SOLIDÃO.

Solo e pensoso i più deserti campi

Vo misurando a passi tardi e lenti

E gli occhi porto per fuggire intenti

Ove vestigio human l’arena stampi.

PETRARCA. Sonetti.

Se queres saber o meio

Por que as vezes me arrebata

Nas azas do pensamento

A poesia tão grata;

Por que vejo nos meos sonhos

Tantos anginhos dos céos;

Vem commigo, ó doce amada,

Que eu te direi os caminhos,

Donde se enxérgão anginhos,

Donde se trata com Deos.

Fujamos longe das villas,

Das cidades populosas,

Do vegetar entre as vagas

Destas côrtes enganosas;

Fujamos longe, bem longe,

Deste viver cortesão!

Fujamos desta impureza,

Só vês cordura por fóra;

Mas nunca o vicio que mora

Nas dobras do coração!

Fujamos! que nos importa

Rodar do carro que passa,

Esta orgulhosa vã gloria,

Que se resolve em fumaça?

Estas vozes, estes gritos,

Este viver a mentir?

Fujamos, que em taes logares

Não ha prazer innocente,

Só alegria que mente,

Só labios que sabem rir!

Fujamos para o deserto;

Vivamos alli sosinhos,

Sosinhos, mas descuidados

Destes cuidados mesquinhos;

Tu o azul do espaço olhando

E eu só a rever-me em ti!

Quando depois nos tomarmos

Á terra serena e calma,

Aqui acharei tua alma,

E tu me acharás aqui.

Ou corramos o oceano

Que d’immenso a vista cança;

Dormirei no teu regaço

Quando o tempo for bonança,

Quando o batel for jogando

Em leve ondular sem fim.

Mas nos roncos da procella,

Nossos olhos encontrados,

Nossos braços enlaçados,

Hei de cantar-te, inda assim!

Ou se mais te praz, zombemos

Das setas que arroja a sorte;

Vivamos nas minhas selvas,

Nas minhas selvas do norte,

Que gemem nenias sentidas

No seio da escuridão.

Não tem doçura o deserto,

Não têm harmonia os mares,

Como o rugir dos palmares

No correr da viração!

Tu verás como a luz brinca

Nas folhas de côr sombria;

Como o sol, pintor mimoso,

Seos accidentes varia;

Como é doce o romper d’alva,

Como é fagueiro o luar!

Como alli sente-se a vida

Melhor, mais viva, mais pura,

N’aquella eterna verdura,

N’aquelle eterno gozar!

Vem commigo, oh! vem depressa,

Não se esgota a natureza;

Mas desbota-se a innocencia,

Divina e sancta pureza,

Que dá vida aos objectos,

Feituras da mão de Deos!

Vem commigo, ó doce amada,

Que são estes os caminhos,

Donde eu enxergo os anginhos,

Que tu vês nos sonhos meus.