AGORA E SEMPRE.

Pone me pigris ubi nulla campis

Arbor aestiva recreatur aura,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Dulce ridentem Lalagen amabo,

Dulce loquentem.

HORACIO. OD.

Ponhão-me embora na crestada Libya,

Ou lá nas zonas em que o gelo mora,

Alli tua alma viverá commigo,

Alli teo nome!

Ponhão-me em terras que leões só crião,

Nas altas serras que o condor habita;

Alli ainda viverá comtigo

Minha alma ardente.

Faminto e triste na região deserta,

Co’os pés em sangue de esfarpada estilha,

Cortado o rosto de gelado vento,

Madida a coma:

Alli aos urros do leão sedento,

Aos crebros gritos do condor alpestre,

Ardendo em chamas deste amor sem termo

Direi: Eu te amo!

Duros ferrolhos de prisão medonha

Escute embora sepultar-me em vida;

Embora sinta roxear-me os pulsos

Ferreas algemas;

Embora malhos de tortura infame

Quebrem-me os ossos no medroso equuleo;

Agudos dentes de tenaz raivosa

Mordão-me as carnes:

Nas feias sombras da cruel masmorra,

Nos duros tratos da tortura bruta,

Quer só commigo, quer em meio ás gentes,

Direi: Eu te amo!

Mas nunca o gelo, nem a fragoa ardente,

Nem brutas feras, nem crueza humana

Farão que eu soffra mais agudas dôres,

Nem mais penadas!

Reclina-se outro em teo nevado seio,

Cinge-te o corpo em divinaes caricias,

Beija-te o collo, beija-te o sorriso,

Goza-te e vive!

E eu no entanto extorso com dores!

Praguejo o inferno que nos poz tão longe,

Louco bravejo, misero soluço...

Desejo e morro!