SONHO.

Ah! frown not, sweet lady, unbend your soft brow

Nor deem me too happy in this!

If I sin in my dream, I atone for it now,

Thus doom’d but to gaze upon bliss.

BYRON.

Sonhava esta noite, Donzella formosa,

Já quando as estrellas tombavão no mar,

Que eu via a meu lado uma esbelta figura

Divina e mimosa....

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

Divina e mimosa, co’um véo se cobria

D’estrellas fulgentes de brilho sem par;

O rosto era vosso, era vossa a estatura,

E o anjo dizia....

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

E o anjo dizia co’um geito celeste:

«Affectos que em outro não pude encontrar

«Por fim me rendérão,—paixão lisa e pura.»

Que tanto soffreste...

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

«Pois tanto soffreste, não devo impiedosa

«Fineza tão grande por fim mal pagar!»

Eis sinto um abraço estreitar-me a cintura,

E uns labios de rosa...

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

E uns labios de rosa cobrirem-me a fronte

Com tepidos beijos de férvido amar!

Prazer tão subido após tanta amargura.

Não sei como o conte!...

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

Não sei como o conte!—nos labios de rosa

Vivi encantado sem ver, nem pensar,

Em quanto apertava a ligeira cintura,

Cintura mimosa....

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

Cintura mimosa!—depois vos tecia

Grinalda que a fronte vos fosse adornar,

E um cinto de amores com bróche esmaltado

De meiga poesia!...

Quem tão bem fadado

Vivera a sonhar!

De meiga poesia, meo bem, minha amada,

Já pago de quanto me fazeis penar,

Então vos tangia descantes na lyra,

Na lyra afinada!

O sonho é mentira;

Não quero sonhar!