiro;
não a Mamede, não ao pastor martyr,
mas á contrita amavel Peccadora.
¿Não valem mais as lagrimas que o sangue?
¿Mais que heroico valor não nos commove
doce humildade e penitencia longa?
E de mais: se ás aspérrimas proezas
vos não destina o Ceo, todos nascestes
captivos frágeis de amorosas culpas.
Muita virgem no monte solitario
tentada pelo amor e pelo amante,
só com ver a capella ha-de livrar-se,
e pela salva flor dar lhe-ha mil flores.
E quando aqui errantes missionarios
vierem dar, e á sombra dos carvalhos,
as turbas apinhadas instruirem,
¡que persuasões, que lagrimas, que exemplos
hão-de tirar da veneranda Imagem!....

*

¡Qual me ri já na mente o grão projecto!
Eu serei pois o fundador de um culto
que aos frutos da moral reuna flores.
im; ¿quem tolhe o prazer puro e innocente?
.............................................................

X

Partiram. E eis-me só. Todos partiram.
O alvoroço do entrudo os chama aos lares.
¡Oh! ¡Bemdita a ignorancia d'estas serras!
O rustico inda ri na Patria em luto,
e eu finjo o riso por dobrar-lhe o erro.
¡Bem sabe elle que lagrimas aos mares
d'este horizonte em roda estão correndo!
¿Sabe elle que o atro dia é menos atro?
A paz, a confiança, as alegrias,
a abundancia, a união de antigos Lusos,
não deixaram, fugindo, um só vestigio.
No vaivem das facções, que se entrevencem,
tudo se perde e esquece, afora a raiva.
Os bons usos, as festas populares,
a romaria alegre, as patrias danças,
vão-se apagando... Aqui, mesmo na brenha,
a pastora, esquecendo os seus amores,
canta a questão dos Reis, o hymno da guerra,
sons novos, que o seu gado e o ecco extranham.

*

Ó Patria, bella Italia do Occidente,
tu que egual a Parthénope repoisas
debaixo da invejada laranjeira
e do mirto florido, ao deleitoso
ruido de aguas limpidas, no abri

de um ceo inspirador tão proprio ao genio,
ó bella Italia do Occidente, ó Patria,
¿era pois fado teu lidar sem fruto
para seres a inveja, a flor das gentes?....
A guerra, sim, te coroou co'as palmas
das quatro partes do orbe, e as naus do mundo
trouxeram a teus pés thesoiros, sceptros.
Mas as flores das artes, mas os frutos
das sciencias, no chão dos outros povos
com tanto custo e com suor medrados,
¿espontâneos no teu medraram nunca?...
¿Tiveste nunca os dons, que em paz florentes
ornam e absolvem da conquista os loiros?
¡Que imperios teem cahido! e tu, tu ousas,
hoje ainda, aspirar á eternidade!!...
Talvez bem perto os seculos se cheguem,
que hão-de ver cego arado andar lavrando
tuas cidades de esquecido nome,
e o rebanho indiff'rente apascentar-se
sobre os teus tribunaes, theatros, praças.

*

Vê-te o sol com praser; deixa-te a custo,
Lusitania, que á borda do Oceano
brilhas qual deusa em majestade e em graça.
Deusa, e immortal, te crêram; mas tu jazes
entre tropheos em pó, lavada em sangue.
Deshonrada Cleópatra, inda és bella,
mas já nas veias te circula a morte.
¡Ai de quem nutre as áspides no seio!...

*

¡Ó Patria, ó Patria, com que voz tão baixa,
com que pejo te expróbro! ¡Ah! se podéres,

perdôa meu furor, vê só meu pranto;
ó Patria, ó mãe, ó misera querida!...

*

¿Que ouvi? ¡longinquo estrondo! ¿que seria?
¡Som de espingardas!... Sim, talvez... são homens
que nos matam irmãos... ¡Alerta!... oiçâmos...
.................................................................

IX