O SAN JOÃO NAS FALDAS DO CARAMULO

Dia em que o Poeta plantou por suas mãos um cedro no pateo
da residencia parochial da Castanheira do Vouga

(FRAGMENTO)

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Se, de teus annos na madura força,

a mão que te ora planta inda fôr viva,
essa mesma, já trémula e caduca,
no tronco te abrirá, com pio exforço,
graciosa capellinha, onde sorria
um San-João, o Santo alegre do ermo,
trajo de pelles, juvenil frescura,
olhos nos Ceos, aos pés cordeiro branco.

*

N'essa noite poetica e devota,
em que o praser, centuplicando aspectos,
povôa, anima, encanta o mundo inteiro,
agua e terra, ar e ceo, tudo é macio,
em que a velhice, a mocidade, a infancia,
sympathisam no vago da alegria;
quando n'alma insaciavel de delicias
se juntam, com mistura inexplicavel,
ao saudoso passado, aos bens presentes,
as mil visões do esplendido futuro;

quando em laço phantastico se aggregam
da vida e eternidade os pensamentos,
gosos, superstições, fraquezas, cultos,
qual ramalhete de cipreste e rosas
na caprichosa mão das feiticeiras;
n'essa noite, das noites invejada,
a ti concorrerão por toda a parte,
té das aldeias do horizonte extremo,
dançantes bandos que a viola guia.

*

Verás girar seus bailes clamorosos
em redor das estrídulas fogueiras;
ouvirás os seus cânticos em côro
devoto e ennamorado. A bomba foge,
zune fugindo, e sollapada estoira;
o buscapé no ar caracolando
morde n'um, morde n'outro, ameaça a todos,
dispersa os grupos, gasta-se raivando,
e entre os risos rebenta atroando os ares;
ali circula em vórtice perenne
a roda leve espadanando incendios,
chovendo oiro luzente e estrellas alvas;
aqui floreia o fúlgido valverde,
vesuviosinho que arremette ás nuvens;
arranca o vôo e vai rugindo aos astros
o ignívomo foguete estrepitoso.

*

¡E a musica entretanto! ¡e as doces falas!
¡e os protestos de amor! ¡e a prece occulta!
¡e essa mão dada a furto e a furto acceita!
¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudes
da meia-noite em ponto! ¡e a flor crestada!

¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes,
e muitas mais a próvida malicia!
¡e a fonte que amanhece entre descantes,
e pasma rindo de se ver coroada
de festões verdes e entrançadas flores!
¡Que noites, que alegrias, que triumphos,
te aguardam no porvir, me estão na mente![9]
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