A UM POETA EXILADO.
Il accuse et son siècle, et ses chants, et sa lyre,
Et la coupe enivrante où, trompant son délire,
La gloire verse tant de fiel,
Et ses voeux, poursuivant des promesses funestes,
Et son coeur, et la Muse, et tous ces dons célestes,
Hélas! qui ne sont pas le ciel!
V. HUGO.
Tão bem vaguei, Cantor, por clima estranho,
Vi novos valles, novas serranias,
Vi novos astros sobre mim luzindo;
E eu só! e eu triste!
Ao sereno Mondego, ao Doiro, ao Tejo
Pedi inspirações,—e o Doiro e o Tejo
Do misero proscripto repetirão
Sentidos carmes.
Repetio-mos o placido Mondego;
Talvez em mais de um peito se gravárão,
Em mais de uns meigos labios murmurados,
Talvez soárão.
Os filhos de Minerva, novos cysnes,
Que a fonte dos amores meigos cria,
E alguns de Lyzia sonorosos vates,
Sisudos mestres;
Ouvindo aquelle canto agreste e rudo
Do selvagem guerreiro,—e a voz do piaga
Rugindo, como o vento na floresta,
Prenhe d’augurios;
Benignos me olharão, e aos meos ensaios
Talvez sorrirão; porém mais prendeo-me,
Quem soffrendo como eu, chorou commigo;
Quem me deo lagrimas!
Eu pois, que nesta vida hei aprendido
Só cantar e soffrer, não vejo embalde
Ao conto a dôr unida,—e os repassados
Versos de pranto.
Do triste poleá choro a desdita,
Choro e digo entre mim: «Pobre Canario
Que fado máo cegou, por que soltasse
Mais doce canto;
Pobre Orpheo, nestes tempos mal nascido,
Atraz d’um bem sonhado pelo mundo
A vagar com lyra—um bem que os homens
Não podem dar-te!
Se quer esta lembrança a dôr te abrande:
A vida é breve, e o teo cantar simelha
Vagido fraco de menino enfermo,
Que Deos escuta.