A VIRGEM.

—Tiene mas de vaporosa sombra,

De inefable vision que de mujer.

ZORRILLA.

Linda virgem simelha a linda rosa,

Que se abre ao romper d’alva;

Encapellão-se as petalas mimosas,

Lacradas de pudor com rubro sello:

Cego mortal só lhe respira o incenso;

Mas della a abelha extrahe seo mel mais puro.

Seo nobre coração é como um templo,

Onde só Deos habita;

Alli reina o misterio involto em sombras,

E maga placidez involta em cantos:

Só vê isto o profano; mas o antiste

De Deos a sombra vê, e a voz lhe escuta.

É como um lago de marmoreo leito

Sua alma ingenua e bella:

No fundo não se enxerga o verde limo,

E a lisa face nos amostra os astros.

E onde o humilde pastor só vê luzeiros,

Os anjos la dos céos contemplão mundos.

E se eu a vejo nos saráos ruidosos,

C’roada de belleza,

E a sombra da tristeza irresistivel

Tingir-lhe o rosto, e desbotar-lhe o riso;

Na mulher, que outros vêm, descubro o anjo,

Que as azas d’oiro, que perdeo, lamenta!

Então como que sinto arrebatar-me,

Sympathica attracção!

Quizera doces carmes de ternura

Nas mais delgadas cordas da minha Harpa

Cantar-lhe, e assim dizer-lhe: «Um canto ao menos

O acerbo exilio teo torne mais brando!»

Baldado empenho! Começado apenas,

Afrouxa-se-me o canto;

Debaixo dos meos dedos mal palpita

A corda melindrosa da minha Harpa;

E como em espaço, que até d’ar carece,

Tangida, o extremo som morre sem echo!