SANTA MARIA EGYPCÍACA
(Fragmento de um poema)
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Prostrada aos pés da Cruz, ante a caveira,
jaz solitaria a Egypcia. Rios descem
de olhos lindos, que os ceos fitar não ousam,
*
¿Tão nova, e isenta? ¡Oh! não; mudou de amores.
Dos primeiros só guarda a dor e as penas;
mas os novos, os ultimos, protesta
conserval-os em vida, e em morte havel-os.
*
Té aqui, pela alma escura só lhe ardiam
relampagos dispersos; derretido
raio dos Ceos lhe côa pelas veias.
*
Brilhou no mundo como a flor de um dia.
Os soes vivos, os ventos importunos,
lhe ameaçavam fim; ruins borboletas
captivas da belleza iam murchal-a.
Imprevisto invisivel jardineiro
a tempo a salva, e a transplantou no ermo.
*
No mundo, sobre o abysmo, hontem folgava
impróvida e leviana; hoje pranteia
na solidão, mas sob um Ceo que a espera.
As cidades, em que ídolo brilhára,
inda a chamam em vão, e em vão a aguardam.
De um lustro que a houveram, ¡quantos lustros
lhe volveram saudade!
*
Em viço de annos,
e mais bella que as flores todas juntas
das dezassete suas primaveras,
qual fugaz sonho de manhan de estio,
foi-se, e não voltou mais, Deus sabe aonde.
Murcharam festas; esmorecem danças;
os banquetes, diffusos pela noite,
já não veem despertar ternura e risos.
Nas roseiras intactas se desfolham
os botões das grinaldas; o alaúde,
que falou tanto amor nas mãos da bella,
discorde jaz, e mudo...
*
Ella, entretanto,
co'os mimosos pés nús calcando areias,
desornado o cabello, envôlta em pelles,
timida, envergonhada, pesarosa,
vai caminho do Ceo co'a fronte baixa.
Mil vezes á avesinha se compára,
sem família, sem lar; corre erradia;
¿não ha-de ambas manter a paz que é de ambas?
Beija a caverna frígida que a hospéda,
e agradecendo este hórrido paraizo
ao Deus que lh'o depára, esquece o mundo,
ou sem saudade e com horror o aviva.
*
Ai coração tão amplo, onde estuava
mar de affectos sem conto, escoado agora,
¿quem o ha de encher? ¡em solidão tão funda!
¿quem o ha-de encher? Já o enche o que enche tudo,
o que brilha na luz, no sol, nos astros,
corre nos aquilões, anima os troncos.
*
Só conversa com Deus, e a Deus só ouve.
Este seio, estas tranças desatadas,
são brinco só do vento do deserto.
Esta mão, tão mimosa e tão querida,
só procura, excavando a terra ingrata,
a amorosa raiz, ou já se encurva
para dar agua aos labios sequiosos.
A aurora a vem saudar já de joelhos.
Não ha um sol, não ha na noite um astro,
que não saiba os seus ais e eternas preces.
Nem que passe o chacal, a hiena, a onça,
foge, ou quebra os devotos exercicios.
Treme a gazella, e encolhe-se aos rugidos;
e a Estrangeira não treme; ora, e descança.
*
Ao fresco desmaiar da extrema tarde,
quando os raios do sol já mal doiravam
da longinqua palmeira o incerto cume,
¡que vezes, assentada, e sustentando
na eburnea mão o pallido semblante,
atraz do astro fogoso e fugitivo,
mandava o coração, mandava os olhos!
*
—«Além—dizia—além, n'esse Occidente,
corre o santo Jordão delicias minhas,
que o Salvador banhou, que eu passei mesma.
Talvez aquella nevoa que lá brilha,
mudada em rosa, em purpuras, em oiro,
seja da santa veia alegre filha,
Além... Jerusalem, Sião, Judêa...»
*
E a taes nomes, enxames de memorias,
de saudades, de affectos, lhe adejavam
pela alma, alegre em parte, em parte escura.
Raro, mas inda ás vezes lhe assomavam
no involuntario somno ideias meigas.
Inda, uma vez ou outra, o amor banido
entrava de relance o antigo alvergue,
e apóz elle os passeios namorados,
os theatros esplendidos, as galas,
as mezas rindo, os bailes desenvôltos;
e as victorias, e as chusmas dos praseres,
como á sua rainha vão saudal-a.
Acordava sorrindo, a Cruz fitava;
e atirando se á terra, e sôlta em chóros,
pagava erros não seus com dor bem sua.
*
Taes se lhe vão no ermo deslizando
dias e annos, sem ver na areia impressos
mais vestigios que os seus.
*
De tempo em tempo,
só vê talvez, ou ver presume ao longe,
do horisonte nas sombras pavorosas,
o ténue pó da immensa caravana,
que vai de Alépo á Méka em certa estrada.
Por ella ora, e entre o orar lamenta
a devota fanática impiedade.
*
Tal vai manando a limpida existencia.
Egual ao ramalhete que desmaia,
e se esfólha no altar entre os perfumes,
tal, sem gosto e sem dor, e sem que o note,
perdendo vai co'o tempo a bella Egypcia
encantos, já seu mal, e mal do mundo.
O juvenil das formas exteriores
concentrou-se-lhe n'alma; em cans e em rugas
se esconde um coração de amor não farto.
*
Quem a tivesse visto, e a visse agora,
sentiria o que sente o viajante,
quando, perto d'ali, vai dar co'os restos,
saudosos restos, da gentil Palmyra.
Uma e outra já gloria do Universo;
agora mudas, sós, e deslembradas,
e socias no deserto, e eguaes no exemplo.
*
Meio seculo a viu prantear sosinha
annos ligeiros da fugaz infancia.
Ao fim da gran carreira, o Ceo lhe envia
o solitario Zózimo, como ella
ancião virtuoso, e habitador das covas,
que lhe oiça a longa vida, a anime, e exforce;
lhe dê perdão e paz de um Deus em nome.
*
Pela primeira vez contente e alegre,
ousando olhar os Ceos,
—«¿Trareis,—lhe disse—
á pobre peccadora o manjar de Anjos?»
—«Sim.»
E partiu.
Com vista prolongada
ella o segue; co'os olhos no deserto
o espera todo o dia; ¡e este é tão longo!...
¡tarda tanto o bom hóspede!...
*
Passou-se
um anno inteiro. É elle agora; é elle;
conheço o fraco andar que o zelo apressa,
e as cans, e a calva, e as faces penitentes...
*
Chega; clama; a caverna não responde;
grita, e só ouve a si. Olha em redondo,
vê-a jazer na areia, e a areia escrita
por mão trémula, errante, ao que parece:
Bom Zózimo, por santa caridade
enterra o corpo da infeliz Maria.
Aqui morri no dia em que te fôste.
Encommenda-me a Deus, e Deus t'o pague.
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